terça-feira, 14 de agosto de 2018

Primo Levi: é isto um homem? (excerto da obra)




AS NOSSAS NOITES


Depois de vinte dias de Ka-Be, minha ferida sarou e tive alta com grande pesar.

A cerimônia é simples, mas implica num doloroso e perigoso período de readaptação. Quem não dispõe de protetores, saindo do Ka-Be não volta ao Bloco e ao Kommando anterior, mas é destinado, na base de critérios que desconheço, a outro Bloco qualquer e encaminhado a outro trabalho. Tem mais: do Ka-Be a gente sai nu; recebe nova roupa e novos sapatos (novos! Quero dizer, não os mesmos que se deixou ao entrar), deve-se agir, rápida e atentamente, para adaptá-los à sua pessoa, o que implica trabalho e despesas. Deve-se arranjar novamente faca e colher; por fim, e isto é o mais grave, encontra-se estranho, num meio desconhecido, entre companheiros nunca vistos antes e hostis, com chefes dos quais se descobre o caráter e dos quais, portanto, é difícil cuidar-se.

A capacidade humana de cavar-se uma toca, de criar uma casca, de erguer ao redor de si uma tênue barreira defensiva, ainda que em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e mereceria um estudo profundo. Trata-se de um precioso trabalho de adaptação, parte passivo e inconsciente, parte ativo: cravar um prego no beliche para pendurar os sapatos, à noite; ajustar tácitos acordos de não-agressão com os vizinhos; intuir e aceitar os hábitos e leis peculiares do Kommando e do Bloco. Graças a esse trabalho, depois de umas semanas consegue-se alcançar certo equilíbrio, certo grau de segurança frente aos imprevistos; o ninho está feito, o trauma da mudança foi superado.

O homem que sai do Ka-Be, porém, nu e, em geral, ainda não bem curado, sente-se jogado nas trevas e no gelo do espaço sideral. As calças caem, os sapatos apertam, a camisa não tem botões. Ele procura um contato humano, e todos lhe viram as costas. É inerme, vulnerável como ama criança recém - nascida, mas no dia seguinte deverá marchar rumo ao trabalho.

É nessas condições que eu me encontro, quando o enfermeiro, após os rituais administrativos de praxe, me entrega aos cuidados do Blockaltester, do responsável pelo Bloco 45. De repente, uma lembrança me alvoroça: tive sorte, é o Bloco de Alberto!

Alberto é o meu melhor amigo. Tem apenas vinte e dois anos (dois menos que eu), mas nenhum de nós, italianos, revelou capacidade de adaptação semelhante

à dele. Alberto entrou no Campo de cabeça erguida e vive no Campo ileso, íntegro. Foi o primeiro a compreender que esta vida é uma guerra; não fez concessões a si mesmo, não perdeu tempo com recri-minações ou compadecendo-se de si próprio e dos outros; foi à luta desde o primeiro dia. Ajudam -no sua inteligência e sua intuição; raciocina e acerta; às vezes não raciocina, e acerta também . Percebe tudo num instante; fala apenas um pouco de francês, mas compreende o que lhe dizem alemães e poloneses. Responde em italiano e, com gestos, se faz compreender e se torna simpático a todos. Luta pela vida, mas é amigo de todos. “Sabe” quem subornar, quem evitar, quem poderá mover-se à compaixão, a quem se deve resistir.

Apesar de tudo, ele não mudou, e é por isso que, ainda hoje, a sua cara lembrança continua tão perto de mim . Sempre vi nele, e ainda vejo, o símbolo raro do homem forte e bom, contra o qual nada podem as armas da noite.

Não consegui licença para dormir na cama dele, e nem ele conseguiu, apesar de gozar já de certa popularidade no Bloco 45. É uma lástima, porque ter um companheiro de cama no qual confiar ou, ao menos, com o qual se entender, representa vantagem inestimável; e, além disso, ainda estamos no inverno, as noites são longas, e já que devemos compartilhar suor, cheiro e calor com alguém, debaixo do mesmo cobertor e num espaço de setenta centímetros, ao menos que se trate de um amigo. No inverno, as noites são longas e temos mais tempo para dormir.

Acalma-se, pouco a pouco, a agitação do Bloco; faz mais de hora que acabou a distribuição do rancho noturno, e só alguns obstinados insistem em raspar o fundo, já lustroso, da gamela, revirando-a minuciosamente debaixo da lâmpada, franzindo a testa, atentos. O engenheiro Kardos vai de beliche em beliche, fazendo curativos nos pés feridos e nos calos inflamados; é o seu negócio, não há quem não renuncie de boa vontade a uma fatia de pão, desde que lhe seja aliviado o tormento das chagas encardidas, que sangram a cada passo durante todo o dia. Desse modo, honestamente, o engenheiro Kardos resolveu o problema da vida.

Pela portinhola traseira, às escondidas e olhando cauteloso em volta, entra o cantador. Senta no beliche de Wachsmann, e logo junta-se ao redor dele uma turminha atenta e silenciosa. Ele canta uma interminável rapsódia iídiche, sempre igual, em quadras ritmadas, de uma melancolia resignada e penetrante (ou talvez seja assim que a lembre, só porque a ouvi naquela hora e naquele lugar?). Pelas poucas palavras que compreendo, parece uma canção que ele mesmo compôs sobre a vida do Campo em seus menores detalhes. Alguém, generosamente, gratifica o cantor com uma pitada de fumo ou com uma



agulhada de linha; outros escutam absortos, mas não dão nada.

De repente, ainda retumba o chamado para a última função do dia: — Wer hat kaputt die Schuhe? (Quem tem sapatos rotos?) — e já se desencadeia a barulheira dos quarenta ou cinqüenta aspirantes à troca, que se precipitam rumo ao Tages-raum numa corrida maluca: bem sabem que só os primeiros dez, no melhor dos casos, serão atendidos.

Depois é o sossego. A luz se apaga uma primeira vez, apenas uns segundos, para avisar os alfaiates que guardem o fio e a valiosissima agulha; logo toca o sino ao longe, entra o guarda noturno e todas as luzes se apagam definitivamente. Só nos resta despir-nos e deitar.

Não sei quem é o meu vizinho; nem posso estar seguro de que seja sempre a mesma pessoa, porque nunca lhe vi a cara, a não ser por uns instantes no tumulto da alvorada; muito melhor do que a cara, conheço-lhe o dorso e os pés. Ele não trabalha no meu Kommando e vem para o beliche só na hora de dormir; enrola-se no cobertor, empurra-me de lado com um golpe de seu quadril magro, vira-me as costas e já começa a roncar. Dorso contra dorso, esforço-me por conquistar uma superfície razoável do colchão; com os rins faço pressão progressiva contra os rins dele; logo me viro e procuro empurrar com os joelhos, pego nos seus tornozelos e tento ajeitá-los um pouco mais longe, de modo a não ter seus pés na minha cara; tudo é inútil, porém; ele é bem mais pesado do que eu e no sono parece que virou pedra.

Então dou um jeito para deitar assim, imóvel, com metade do corpo por cima da borda de madeira. Estou tão cansado, porém, tão atordoado, que em breve eu também mergulho no sono, e parece-me dormir em cima dos trilhos.

O trem está por chegar: ouve-se ofegar a locomotiva — e a locomotiva é o meu vizinho. Ainda não estou tão adormecido que não me dê conta da dupla natureza da locomotiva. É essa mesma que, hoje na fábrica, rebocava os vagões que tivemos de descarregar; reconheço-a porque, agora também, como quando passou ao nosso lado, percebo o calor que se irradia de seu negro flanco. Arfa, cada vez mais perto; já vem por cima de mim . . . e nunca chega. O meu sono é leve, leve como um véu; posso rasgá-lo quando quero. Quero, sim, para sair de cima dos trilhos. Pronto: estou acordado. Não bem acordado; só um pouco, entre a insensibilidade e a consciência. Tenho os olhos fechados; não quero abri-los, não, para que o sono não fuja de mim, mas ouço os ruídos: este apito ao longe eu sei que é de verdade, não é da locomotiva do sonho. É o apito do trenzinho da fábrica, que trabalha dia e noite. Uma longa nota firme, logo outra, mais baixa de



um semitom, logo a primeira nota de novo, mas curta, truncada. Esse apito é importante; é, de certo modo, essencial: tantas vezes já o ouvimos, ligado ao sofrimento do trabalho e do Campo, que se tornou seu símbolo, evoca diretamente a idéia do Campo, assim como acontece com certos cheiros, certas músicas.

Aqui está minha irmã, e algum amigo (qual?), e muitas outras pessoas. Todos me escutam, enquanto conto do apito em três notas, da cama dura, do vizinho que gostaria de empurrar para o lado, mas tenho medo de acordá-lo porque é mais forte que eu. Conto também a história da nossa fome, e do controle dos piolhos, e do Kapo que me deu um soco no nariz e logo mandou que me lavasse porque sangrava. É uma felicidade interna, física, inefável, estar em minha casa, entre pessoas amigas, e ter tanta coisa para contar, mas bem me apercebo de que eles não me escutam . Parecem indiferentes; falam entre si de outras coisas, como se eu não estivesse. Minha irmã olha para mim, levanta, vai embora em silêncio.

Nasce então, dentro de mim, uma pena desolada, como certas mágoas da infância que ficam vagamente em nossa memória; uma dor não temperada pelo sentido da realidade ou a intromissão de circunstâncias estranhas, uma dor dessas que fazem chorar as crianças. Melhor, então, que eu tome mais uma vez à tona, que abra bem os olhos; preciso estar certo de que acordei, acordei mesmo.

O sonho está na minha frente, ainda quentinho; eu. embora desperto, continuo, dentro, com essa angústia do sonho; lembro, então, que não é um sonho qualquer; que, desde que vivo aqui, já o sonhei muitas vezes, com pequenas variantes de ambiente e detalhes. Agora estou bem lúcido, recordo também que já contei o meu sonho a Alberto e que ele me confessou que esse é também o sonho dele e o sonho de muitos mais; talvez de todos. Por quê? Por que o sofrimento de cada dia se . traduz, constantemente, em nossos sonhos, na cena sempre repetida da narração que os outros não escutam?

... Enquanto medito assim, procuro aproveitar esse intervalo de lucidez para tirar de cima de mim os farrapos de angústia da modorra anterior e garantir, talvez, a paz do próximo sono. Sento no escuro, olho ao redor, aguço o ouvido.

