quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

sábado, 27 de janeiro de 2018

The mind after midnight: where do you go when you go to sleep?

Genius or madness? The Psychology of creativity - Professor Glenn D. Wilson

Psychology advice for students from professor John Mitterer

Paul Auster: Leviatã (trechos do livro)

Ainda no ano passado, prossegui, descobri que uma pessoa andava por aí fingindo ser eu — respondia cartas em meu nome, entrava em livrarias e autografava meus livros, pairava como uma sombra maléfica nas margens da minha vida. Um livro é um objeto misterioso, falei, e, uma vez que comece a circular pelo mundo, qualquer coisa pode acontecer. Todo tipo de patifaria pode ser posto em prática, e não existe coisa alguma que você possa fazer a respeito. Para o bem ou para o mal, a situação está totalmente fora do seu controle. (p. 10).

Estava calmo, fui educado, consegui projetar a combinação adequada de desamparo e perplexidade. Só isso já seria um triunfo considerável para mim. Em termos gerais, não tenho um talento lá muito grande para imposturas e, apesar de meus esforços ao longo dos anos, raramente enganei alguém acerca do que quer que fosse. (p. 10).

Não tanto por alguma coisa que tivessem dito mas antes por sua aparência, pelo jeito como se vestiram para seus papéis, com absoluta perfeição, confirmando em todos os detalhes a aparência que eu sempre imaginara para homens do FBI: ternos leves de verão, sapatos tipo lancha, reforçados, camisas que não precisam ser passadas, óculos escuros de piloto de avião. Eram, por assim dizer, os óculos escuros protocolares e davam à cena um cunho artificial, como se os homens que os usavam fossem meros atores, figurantes contratados para representar um papel minúsculo em algum filme barato. Tudo isso era estranhamente reconfortante para mim e, quando relembro o caso agora, compreendo como aquela cena de irrealidade trabalhou em meu favor. Permitiu-me pensar em* mim mesmo também como um ator e, uma vez que eu me tornara outra pessoa, de repente tinha o direito de enganá-los, de mentir sem a mais tênue dor na consciência.
Contudo eles não eram burros. Um tinha quarenta e poucos anos e o outro era bem mais jovem, talvez tivesse só vinte e cinco ou vinte e seis anos, mas ambos tinham nos olhos certa expressão que me manteve em guarda o tempo todo em que estiveram aqui. É difícil apontar com exatidão o que havia de tão ameaçador naquele olhar, mas creio que tinha alguma coisa a ver com sua opacidade, sua recusa em se expor, como se eles vissem tudo e nada ao mesmo tempo. Aquele olhar deixava transparecer tão pouca coisa que eu nunca conseguia saber ao certo o que cada um dos dois homens pensava. Seus olhos eram, de algum modo, demasiado pacientes, muito bem adestrados para sugerir indiferença, mas, a despeito de tudo isso, vigilantes, implacavelmente vigilantes, na verdade, como se tivessem sido treinados para fazer você sentir-se incomodado, para deixar você consciente de suas faltas e transgressões, para fazer você se revirar todo por baixo da pele. (p. 10 e 11).

É verdade que seus estilos de conversa eram distintos, mas não quero confiar demais em uma primeira impressão. Pelo que percebi, trabalham um de cada vez, alternam seus papéis em um contínuo vaivém a qualquer instante que julguem apropriado. Na visita que me fizeram, dois dias atrás, o mais novo representou o papel do bruto. Suas perguntas eram bastante ríspidas e ele parecia levar seu trabalho a ferro e fogo, raramente deixava escapar um sorriso, por exemplo, e me tratou com uma formalidade que às vezes beirava o sarcasmo e a irritação. O mais velho se mostrou mais descontraído e gentil, mais disposto a deixar a conversa seguir seu curso natural. Sem dúvida, é mais perigoso por causa disso, mas tenho de admitir que conversar com ele não foi totalmente desagradável. Quando comecei a lhe contar a respeito de algumas reações estapafúrdias aos meus livros, pude ver que o assunto lhe interessava e ele me deixou prosseguir em minha digressão por mais tempo do que eu mesmo havia esperado. Suponho que estivesse me avaliando, me estimulando a divagar para poder formar alguma ideia de quem eu era e de como minha mente trabalhava, mas, quando entrei no assunto do tal impostor, ele de fato se ofereceu para começar uma investigação do caso para mim. (p. 11).

Os Goodman eram professores em Nova York e jamais tiveram recursos para fazer grandes melhorias na propriedade depois de a terem adquirido; assim, durante todos aqueles anos a casa manteve seu aspecto rústico primitivo: a armação de ferro das camas, o fogão abaulado na cozinha, tetos e paredes rachados, piso pintado de cinza. Contudo, há um não sei quê de consistente nessa penúria, e seria difícil alguém não se sentir em casa aqui. Para mim, o grande atrativo da casa é o seu isolamento. (p. 13).

Eu ainda não havia publicado muita coisa àquela altura da vida — seis ou sete contos em revistas pequenas, um punhado de artigos
e de resenhas de livros —, e a impressão que se tinha era a de que o público não estava se engalfinhando pelo privilégio de me ouvir ler meus textos. Portanto aceitei a proposta maçante da mulher e, durante os dias seguintes, caí eu mesmo em um estado de pânico, mergulhado no mundo nanico de meus contos reunidos, em busca de uma coisa que não me deixasse constrangido, uma migalha de texto suficientemente boa para exibir diante de uma sala cheia de desconhecidos. (p. 14).

Apesar de sua indumentária ridícula, havia algo bravio em seus olhos, uma intensidade que subjugava qualquer vontade de rir dele. (p. 16).

— Então você é o responsável por eu ter me arrastado até aqui, hoje — falei, demasiado atônito com os seus elogios pródigos para poder pensar em outra coisa que não essa réplica desenxabida. (p. 17).

Não creio que ninguém jamais tenha me desarmado tão completamente quanto Sachs naquela tarde. Ele chegou feito um vulcão desde o primeiro instante, provocando um motim nos meus calabouços e esconderijos mais secretos, arrombando uma porta depois da outra. Conforme vim a saber mais tarde, era um desempenho típico da parte dele, um exemplo quase clássico de como Sachs abria caminho pelo mundo. Nada de rodeios, nada de cerimônia — simplesmente arregaçava as mangas e se punha a falar. Para ele, era a coisa mais natural do mundo conversar com pessoas totalmente desconhecidas, meter a cara e fazer perguntas que ninguém mais teria a audácia de fazer e, na maioria dos casos, levar tudo a bom termo. A gente sentia que Sachs nunca aprendera as regras, que, por ele ser tão completamente destituído de constrangimentos, esperava também que todo mundo mostrasse um coração tão aberto quanto o dele. E no entanto sempre havia algo de impessoal em suas indagações, como se não estivesse tentando estabelecer um contato humano com a gente, mas sim querendo resolver, para si mesmo, algum problema intelectual. Isso dava a seus comentários certa coloração abstrata e inspirava confiança, deixava a pessoa disposta a revelar a Sachs coisas que, em certos casos, não havia dito nem para si mesma. Sachs nunca julgava ninguém que encontrasse, nunca tratava ninguém como inferior, nunca fazia distinções entre as pessoas por causa de sua posição social. (p. 19).

Sachs automaticamente supunha uma grande inteligência na pessoa com quem conversava e, assim, imbuía o interlocutor com o sentimento da sua própria dignidade e importância. Creio que essa era a qualidade que eu mais admirava nele. Essa habilidade inata de trazer para fora das pessoas o que tinham de melhor. Muitas vezes ele surgia como uma aparição excêntrica, um homem desajeitado e magro que nem uma vara, a cabeça enfiada nas nuvens, sempre distraído por pensamentos e cuidados obscuros, e contudo, vezes e vezes seguidas, ele nos surpreendia com mil pequeninos sinais da sua atenção. Como todas as outras pessoas no mundo, talvez apenas com maior intensidade, Sachs conseguia combinar infinitas contradições em uma presença una e sem fraturas. Onde quer que estivesse, sempre parecia estar em sua casa, em seu território, e todavia jamais conheci ninguém tão desajeitado, tão fisicamente inapto, tão incapaz de levar a efeito as tarefas mais simples. (p. 20).

Ele era falador e muitas vezes descuidado no jeito de se expressar e, não obstante, seu texto era marcado por uma grande precisão e economia, um dom genuíno para a palavra justa. O mero fato de ele escrever, na verdade, muitas vezes me espantava como uma coisa enigmática. Era extrovertido demais, fascinado demais pelas pessoas, se misturava com demasiada alegria com as pessoas para poder se dedicar a uma ocupação tão solitária, pensava eu. Mas a solidão não o perturbava em nada, e Sachs sempre trabalhava com uma disciplina e um rigor tremendos, por vezes ficava metido em um buraco durante semanas seguidas para completar um projeto. Em vista de quem era, e do modo peculiar como mantinha em movimento essas várias facetas de si mesmo, Sachs não era um homem que a gente esperaria ver casado. Parecia destituído demais de senso prático para encarar a vida doméstica, democrático demais em suas afeições para conseguir manter relações íntimas com qualquer pessoa. Mas Sachs se casou moço, muito mais moço do que qualquer outro homem que eu tenha conhecido, e manteve esse casamento de pé durante quase vinte anos. Fanny tampouco era o tipo de esposa que parecesse especialmente adequada para ele. Em um caso extremo, poderia imaginá-lo com uma mulher do tipo dócil e maternal, uma dessas esposas que se mantêm alegremente à sombra do marido, dedicada a proteger o seu homem-menino das agruras práticas do dia a dia. (p. 20).