Os companheiros dormem . Respiram, roncam, alguns se queixam e falam . Muitos estalam os lábios e mexem os maxilares. Sonham que comem; esse também é um sonho de todos, um sonho cruel; quem criou o mito de Tântalo devia conhecê-lo. Não apenas se vê a comida; sente-se na mão, clara, concreta; percebe-se seu cheiro, gordo e penetrante; aproximam -na de nós, até tocar nossos lábios; logo sobrevêm algum fato, cada vez diferente, e o ato se



interrompe. Então o sonho se dissolve, cinde-se em seus elementos, mas recompõe-se logo, recomeça, semelhante e diverso; e isso sem descanso, para cada um de nós, a cada noite enquanto a alvorada não vem .

Devem ter passado as onze da noite, porque já é freqüente o vaivém até o balde, ao lado do guarda. É um obsceno tormento, uma vergonha indelével. A cada duas, três horas, temos que levantar para despejar essa quantidade de água que durante o dia devemos absorver, sob a forma de sopa, a fim de saciar a fome; essa mesma água que à noite nos incha tornozelos e olhos, marcando em todos os rostos uma semelhança disforme, e cuja eliminação impõe aos rins um trabalho extenuante.

Não se trata apenas da procissão até o balde. A lei é que o último a usar o balde vá esvaziá-lo na privada; a lei é, também, que à noite só se possa sair do Bloco de camisa e cerou-las, indicando previamente ao guarda o número de matrícula. Conseqüência: o guarda noturno procura poupar dessa tarefa seus amigos e patrícios e os “proeminentes”; e mais: os mais velhos do Campo já têm sentidos tão aguçados, que, embora ficando em seus beliches, conseguem, milagrosamente, perceber (apenas pelo barulho das paredes do balde) se o líquido chegou ou não ao nível perigoso, e portanto conseguem, em geral, evitar a tarefa. Os candidatos ao serviço de esvaziar o balde são poucos, em cada Bloco, enquanto os litros de líquido a eliminar são, no mínimo, duzentos, de modo que o balde deve ser esvaziado umas vinte vezes.

Em conclusão: o risco é grave para nós, inexperientes e não privilegiados, quando, a cada noite, a necessidade nos impele até o balde. De repente, o guarda pula fora de seu canto, nos agarra, rabisca o nosso número, nos entrega os tamancos e o balde e nos empurra para fora, na neve, tiritantes e sonolentos. Toca-nos arrastar-nos até a latrina, com o balde batendo nas pernas nuas, asquerosamente morno; tão cheio que, a cada sacudida, algo transborda em nossos pés. Por isso, embora a tarefa seja nojenta, ainda é melhor que toque a nós e não ao nosso companheiro de cama.

Assim transcorrem as nossas noites. O sonho de Tântalo e o sonho da narração inserem -se num contexto de imagens mais confusas: o sofrimento do dia, feito de fome, pancadas, frio, cansaço, medo e promiscuidade, transforma-se, à noite, em pesadelos disformes de inaudita violência, como, na vida livre, só acontecem nas noites de febre. Despertamos a cada instante, paralisados pelo terror, num estremecimento de todos os membros, sob a impressão de uma ordem berrada por uma voz furiosa, numa língua incompreensível. A procissão do balde e o barulho dos nossos pés descalços no assoalho transformam -se em outra simbólica



procissão: somos nós, cinzentos e idênticos, pequenos como formigas e altos até as estrelas, comprimidos um contra outro, inumeráveis, por toda a planície até o horizonte; fundidos, às vezes, numa única substância, numa massa angustiante na qual nos sentimos presos e sufocados; ou, às vezes, numa marcha em círculo, sem começo nem fim, numa ofuscante vertigem, numa maré de náusea que nos sobe até a garganta; até que a fome, o frio ou a bexiga cheia encaminhem os nossos sonhos dentro dos esquemas de sempre. Quando o pesadelo mesmo, ou o incômodo nos despertam, tentamos em vão decifrar seus elementos, rechaçá-los um por um fora da nossa percepção atual, para defender nosso sono da sua intromissão, mas, logo que fechamos os olhos, percebemos novamente que o cérebro recomeçou a trabalhar, independente da nossa vontade; zune e martela, sem descanso, constrói fantasmas e signos terríveis, sem parar os traça e os agita numa névoa cinzenta na tela dos sonhos.

Enquanto dura a noite, porém, através desse constante alternar-se de sono, vigília e pesadelos, estão sempre presentes a espera e o terror do instante da alvorada. Graças a essa faculdade misteriosa comum a muitos, podemos, embora sem relógios, prever quase exatamente sua chegada. À hora do toque da alvorada, que muda conforme as estações mas que precede sempre, e muito, a aurora, toca insistentemente o sininho do Campo. Em cada Bloco, o guarda noturno acaba seu trabalho: liga as luzes, levanta-se, espreguiça-se e pronuncia a condenação de cada dia: — Aufstehen! (Levanta) — ou, mais freqüentemente, em polonês: — Wstawac!

Bem poucos são os que ainda dormem quando é pronunciada essa palavra: a. dor desse instante é aguda demais para que, à sua aproximação, não se dissolva o sono mais profundo. O guarda noturno bem sabe disso; nem precisa gritar em voz de comando, fala em voz baixa e calma, será logo ouvido e obedecido.

A palavra estrangeira cai como uma pedra no fundo de cada alma. “Levantar”: a ilusória barreira dos cobertores quentinhos, o tênue invólucro do sono, a evasão, embora tormentosa, da noite, desabam ao redor de nós; estamos irremediavelmente despertos, expostos à ofensa, cruelmente nus e vulneráveis. Vai começar mais um dia igual aos outros, tão longo, que o seu termo é quase inconcebível: quanto frio, quanta fome, quanto cansaço nos separam, ainda, desse termo! Melhor concentrar a atenção e o desejo na forminha de pão cinzento, que é pequena, sim, mas que em breve será nossa e, durante cinco minutos (até que a tivermos devorado), constituirá tudo que a lei deste lugar nos permite possuir. Ao Wstawac recomeça o tumulto. De repente, o dormitório inteiro entra numa atividade frenética; cada um sobe e desce pelo beliche, arruma a cama e ao mesmo tempo trata de pôr a roupa, de modo a não perder de vista nenhum de seus pertences; o ar enche-se de pó, andamos dentro de uma nuvem opaca; os mais rápidos abrem caminho às cotoveladas para chegar ao lavatório e à privada antes que se forme a fila. E já entram em função os garis, que empurram para fora todo mundo, aos gritos e às pancadas. Arrumei a cama, botei a roupa. Desço até o chão, ponho os sapatos. Reabrem -se as chagas dos pés. Mais um dia começa (p. 48 a 54).

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Haruki Murakami: o elefante desaparece (excerto da obra)



        O pequeno monstro verde


Assim que o meu marido saía para o trabalho, eu ficava sozinha em casa, sem nada para fazer. Sentava na cadeira ao lado da janela e, pela fresta da cortina, ficava em silêncio observando o jardim. Não havia motivos para me dedicar àquela contemplação, mas não conseguia pensar em nada melhor. E eu acreditava que, cedo ou tarde, aquilo me ajudaria a achar alguma outra coisa para fazer. Mas, entre as coisas do jardim, meus olhos acabavam parando na faia. Sempre foi a minha árvore favorita. Eu a plantara quando pequena e acompanhei seu crescimento. Era como uma amiga e sempre conversava com ela.

Naquele dia também devíamos estar conversando. Não lembro sobre o quê. Também não sei quanto tempo fiquei sentada ali. Ao contemplar o jardim, o tempo fluía suave e ininterrupto. Devo ter permanecido assim um bom tempo, pois nem percebi a chegada do anoitecer. De repente, escutei um estranho barulho ao longe. Um barulho abafado. No começo, pensei que fosse coisa da minha cabeça, algum tipo de delírio. Ou um presságio sombrio. Prendi a respiração, permaneci quieta e concentrei a minha atenção nele. O barulho se aproximava de mim, gradativo e resoluto. Não tinha ideia do que poderia ser. Mas, uma coisa era certa, a vibração desagradável que aquilo emitia me provocava arrepios.

Enquanto isso, a terra ao redor da raiz da árvore se elevou lentamente, como se um líquido denso estivesse prestes a jorrar. Prendi a respiração. A superfície se abriu em sulcos, e da terra surgiu o que parecia ser um par de garras. Fechei as mãos em punho e não tirei os olhos daquilo. Alguma coisa estava para acontecer. As garras cavavam a terra com força e, quando o buraco por fim se abriu, um pequeno monstro verde despontou lentamente de dentro dele.

O monstro possuía escamas esverdeadas e brilhantes. Ao sair do buraco, chacoalhou o corpo para desgrudar a terra de suas escamas. O nariz era bem longo e, quanto mais perto da ponta, a coloração verde se tornava mais intensa. A ponta era estreita e fina como chicote. Seus olhos, no entanto, eram como os de um ser humano, expressavam sentimentos, o que me deixou assustada.

O monstro veio devagar até o terraço e bateu à porta com a ponta do nariz: tum-tum-tum-tum. Os toques reverberaram pela casa. Para que ele não percebesse a minha presença, andei na ponta dos pés até o quarto dos fundos. Não pude soltar sequer um grito. Não havia nenhuma casa na vizinhança e o meu marido só voltava do trabalho tarde da noite. Não tínhamos uma porta dos fundos pela qual eu pudesse fugir. Na minha casa só havia uma porta, aquela na qual a besta batia. Prendi a respiração e permaneci em silêncio, fingindo não estar em casa. A esperança era que ele desistisse e fosse embora. Mas não foi isso o que aconteceu. A ponta do nariz dele ficou ainda mais fina e, ao posicioná-la na fechadura, mexeu de um lado a outro até conseguir destravar a porta, com certa facilidade. Enfiou o nariz pela fresta e, durante um tempo, permaneceu ali à entrada, como a cabeça de uma cobra a espiar a casa. Se eu soubesse que ele faria isso, teria esperado com uma faca ao lado da porta para cortar a ponta daquele nariz, pensei. As facas da cozinha eram afiadíssimas. Mas o monstro esboçou um sorriso irônico, como se tivesse lido meus pensamentos. Então se pôs a falar, de um jeito estranho, repetindo certas palavras como se ainda as estivesse aprendendo, embora não gaguejasse.

— Saiba que não-não-não adiantaria fazer isso — disse o monstro verde. — Meu nariz é como rabo de lagarto: pode cortar, ele nasce de novo, de novo, sem parar. Cada vez mais forte e mais comprido.

Seria perda de tempo fazer-fazer isso.

E, durante um tempo, seus olhos ficaram revirando de forma muito sinistra, feito piões.

Será que ele lê os pensamentos? Se é capaz de fazer isso, estou muito encrencada. Não gosto da ideia de alguém espionando minha mente. Ainda mais uma criatura bizarra que eu não sei de onde veio, pensei. Sentia o suor frio encharcar o meu corpo. O que ele quer comigo? Será que pretende me comer? Ou talvez me levar para debaixo da terra? Pelo menos não é um monstro tão asqueroso que eu não consiga encarar. As patas cor-de-rosa que despontam das escamas verdes têm garras longas, e são até bonitinhas. Analisando bem, esse monstro não parece hostil, nem parece querer me fazer mal.

— É claro-claro que não — ele assegurou, inclinando levemente a cabeça. Ao chacoalharem, suas escamas produziam um tilintar que lembrava alguém balançando levemente uma mesa com xícaras de café. — Não quero comer você, que ideia, nem quero te fazer mal. Não tenho motivos para isso. — Então tive certeza: ele conseguia mesmo ler os meus pensamentos.

— Estou aqui para pedir sua mão em casamento. Está entendendo? Vim de um lugar muito-muito-muito profundo. Não foi nada fácil. Tive de cavar muita terra. Veja o estado das minhas garras, estão praticamente descoladas. Se a minha intenção fosse ruim-ruim-ruim, eu não me daria todo esse trabalho, não acha? Gosto muito-muito-muito de você, e é por isso que estou aqui. Lá nas profundezas eu vivia pensando em você, tanto que não pude mais aguentar e subi até aqui. Todos tentaram me impedir, mas eu não conseguia mais viver assim. Pense na coragem que precisei ter-ter-ter. Achavam que era muita pretensão um monstro como eu vir até aqui para me declarar.

Acho que eles têm razão, pensei. Vir até aqui me cortejar é, de fato, muita pretensão.

De imediato as feições do monstro assumiram um ar de tristeza. Como que para refletir aquele estado de ânimo, as escamas mudaram para um tom de lilás e o seu corpo encolheu. Cruzei os braços e fiquei observando as mudanças da criatura. As transformações pareciam atreladas aos seus sentimentos. Aquela aparência asquerosa devia mascarar um coração macio e vulnerável, como um marshmallow recém-saído do forno. Se eu estivesse certa, poderia derrotá-lo. Resolvi fazer um teste. Você é mesmo um ser nojento, mentalizei, a voz interior bem resoluta. Você realmente é um ser nojento. De pronto, as escamas mudaram para um lilás ainda mais acentuado. Os olhos começaram a inchar, como se absorvessem as minhas palavras maldosas, e, tal como um figo, saltaram da órbita deixando escorrer copiosamente um líquido vermelho semelhante a lágrimas.

Eu não sentia mais medo daquele monstro. Uma série de imagens extremamente cruéis passou a assaltar a minha mente para atingi-lo. Como a de prendê-lo com arame farpado a uma cadeira grande e robusta para, com uma pinça bem pontuda, arrancar, uma a uma, suas escamas verdes; ou a ideia de aquecer em uma chama a ponta de uma faca bem afiada até ela ficar incandescente, fincando-a então várias vezes, bem fundo, nas carnes gordinhas e macias das panturrilhas dele. Ou me imaginava furando com ferro forjado, sem piedade, aqueles olhos que pareciam figos. Toda vez que essas crueldades me ocorriam, o monstro parecia realmente senti-las na pele e gemia, se contorcendo e agonizando. Derramava lágrimas coloridas e espessas em profusão. Das orelhas saía um gás acinzentado com aroma de rosas. Com os olhos inchados, ele me olhava com um olhar acusatório.

— Por favor, sou uma criatura jovem, pare de pensar coisas tão cruéis. Por favor, pare de pensar-pensar-pensar nisso — ele insistia, desolado. — Eu não sou mau. Não quero fazer nenhuma maldade. Tudo o que sinto por você é amor.
Mas eu não prestava atenção no que ele dizia. Está de brincadeira?, eu o reprimia em minha mente.
Você apareceu de repente no jardim, destrancou a porta da minha casa e foi entrando sem pedir licença. Não o convidei para vir aqui. Tenho o direito de pensar o que eu quiser. E segui fazendo exatamente isso, imaginando as piores torturas. Recorri a diversos tipos de ferramentas para cortar e ferir o corpo do monstro. Imaginei tudo o que foi possível imaginar para um ser vivo padecer e se debater de tanta dor. Monstro, você não conhece as mulheres. Saiba que sou capaz de pensar num leque de maldades contra você muitas e muitas vezes. Depois de um tempo, os contornos da criatura foram se apagando e seu belo nariz verde foi diminuindo até ficar do tamanho de uma minhoca. A besta se contorcia no chão e, por fim, me olhou, tentando dizer alguma coisa. Parecia ser importante, talvez alguma espécie de mensagem ancestral que ele se esquecera de dizer. Mas a sua boca já sucumbia a uma dor dilacerante, sua silhueta ficou turva e ele desapareceu feito névoa. A figura do monstro se diluíra como uma sombra no anoitecer, e só restaram os olhos salientes pairando no ar, em uma expressão de dor e tristeza. Não adianta fazer isso, pensei. Não adianta ficar me olhando desse jeito. Você já não pode falar. Não pode fazer nada. A sua existência está terminantemente acabada. Um tempo depois, os olhos também se dissolveram no vazio e a escuridão da noite preencheu silenciosamente o quarto (p. 87 a 89). 

domingo, 5 de agosto de 2018

Mario Benedetti: correio do tempo (excerto da obra)


Terapia de solidão
  
Meu querido: aqui estou eu, na minha ilha, que não é exatamente uma ilha, já que não está cercada pelo mar e sim pela vegetação, pelas árvores, pelo pampa propriamente dito. Mas é uma ilha no sentido espiritual. Embora também não seja isso, já que estou cercada por distantes presenças e próximas ausências, pela lembrança dos outros e pelo fluxo da minha própria memória. Parece complicado? Pode ser. Você bem sabe que já fazia algum tempo precisava me isolar, ir em busca da solidão perdida (Marcel Proust velho de guerra!). Felizmente você me entendeu, e confesso que essa compreensão aumentou meu amor (e também meu respeito) por você. Estou convencida de que o respeito pela solidão do ser amado é uma das formas menos frequentes porém mais verdadeiras de amor, não acha?

Acho que nossos dez anos de bom casamento estavam mesmo precisando desta afirmação da nossa identidade. É uma dádiva do destino sermos tão diferentes, o que permite que nos descubramos quase que diariamente e que cada um celebre em seu foro íntimo ter encontrado o outro. Essa história de “foro íntimo” sempre me pareceu uma contradição surrada, inadequada e inútil. “Foro” é tão parecido com “fora” (eu sei que vêm de etimologias diferentes) e “íntimo” tão próximo de “intimidade”. Será que, na origem, essa expressão, “foro íntimo”, queria dizer uma intimidade tornada pública, voltada para fora, portanto o oposto do que significa hoje?

Mas retomemos o fio da minha sábia reflexão. Posso ser confusa, mas não idiota. Uma pergunta indiscreta: como você se sente sem mim? Rodeado, como sempre, de trabalho, de amigos leais e desleais, e também de belas e belíssimas mulheres? Dada essa circunstância, eu teria bons motivos para sentir ciúmes. Mas, para meu mal, não sou ciumenta. Mas não se iluda, que posso aprender a ser. Você em compensação não tem motivo nenhum para sentir ciúmes, já que aqui não estou rodeada de homens bonitos, e sim de pinheiros, eucaliptos, rãs canoras, amanheceres e crepúsculos e, eventualmente, de um silêncio noturno tão compacto que às vezes me acorda e até me tira o sono, tão habituados que estamos ao barulho enlouquecedor, próximo ou distante, das cidades. Em algumas dessas insônias ainda conto com a companhia dos grilos, cuja monotonia coral os confirma como precursores do canto gregoriano. Não vai ficar com ciúme dos grilos, não é? Fique sabendo que, de tão pequenos, são invisíveis, portanto nem sei se são bonitos (como grilos, claro). Imagino que também entre eles deve haver padrões de beleza; que há grilos equivalentes a Robert Redford e outros feiosos como Peter Lorre.

A verdade é que, dormindo ou acordada, andei fazendo um balanço de mim mesma. Não vou lhe contar, por enquanto, qual é o saldo. Para fazer isso, só quando estivermos na cama, você nu e eu nua, depois de trepar como Deus manda, olhando nos seus olhos para que esses olhos seus me comuniquem sua resposta ou pelo menos seu comentário. Ainda acho (já lhe disse isso tempos atrás, quando já morávamos juntos, mas não tínhamos cometido o pecado venial de nos casarmos) que nosso melhor diálogo sempre foi o do olhar. As palavras, consciente ou inconscientemente, muitas vezes mentem, mas os olhos nunca deixam de ser sinceros. Nas poucas vezes que tentei mentir para alguém com o olhar, minhas pálpebras se fecharam, baixaram espontaneamente sua cortina protetora, e ficaram assim até que eu e meus olhos recuperamos a obrigação da verdade. Com as palavras tudo é mais complexo, mas, mesmo assim, se as palavras tentam enganar, os olhos costumam desmentir a boca.

Retomando outra vez o fio condutor, te digo que a solidão é como um tônico e também um banho de modéstia. Um tônico porque, com tanto tempo e espaço para refletir, a gente vai detectando o que presta e o que não presta nos meandros da própria alma. E banho de modéstia porque na estrita solidão não há lugar para a lisonja fajuta, nem para os afagos à vaidade, nem sequer (não é o meu caso) para o perdão dos confessionários.

Minha solidão, além disso, está cheia de pássaros. Sempre fui uma analfabeta em ornitologia, por isso nunca consegui nem conseguirei distinguir o canto de uma cotovia do de um sabiá, o monólogo de um melro do de um pintassilgo, e a esta altura da vida não penso em me especializar em ciência passarinheira, por isso resolvi batizá-los por minha conta. Por exemplo: um desses cantores alados é, para mim, Fabricio; outro, Segismundo; outro, Venancio; outro ainda, Rigoberto. E o engraçado é que, quando os chamo pelos nomes da minha nomenclatura particular, eles me respondem com uma tirada de gorjeios.