índole mansa de Sachs ajudou o casamento, sem dúvida nenhuma, mas não gostaria de enfatizar demais esse aspecto do seu caráter. A despeito de sua brandura, Sachs podia se mostrar severamente dogmático em seu modo de pensar, e houve ocasiões em que se entregou a brutais acessos de cólera, ataques de raiva realmente apavorantes. Não eram dirigidos às pessoas a quem tanto apreciava, mas sim ao mundo em geral. As burrices do mundo o aterrorizavam e, subjacente à sua vivacidade e a seu bom humor, às vezes se percebia um reservatório profundo de intolerância e desdém. Quase tudo o que escrevia tinha algum cunho impaciente e belicoso e, ao longo dos anos, ele adquiriu fama de criador de casos. Suponho que o merecesse, mas, no fim das contas, isso representava apenas uma pequena parte de quem ele era. A dificuldade decorre de se tentar classificá-lo de alguma forma conclusiva. Sachs era imprevisível demais para isso, tinha um espírito demasiado aberto e arguto, vivia muito cheio de ideias novas para poder ficar parado em um lugar por muito tempo. Às vezes eu achava fatigante estar com ele, mas não posso dizer que alguma vez fosse chato. Sachs me manteve alerta durante quinze anos, constantemente me desafiando e me provocando e, agora, aqui sentado, enquanto tento compreender quem foi, mal consigo imaginar minha vida sem ele. (p. 21).

Meu processo se arrastou durante meses e, como eu sempre soube que ia perder, tive tempo de me adaptar à ideia da prisão. Eu não era um desses caras acabrunhados que se lamentam o tempo todo e ficam contando os dias que faltam, marcando mais um xis no calendário toda vez que vai dormir. Quando entrei lá, disse a mim mesmo, pronto, aí está, é aqui que você vai viver agora, meu velho. As fronteiras do meu mundo haviam encolhido, mas eu ainda estava vivo e, contanto que pudesse continuar respirando, peidando e pensando minhas coisas, que diferença fazia o lugar onde estava? (p. 23).

— Não tem nada de estranho. É que nem a piada do velho corno. O marido chega em casa, entra na sala e vê um charuto aceso no cinzeiro. Pergunta à mulher o que está acontecendo, mas ela finge não saber. Ainda desconfiado, o marido começa a procurar pela casa toda. Quando chega ao quarto, abre o armário e descobre um estranho ali dentro. “O que você está fazendo no meu armário?”, pergunta o marido. “Não sei”, gagueja o homem, tremendo e suando muito. “Todo mundo tem que estar em algum lugar.” (p. 23).

— Houve alguns poucos momentos de aperto. Admito isso. Mas aprendi muito bem como me safar. Por uma vez na vida esse meu jeito engraçado me ajudou. Ninguém sabia como lidar comigo e, depois de um tempo, consegui convencer a maioria dos detentos de que eu era doido. Você ficaria espantado de ver como as pessoas deixam a gente em paz quando acham que a gente é maluco. Se você tiver aquela expressão nos olhos, fica vacinado contra tudo que é encrenca. (p. 23).

Quando chegamos aos últimos trinta ou quarenta e cinco minutos, havia tanto uísque no meu organismo que eu estava vendo tudo em dobro. Isso nunca me havia acontecido e eu não tinha a menor ideia de como repor o mundo em foco. Toda vez que eu olhava para Sachs, via dois dele. Piscar os olhos não adiantava, e sacudir a cabeça só servia para me deixar tonto. Sachs se convertera em um homem de duas cabeças e duas bocas e, quando enfim me levantei para sair, lembro como ele me amparou em seus quatro braços quando eu estava à beira de cair. Com certeza, foi bom que houvesse tantos dele ali naquela tarde. Nessa altura, eu quase não passava de um peso morto e duvido que um homem sozinho conseguisse me carregar. (p. 24).

Não digo que essas memórias devam ser objeto de dúvida, que exista algo de falso ou adulterado nas coisas que sei a respeito de Sachs, mas não pretendo apresentar este livro como uma coisa que não é. Nada há de conclusivo neste livro. Não se trata de uma biografia nem de um retrato psicológico exaustivo, e embora Sachs me haja confidenciado muita coisa no decorrer dos anos da nossa amizade, não me arrogo possuir nada mais do que uma visão parcial de quem ele= foi. Quero contar a verdade a respeito dele, registrar estas memórias o mais honestamente que puder, mas não posso desprezar a possibilidade de que eu esteja enganado, de que a verdade seja bem diferente do que imagino. (p. 24).

Costumava se vangloriar de o obstetra tê-lo trazido ao mundo no exato momento em que a bomba atômica era libertada das entranhas de um avião B-29 chamado Enola Gay, mas tudo isso sempre me pareceu um exagero. A única vez em que estive com a mãe de Sachs, ela não conseguiu lembrar a que horas ocorreu o nascimento (teve quatro filhos, disse, e os nascimentos todos se misturavam na sua cabeça), mas pelo menos confirmou a data, acrescentando lembrar nitidamente que veio a saber de Hiroshima depois de seu filho nascer. Se Sachs inventou o resto, não passa de um toque de mitificação inocente da sua parte. Ele era ótimo para transformar fatos em metáforas e, como sempre tinha à disposição fatos em abundância, podia bombardear a gente com uma carga interminável de associações históricas estranhas, emparelhando as pessoas e os acontecimentos mais disparatados. (p. 25).

Ninguém a não ser Sachs poderia saber de uma coisa assim. Ninguém a não ser Sachs poderia nos informar que, enquanto a atriz de cinema Louise Brooks crescia em uma cidadezinha do Kansas no início do século, sua vizinha e amiga de brincadeiras era Vivian Vance, a mesma mulher que mais tarde faria sucesso no seriado I love Lucy. Ele vibrava por ter descoberto isso: que os dois lados da mulher americana, o chique e o vulgar, o demônio sexual libidinoso e a dona de casa desmazelada, tenham ambos partido do mesmo lugar, da mesma rua poeirenta no centro da América. Sachs adorava essas ironias, as imensas loucuras e contradições da história, a maneira como os fatos constantemente se punham de pernas para o ar. Ao se empanturrar com esses fatos, ele se habilitava a ler o mundo como se fosse uma obra de imaginação, convertia acontecimentos documentados em símbolos literários, tropos que sugeriam algum esquema sombrio e complexo, embutido no real. Nunca consegui estar muito seguro de* quanto levava a sério esse jogo, mas ele o praticava com frequência e, às vezes, era quase como se fosse incapaz de se conter. A história sobre o seu nascimento era parte dessa mesma compulsão. De um lado, era uma forma de humor negro, mas representava também uma tentativa de definir quem ele era, um modo de se enredar nos horrores da sua época. Sachs muitas vezes falava sobre “a bomba”. Para ele, era um fato central no mundo, um marco supremo do espírito e, em sua opinião, nos distinguia de todas as demais gerações da história. Uma vez que adquirimos o poder de destruir a nós mesmos, a mera noção de vida humana se alterava; até o ar que respirávamos estava contaminado pelo aroma fétido da morte. Sachs certamente não foi a primeira pessoa a formular essa ideia, mas, levando em conta o que lhe aconteceu nove dias atrás, há certo toque de mistério na sua obsessão, como se fosse uma espécie de charada macabra, uma palavra movediça que se enraizou dentro dele e se propagou além do seu controle. (p. 25 e 26).

Ele adorava dizer que um poeta fora o responsável pela vinda da família da mãe para Boston, mas isso era apenas uma referência a Sir Walter Raleigh, o homem que introduziu o cultivo da batata na Irlanda e, portanto, causou a praga que veio a ocorrer trezentos anos depois. Quanto aos familiares do pai, Sachs me contou, certa vez, que tinham vindo para Nova York por causa da morte de Deus. Era mais uma das alusões enigmáticas de Sachs, e até a gente penetrar na lógica de versinhos infantis que se abrigava por trás disso, parecia não ter sentido nenhum. O que ele queria dizer era que os pogroms tinham começado depois do assassinato do czar Alexandre II; esse Alexandre foi assassinado por niilistas russos; os niilistas eram niilistas porque acreditavam que Deus não existia. Não passava de uma equação simples, no final, mas incompreensível, até que os termos intermediários fossem reintegrados à sequência completa. A afirmação de Sachs era semelhante a uma pessoa dizer que o reino se perdera por falta de um prego. Se você conhecesse o poema, tudo bem. Se não conhecesse, não ia entender nada.
Quando foi que os pais dele se conheceram, como eram no início da vida, como suas respectivas famílias reagiram ante a perspectiva de um casamento misto, em que momento se mudaram para Connecticut — tudo isso se situa fora do âmbito do que estou apto a discutir. Até onde sei, Sachs teve uma criação secular. Era tanto judeu como católico, o que significa que não era nem uma coisa nem outra. Não me recordo de ele contar que frequentou alguma escola religiosa e, por tudo o que pude apurar, ele jamais fez primeira comunhão nem bar mitzvah. O fato de ser circuncidado não passava de um detalhe médico. Em* várias ocasiões, entretanto, Sachs aludiu a uma crise religiosa que teve lugar em meados da sua adolescência, mas obviamente essa crise ardeu e se apagou muito depressa. Sempre fiquei impressionado com a sua familiaridade com a Bíblia (tanto com o Velho como com o Novo Testamento), e talvez ele tenha começado a ler esse livro naquela época, durante o tal período de conflito interior. Sachs se interessava mais por política e história do que por questões espirituais, mas sua política era matizada por algo que eu descreveria como um traço religioso, como se o engajamento político não fosse apenas um modo de enfrentar os problemas do aqui e agora, mas também um meio de salvação pessoal. Creio que esse é um ponto importante. As ideias políticas de Sachs nunca se enquadravam em nenhuma das categorias convencionais. Tinha desconfiança de sistemas e ideologias e, embora pudesse falar a respeito deles com bastante discernimento e sofisticação, a ação política, para ele, se resumia a uma questão de consciência. Foi por causa disso que resolveu ir para a prisão em 1968. (p. 26 e 27).

Se Sachs gravitava mais em torno da mãe do que do pai, creio que era porque as personalidades dele e da mãe se assemelhavam mais: ambos eram faladores e sem-cerimônia, ambos dotados de um talento misterioso para induzir os outros a falar de si mesmos. Segundo Fanny (que me contou tanto quanto Ben a respeito dessas coisas), o pai de Sachs era mais calado e mais evasivo do que a mãe, mais fechado em si mesmo, menos propenso a deixar os outros saberem o que estava pensando. Porém deve ter havido um vínculo forte entre eles. (p. 28).