…Querido: retomo esta carta uma semana depois da tirada de gorjeios. Já estou há mais de um mês na minha ilha verde. Acho que já pensei bastante e além disso comecei a sentir a tua falta de um modo quase doentio. Assim como antes senti uma necessidade imperiosa de me isolar, agora tenho uma saudade atroz das tuas mãos, da tua boca, do teu abraço, do teu corpo, enfim. Espero, companheiro, que esses comoventes apelos não te deixem com o rei no fueiro (um sinônimo de barriga que aprendi ontem), hein?

Chego na segunda-feira. Aviso com tempo suficiente para você desalojar qualquer intrusa e seu corpo de delito da nossa confortável cama de casal. Falo de brincadeira, claro. Ou não. Falo sério. A desalojar, a desalojar, com música do Viglietti. Já vou adiantando que esta temporada de solidão me deixou muito apetitosa. Beijos e mais beijos, da sua NATALIA (p. 60 e 61). 

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Juan Nasio: como trabalha um psicanalista? (excerto da obra)



VII A interpretação


Hoje, vamos continuar o nosso percurso a partir das hipóteses defendidas no meu seminário precedente, a fim de abordar com mais precisão o problema da interpretação psicanalítica. Digamos inicialmente que, entre todas as modalidades de ação do psicanalista, a interpretação é a única intervenção capaz de provocar uma mudança estrutural na vida do analisando e, naturalmente, na vida da própria relação analítica.


O que a interpretação não é

A interpretação, tal como a entendemos, no prolongamento da concepção lacaniana, não se confunde com as intervenções do tipo observações ou precisões que o psicanalista pode dar ao paciente, relativas ao procedimento psicanalítico ou ao quadro analítico. Ela também não se confunde com as chamadas construções ou reconstruções dos aspectos da história do analisando. A interpretação não se confunde com as perguntas que o analista pode fazer ao analisando, visando elucidar o material. A interpretação de que falamos também não se confunde com os confrontos, deduções, conclusões tiradas pelo analista, que mostram ao paciente as sequências repetitivas da sua vida. A interpretação também não se confunde — continuo — com a parada de uma sessão, nem com a pontuação do relato do analisando e, menos ainda, com os jogos homofônicos das palavras, ao contrário do que acreditam muitas pessoas. Com efeito, muitas pessoas pensam que os lacanianos consideram a interpretação como um jogo homofônico de palavras.
A interpretação psicanalítica não se confunde com nenhuma de todas essas intervenções verbais e mesmo não-verbais e, entretanto, ela pode, a rigor, adotar a figura de qualquer uma dessas variantes. Quero dizer que uma interpretação pode ser indiferentemente uma parada da sessão, uma pontuação, uma pergunta, um esclarecimento. Ela pode ser uma palavra, qualquer uma, ela pode ser um gesto do analista, qualquer um, porque o que importa para definir uma interpretação não é a sua forma.


Definição da interpretação

O que define uma interpretação não é a sua apresentação, não é a função instrumental que ela cumpre, não é o sentido que ela veicula. O que define uma interpretação é a sua efetuação. Quero dizer que ela se define pelas condições nas quais ela se produz no analista e os efeitos que ela gera no analisando.

Como ela se gerou e o que ela gera? De que ela é o efeito, e quais são os seus efeitos? Visto sob esse ângulo, o valor semântico, quero dizer, o sentido que ela veicula, o valor expressivo, a figura que ela adota e o valor instrumental, o fim a atingir, a esclarecer, a explicar, todos esses são valores importantes. É verdade, para muitos analistas.
Muitas correntes analíticas atuais se referem à ideia da interpretação, do ponto de vista do sentido, do ponto de vista da forma. Esses valores, a meu ver, são menos importantes que o valor significante da interpretação.


O que quer dizer valor significante? Isso quer dizer muita coisa, mas antes de tudo que a interpretação só importa, em uma análise, como um elemento em uma estrutura, à maneira de uma partícula atômica no seio de um sistema físico, uma partícula destacada de uma conjuntura de geração, que tem uma trajetória, que tem um ponto de impacto e que é capaz de provocar um efeito de mudança radical na consistência de uma rede.

 
A interpretação significante

Vamos retomar a concepção de interpretação enquanto significante. Essa concepção, nós não a escolhemos. Não escolhemos a teoria que nos convém. Se ela nos convém, é porque temos com a teoria um engajamento de ser e não um engajamento de pensamento. A teoria da interpretação, como elemento significante, não só se confirma nas provas da prática cotidiana, não só ela está em nós, mas determina uma certa maneira de trabalhar com nossos pacientes e uma certa maneira de interpretar o que acontece com eles.
Vamos ver isso com um breve exemplo clínico que vou relatar daqui a pouco, e nessa perspectiva gostaria de considerar três aspectos essenciais da interpretação, três particularidades da interpretação significante. Como uma interpretação é gerada no analista? Por meio de que mecanismo ela opera? O que ela gera no analisando?
São esses os três temas, os três capítulos que vamos abordar na segunda parte, pois antes gostaria de propor um exemplo clínico precedido de algumas observações.
Não definimos a interpretação pelo seu conteúdo. Não a definimos pela sua apresentação nem por sua função, mas não é menos verdade que a interpretação, como elemento significante, reveste certos traços bem visíveis, que lhe são característicos. Esses traços são, antes, bons indicadores descritivos, que deixam presumir que tal intervenção do analista tem todas as possibilidades — mas nem assim é certo — de ser uma interpretação. São indicadores referentes ao aparecimento da interpretação no analista e ao momento de recepção pelo analisando.
Logo, há dois tipos de traços: os que marcam o aparecimento da interpretação no analista e os que marcam a acolhida, a recepção pelo analisando. Utilizo a palavra “indicador” para não induzir o mal-entendido de pensar que esses traços definem a interpretação. Eles não a definem, repito; eles apenas a caracterizam. Para definir uma interpretação — insisto mais uma vez — temos apenas um único critério claro, o de verificar, de saber como ela foi produzida e que efeito ela acarretou.


Características de uma fala interpretativa


Vejamos os indicadores do aparecimento da interpretação no analista. Quando se dirá que uma palavra, uma fala ou uma intervenção do analista tem uma ressonância de interpretação?
Primeiro, são enunciados curtos, nunca longos, sempre curtos com muito poucas palavras: cinco, seis, dez palavras no máximo. São enunciados bem delimitados. São frases quase inteiras, concretas, que não comportam termos abstratos. Mas, mesmo sendo muito concretos em sua forma, esses enunciados interpretativos comportam entretanto uma ambiguidade que suscita equívoco no analisando. Esses enunciados são desencadeados, na maioria das vezes, no analista, e são provocados por um significante visível nas manifestações do paciente e outras vezes, muito mais raras — é o caso do meu próximo exemplo — esses enunciados que chamamos de interpretação são pronunciados pelo analista sem conexão aparente com o material do analisando. Às vezes, podem ser provocados pelo que chamo de uma micro-hipótese, isto é, o analista tem uma ou duas hipóteses de bolso, uma micro-hipótese que ele trabalhou na supervisão, que ele próprio trabalhou em relação ao paciente e, munido dessas hipóteses, ele está como que em estado de alerta, de sensibilidade. Voltaremos a esse ponto.

Vamos continuar a caracterizar esses enunciados. Em geral, eles não comportam pronome pessoal, isto é, não se diz “eu”. Entre os presentes talvez haja alguns que, como eu, conheceram em certa época as experiências dos analistas kleinianos. Eles utilizam muito o “eu”, por exemplo para enunciar a interpretação: “Eu penso”, “eu indico”, “eu digo” etc... A interpretação de que falo não tem “Eu”; é impessoal.

Esses enunciados não são precedidos por nenhuma intenção calculada, da parte do analista, de provocar uma reação particular no paciente. Pelo contrário, são palavras ditas sem que o analista saiba. Em um momento dado, eu dei esta fórmula: “Quando o analista interpreta, não sabe o que diz.” E acrescentei: “Ele pode não saber o que diz, com a condição de que saiba o que faz.” São pois palavras que irrompem subitamente no analista, que este pronuncia sem saber. Ele é ultrapassado pelo seu enunciado e entretanto são palavras esperadas, esperadas no contexto da sequência, da sessão, no momento em que o analista fala e, principalmente, esperadas pelo próprio analisando. Isso significa que o analisando já sabe, inconscientemente, o que o analista vai lhe interpretar. Quero dizer que essas palavras são esperadas, que elas operam onde são esperadas, no momento em que são esperadas e porque são esperadas. Esperadas por quem? Pelo analisando. Na verdade, eu deveria dizer: essas palavras pronunciadas pelo analista são esperadas por uma outra palavra recalcada no analisando.
Se quiséssemos resumir essas características em termos lacanianos, diríamos simplesmente: a interpretação é uma palavra de ordem de um dito pelo grande Outro, esperada pelo grande Outro, sendo o analista apenas o porta-voz, o veículo, o embaixador. Ela deixa o grande Outro, passa pelo canal do analista e se dirige para o grande Outro. São portanto palavras esperadas.

Svetlana Aleksiévitch - vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear (excerto da obra)




Uma solitária voz humana


     Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do quê?
Estávamos casados havia pouco tempo. Ainda andávamos na rua de mãos dadas, mesmo quando entrávamos nas lojas. Sempre juntos. Eu dizia a ele “eu te amo”. Mas ainda não sabia o quanto o amava. Nem imaginava… Vivíamos numa residência da unidade dos bombeiros, onde ele servia. No segundo andar. Ali viviam também três famílias jovens, e a cozinha era comunal. Embaixo, no primeiro andar, guardavam os carros, os carros vermelhos do corpo de bombeiros. Esse era o trabalho dele. Eu sempre sabia onde ele estava e o que se passava com ele. No meio da noite, ouvi um barulho. Gritos. Olhei pela janela. Ele me viu: “Feche a persiana e vá se deitar. Há um incêndio na central. Volto logo”.

A explosão, propriamente, eu não vi. Apenas as chamas, que iluminavam tudo… O céu inteiro… Chamas altíssimas. Fuligem. Um calor terrível. E ele não voltava. A fuligem se devia à ardência do betume, o teto da central estava coberto de asfalto. As pessoas andavam sobre o teto como se fosse resina, como depois ele me contou. Os colegas sufocavam as chamas, enquanto ele rastejava. Subia até o reator. Arrastavam o grafite ardente com os pés… Foram para lá sem roupa de lona, com a camisa que estavam usando. Não os preveniram, o aviso era de um incêndio comum…

Quatro horas… Cinco horas… Seis… Nós tínhamos combinado de ir às seis horas à casa dos pais dele, para plantar batatas. Da cidade de Prípiat até a aldeia Sperijie, onde viviam, são quarenta quilômetros. Nós íamos lá semear, arar… Era o trabalho favorito do meu marido… A mãe dele sempre se lembra de que ela e o pai não queriam deixá-lo ir para a cidade, chegaram a construir uma casa nova. Mas ele foi convocado pelo Exército. Serviu em Moscou nas tropas dos bombeiros e quando voltou só queria ser bombeiro. Nada mais. (Silêncio.)

Às vezes parece que escuto a voz dele… Que está vivo… Nem as fotografias me tocam tanto quanto a voz dele. Mas ele nunca me chama. Nem em sonhos… Sou eu que o chamo…

Sete horas… Às sete horas me avisaram que ele estava no hospital. Corri até lá, mas havia um cordão de policiais em torno do prédio, ninguém passava. As ambulâncias chegavam e partiam. Os policiais gritavam: “Os carros estão com radiação, não se aproximem”. Eu não era a única, todas as mulheres cujos maridos estavam na central naquela noite vieram correndo, todas. Quando vi saltar de um carro uma conhecida que trabalhava como médica no hospital, corri e a segurei pelo jaleco:

“Me deixe entrar!”

“Não posso! Ele está mal. Todos estão mal.”

Agarrei-a com força:

“Só quero ver o meu marido.”

“Está bem”, ela disse. “Vamos correr. Mas só por quinze, vinte minutos.”

Eu o vi… Estava todo inchado, inflamado… Os olhos quase não apareciam…

“Ele precisa de leite. Muito leite!”, ela me disse. “Eles devem beber ao menos três litros.”

“Mas ele não bebe leite.”

“Agora vai ter de beber.”

Muitos médicos, enfermeiras e, sobretudo, as auxiliares daquele hospital, depois de algum tempo, começaram a adoecer. Mais tarde morreriam. Mas na época ninguém sabia disso…

Às dez horas da manhã morreu o técnico Chichenok… Foi o primeiro… No primeiro dia… Logo soubemos de outro que tinha ficado debaixo dos escombros, Valera Khodemtchuk. Não conseguiram retirá-lo, foi emparedado no concreto. Mas ainda não sabíamos que estes seriam apenas os primeiros.

Perguntei:

“Vássienka, o que é que eu faço?”

“Vá embora daqui! Vá embora! Você vai ter um filho.” Eu estava grávida. Mas como deixá-lo? Ele suplicava: “Vá embora! Salve a criança!”

“Primeiro eu vou te trazer leite, depois decidimos.”

Então, a minha amiga Tânia Kibénok chegou… O marido também estava nessa mesma enfermaria. Ela veio com o pai de carro e partimos juntas para a aldeia mais próxima, que ficava a uns três quilômetros da cidade. Compramos várias garrafas de três litros de leite. Umas seis garrafas, que dessem para todo mundo… Mas o leite provocou vômitos terríveis, eles perdiam os sentidos, e por isso os puseram no soro. Os médicos, por algum motivo, nos afirmavam que eles tinham se envenenado com gases, ninguém falava em radiação.

No entanto, a cidade ficou lotada de veículos militares, todas as estradas foram fechadas. Havia soldados por toda parte. Os trens regionais e expressos pararam de circular. As ruas eram lavadas com uma espécie de pó branco… Fiquei assustada: como iria, no dia seguinte, à aldeia comprar leite fresco? Ninguém falava em radiação, só os militares circulavam com máscaras respiratórias… As pessoas compravam os seus pães, saquinhos com doces e pastéis nos balcões… A vida cotidiana prosseguia. Só que… as ruas eram lavadas com uma espécie de pó…

À  noite, já não me deixaram entrar no hospital. Havia um mar de gente ao redor… Fiquei em pé debaixo da janela da enfermaria; ele se aproximou e gritou alguma coisa para mim. Parecia desesperado! Alguém na multidão entendeu o que ele disse: seriam levados àquela noite para Moscou. Todas nós, esposas, nos juntamos. Decidimos: vamos com eles. “Que nos deixem ir com os nossos maridos! Vocês não têm direito!” Lutamos, nos atracamos com os soldados, que já haviam formado um cordão duplo e nos empurravam. Foi então que um médico surgiu e confirmou que os doentes seriam levados de avião para Moscou, e que era preciso roupas para eles, pois as usadas na central haviam sido queimadas. Os ônibus já não circulavam, então atravessamos a cidade correndo. Quando finalmente voltamos com as sacolas, o avião já tinha partido. Fomos enganadas de propósito. Para evitar que gritássemos, que chorássemos…

Noite… De um lado da rua havia muitos ônibus, centenas de ônibus (já preparavam a cidade para a evacuação), e do outro centenas de carros de bombeiro, que haviam sido trazidos de toda parte. A rua inteira estava coberta por uma espuma branca, e nós caminhávamos por ela… Gritando e praguejando…
Pelo rádio, éramos advertidos da necessidade de evacuar a cidade dentro de três a cinco dias, que levássemos conosco agasalhos e roupas esportivas, que iríamos viver nos bosques. Em barracas. As pessoas chegaram a se alegrar: “Vamos à natureza! Vamos comemorar o feriado de Primeiro de Maio”. Algo incomum. Prepararam carne assada, compraram vinho. Levaram violões, toca-fitas. Adoráveis festas de maio. Só as mulheres que tiveram os maridos vitimados choravam.

Não me recordo da viagem… Só despertei quando vi a mãe dele: “Mamãe, Vássia está em Moscou! Foi levado num voo especial!”.
Terminamos de semear a horta: batatas, repolho (e daí a uma semana a aldeia seria evacuada!). Quem poderia saber? Quem poderia então saber? À noite, tive um ataque de vômito. Estava no sexto mês de gravidez, me sentia tão mal… Durante a madrugada, sonhei que ele me chamava, ainda estava vivo, me chamava em sonho: “Liúcia! Liúcienka!”. Mas depois que morreu, não me chamou nem uma vez. Nem uma vez… (Chora.) Levantei cedo com a ideia de ir sozinha a Moscou… “Aonde você vai desse jeito?”, chorava a mãe dele. Encontramos seu pai no caminho: “Deixe que eu a acompanhe”. E tirou de uma caderneta o dinheiro que possuía. Todo o dinheiro.

Não me recordo da viagem, nem lembro qual foi o caminho que fizemos… Em Moscou, perguntamos ao primeiro policial que encontramos para que hospital tinham sido transferidos os bombeiros de Tchernóbil, e ele nos respondeu; eu até me surpreendi, porque nos haviam assustado: seria um segredo de Estado, totalmente secreto.

“Para a clínica número 6, na Schúkinskaia.”

Nesse hospital, que era uma clínica especial de radiologia, era proibido entrar sem autorização. Ofereci dinheiro ao vigia, que me disse: “Entre”. Disse também a qual andar eu deveria me dirigir. Não sei a quem mais tive de suplicar, implorar… mas, por fim, cheguei ao gabinete da chefe de seção de radiologia, Anguelina Vassílievna Guskova. Até então eu ainda não sabia como ela se chamava, não conseguia pensar em nada. A única coisa que eu sabia é que tinha de ver, encontrar o meu marido…

Ela imediatamente me perguntou: “Querida! Pobrezinha… Você tem filhos?”. Como dizer a verdade? Estava claro que eu devia esconder a minha gravidez, ou não me deixariam vê-lo! Ainda bem que eu era muito magra e não se notava

nada.

“Tenho”, respondi.

“Quantos?”

Eu pensei: “É melhor dizer dois. Se disser um, talvez não passe”.

“Um menino e uma menina.”

“Se são dois, então, creio que não terá mais. Agora escute: o sistema nervoso central foi completamente atingido, a medula está totalmente afetada.”
“Bem”, pensei, “ele deve estar mais nervoso.”

“Mais uma coisa: se você chorar, eu a retiro de lá imediatamente. É proibido abraçar e beijar. Não se aproxime muito. Você tem meia hora.”

Mas eu sabia que não iria embora dali. Só iria com ele. Eu havia jurado a mim mesma!

Entrei… Os rapazes estavam sentados na cama, jogando cartas e rindo.

“Vássia!”, gritei.

“Ô, meu pai, estou perdido! Até aqui ela me encontra!”

Ele estava engraçado, vestia um pijama número 48, quando o seu número era 52. As mangas e as calças estavam curtas. O inchaço do rosto havia regredido, e estavam lhe injetando alguma solução.
“Por que perdido?”, perguntei. Ele quis me abraçar.
“Fique aí sentado”, disse o médico, impedindo que se aproximasse de mim.


“Nada de abraços aqui.”

Não sei por quê, mas tomamos isso como brincadeira. E nesse momento todos se aproximaram de nós, vieram também de outros quartos. Eram todos nossa gente. De Prípiat. Ao todo, 28 pessoas foram trazidas de avião. “O que está acontecendo por lá? Como estão as coisas na nossa cidade?” Eu respondi que ela estava começando a ser evacuada, que tinham levado as pessoas para fora da cidade por três ou cinco dias. Os rapazes ficaram em silêncio; havia duas mulheres, uma delas estava de guarda no dia do acidente e chorou:

“Meu Deus! Os meus filhos estão lá. O que será deles?”

Eu queria ficar a sós com o meu marido, nem que fosse por uns minutinhos. Os rapazes perceberam isso, arrumaram pretextos e saíram para o corredor. Eu então o abracei e beijei. Ele se afastou:

“Não fique perto de mim. Pegue uma cadeira.”

“Tudo isso é bobagem”, respondi, dando de ombros. “Você viu o local da explosão? O que aconteceu? Vocês foram os primeiros a chegar lá…

“É claro que foi sabotagem. Alguém fez de propósito. Todos os rapazes são dessa opinião.”