Era uma matriarca subversiva que ainda gostava de dar seus murros contra o mundo e parecia tão pronta para rir de si mesma quanto de qualquer um — inclusive de seus filhos e netos. (p. 29).

Era uma família animada, pensei, um grupo de pessoas indisciplinadas e provocativas, que se preocupavam umas com as outras mas não se prendiam à vida que haviam compartilhado no passado. Era revigorante, para mim, ver como havia pouca animosidade entre eles, como as antigas rivalidades e mágoas pouco vinham à tona, mas ao mesmo tempo não havia muita intimidade, eles não pareciam tão ligados uns aos outros como são os integrantes de famílias mais bem-sucedidas. Sei que Sachs tinha grande afeição pelas irmãs, mas apenas de uma forma um tanto automática e distante, e não creio que fosse especialmente ligado a nenhuma delas durante sua vida de adulto. (p. 30).

Duvido que eu esteja tentando extrair disso algum significado especial. Observações parciais desse tipo estão sujeitas a inúmeros erros e interpretações deturpadas, mas o fato é que Sachs se comportou como um solitário em sua própria família, uma pessoa que se mantém ligeiramente separada do resto. Isto não quer dizer que ele evitasse alguém, mas houve momentos em que senti que não estava à vontade, quase aborrecido por ter de estar ali. (p. 30).

Não foi um aluno especialmente bom, e se mesmo assim ganhou certa reputação, foi apenas por haver se destacado nas travessuras. Era aparentemente destemido ao se defrontar com a autoridade e, a julgar pelo que ele contava, passou a vida, entre os seis e os doze anos de idade, em meio a uma contínua ebulição de sabotagem criativa. Era ele quem arquitetava as armadilhas para pegar os otários, quem prendia o cartaz de “chute-me” nas costas do professor, quem estourava bombinhas nas latas de lixo da cafeteria. Naqueles anos, passou centenas de horas preso no gabinete do diretor, mas o castigo era um preço barato para se pagar em troca da satisfação que aqueles triunfos lhe proporcionavam. Os outros meninos o respeitavam por sua coragem e imaginação, o que na certa era o que o estimulava, mais que tudo, a correr esses riscos. Vi algumas das fotos mais antigas de Sachs e não há dúvida de que era um pirralho bem feioso, um autêntico capeta: um desses magrelos espigados com orelhas grandes, dentes de coelho e um sorrisinho sonso, meio torto. O potencial para o ridículo devia ser enorme; Sachs provavelmente era um alvo móvel para tudo quanto era piada e alfinetada cruel. Se conseguiu evitar esse destino, foi porque se obrigou a ser um pouco mais bravio do que todos os* outros. Não era, de jeito nenhum, o papel mais agradável para alguém representar, mas ele deu duro para dominar seu personagem e, depois de um tempo, havia alcançado um poder incontestável sobre o território.
Um aparelho alinhou seus dentes acavalados; seu corpo se tornou mais robusto; seus braços e pernas aos poucos aprenderam a lhe obedecer. Quando chegou à adolescência, Sachs começou a parecer a pessoa que viria a ser mais tarde. Sua altura o ajudava nos esportes, e quando começou a jogar basquete aos treze ou catorze anos, rapidamente se transformou em um atleta promissor. As brincadeiras e as estripulias de garoto rebelde se extinguiram então, e enquanto seu desempenho acadêmico na escola secundária nada tinha de sensacional (sempre se definia como um estudante preguiçoso, com um interesse ínfimo em tirar boas notas), Sachs lia constantemente e já começava a pensar em si mesmo como um futuro escritor. (p. 30 e 31).

A autodepreciação era um componente importante da sua personalidade, e muitas vezes ele usava a si mesmo como alvo das suas piadas. Em especial quando falava sobre o passado, Sachs gostava de se retratar das formas menos lisonjeiras possíveis. Era sempre o garoto ignorante, o tolo pretensioso, o pirralho que fazia brincadeiras de mau gosto, o palerma desajeitado. Talvez fosse assim que queria que eu o visse, ou talvez sentisse algum prazer perverso em me fazer de bobo. Pois o fato é que a pessoa precisa ter um bocado de autoconfiança para fazer pouco de si mesma, e alguém com esse tipo de autoconfiança raramente é um tolo ou um trapalhão. (p. 31).

Eu vivia sob uma absoluta ditadura e, até onde minha memória alcançava, meus direitos sempre tinham sido pisados e esmagados. (p. 33).

Ele nem sequer se lembrava dessa parte da história, respondeu Sachs. Em seguida, abandonando o assunto de uma vez por todas, desatou uma diatribe cômica contra as arapucas da psicanálise. No fim, nada disso importa. Só porque Sachs negou haver alguma ligação não significa que ela não exista. Ninguém pode dizer com certeza de onde vem um livro, muito menos a pessoa que o escreveu. Os livros nascem da ignorância e, se continuam a viver depois de terem sido escritos, isso acontece apenas na medida em que não podem ser compreendidos. (p. 35).

Foi lançado em uma edição de capa mole alguns meses depois de Sachs e eu termos nos conhecido e desde então esteve sempre em catálogo, em uma existência silenciosa, mas saudável, às margens da literatura recente, um livro que é uma mixórdia maluca e que sempre conseguiu garantir o seu pequeno reduto nas prateleiras. Na primeira vez em que o li, contudo, comecei meio frio. Após ouvir Sachs no bar, supus que se tratasse de um romance de estreia convencional, uma dessas tentativas escassamente veladas de ficcionalizar a história da vida do próprio autor. (p. 35).

A maioria dos personagens são pessoas que existiram de fato na época e, mesmo quando os personagens são imaginários, são menos invenções do que empréstimos, figuras roubadas de páginas de outros romances. Por outro lado, todos os acontecimentos são verdadeiros — verdadeiros no sentido de que obedecem ao registro histórico — e, nos pontos em que o registro é obscuro, não há qualquer deturpação das leis da probabilidade. Tudo é feito de modo a parecer plausível, razoável, até banal, nos pormenores da sua representação. E no entanto Sachs continuamente apanha o leitor desprevenido, mesclando tantos gêneros e estilos para contar sua história que o livro começa a tomar a feição de uma máquina de fliperama, uma prodigiosa engenhoca com luzes que piscam e mil efeitos sonoros diferentes. Conforme muda de capítulo, ele salta da narrativa tradicional na terceira pessoa para anotações de um diário e cartas na primeira pessoa, de quadros cronológicos para pequenas anedotas, de matérias de jornal para ensaios e diálogos dramáticos. É uma proeza arrojada, uma maratona da primeira à última linha e, o que quer que a pessoa ache do livro no conjunto, é impossível não respeitar a energia do autor, a desenfreada audácia das suas ambições. (p. 36).

À medida que o livro avança, adquire uma feição cada vez mais instável — repleta de associações e desvios imprevisíveis, assinalados por mudanças de tom cada vez mais abruptas — até chegar a um ponto em que se tem a impressão de que tudo começa a levitar, erguer-se pesadamente do solo, como um gigantesco balão de pesquisa atmosférica. No último capítulo, a gente já subiu tão alto que percebe não poder mais descer de novo sem cair, sem ser esmagado.
Há falhas inegáveis, entretanto. Embora Sachs trabalhe arduamente para mascará-las, há momentos em que o romance deixa a sensação de ser demasiado construído, demasiado mecânico na sua orquestração dos fatos, e só raramente algum personagem se torna plenamente vivo. No meio da minha primeira leitura, recordo-me de dizer a mim mesmo que Sachs era mais um pensador do que um artista, e a sua mão pesada muitas vezes me incomodava — o modo como martelava seus pontos de vista, manipulava seus personagens no intuito de enfatizar suas ideias, em vez de deixá-los criar a ação sozinhos. Contudo, apesar de Sachs não estar escrevendo a respeito de si mesmo, percebi o quanto o livro devia ser pessoal para ele. (p. 38).

Isso dava ao livro um tom estridente, polêmico, mas creio também que era esse o segredo da sua força, o motor que impulsionava o livro adiante e fazia o leitor ter vontade de prosseguir a leitura. (p. 38).

Com Sachs, porém, encontros de improviso constituíam a norma. Ele trabalhava quando o espírito o induzia (em geral, tarde da noite), e o resto do tempo Sachs zanzava à toa, livremente, perambulava pelas ruas da cidade como um flâneur do século XIX, seguindo o seu nariz aonde quer que ele o levasse. Sachs caminhava, ia a museus e galerias de arte, via filmes no meio do dia, lia livros em bancos de praça. Não vivia escravizado pelo relógio como as demais pessoas e, em consequência, nunca tinha a sensação de estar perdendo tempo. Isso não significa que não era produtivo, mas o muro que separa o trabalho do ócio havia esboroado a tal ponto, para ele, que Sachs mal se dava conta de que esse muro existia. Isso o ajudava como escritor, acho, pois suas melhores ideias sempre pareciam vir quando ele estava longe da sua escrivaninha. Dessa forma, portanto, tudo para ele se enquadrava na categoria do trabalho. Comer era trabalho, ver partidas de basquete era trabalho, ficar com um amigo em um bar à meia-noite era trabalho. Apesar das aparências, não havia quase nenhum momento em que Sachs não estivesse trabalhando. (p. 39).

Eu reparava em Fanny em todos esses locais porque a achava bonita, mas nunca consegui tomar coragem para me dirigir a ela. Havia uma coisa intimidadora em sua elegância, um ar de muro fortificado que parecia desencorajar estranhos que quisessem se aproximar. O anel de casamento na mão esquerda era em parte responsável, suponho, mas, mesmo que não fosse casada, não tenho certeza de que isso fosse fazer alguma diferença. (p. 40).

Não há dúvida de que era um casamento estranho. Em quase todos os aspectos que consigo pensar, Ben e Fanny pareciam existir em reinos mutuamente excludentes. Ben era todo desajeitado, uma torre de armar de brinquedo, todo feito de ângulos agudos e protuberâncias ossudas, ao passo que Fanny era baixa e arredondada, com o rosto suave e a pele cor de azeite. Ben, em contraste, era avermelhado, com cabelo crespo, mal-cuidado e uma pele que queimava facilmente com o sol. Ele ocupava um bocado de espaço, parecia estar constantemente em movimento, mudava de expressão facial a cada cinco ou seis segundos, ao passo que Fanny era estável, sedentária, felina no modo de habitar seu corpo. Para mim ela era menos linda do que exótica, embora essa palavra talvez seja forte demais para aquilo que quero exprimir. Uma capacidade de fascinar estaria provavelmente um pouco mais perto daquilo que procuro, um certo ar de autossuficiência que fazia a gente ter vontade de olhar para ela, mesmo quando Fanny se limitava a ficar sentada em algum lugar, sem fazer nada. Ela não era engraçada como Ben sabia ser, não era rápida, nunca falava pelos cotovelos. E no entanto eu tinha a sensação de que, dos dois, ela era a mais articulada, a mais inteligente, quem possuía maior capacidade analítica. A mente de Ben era só intuição. Era impetuosa mas não especialmente sutil, um espírito que amava correr riscos, dar saltos no escuro, estabelecer nexos improváveis. Fanny, por outro lado, era meticulosa e ponderada, incansável na sua paciência, sem nenhuma propensão a formular julgamentos apressados ou comentários destituídos de fundamento. Ela era uma pesquisadora acadêmica e ele um sujeito vibrante; ela era uma esfinge e ele uma ferida aberta; ela era uma aristocrata e ele o povo. Estar com os dois era como contemplar um casamento entre uma pantera e um canguru. Fanny, sempre esplendidamente vestida, com toda elegância, caminhava ao lado de um homem quase trinta centímetros mais alto do que ela, um garoto que cresceu demais, de tênis preto All Star, calça jeans e um pulôver esportivo cinzento com capuz. À primeira vista, parecia não fazer nenhum sentido. A gente os via juntos e a primeira reação era pensar que se tratava de dois estranhos entre si.
Mas isso era só à primeira vista. Subjacente ao ar estabanado de Sachs, havia uma notável argúcia para entender as mulheres. Não só Fanny, mas quase todas as mulheres que encontrava, e vezes seguidas fiquei admirado com a naturalidade com que eram atraídas por ele. Ser criado com três irmãs deve estar relacionado a isso, como se as intimidades aprendidas no tempo de menino o tivessem imbuído de um conhecimento oculto, um acesso aos segredos* femininos que outros homens passam a vida inteira tentando descobrir. Fanny tivera momentos difíceis, e não creio que alguma vez tenha sido uma pessoa fácil de se conviver. Sua serenidade exterior era, com frequência, uma máscara da turbulência interior e, em diversas ocasiões, vi por mim mesmo com que rapidez ela podia recair em estados de ânimo sombrios, depressivos, dominada por alguma angústia indefinível que de repente a arrastaria à beira das lágrimas. Sachs a protegia nessas ocasiões, tratando-a com uma ternura e uma cautela que podiam ser muito comoventes, e creio que Fanny aprendeu a confiar nele por isso — se deu conta de que ninguém era capaz de compreendê-la tão profundamente quanto ele. No mais das vezes, essa compaixão era expressa de forma indireta, em uma linguagem que os que estavam de fora não conseguiam apreender. (p. 41 e 42).

Em lugar de levar Fanny a falar sobre o assunto na minha frente naquela noite, Sachs fez ferver uma poção de mentiras espontâneas, um caldeirão de vapor e ar quente, com o objetivo de toldar a questão posta sobre a mesa. Dei atenção apenas a um fragmento do que ele de fato disse, mas isso porque julguei que dirigia seus comentários a mim. Conforme vim a entender mais tarde, ele na verdade se dirigia a Fanny o tempo todo. Dizia a ela que não precisava lhe dar um filho para ele continuar a amá-la. (p. 42).  

Fanny era uma fantasia antiga, o fantasma de um desejo secreto enterrado no meu passado, e agora que ela havia se materializado inesperadamente em um novo papel, admito que perdi um pouco o equilíbrio. Fui levado a dizer algumas besteiras quando a encontrei pela primeira vez, e essas tolices vieram apenas consolidar meu sentimento de culpa e confusão. Durante uma das primeiras noites em que estive no apartamento deles, cheguei a dizer a Fanny que eu não ouvia nenhuma palavra das aulas a que assistíamos juntos. (p. 43).

Era uma tentativa de me desculpar pelo meu comportamento no passado, suponho, mas acabou pegando muito mal. Essas coisas nunca devem ser ditas, em nenhuma circunstância, muito menos em um tom de voz irreverente. Elas põem um peso terrível nos ombros da pessoa a quem são dirigidas e não há como sair daí nada que seja bom. No instante em que pronunciei aquelas palavras, pude notar como Fanny ficou chocada com a minha estupidez. (p. 43).

Você não quer ficar aferrado ao passado. A vida é interessante demais para isso.
No seu modo cifrado, Fanny estava me libertando daquela situação embaraçosa — e ao mesmo tempo me fazia uma advertência. Contanto que me comportasse direito, ela não usaria os meus pecados do passado contra mim. Isso me dava a sensação de ser o réu em um julgamento, mas o fato era que Fanny tinha todas as razões do mundo para desconfiar do novo amigo do seu marido, e não a censuro por me manter à distância. À proporção que passamos a nos conhecer melhor, o mal-estar começou a se desfazer. (p. 43).

Isso era uma das coisas que mais me atraíam nele: a pureza da sua ambição, a absoluta simplicidade da maneira como encarava o seu trabalho. Isso às vezes o tornava teimoso e rabugento, mas também lhe dava a coragem para fazer exatamente aquilo que queria fazer. (p. 45).

Sempre fiquei espantado de ver como ele trabalhava ligeiro, como era ágil para rodar a manivela e fabricar artigos sob a pressão dos curtos prazos de entrega, de produzir tanto, sem aparentemente se esgotar. Para Sachs, não significava nada escrever dez ou doze páginas de uma sentada só, começar e concluir um texto inteiro sem se levantar nem uma vez da mesinha da máquina de escrever. Trabalhar era, para ele, semelhante a uma prova de atletismo, uma corrida de resistência entre seu corpo e sua mente, mas, uma vez que era capaz de manter o domínio sobre seus pensamentos com tamanha concentração, pensar com tamanha coesão de propósitos, as palavras pareciam estar sempre à mão para ele, como se Sachs tivesse descoberto uma passagem secreta que ia direto da cabeça para a ponta dos dedos. “Datilografia em troca de dólares”, certa vez ele chamou assim, mas isso era só porque não resistia ao impulso de caçoar de si mesmo. Seu trabalho, eu pensava, nunca era menos do que bom, e na maioria das vezes era genial. Quanto mais o conhecia, mais sua produtividade me assombrava. Eu sempre trabalhava árdua e lentamente, o tipo de pessoa que sofre e luta para arrancar uma frase e, mesmo em meus melhores dias, só consigo avançar a passos de tartaruga, me arrasto de bruços sobre o chão feito um homem perdido no deserto. Para mim, a menor palavra está cercada por acres de silêncio e, mesmo depois de eu conseguir pôr essa palavra no papel, ela* parece ficar ali como uma miragem, um respingo de dúvida a brilhar na areia. A língua nunca foi acessível para mim da maneira como era para Sachs. Estou isolado de meus próprios pensamentos, aprisionado em uma terra de ninguém entre o sentimento e a articulação e, por mais que tente me exprimir, raramente alcanço mais do que um gaguejar confuso. Sachs nunca teve nenhuma dessas dificuldades. Palavras e coisas se casavam para ele, ao passo que para mim elas vivem se separando, e voam em mil direções diferentes. Passo a maior parte do tempo catando pedaços soltos e colando de novo no lugar, mas Sachs nunca teve de avançar aos tropeções desse jeito, nunca teve de vasculhar entulho e latas de lixo, na dúvida quanto a ter encaixado as peças no lugar. Suas inseguranças eram de outra natureza e, contudo, por mais que a vida tenha se tornado dura para ele em outros aspectos, as palavras nunca foram um problema. O ato de escrever era singularmente livre de sofrimento para Sachs e, quando trabalhava bem, conseguia pôr as palavras no papel na mesma velocidade com que as podia pronunciar. Era um talento curioso, e como o próprio Sachs mal tinha consciência disso, parecia viver em um estado de inocência perfeita. Quase como uma criança, às vezes eu pensava, como uma criança prodígio que se distrai com seus brinquedos. (p. 45 e 46).

Cada um de nós está ligado de alguma maneira à morte de Sachs, e não poderei contar a sua história sem contar, ao mesmo tempo, a história de cada um de nós. Tudo está ligado a tudo, todas as histórias se encadeiam a todas as demais histórias. Por mais horrível para mim que seja dizer isso, compreendo agora que fui eu quem reuniu todos nós. Tanto quanto o próprio Sachs, sou o lugar onde tudo começa. (p. 48).

Não estou interessado em especular a respeito do que nos levou à crise. O dinheiro andou sempre curto durante nossos últimos anos juntos, mas não quero apontar isso como uma causa direta. Um bom casamento pode enfrentar qualquer volume de pressão externa; um mau casamento se desfaz. No nosso caso, o pesadelo começou apenas algumas horas depois de deixarmos a cidade, e qualquer que fosse a coisa frágil que nos mantinha unidos, ela se desintegrou para* sempre. (p. 48 e 49).

Depois que David nasceu, a situação só fez piorar. O dinheiro se tornou minha única e avassaladora obsessão, e no ano seguinte vivi em um estado de pânico contínuo. Com Delia sem condições de colaborar com grande coisa em termos de trabalho, nossa renda caiu no exato momento em que as despesas começaram a subir. Assumi a sério as responsabilidades paternas, e a ideia de não conseguir prover minha esposa e meu filho do necessário me enchia de vergonha. (p. 49).

Admitindo que o meu romance estava morto, que meus sonhos de me tornar escritor estavam encerrados, saí a campo em busca de um emprego fixo. Mas a situação, na época, andava difícil, e as oportunidades no interior eram escassas. Mesmo a faculdade local, que publicara um anúncio à procura de alguém que desse aulas de redação para um bando de calouros, com o salário aviltante de oito mil dólares por ano, recebeu a inscrição de mais de trezentos candidatos. (p. 50).