Então era isso que diziam. E acreditavam.

No dia seguinte, quando cheguei, eles estavam alojados cada um num quarto, separados. Tinham proibido categoricamente que saíssem até o corredor. E que falassem entre si. Mas eles se comunicavam por batidas na parede: ponto-traço, ponto-traço… Ponto… Os médicos justificaram a separação dizendo que cada organismo reage de maneira diferente às doses de radiação: o que um suporta, outro pode não suportar. No quarto em que eles estavam antes, até as paredes reagiam ao contador Geiger. À direita, à esquerda, e no andar de baixo… Todos foram tirados dali. Esvaziaram os espaços abaixo e acima deles…

Passei três dias na casa de conhecidos em Moscou. Eles me diziam: pegue panelas, tigelas, tudo de que precisar, não se acanhe. Assim é que eram essas pessoas… Assim é que eram! Eu fazia sopa de peru para seis pessoas. Seis dos nossos rapazes… Os bombeiros… Do mesmo turno… Todos eles estavam de plantão naquela noite: Vaschúk, Kibénok, Titiónok, Pravík, Tischúra. Comprei escovas, pasta de dentes e sabonetes para todos. Não havia nada disso no hospital. Comprei toalhas pequenas… Hoje fico impressionada com aqueles amigos que aceitaram me receber; eles, evidentemente, temiam o contágio, não podia ser diferente, já corria todo tipo de rumores, mas, apesar disso, estavam dispostos a me ajudar: “Pegue tudo o que for necessário. Pegue! Como ele está? Como estão todos? Eles vão viver?”. Viver… (Silêncio.)

Naqueles dias encontrei muitas pessoas solidárias, não me lembro de todas. E o meu mundo se reduziu a um único ponto… Ele… Apenas ele… Eu me lembro de uma enfermeira auxiliar mais velha que começou a me preparar: “Algumas enfermidades não se curam. Você deve sentar ao lado dele e acariciar a sua mão”.


De manhã cedo eu ia ao mercado e voltava para preparar a sopa dos rapazes. Tinha de limpar as carnes e os legumes, esfarelar e repartir em porções. Um deles me pediu: “Traga uma maçã”. Seis jarras com meio litro de sopa… Sempre seis! No hospital, eu ficava até o anoitecer. E à noite, voltava para o outro lado da cidade. Por quanto tempo eu resistiria? Mas depois de três dias me ofereceram ficar no hotel destinado ao pessoal do hospital, na área do próprio hospital. Deus, que felicidade!
“Mas lá não tem cozinha. Como posso preparar as refeições deles?”

“Você não precisa preparar mais nada. O estômago deles parou de absorver alimentos.”

O meu marido começou a mudar; cada dia eu via nele uma pessoa diferente… As queimaduras saíam para fora… Na boca, na língua, nas maçãs do rosto; de início eram pequenas chagas, depois iam crescendo. As mucosas caíam em camadas, como películas brancas. A cor do rosto, a cor do corpo… Azulada… Avermelhada… Cinza-escuro… E, no entanto, tudo nele era tão meu, tão querido! É impossível contar! Impossível escrever! E mesmo sobreviver… O que salvava era que tudo acontecia de maneira instantânea, de forma que não dava tempo de pensar, não dava tempo de chorar.

Eu o amava! Eu ainda não sabia como o amava! Tínhamos nos casado havia tão pouco tempo… Ainda não tínhamos tido tempo de nos saciar um do outro… Andávamos na rua, ele me tomava nos braços e me girava. E me beijava, beijava. As pessoas passavam por nós e sorriam.

O processo clínico de uma doença aguda do tipo radiativo dura catorze dias. o

No primeiro dia que passei no hotel, os dosimetristas já mediram os meus níveis. A roupa, a bolsa, o porta-moedas, os sapatos, tudo “ardia”. Levaram tudo. Até a roupa de baixo. Só não tocaram no dinheiro. Em troca, deixaram uma bata de hospital tamanho 56, apesar de eu vestir 44; e sapatos 43, em vez dos meus 37. Disseram que talvez pudessem devolver a roupa, talvez não, porque dificilmente se poderia “limpar”. Foi desse jeito que eu apareci para ele. Ele se assustou:
“Minha nossa, o que houve com você?”

Apesar de tudo, eu dava um jeito de preparar a sopa. Punha uma jarra de vidro no aparelho de ferver água e jogava ali pedacinhos de frango, bem pequenininhos. Depois alguém me emprestou uma panela, acho que foi a faxineira ou a auxiliar. Alguém conseguiu uma tábua de cortar verduras. Eu não podia ir ao mercado com a roupa do hospital, mas alguém sempre me trazia verduras. Era tudo em vão, ele já não conseguia beber, nem mesmo engolir um ovo cru. E eu que estava sempre tentando conseguir alguma coisa apetitosa! Achava que isso poderia ajudar.

Um dia, fui até o correio:

“Moça, eu preciso ligar com urgência para os meus pais em Ivano-Frankovsk. O meu marido está morrendo.”


Por alguma razão, adivinharam do que se tratava e imediatamente fizeram a ligação. O meu pai, a minha irmã e o meu irmão voaram para Moscou no mesmo dia. Trouxeram as minhas coisas e dinheiro.
Isso foi no dia 9 de maio… Ele sempre me dizia: “Você não imagina como Moscou é bonita! Principalmente no Dia da Vitória, com os fogos de artifício. Quero que você veja”.

Sentei perto dele, que abriu os olhos:

“É dia ou noite?”

“Nove da noite.”

“Abra a janela! Os fogos vão começar!”

Eu abri a janela. Estávamos no oitavo andar, toda a cidade ali diante de nós! Um buquê de luzes subiu ao céu.

“Olhe, então é isso!”

“Eu prometi que iria te trazer a Moscou. Prometi que nos dias de festa te daria flores, por toda a vida…”

Olhei para ele e vi que puxava de debaixo do travesseiro três cravinhos. Tinha dado dinheiro à enfermeira para comprá-los…

Aproximei-me dele e o beijei:

“Meu amor! Minha vida!”

Ele protestou:

“O que foi que o médico disse? Você não pode me abraçar! Não pode me beijar!”

Fui proibida de abraçar, de acariciar o meu marido… Mas eu… Era eu que o apoiava e o sentava na cama. Era eu que trocava os lençóis, tirava a temperatura, levava e trazia a comadre… Eu que o limpava… Passava todas as noites ao lado dele. Vigiava cada um dos seus movimentos, dos seus suspiros. Apesar de eu estar no corredor e não no quarto… Um dia, senti a minha cabeça girar e me agarrei ao peitoril da janela. Nesse momento um médico passou e me segurou pela mão. Perguntou-me de supetão:

“Você está grávida?”

“Não, não!”

Tinha tanto medo que nos tivessem ouvido.

“Não minta”, suspirou ele.

Senti-me tão perdida que nem me ocorreu contestar.

No dia seguinte, fui chamada pela médica-chefe:

“Por que você me enganou?”, perguntou, em tom severo.

“Eu não tinha saída. Se dissesse a verdade, me mandariam para casa. Foi uma mentira piedosa!”

“Você não vê o que fez?”

“Sim. Mas estou com ele…”

“Pobrezinha! Pobrezinha…”


Serei grata por toda a vida a Anguelina Vassílievna Guskova. Toda a vida! Outras esposas também vieram, mas não permitiram que elas entrassem.
Apenas as mães deles estavam comigo, às mães a entrada era permitida. A mãe de Volódia Pravík não parava de rogar a Deus: “Leve a mim, Senhor!”.
O professor norte-americano dr. Gale — o médico que lhe fez a operação de transplante de medula — procurava me consolar: existe uma esperança; pequena, mas existe. Um organismo tão vigoroso, um rapaz tão forte! Chamaram a família do meu marido. Duas irmãs vieram da Belarús e um irmão veio de Leningrado, onde cumpria serviço militar. A pequena Natacha de catorze anos chorava muito, estava assustada. Mas a medula dela era a melhor de todas. (Silêncio.) Agora posso falar sobre isso… Antes não podia. Eu me calei por dez anos… Dez anos… (Silêncio.)

Quando ele soube que a medula seria doada pela irmãzinha mais nova, recusou com veemência:

“Prefiro morrer. Não toquem em Natacha, ela é pequena.”

A irmã mais velha, Liúda, tinha 28 anos, era enfermeira e sabia do que se tratava. “Que se faça o necessário para ele viver”, disse ela. Eu assisti à operação. Os dois estavam deitados lado a lado em duas mesas… Havia uma grande janela no centro cirúrgico. A operação durou duas horas… Quando terminou, Liúda estava pior que ele, tinha no peito dezoito injeções, saiu com dificuldade da anestesia. Ainda hoje continua doente, aposentaram-na por invalidez… Era uma moça bonita e forte. Não se casou…

Eu corria de um quarto a outro, para ajudar os dois. Ele já não estava no mesmo quarto, mas numa câmara hiperbárica especial, atrás de uma cortina transparente, onde era proibido entrar. Havia uns instrumentos especiais para, sem atravessar a cortina, aplicar as injeções e pôr os cateteres. Tudo era feito com ventosas e tenazes que eu aprendi a manipular. Tirar de um ponto e levar até ele… Perto da sua cama havia uma cadeirinha.

Ele estava tão mal que eu não ousava sair dali nem por um minuto. Chamava o meu nome constantemente: “Liúcia, onde você está? Liúcienka!”. Chamava, chamava sem parar.…

As outras câmaras hiperbáricas em que os nossos rapazes estavam eram cuidadas por alguns soldados, porque os auxiliares civis se recusaram a fazê-lo, exigiam roupas isolantes. Os soldados transportavam as comadres. Limpavam o chão, trocavam os lençóis, faziam toda a faxina. De onde surgiram aqueles soldados? Não perguntei. Para mim só havia ele. Ele… E todo dia eu ouvia: “morreu, morreu…”. “Morreu Tischúra.” “Morreu Titiónok.” “Morreu…” Isso me martelava a cabeça.

Ele evacuava 25, trinta vezes por dia. Com sangue e mucosidade. A sua pele começava a rachar nas mãos e nos pés. O corpo ficou coberto de furúnculos. Quando ele virava a cabeça, caíam chumaços de cabelo sobre o travesseiro. E tudo isso era tão meu. Tão querido… Eu tentava gracejar:

“É mais cômodo. Assim, você não precisa mais de pente.”

Logo cortaram os cabelos de todos. Eu mesma cortei o dele. Eu sempre queria fazer tudo por conta própria. Se eu aguentasse fisicamente, ficaria 24 horas ao lado dele. Eu lamentava perder qualquer minuto que fosse… qualquer tempinho, me doía perder… (Cobre o rosto com as mãos e silencia.)

O meu irmão veio e se assustou:

“Não vou te deixar voltar mais lá!”

E o meu pai disse a ele:

“Essa aí, você não vai deixar? Ela é capaz de se esgueirar pela janela! Pela escada de incêndio!”

Um dia me ausentei. Ao voltar, vejo sobre a mesa uma laranja grande. Não amarela, mas rosada. Ele sorri:

“Ganhei de presente. Pegue para você.”

A enfermeira me faz um sinal através da cortina para não comer. Uma vez que ficou algum tempo ao seu lado, não é que não se possa comer, é que até tocar é uma temeridade.

“Venha comer”, pede ele. “Você adora laranja.”

Eu peguei a laranja. Nesse momento, ele fechou os olhos e adormeceu. Tomava constantes injeções para dormir. Narcóticos. A enfermeira me olhava horrorizada… E eu? Eu estava decidida a fazer de tudo para que ele não pensasse na morte. Nem no que havia de terrível na sua doença, nem que eu sentia medo dele.

Há um fragmento de uma conversa… Agora me veio à lembrança. Alguém tentava me convencer:

“Você não deve se esquecer de que isso que está na sua frente não é mais o seu marido, a pessoa que você ama, mas um elemento radiativo com alto poder de contaminação. Não seja suicida. Recobre a sensatez.”

Mas eu estava como louca:

“Eu te amo! Eu te amo!”

Enquanto ele dormia, eu sussurrava: “Eu te amo!”. Caminhava no pátio do hospital: “Eu te amo!”. Levava a comadre: “Eu te amo!”. Ficava me lembrando de como vivíamos antes, da nossa casa… Ele só dormia segurando a minha mão. Tinha esse hábito, pegar no sono segurando a minha mão. A noite toda.

E no hospital, era eu que segurava a mão dele e não largava.

Certa noite, tudo estava silencioso. Estávamos sós. Ele olhava para mim longamente e de repente disse:

“Como eu queria ver o nosso filho. Como será que ele vai ser?”

“E como vamos chamá-lo?”

“Bem, é você que vai decidir.”

“Por que eu, se nós somos dois?”

“Então, se for menino, pode ser Vássia, e se for menina, Natachka.”


“Por que Vássia? Eu já tenho um Vássia. Você! Não preciso de outro.”

Eu ainda não sabia como o amava! Ele… Só ele… Estava cega! Eu nem sentia os golpezinhos embaixo do coração, embora já estivesse no sexto mês de gravidez. Eu pensava que a pequena dentro de mim estaria protegida, a minha filhinha. A minha pequena…

Nenhum médico sabia que à noite eu dormia com ele na câmara hiperbárica, nem lhes passava pela cabeça. As enfermeiras consentiam. No início queriam me convencer:

“Você é jovem. O que está inventando? Isso já não é um homem, é um reator nuclear. Vão queimar os dois.”

Mas eu corria atrás delas como um cachorrinho. Ficava uma hora de pé na frente da porta. Pedia, implorava. E finalmente elas me diziam: “Ao diabo! Você não é normal”.

Pela manhã, antes das oito, quando a ronda médica começava, elas me faziam sinais através da cortina: “Corra!”. E eu corria para o hotel. E das nove da manhã às nove da noite eu tinha salvo-conduto. As minhas pernas ficaram azuladas até o joelho, inchadas de cansaço. A minha alma era mais forte que o meu corpo. O meu amor…

Enquanto eu estava com ele, não faziam isso… Mas quando eu saía, eles o fotografavam. Sem roupa. Pelado. Apenas um lençol fino o cobria. Eu trocava o lençol todos os dias, mas à noite já estava todo ensanguentado. Quando eu o levantava, pedaços de pele grudavam nas minhas mãos. Eu suplicava: “Querido! Ajude-me! Apoie-se no braço, no cotovelo, o quanto puder, para que eu possa arrumar o lençol, puxar a costura, as pregas”. Qualquer costura feria a sua pele. Cortei as minhas unhas até sangrar, para não machucá-lo. Nenhuma das enfermeiras tinha coragem de se aproximar dele, de tocá-lo. Se era preciso fazer algo, elas me chamavam. E eles… Eles fotografavam… Para a ciência, diziam. Queria poder expulsá-los todos de lá! Queria poder gritar! Como se atreviam! Se eu pudesse, não deixaria que entrassem. Se eu pudesse…

Fui do quarto até o corredor me apoiando nas paredes. Tateei até uma poltrona, porque não enxergava nada. Parei em frente à enfermeira auxiliar e disse:

“Ele está morrendo.”

Ela respondeu:

“E o que você esperava? Ele recebeu 1600 roentgen, quando a dose mortal é de quatrocentos roentgen.”

Ela também sentia pena, mas de outra maneira. Para mim, ele era tudo o que eu tinha, o que eu mais amava.

Depois que todos morreram, o hospital foi reformado. Rasparam as paredes, arrancaram o assoalho, tudo que fosse de madeira.

Por fim, a última coisa. Lembro disso em fragmentos, tudo se desvanece… À noite, sentei-me na cadeira ao lado dele. Às oito da manhã, falei:


“Vássienka, vou sair um instante. Vou descansar um pouquinho.”

Ele abriu e fechou os olhos, e então me soltou. Assim que cheguei ao hotel, ao meu quarto, deitei no chão, era impossível deitar na cama, o meu corpo todo doía, mas logo uma enfermeira auxiliar bateu à porta:

“Vá! Corra! Ele está te chamando feito um louco!”

Mas nessa manhã, Tânia Kibénok havia me suplicado: “Venha comigo ao cemitério. Sem você, eu não vou conseguir”. Naquela manhã estavam enterrando o marido dela, Vítia Kibénok, e também Volódia Pravík. Nós éramos muito amigos do casal, vivíamos como uma família. Um dia antes da explosão, nos fotografamos todos juntos na residência dos bombeiros, onde morávamos. Como eles estavam bonitos, os nossos maridos! E alegres! O último dia daquela nossa vida, antes de Tchernóbil… Como éramos felizes!

Ao voltar do cemitério, chamei logo a enfermeira:

“Como ele está?”

“Morreu há quinze minutos.”

Como? Eu estive com ele a noite toda. Só me afastei por três horas! Apoiei-me à janela e gritei:

“Por quê? Por quê?”

Olhei para o céu e gritei. Todos no hotel ouviram… Tinham medo de se aproximar de mim. Então, me recompus e pensei: “É a última vez que o verei! Vou vê-lo!”. Desci a escada, tropeçando… Ele ainda estava na câmara hiperbárica, não o haviam levado. As últimas palavras dele foram: “Liúcia! Liúcienka!”.

“Acaba de partir. Agora mesmo”, tentou me acalmar a enfermeira.

Ele suspirou e silenciou.

Eu não me afastei mais dele. Fui com ele até o túmulo, embora me recorde não do ataúde, mas de um saco de polietileno. Esse saco… No necrotério, perguntaram: “Quer que lhe mostremos como vamos vesti-lo?”. “Quero!” Vestiram-lhe um traje de gala e puseram o seu quepe sobre o peito. Não calçaram sapatos, pois os pés estavam inchados. Eram bombas em vez de pés. O traje de gala também foi cortado, não era possível esticá-lo, o corpo estava se desfazendo. Todo ele era uma chaga sanguinolenta.

No hospital, nos últimos dias, eu levantava a mão dele e os ossos se moviam, dançavam, se separavam da carne. Saíam pela boca pedacinhos do pulmão, do fígado. Ele se asfixiava com as próprias vísceras. Eu envolvia a minha mão com gaze e a enfiava na boca dele para retirar tudo aquilo… É impossível contar isso! É impossível escrever sobre isso! E sobreviver… E tudo isso era tão querido… Tão meu… Nenhum número de sapato serviria… Puseram-no descalço no ataúde.

Sob os meus olhos, vestido de gala, meteram-no dentro de um saco plástico, que ataram. E esse saco foi posto no ataúde de madeira. E o ataúde também foi envolvido por outro saco. Um celofane transparente, mas grosso como uma lona. E puseram tudo isso num féretro de zinco, tiveram que forçar. O quepe ficou por cima.


Vieram todos. Os pais dele, os meus pais. Compraram lenços pretos em Moscou. Fomos recebidos por uma comissão extraordinária. Falavam a todos sempre a mesma coisa: “Não podemos entregar o corpo dos seus maridos, dos seus filhos, são muito radiativos, serão enterrados de uma maneira especial num cemitério de Moscou. Em féretro de zinco soldado, sob pranchas de concreto. E vocês devem assinar este documento. É necessário o seu consentimento”. E se alguém, indignado, queria levar o ataúde para casa, convenciam-no de que se tratava de heróis, diziam que já não pertenciam às suas famílias. Que eram personalidades. Pertenciam ao Estado.

Subimos para o ônibus funerário. Os familiares e alguns militares. Um coronel com um rádio. Pelo rádio se ouvia: “Esperem as nossas ordens! Esperem!”. Rodamos duas ou três horas por Moscou, seguimos por vias circulares. Voltamos a Moscou. Pelo rádio, diziam: “Não podem entrar no cemitério. Está rodeado de correspondentes estrangeiros. Esperem mais um pouco”. Os familiares estavam calados. Mamãe estava com um lenço preto.

Sinto que vou perder a consciência. Tenho um ataque de histeria: “Por que estão escondendo o meu marido? O que ele é? Um assassino? Um criminoso? Presidiário? Quem está sendo enterrado?”. A minha mãe diz: “Calma, calma, filhinha”. Ela segura o meu rosto e o acaricia.

O coronel informa pelo rádio: “Solicito permissão para me dirigir ao cemitério. A esposa está com ataque de histeria”.

No cemitério, fomos rodeados por soldados. Seguimos sob escolta. O ataúde seguiu sob escolta. Não deixavam ninguém passar para se despedir, apenas os familiares. Cobriram-no de terra rapidamente. “Rápido! Rápido!”, o oficial ordenava. Nem nos deixaram abraçar o ataúde.