Delia e eu estávamos exauridos, e com o correr do tempo, nossas brigas se tornaram automáticas, um reflexo que nenhum de nós conseguia controlar. Ela se irritava e eu ficava de cara fechada; ela esbravejava e eu ficava emburrado; passávamos dias sem ter coragem de falar um com o outro. David era a única coisa que ainda parecia nos proporcionar algum prazer, e conversávamos sobre ele como se nenhum outro assunto existisse, temerosos de cruzar a fronteira dessa zona neutra. No instante em que isso acontecia, os franco-atiradores pulavam de volta para as trincheiras, havia troca de tiros e a guerra de desgaste recomeçava como antes. Aquilo parecia se arrastar de forma interminável, um conflito sutil sem nenhum objetivo que se pudesse definir, travado por meio de silêncios, desentendimentos e olhares magoados, hostis. Por tudo isso, não creio que nenhum de nós estivesse disposto a se render. Ambos havíamos cavado fortificações para uma guerra de longa duração, e a ideia de ceder terreno nunca nos ocorreu. (p. 50).

Ali parado, naquele momento, porém, me vi dominado por uma ânsia tremenda de ler aquelas páginas. Em retrospecto, compreendo que isso significava que a nossa vida em comum havia terminado, que minha disposição de quebrar essa confiança era uma prova de que eu abandonara toda esperança com relação ao nosso casamento, mas na ocasião eu ainda não tinha consciência disso. A única coisa que senti, na hora, foi curiosidade. As páginas estavam abertas sobre a escrivaninha, e Delia acabara de me pedir para ir ao escritório para ela. Deve ter compreendido que eu notaria o diário. Admitindo que isso fosse verdade, era quase como se Delia estivesse me convidando a ler o que ela havia escrito. De um jeito ou de outro, essa foi a desculpa que dei a mim mesmo naquela noite, e mesmo agora não sei com certeza se eu estava errado. Seria bem do estilo dela agir de forma indireta, provocar uma crise pela qual nunca teria de se apresentar como responsável. Esse era o seu talento especial: tomar nas mãos o rumo das coisas, mesmo quando estava convencida de ter as mãos limpas.
Portanto me debrucei sobre o diário aberto e, uma vez cruzado esse limiar, não consegui voltar atrás. Vi que eu era o tema da anotação daquele dia e o que encontrei ali era um catálogo exaustivo de queixas e rancores, um pequeno e impiedoso documento cunhado na linguagem de um relatório de laboratorista. Delia abarcara tudo, do meu modo de vestir ao que eu comia, até a minha incorrigível falta de compreensão humana. Eu era mórbido e egocêntrico, frívolo e autoritário, vingativo, preguiçoso e desatinado. Mesmo que tudo isso fosse verdade, o retrato que ela pintava de mim era tão carente de generosidade, tinha um tom tão malévolo, que não consegui nem sequer ficar irritado. Senti-me triste, esvaziado, pasmo. Quando cheguei ao último parágrafo, a conclusão de Delia já estava óbvia, uma coisa que nem precisava ser dita. “Nunca amei Peter”, escreveu ela. “Foi um erro pensar que eu poderia amá-lo. Nossa vida juntos é uma fraude, e quanto mais insistirmos nisso, mais próximo estaremos de nos destruir mutuamente. Nunca deveríamos ter casado. Deixei que Peter me convencesse e, desde então, venho pagando por esse erro. Eu não o amava então e não o amo agora. Por mais tempo que eu fique com Peter, nunca vou amá-lo.”
Foi tão repentino, tão categórico, que quase me senti aliviado. Compreender que se é desprezado dessa maneira elimina todo pretexto para a autopiedade. Eu não podia ter mais dúvida alguma quanto à nossa verdadeira situação e, por mais abalado que eu pudesse estar naqueles primeiros momentos, soube que havia chamado sobre mim mesmo aquela desgraça. Jogara fora onze anos da minha vida em busca de uma ficção. Toda minha juventude tinha sido sacrificada por uma ilusão e, no entanto, em lugar de cair em desespero e me lamentar por aquilo que eu perdera, me senti estranhamente revigorado, libertado pela crueza e brutalidade das palavras de Delia. Tudo isso me parece inexplicável agora. (p. 51).

Maria Turner tinha vinte e sete ou vinte e oito anos na época, uma mulher alta, senhora de si, de cabelo louro cortado bem rente, rosto magro e anguloso. Estava longe de ser linda, mas havia em seus olhos cinzentos uma intensidade que me atraía, e eu gostava do seu jeito de se vestir, com uma espécie de encanto sensual e empertigado, um recato que se desmascarava em pequenos lampejos de* descuido erótico — deixar a saia correr um pouco para cima sobre as coxas quando cruzava e descruzava as pernas, por exemplo, ou o jeito que tocava minha mão toda vez que eu acendia um cigarro para ela. Não que fosse uma sedutora ou tentasse abertamente me provocar. Maria Turner me parecia uma boa moça burguesa que conseguira dominar as regras do comportamento social, mas ao mesmo tempo era como se já não acreditasse mais nelas, como se andasse de posse de um segredo que ela podia estar ou não disposta a partilhar, conforme se sentisse no momento. (p. 53 e 54).

Foi o início do que se revelou uma aliança sexual que durou quase dois anos. Emprego essa frase como uma descrição precisa, clínica, mas isso não significa que nossa relação fosse meramente física, que não tivéssemos nenhum interesse um no outro, além dos prazeres que encontrávamos na cama. Entretanto o que se passava entre nós era destituído de ornamentos românticos ou ilusões sentimentais, e a natureza da nossa convivência não se alterou de forma significativa depois daquela primeira noite. Maria não vivia sedenta do tipo de vínculo que a maioria das pessoas parece desejar, e amor, no sentido tradicional, era uma coisa estranha a ela, uma paixão fora da esfera daquilo de que era capaz. Em vista do meu próprio estado interior na época, me senti perfeitamente à vontade para aceitar as condições que ela me impunha. Não fazíamos nenhuma exigência um para o outro, só nos víamos de forma intermitente, levávamos vidas rigorosamente independentes. E contudo existia uma afeição sólida entre nós, uma intimidade que eu jamais conseguira alcançar com pessoa alguma. Mas demorei certo tempo para entender isso. No começo, achei-a um pouco arisca e até intratável (o que deu um toque instigante aos nossos primeiros contatos), mas, à medida que o tempo corria, compreendi que era simplesmente excêntrica, uma pessoa heterodoxa, que levava sua vida segundo um conjunto refinado de rituais bizarros e peculiares. Cada experiência, para ela, era sistematizada, uma aventura autossuficiente que engendrava seus próprios riscos e limitações, e cada um de seus projetos se enquadrava em uma categoria distinta, separada de todas as demais. No meu caso, eu pertencia à categoria do sexo. Ela me designou como seu parceiro de cama naquela primeira noite e foi essa a função que continuei a exercer até o fim. No universo das compulsões de Maria, eu não passava de um ritual entre muitos outros, mas tomei gosto pelo papel que ela escolheu para mim e nunca encontrei motivo de queixa. (p. 54).

Seu trabalho era extravagante demais para isso, idiossincrático demais, pessoal demais para ser visto como pertencente a qualquer veículo ou disciplina particular. As ideias se apossavam dela, Maria se dedicava aos projetos, havia resultados concretos que se podia expor em galerias, mas essa atividade provinha menos de um desejo de fazer arte do que de uma necessidade de se entregar a suas obsessões, viver sua vida exatamente como ela queria. Viver sempre vinha em primeiro lugar, e vários dos projetos a que Maria dedicava mais tempo eram criados apenas e especificamente para ela e nunca eram apresentados para mais ninguém. (p. 55).

Em uma de suas obras, ela contratou um detetive particular para segui-la pela cidade. Por vários dias, esse homem tirou fotos de Maria enquanto ela fazia suas rondas, registrou seus movimentos em um caderninho sem omitir nada do relato, nem mesmo os fatos mais banais e passageiros: atravessar a rua, comprar o jornal, parar para tomar um café. Era um exercício completamente artificial e, contudo, Maria achava estimulante que alguém demonstrasse um interesse tão minucioso por ela. Ações microscópicas se tornaram carregadas de um significado novo, as rotinas mais áridas se impregnavam de uma emoção extraordinária. Após várias horas, Maria ficou tão ligada ao detetive que quase se esqueceu de que estava pagando para ele. Quando o detetive lhe entregou seu relatório no final da semana e Maria examinou as fotos dela mesma e leu a cronologia exaustiva de seus movimentos, sentiu-se como se tivesse se tornado uma estranha, como se tivesse virado um ser imaginário. (p. 57).

Foi uma experiência complexa e perturbadora para ela, deixando-a com a sensação de ter abandonado sua vida em troca de uma espécie de nulidade, como se tivesse tirado fotos de coisas que não existiam. A câmera não era mais um instrumento que registrava presenças, era um modo de fazer o mundo desaparecer, uma técnica para ir ao encontro do invisível. Aflita para desarmar o mecanismo que havia posto em movimento, Maria deu início a um novo projeto, poucos dias depois de voltar a Nova York. Caminhando pelo Times Square com sua câmera, certa tarde entabulou uma conversa com o porteiro de um bar onde garotas dançavam de topless. Fazia calor e Maria estava de camiseta e short, uma indumentária incomumente escassa para ela. Mas acontece que ela, nesse dia, tinha saído a fim de ser notada. Queria afirmar a realidade do seu corpo, fazer as cabeças se voltarem para ela, provar a si mesma que ainda existia aos olhos dos outros. Maria era bem-feita de corpo, pernas compridas, seios atraentes, e os assobios e os comentários safados que recebeu nesse dia ajudaram-na a recuperar o ânimo. (p. 58).

Maria pediu a uma amiga que fosse lá naquela noite e tirasse fotos enquanto ela representava o seu papel — não com o intuito de mostrar a alguém, só para ela mesma, para satisfazer sua própria curiosidade acerca da sua aparência. Maria, conscientemente, se convertia em um objeto, uma imagem anônima do desejo, e era fundamental para ela entender exatamente que objeto era esse. Só fez isso uma vez, trabalhou em turnos de vinte minutos, das oito horas da noite até de manhã, mas não fraquejou nem por um instante, e o tempo todo em que esteve em cena, empoleirada atrás da barreira que a separava do público, com luzes estroboscópicas coloridas saltando sobre sua pele nua, Maria dançou com todo o empenho. Vestida com uma tanguinha de amarrar meio transparente e sapatos de salto de cinco centímetros de altura, sacudia o corpo ao som ensurdecedor do rock e via os homens olharem fixamente para ela. Maria requebrava a bunda na direção deles, corria a língua pelos lábios, piscava com ar provocante enquanto eles deslizavam dólares para ela e a incentivavam a prosseguir. Como tudo o mais que Maria tentava fazer, ela se saiu muito bem. Depois que pegava embalo, não havia nada que a pudesse deter. (p. 58).

Foi um encontro extraordinário para as duas. Maria me contou que ambas deram um grito, caíram nos braços uma da outra, depois se deixaram dominar pela emoção e choraram. Quando ficaram de novo em condições de falar, subiram no elevador e passaram o resto do dia no apartamento de Lillian. Havia tanta conversa para pôr em dia, contou Maria, que as histórias jorravam delas sem parar. Almoçaram juntas, depois jantaram, e quando Maria foi para casa e se arrastou para a cama, já eram quase três horas da madrugada. (p. 61).

— É o seu tom escuro — respondi, em busca de uma explicação. — Mulheres com feições escuras não precisam de maquiagem. Dá para ver como os olhos dela são redondos. Os cílios compridos destacam bem os olhos. E seus ossos também são bons, não se pode esquecer isso. Os ossos são muito importantes.
— É mais do que isso, Peter. Há certa qualidade interior que está sempre vindo à tona em Lillian. Não sei como denominar isso. Felicidade, graça, vitalidade animal. Faz Lillian parecer mais viva do que os outros. Quando nossa atenção cai sobre ela, é difícil parar de olhar. (p. 63).

Passei os olhos em mais algumas fotos e topei com uma sequência que mostrava Lillian de pé diante de um armário aberto, em vários estágios do processo de se despir. Em uma foto, ela tirava a calça jeans; em outra, tirava o* suéter; na foto seguinte, ela só vestia uma minúscula calcinha branca e uma camiseta branca sem manga; na outra, a calcinha tinha ido embora; na seguinte, a camiseta também se fora. Seguiam-se várias fotos de Lillian nua. Na primeira, ela encarava a câmera, a cabeça pendida para trás, rindo, os seios pequenos quase achatados contra o peito, mamilos tensos, projetados acima da linha do horizonte; a pélvis empurrada para a frente enquanto ela agarrava a carne da face interna das coxas com as duas mãos, seu colmo de pelos púbicos escuros emoldurado pela brancura dos dedos em arco. Na foto seguinte, Lillian tinha virado de costas, a bunda de frente, jogava o quadril para um lado e olhava sobre o ombro, do outro lado, na direção da câmera, ainda rindo, estampando a pose clássica das modelos sensuais. Era evidente que estava se divertindo, era evidente que se deliciava com aquela oportunidade de se exibir. (p. 63 e 64).

— Não tenho certeza de como começou, mas, quanto mais conversávamos, mais bem definido ficava o nosso plano. Não partiu de nenhuma de nós. A ideia simplesmente pairava à nossa volta, uma coisa que parecia já existir. Termo esbarrado uma com a outra por acaso tem muito a ver com isso, acho. A coisa toda foi tão inesperada e bonita que ficamos meio fora de órbita. Você tem de entender como éramos ligadas uma à outra. Amigas do peito, irmãs, companheiras para o resto da vida. A gente se preocupava muito uma com a outra, e eu achava que conhecia Lillian tão bem quanto a mim mesma. E então, o que aconteceu? Depois de cinco anos, descobri que minha melhor amiga virou prostituta. Isso me deixou abalada. Tive uma sensação horrível, quase como se tivesse sido traída. Mas ao mesmo tempo, e é aqui que as coisas começam a ficar obscuras, entendi que sentia também inveja dela. Lillian não havia mudado. Era a mesma menina fantástica que eu sempre havia conhecido. Louca, cheia de malandragens, uma companhia estimulante. Ela não pensava em si mesma como uma sem-vergonha ou uma mulher indigna de respeito. Sua consciência estava limpa. Foi isso que me impressionou tanto: sua absoluta liberdade interior, o jeito como vivia segundo suas próprias regras, sem dar a menor bola para o que os outros pensavam. Eu mesma já cometera alguns excessos tremendos naquela altura. O projeto Nova Orleans, o projeto “A dama nua”, a cada vez eu forçava um pouco mais a barra para mim mesma, punha à prova os limites do que eu era capaz. Porém, em comparação com Lillian, eu me sentia uma bibliotecária solteirona, uma virgem patética que não tinha feito quase nada na vida. Pensei comigo mesma: se ela pode, por que não eu? (p. 65).

Levou três anos para se recuperar dos estragos (naquilo que era possível recuperar), e quando nossos caminhos se cruzaram no apartamento de Sachs naquela noite, Maria estava mais ou menos pronta para emergir da sua concha. Se fui eu o homem a quem ela ofereceu seu corpo, foi só porque calhou de eu estar lá na hora certa. Maria sempre zombou dessa interpretação, insistia que eu era o único homem por quem poderia se sentir atraída, mas era preciso que eu estivesse louco para acreditar que possuía algum charme sobrenatural. Eu não passava de um homem entre muitos outros homens possíveis, sem nada que me destacasse dos demais, e se eu por acaso correspondesse àquilo que Maria andava procurando exatamente na ocasião, tanto melhor para mim. Foi ela quem estabeleceu as regras da nossa amizade, e eu obedecia da melhor forma possível, era um cúmplice dócil aos caprichos e às exigências prementes de Maria. A pedido dela, concordei em nunca dormirmos juntos duas noites seguidas. Concordei em nunca falar com ela sobre outra mulher. Concordei em nunca lhe pedir para me apresentar a alguma amiga sua. Concordei em agir como se o nosso caso fosse um drama secreto, clandestino, que devia ser mantido oculto do resto do mundo. Nenhuma dessas restrições me aborrecia. (p. 68).

Certa vez, por exemplo, quando um conhecido foi à casa dela para jantar, Delia me contou que David engatinhara para o colo do sujeito e perguntara se ele seria o seu novo pai. Delia não estava atirando esse incidente na minha cara, simplesmente estava partilhando comigo a sua preocupação, mas, toda vez que eu ouvia uma dessas histórias, afundava um pouco mais na areia movediça dos meus remorsos. Não que eu quisesse viver de novo com Delia, mas me perguntava se não seria melhor resignar-me a isso, se não seria meu destino, afinal, ficar casado com ela. Eu considerava o bem-estar de David mais importante do que o meu mesmo e, no entanto, durante quase um ano fiquei rodando feito um idiota com Maria Turner e com as outras mulheres, ignorando todo pensamento que se referisse ao futuro. Era difícil justificar aquela vida para mim mesmo. A felicidade não é a única coisa que importa, eu argumentava. Quando a gente vira pai, há obrigações que não podem ser descuidadas, deveres que precisam ser cumpridos, não importa o quanto custem. (p. 69).

Todo o meu futuro era posto de novo em questão, e eu precisava de alguém com quem conversar, alguém para me ouvir pensar em voz alta. (p. 70).

Eu me habituara de tal modo a essa situação que nem me dava ao trabalho de questioná-la. Fanny sempre fora, para mim, uma pessoa distante e idealizada, e parecia justo que nossas relações se dessem de forma indireta, perpetuamente mediadas por outros. Apesar da afeição que se desenvolveu entre nós, eu ainda ficava um pouco nervoso quando estava com ela. Minha timidez me deixava propenso a tiradas um tanto esdrúxulas, e muitas vezes eu me desviava da conversa só para fazê-la rir, contava piadas ruins e cometia trocadilhos pavorosos, traduzia meu constrangimento na forma de uma conversa-fiada jocosa e pueril. Tudo isso me perturbava, uma vez que eu jamais agira desse modo com ninguém. Não sou uma pessoa dada a pilhérias e sabia estar criando nela uma impressão falsa a respeito de quem eu era, mas só naquela noite vim a compreender por que sempre me escondera de Fanny. Alguns pensamentos são perigosos demais, e a gente não deve se permitir chegar muito perto deles. (p. 70).

— Toda vez que saio, digo a mim mesmo que deveria ter ficado. Toda vez que fico, digo a mim mesmo que deveria ter saído.
— Isso se chama ambivalência.
— Entre outras coisas. Se esse é o termo que você quer usar, eu o aceito.
— Ou, como minha avó disse certa vez para minha mãe: “O seu pai seria um homem maravilhoso se ele fosse diferente”.
— Ha.
— Pois é, ha. Uma epopeia inteira de dor e sofrimento resumida em uma única frase.
— O casamento é um pântano, um exercício de desilusão que dura a vida inteira.
— É que você ainda não encontrou a pessoa certa, Peter. Você precisa dar tempo ao tempo.
— Você está dizendo que não sei o que é o amor de verdade. E, quando eu souber, meus sentimentos vão mudar. É gentileza sua pensar assim, mas e se isso nunca acontecer? E se isso não estiver escrito na minha sorte? (p. 72).

Abri meus braços para Fanny e, sem dizer nada, ela se acomodou no meu colo, apoiou bem firme o quadril sobre as minhas coxas e tomou o meu rosto nas mãos. Começamos a nos beijar. Bocas abertas, línguas se revolvendo, a saliva a escorrer pelo queixo um do outro, começamos a nos beijar como um casal de adolescentes no banco de trás de um carro.
Continuamos assim durante as três semanas seguintes. Quase instantaneamente, Fanny se tornou de novo reconhecível para mim, um ponto de serenidade familiar e enigmático. Fanny não era mais a mesma, é claro, mas nada tinha da estranheza que me havia desconcertado na primeira noite, e a agressividade que ela demonstrou naquela ocasião nunca mais se repetiu. Comecei a esquecer tudo aquilo, me acostumei às nossas relações modificadas, ao ímpeto ininterrupto do desejo. (p. 74).