E tivemos de voltar correndo para o ônibus.

Imediatamente compraram e nos trouxeram as passagens de volta para casa. Já para o dia seguinte. O tempo todo esteve conosco um homem vestido de civil, mas com porte militar, que não nos permitia nem sair do quarto e comprar comida para a viagem. Temia que falássemos com alguém, sobretudo eu. Como se naquele momento eu pudesse falar! Nem chorar eu podia.

A funcionária do hotel, à nossa saída, contou todas as toalhas e lençóis. Enfiou tudo num saco de polietileno. Com certeza os queimou. Nós pagamos pelo hotel. Por catorze dias.

O processo clínico das doenças radiativas dura catorze dias. Depois de catorze dias, as pessoas morrem.

Assim que cheguei em casa, adormeci profundamente. Entrei e desmoronei na cama. Dormi três dias, ninguém conseguia me acordar. Chamaram o pronto-socorro. O médico disse: “Não, ela não morreu. Ela vai acordar. É uma espécie de sono terrível”.

Eu tinha 23 anos…


Eu me lembro de um sonho… Nele, a minha avó já falecida vem me ver, com a mesma roupa que a enterramos. Ela está enfeitando um pinheiro. “Vovó, por que temos um pinheiro? Não é verão?” “Porque deve ser assim. O teu Vássienka logo estará aqui comigo.” E ele, que cresceu no bosque…

Em outro sonho, Vássia chegava de branco e chamava por Natacha. A nossa filhinha, que ainda não tinha nascido. No sonho ela já era grande e eu me perguntava, assombrada, quando é que ela havia crescido tanto. Ele a lançava para cima, no ar, e os dois riam… Eu olhava para eles e pensava que a felicidade é simplesmente isso. Simplesmente isso.

Tive mais um sonho: nós dois andávamos pela água. Andamos muito, muito tempo… Ele pedia que eu não chorasse. Dava sinais de lá… De cima. (Longo silêncio.)

Depois de dois meses, voltei a Moscou. Da estação de trem para o cemitério, para vê-lo. E ali, no cemitério, começaram as contrações. Logo que comecei a falar com ele… Chamaram a ambulância. Eu lhes dei o endereço do hospital. Dei à luz ali mesmo, com a mesma médica, Anguelina Vassílievna Guskova. Ela tinha me dito: “Venha fazer o parto conosco”. E para onde mais eu iria? Dei à luz duas semanas antes do previsto.

Me mostraram… Uma menina…

“Natáchenka! Papai te deu o nome de Natáchenka”, eu disse.

Pelo aspecto, parecia um bebê saudável. Bracinhos, perninhas… Mas tinha cirrose. No fígado havia 28 roentgen, e uma lesão congênita no coração. Depois de quatro horas, me disseram que ela tinha morrido. E me falaram de novo: “Nós não vamos te dar o corpo dela”. “Como não vão me dar o corpo?! Sou eu que não o darei a vocês! Vocês querem tomar a minha filha para a ciência, pois eu odeio a sua ciência! Odeio! A sua ciência já levou o meu marido e agora quer mais… Não darei! Eu mesma a enterrarei. Ao lado dele…” (Passa a falar em sussurros.)

Não consigo dizer o que quero, não com palavras… Depois do ataque do coração, não posso gritar. Nem chorar. Mas eu quero… Quero que saibam… Ainda não confessei a ninguém… Quando me recusei a entregar a minha filhinha, a nossa filhinha… Então trouxeram uma caixinha de madeira: “Aqui está ela”. Olhei: ela estava envolvida em panos. Ela jazia envolta em panos. Eu então chorei.

“Ponham-na aos pés do meu marido. Digam que é a nossa Natáchenka.” Ali, na tumba, não está escrito Natália Ignátienko. Há só o nome dele. Ela
não teve nome, não teve nada, apenas alma… E foi ali que eu enterrei a sua alma. Sempre que os venho ver, trago dois buquês: um para ele, o segundo eu ponho

num cantinho para ela. Eu me arrasto de joelhos pela tumba, sempre de joelhos… (De maneira desconexa.) Eu a matei… Fui eu… Ela… Ela me salvou… A minha filhinha me salvou. Recebeu todo o impacto radiativo, foi uma espécie de receptor desse impacto. Tão pequenininha. Uma bolinha. (Suspira.) Ela me salvou. Mas eu amava os dois. Será… Será possível matar com o amor? Com um amor como esse!


Por que andam juntos, amor e morte? Estão sempre juntos. Alguém pode explicar? Alguém tentaria? Eu me arrasto sobre a tumba de joelhos… (Longo silêncio.)
Recebi um apartamento em Kíev. Num grande edifício onde hoje vivem os que foram evacuados da central atômica. Todos eles são conhecidos. O apartamento é grande, com dois quartos, como eu e Vássia tínhamos sonhado. Mas ali eu ficava louca! Em todo lugar, olhasse para onde olhasse, lá estava ele. Os seus olhos… Decidi reformar, qualquer coisa para não ficar parada, qualquer coisa para não pensar. E assim se passaram dois anos.

Certo dia, tive um sonho. Nós caminhávamos, mas ele estava descalço. “Por que você está sempre descalço?” “Porque eu não tenho nada.” Fui à igreja, o padre me disse: “Compre sapatos grandes e deposite sobre o túmulo de algum defunto. Escreva que é para Vássia”. Assim fiz. Fui a Moscou e imediatamente me dirigi a uma igreja. Em Moscou estava mais perto dele, porque ele está lá, no cemitério Mítinski. Expliquei a um clérigo o que acontecia, que precisava fazer chegar os sapatos ao meu marido. Ele me pergunta: “E você sabe como deve fazer isso?”. Então me explica mais uma vez… Justo nesse momento, trazem um ancião defunto para as orações. Eu me aproximo do ataúde, levanto o véu e ponho ali os sapatos. “E a nota, você escreveu?” “Sim, escrevi, mas sem indicar o cemitério onde está enterrado.” “Lá, estão todos no mesmo mundo. Certamente o encontrarão.”

Eu já não tinha nenhum desejo de viver. Passava as noites à janela, olhando o

céu: “Vássienka, o que eu faço? Eu não quero viver sem você”. De dia passava pelo

jardim de infância, parava, ficava ali… Observava as crianças por muito tempo.

Estava enlouquecendo! E à noite pedia: “Vássia, vou ter um filho. Tenho medo de

ficar sozinha.  Não aguento mais.  Vássienka!”.  E  no outro dia  voltava  a  pedir:

“Vássienka, não preciso de um homem. Não há ninguém melhor que você. Eu quero

um filho”.

Eu tinha 25 anos…

Encontrei um homem. Contei tudo a ele. Toda a verdade: que tenho um só amor por toda a vida. Confessei tudo para ele. Nós nos encontrávamos, mas eu nunca o chamei à minha casa, em casa era impossível. Lá havia Vássia.

Eu trabalhava numa confeitaria. Fazia tortas, e as lágrimas caíam. Eu não chorava, as lágrimas é que caíam. Só pedi uma coisa às outras moças: “Não tenham pena de mim. Se tentarem me consolar, vou embora”. Eu queria ser como todo mundo. Não queria consolo. Houve um tempo em que fui feliz.

Trouxeram a medalha de Vássia, de cor vermelha. Eu não podia olhá-la por muito tempo, as lágrimas caíam.

Tive um filho. Andrei… Andreika. As amigas me alertavam: “Você não deve ter filhos”. E os médicos se assustavam: “O seu organismo não suportará”. Depois… Depois, disseram que a criança nasceria sem mão. Sem a mão direita. Via-se pelo aparelho. “Bem, e daí?”, eu pensava. “Vou ensiná-lo a escrever com a mão esquerda.” Mas nasceu normal, um menino lindo. Já vai à escola e tira notas excelentes. Agora eu tenho alguém por quem respirar e viver. É a luz da minha vida. Ele compreende tudo perfeitamente: “Mamãe, se eu for à casa da vovó por dois dias, você conseguirá respirar?”. Não consigo! Tenho medo de me separar dele por um dia.

Estávamos caminhando pela rua, e senti que estava caindo… Foi quando tive o primeiro ataque, ali, na rua. “Mamãe, quer um pouco de água?” “Não, fique do meu lado. Não vá a parte alguma.” E agarrei a mão dele. Depois disso, não me lembro de nada. Abri os olhos no hospital. Agarrei-o com tanta força que os médicos tiveram dificuldade em soltar os meus dedos. E a mão dele ficou azul por algum tempo. Agora, quando saímos de casa, ele me pede: “Mamãe, não me segure pela mão. Eu nunca vou me afastar de você”.

Ele também adoece: vai duas semanas à escola e passa duas em casa, com o médico. E vamos vivendo. Tememos um pelo outro. E em todos os cantos está Vássia. As suas fotografias… À noite, converso com ele sem parar. Às vezes, ele me pede em sonho: “Mostre-me o nosso filhinho”. E Andrei e eu vamos vê-lo. E ele traz pela mão a nossa filhinha. Sempre com a pequena. Sempre brincando com ela.

Assim vou vivendo. Vivo ao mesmo tempo num mundo real e irreal. Não sei onde me sinto melhor. (Levanta-se e se aproxima da janela.)

Aqui nós somos muitos, ocupamos toda uma rua. Chama-se “a rua de Tchernóbil”. Essa gente trabalhou a vida toda na central nuclear. Muitos até hoje vão ali fazer guarda; na central só há turnos de guarda. Ninguém mais vive ali nem viverá, nunca mais. Muitos sofrem de enfermidades terríveis, são inválidos, mas não deixam a central, têm medo até de pensar que ela possa fechar. Não imaginam a vida sem o reator, o reator é a vida deles. E para que mais eles serviriam hoje?

Muitos vão morrendo. Morrem de repente. Caminhando. Estão andando e caem mortos. Adormecem e não acordam mais. Está levando flores para uma enfermeira, e o coração para. Está no ponto de ônibus… Estão morrendo, e ninguém lhes perguntou de verdade sobre o que aconteceu. Sobre o que sofremos, o que vimos. As pessoas não querem ouvir falar da morte. Dos horrores…

Mas eu falei do amor… De como eu amei.

Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro falecido Vassíli Ignátienko


Entrevista da autora consigo mesma sobre a história omitida e sobre por que Tchernóbil desafia a nossa visão de mundo.