Fazíamos amor em silêncio e com intensidade, um esvair-se nos abismos da imobilidade. Fanny era só languidez e submissão, e me apaixonei pela maciez da sua pele, pelo seu jeito de fechar os olhos toda vez que eu me esgueirava às suas costas e beijava sua nuca. Nas duas primeiras semanas, eu não queria mais nada além disso. Tocá-la era o bastante, e eu vivia para ouvir o quase imperceptível ronronar que subia da sua garganta, para sentir suas costas se arquearem lentamente em contato com a palma das minhas mãos. (p. 75).

Se eu pudesse deixar consolidada a ideia de que Ben era um marido ruim, meu plano de roubar Fanny dele ganharia o valor e a santidade de um propósito moral elevado. Não roubaria Fanny, eu a resgataria, e minha consciência continuaria limpa. Eu era ingênuo demais para entender que a inimizade também pode ser uma dimensão do amor. Fanny sofria por causa da conduta sexual de Ben; suas escapulidas e seus pecadilhos representavam uma fonte constante de dor para ela, mas, tão logo passou a me confidenciar essas coisas, a amargura que eu esperava ouvir na voz de Fanny nunca ia além de uma espécie de branda repreensão. Abrir-se para mim parecia ter aliviado alguma pressão interna em Fanny, e agora que ela mesma havia cometido um pecado, talvez estivesse apta a perdoar Ben pelos que ele cometera contra ela. Essa era a economia da justiça, por assim dizer, o quiproquó que transforma a vítima em carrasco, o gesto que põe os dois pratos da balança em equilíbrio. No fim, Fanny me contou muita coisa a respeito de Sachs, mas nada que me fornecesse a munição que eu procurava. Quando muito, suas revelações tiveram o efeito exatamente oposto. (p. 75).

Sachs, visto pelos olhos de Fanny, era uma pessoa mais complexa e atormentada do que o homem que eu pensava conhecer. Não era apenas o extrovertido entusiasmado e talentoso que se tornara meu amigo, era também um homem que se escondia dos outros, um homem que carregava o peso de segredos nunca partilhados com ninguém. Eu buscava um pretexto para me voltar contra ele, mas, ao longo daquelas semanas que passei com Fanny, me senti tão ligado a Sachs quanto antes. Estranhamente, nada disso interferia em meus sentimentos por ela. Amar Fanny era simples, embora tudo o que rodeava aquele amor estivesse impregnado de ambiguidade. Afinal, foi ela quem se atirou em cima de mim, e quanto mais firme eu a apertava, menos seguro me sentia quanto ao que tinha preso nos braços. (p. 76).

Aquilo degenerou em uma conversa torturante que se estendeu por várias horas, um remoinho de argumentos circulares que jamais nos levavam a parte alguma. Ambos choramos muito, cada um implorou ao outro para ter bom senso, para ceder, para encarar a situação de uma perspectiva nova, mas não deu certo. Talvez nunca pudesse dar certo, mas, do jeito que aconteceu, fiquei com a sensação de que foi a pior conversa que tive em toda minha vida, um momento de derrocada completa. Fanny não ia largar Ben e eu não ia continuar com ela, a menos que ela o deixasse. Tinha de ser tudo ou nada, eu não parava de repetir para Fanny. Eu a amava demais para me conformar só com uma parte dela. No que me dizia respeito, qualquer coisa menos do que tudo seria igual a nada, uma infelicidade que eu nunca conseguiria me persuadir a aceitar. Então fiquei com a minha infelicidade e com o meu nada, e o caso se encerrou com a nossa conversa naquela noite. No decorrer dos meses que se seguiram, não houve quase nenhum momento em que não me arrependesse disso, em que não me mortificasse por causa da minha teimosia, porém não existia a mínima chance de anular o teor irrevogável das minhas palavras. (p. 76).

Ela podia ter agido apenas por vingança, é claro, podia ter se aproveitado de mim como uma forma de ajustar contas com Ben, mas a rigor não acho que essa explicação vá fundo o bastante. Pressupõe uma espécie de cinismo que Fanny, na verdade, nunca possuiu e deixa sem resposta um número grande demais de perguntas. É possível também que ela pensasse saber o que estava fazendo e depois tenha começado a perder o sangue-frio. Um caso clássico de fuga com o rabo entre as pernas, por assim dizer; mas então como entender o fato de que ela jamais hesitou, jamais demonstrou o mais leve vislumbre de arrependimento ou de indecisão? Até o último instante, nunca passou pela minha cabeça que Fanny tivesse a menor dúvida sobre mim. Se o caso veio a terminar dessa forma tão abrupta, tinha de ser porque ela já esperava isso, já sabia desde o início que ia acontecer assim. Isso parece perfeitamente plausível. O único problema é que contradiz tudo o que ela falou e fez durante as três semanas que passamos juntos. O que parece um pensamento elucidativo não passa, no final, de mais um embaraço. No momento em que a gente o admite, a charada recomeça outra vez. (p. 77).

— Não é uma questão de certo ou errado. É assim que o mundo gira. Todo homem é escravo da sua piroca, e não existe nada que se possa fazer a respeito. A gente tenta resistir, às vezes, mas é sempre uma batalha perdida. (p. 81).
— Invento umas histórias para ela. Faz parte do nosso jogo. Invento umas histórias sobre minhas conquistas imaginárias, e Fanny escuta. Isso a excita. As palavras têm força, afinal de contas. Para certas mulheres, não existe afrodisíaco mais poderoso. Você deve ter aprendido isso a respeito de Fanny, a essa altura. Ela adora ouvir sacanagem. E quanto mais vívida for a descrição, mais tesão ela sente. (p. 82).

— Nada disso é visível.
— Isso é uma parte do problema. Fanny não fala o bastante. Arrolha as coisas dentro de si e, quando vêm para fora, é sempre de uma forma oblíqua* Isso só serve para piorar a situação. Metade do tempo, ela sofre sem ter consciência de que sofre. (p. 83 e 84).

— É só chamar o Doutor Sabe-Tudo, não é? Ele conserta casamentos estremecidos, faz remendos em almas feridas, salva casais em apuros. Não é preciso marcar consulta, atendimento domiciliar vinte e quatro horas por dia. Disque agora mesmo para o nosso telefone gratuito. É o Doutor Sabe-Tudo. Ele dá o coração e não pede nada em troca. (p. 84).

Depois daquele almoço, eu não soube mais em que acreditar. Fanny me contara uma coisa, Sachs me contara outra, e se eu aceitasse uma história, teria de rejeitar a outra. Não havia alternativa. Eles me ofereceram duas versões da verdade, duas realidades distintas e separadas, e nada no mundo poderia uni-las. Compreendi isso e, todavia, ao mesmo tempo, percebi que as duas histórias me haviam convencido. No pântano de dor e confusão em que me atolei durante os vários meses que se seguiram, relutei em optar entre as duas. Não creio que fosse uma questão de lealdade dividida (embora isso pudesse ser parte do problema), mas sim a certeza de que tanto Fanny como Ben me haviam contado a verdade. A verdade tal como a viam, talvez, mas, mesmo assim, a verdade. Nenhum dos dois tinha a intenção de me enganar; nenhum dos dois mentiu deliberadamente. Em outras palavras, não existia uma verdade universal. Nem para eles, nem para ninguém. Não havia a quem culpar ou proteger, e a única reação justificável era a compaixão. Eu os tinha venerado, aos dois, por anos demais para não me sentir decepcionado com aquilo que soube, mas não fiquei decepcionado só com eles. Fiquei decepcionado comigo mesmo, fiquei decepcionado com o mundo. Até o mais forte era um fraco, disse para mim mesmo; até o mais destemido não tinha coragem; até o mais sábio era ignorante. (p. 85).

Por causa de Fanny, eu e ele atravessamos mutuamente a fronteira de nossas vidas, cada um de nós cravou uma estaca na história interna do outro, e o que antes tinha sido puro e simples entre nós, agora era infinitamente turvo e complicado. (p. 85).

Depois daquele almoço, eu não soube mais em que acreditar. Fanny me contara uma coisa, Sachs me contara outra, e se eu aceitasse uma história, teria de rejeitar a outra. Não havia alternativa. Eles me ofereceram duas versões da verdade, duas realidades distintas e separadas, e nada no mundo poderia uni-las. Compreendi isso e, todavia, ao mesmo tempo, percebi que as duas histórias me haviam convencido. No pântano de dor e confusão em que me atolei durante os vários meses que se seguiram, relutei em optar entre as duas. Não creio que fosse uma questão de lealdade dividida (embora isso pudesse ser parte do problema), mas sim a certeza de que tanto Fanny como Ben me haviam contado a verdade. A verdade tal como a viam, talvez, mas, mesmo assim, a verdade. Nenhum dos dois tinha a intenção de me enganar; nenhum dos dois mentiu deliberadamente. Em outras palavras, não existia uma verdade universal. Nem para eles, nem para ninguém. Não havia a quem culpar ou proteger, e a única reação justificável era a compaixão. Eu os tinha venerado, aos dois, por anos demais para não me sentir decepcionado com aquilo que soube, mas não fiquei decepcionado só com eles. Fiquei decepcionado comigo mesmo, fiquei decepcionado com o mundo. Até o mais forte era um fraco, disse para mim mesmo; até o mais destemido não tinha coragem; até o mais sábio era ignorante. (p. 85).

Depois que Maria voltou para Nova York, ela desempenhou um papel enorme no que tange a me manter inteiro, e mergulhei nas nossas aventuras particulares com o mesmo ardor de antes. E ela não foi a única. Quando Maria não estava à mão, eu encontrava outras mulheres para me distrair do meu coração partido. Uma dançarina chamada Dawn, uma escritora chamada Laura, uma estudante de medicina chamada Dorothy. Em um momento ou outro, cada uma delas ocupava um lugar especial nas minhas afeições. Toda vez que me detinha e examinava com mais atenção o meu comportamento, concluía que não era talhado para casar, que meus sonhos de me unir a Fanny tinham sido, desde o início, equivocados. Eu não era um homem monógamo, disse a mim mesmo. Deixava-me seduzir em demasia pelo mistério do primeiro encontro, me deslumbrava demais com o teatro da sedução, era sequioso demais da excitação de novos corpos, e não se poderia confiar em mim a longo prazo. Pelo menos era essa a lógica que eu aplicava a mim mesmo e que agia como uma eficaz cortina de fumaça entre a minha cabeça e o meu coração, entre as minhas entranhas e a minha razão. Pois a verdade era que eu não tinha a menor ideia do que estava fazendo. Estava fora de controle e trepava pelo mesmo motivo que outros homens bebiam: para afogar as mágoas, embotar a sensibilidade, me esquecer de mim mesmo. Tornei-me Homo erectus, um falo pagão em um transe frenético. Em pouco tempo, me vi enredado em vários casos simultâneos, fazia malabarismos com minhas namoradas feito um acrobata enlouquecido, saltava de uma cama para outra com a presteza com que a lua muda de feitio. Uma vez que esse frenesi me mantinha ocupado, suponho que tenha sido um remédio eficiente. Mas era a vida de um louco e na certa acabaria por me matar, se tivesse durado muito mais tempo do que durou. (p. 86).

Com um aceno de mão, chamei um táxi para ela na rua, mas, antes que eu abrisse a porta para Iris entrar, estendi o braço, a segurei, puxei-a para perto de mim e a beijei bem fundo na boca. Foi uma das coisas mais impetuosas que já fiz, um momento de ardor insano e desenfreado. O táxi partiu, e Iris e eu continuamos de pé, no meio da rua, envoltos nos braços um do outro. Era como se fôssemos os primeiros no mundo a se beijar, como se nós dois tivéssemos inventado a arte de beijar naquela noite. Na manhã seguinte, Iris tornou-se o meu final feliz, o milagre que caiu do céu quando eu menos esperava. Tomamos um ao outro em um arrebatamento e daí em diante, para mim, nada mais foi o mesmo. (p. 89).

Embora Sachs nunca o tenha dito abertamente, percebi que o convite de Hollywood lisonjeou sua vaidade, atordoou-o com uma breve e intoxicante baforada de poder. Era uma reação perfeitamente normal, mas Sachs nunca foi complacente consigo mesmo, e o mais provável é que, mais tarde, tenha se arrependido desses pretensiosos sonhos de glória e sucesso. Isso tornaria ainda mais difícil para ele falar sobre seus sentimentos verdadeiros, depois que o projeto do filme foi por água abaixo. Sachs se voltara para Hollywood como um modo de escapar da crise iminente que crescia dentro dele, e, assim que ficou claro que não havia escapatória, creio que sofreu muito mais do que deixava transparecer.
Tudo isso é especulação. Que eu saiba, não houve nenhuma mudança abrupta ou radical na conduta de Sachs. Seu cronograma de trabalho era a mesma louca mixórdia de compromissos excessivos e prazos exíguos, e tão logo o episódio de Hollywood ficou para trás, Sachs voltou a produzir tanto quanto antes, se não mais ainda. (p. 91).

Em outras palavras, ainda que Sachs parecesse mais ou menos bem na época, ainda que só tivesse uma pálida consciência de sua própria infelicidade durante os meses e os anos que precederam aquela noite, estou convencido de que não andava nada bem. Não tenho provas para oferecer em apoio a essa afirmação — salvo a prova da constatação após o fato consumado. A maioria dos homens se consideraria felizarda de ter vivido o que se passou com Sachs naquela noite e depois conseguir fazer pouco-caso de tudo aquilo. Mas Sachs não, e o fato de não fazer isso — ou, para ser mais exato, o fato de não poder fazer isso — sugere que o acidente tanto o modificou quanto tornou visível aquilo que anteriormente se mantinha oculto. Se estou enganado acerca disso, tudo o que escrevi até aqui é besteira, um monte de elucubrações irrelevantes. Talvez a vida de Ben tenha mesmo se rompido em duas naquela noite, dividiu-se em um antes e um depois distintos um do outro — e, nesse caso, tudo o que veio de antes pode ser apagado dos registros. Mas, se isso for verdade, significa que o comportamento humano não faz nenhum sentido. Significa que nada a respeito de coisa alguma pode ser compreendido. (p. 92).  

É isso que ainda não consegui assimilar, é esse o mistério que ainda tento resolver. Seu corpo se curou, mas Sachs nunca mais foi o mesmo depois da queda. Naqueles poucos segundos que precederam seu choque contra o chão, foi como se tivesse perdido tudo. Sua vida inteira se desmantelou em pleno ar, e, desse momento até sua morte, quatro anos depois, ele jamais conseguiu recompô-la. (p. 93).

Não foi tanto a festa, mas sim estar ao lado de Fanny, o prazer de conversar de novo com ela, de saber que ainda éramos amigos apesar de todos os anos e de todos os desastres que se interpunham entre nós. Para dizer a verdade, eu me sentia um bocado sentimental naquela noite, dominado por pensamentos estranhamente patéticos, e me lembro de olhar para o rosto de Fanny e me dar conta — muito bruscamente, como que pela primeira* vez — de que nós dois já não éramos jovens, de que nossa vida passava rapidamente por nós. Podia ser o álcool que havia bebido, mas esse pensamento me atingiu com toda a força de uma revelação. Todos estávamos ficando velhos, e a única coisa em que ainda podíamos confiar era em nós mesmos, uns nos outros. Fanny e Ben, Iris e David: essa era a minha família. Eram eles as pessoas a quem eu amava e era a sua alma que eu trazia dentro de mim.
Subimos para o telhado com os demais e, apesar de minha relutância inicial, fiquei contente por não perder o espetáculo dos fogos. As explosões transformaram Nova York em uma cidade espectral, uma metrópole sitiada, e saboreei a flagrante violência de tudo aquilo: o barulho incessante, as corolas luminosas das explosões, as cores a flutuar em imensos dirigíveis de fumaça. A Estátua da Liberdade se erguia à nossa esquerda, no porto, incandescente na sua glória banhada por holofotes, e a todo instante eu tinha a sensação de que os prédios de Manhattan estavam prestes a se projetar do solo, com raiz e tudo, para sair voando e nunca mais voltar. (p. 93 e 94).

Foi um período infernal para Fanny. Tirou folga do trabalho e passava o dia* inteiro sentada no quarto ao lado de Ben, mas ele não lhe respondia, muitas vezes fechava os olhos e fingia dormir quando Fanny entrava, reagia aos sorrisos de Fanny com olhares embotados, dava a impressão de não encontrar nenhum consolo na sua presença. Isso tornava quase intolerável para Fanny uma situação já bem difícil em si mesma, e não creio que eu jamais a tenha visto tão preocupada, tão atormentada, tão perto da mais absoluta infelicidade como esteve nessa ocasião. (p. 94 e 95).

A princípio, disse Sachs, ele tinha apenas uma vaga noção de quem era Maria Turner. Reconheceu-a quando a viu na festa, mas não conseguia lembrar o contexto em que a conhecera. Eu nunca esqueço um rosto, disse ele para Maria, mas estou com dificuldade de associar um nome ao seu rosto. Evasiva como sempre, Maria apenas sorriu, disse que na certa o nome viria a ele após algum tempo. Estive na sua casa certa vez, acrescentou ela, como quem dá uma pista, mas não revelou nada mais do que isso. Sachs percebeu que Maria estava brincando com ele, mas gostou bastante do seu jeito de reagir àquela situação. Sachs sentiu-se intrigado pelo seu sorriso irônico e jocoso e não fez objeção a participar de um joguinho de gato e rato. Maria nitidamente possuía o senso de humor adequado, e só isso já era bem interessante, já era algo que fazia valer a pena levar a brincadeira adiante. (p. 96).

A conversa se converteu em uma dessas malucas e elípticas trocas de palavras que ocorrem quando as pessoas se põem a flertar nas festas, uma série de charadas, de respostas ilógicas, de tiradas sagazes com que a pessoa postula a sua superioridade diante da outra. O segredo é não dizer nada a respeito de si mesmo, falar da forma mais cheia de rodeios e mais elegante possível, fazer o outro rir, se mostrar astuto. (p. 97).

Como o ar estava quente e como Maria havia hesitado em ir à festa (achando que ia ser chata), ela resolveu vestir o traje mais diminuto do seu guarda-roupa: um colante carmim sem mangas, com um decote muito cavado, uma minissaiazinha preta, pernas de fora, saltos muito altos, um anel em cada dedo e um bracelete em cada pulso. Era uma indumentária provocativa, escandalosa, mas Maria se achava nesse estado de espírito e, na pior hipótese, isso garantia que ela não ia se apagar no meio da multidão. Conforme Sachs me contou naquela tarde diante da tevê sem som, ele vinha tendo um comportamento exemplar nos últimos cinco anos. Não tinha olhado para mulher nenhuma durante todo esse tempo e Fanny aprendera a confiar nele outra vez. Salvar o casamento fora uma tarefa árdua; exigira um esforço enorme dos dois, no decorrer de um período longo e difícil, e Sachs tinha jurado nunca mais pôr em risco sua vida com Fanny. E então lá estava ele, sentado no aquecedor ao lado de Maria, no meio de uma festa, espremido de encontro a uma mulher seminua, de pernas esplêndidas e convidativas — já um pouco fora de controle, com álcool demais circulando na corrente sanguínea. Pouco a pouco, Sachs foi dominado por uma ânsia quase incontrolável de tocar aquelas pernas, de deslizar mão para cima e para baixo na suavidade daquela pele. Para piorar ainda mais as coisas, Maria usava um perfume caro e perigoso (Sachs sempre teve um fraco por perfumes) e, enquanto sua conversa jocosa e marota prosseguia, tudo o que Ben podia fazer era lutar contra a vontade de cometer uma mancada grave e vergonhosa. Felizmente, suas inibições levaram a melhor contra os seus desejos,* mas isso não o impediu de imaginar o que teria acontecido se elas houvessem perdido a parada. Viu a ponta dos seus dedos pousarem mansamente em um ponto um pouco acima do joelho esquerdo de Maria; viu sua mão mover-se para cima, rumo às regiões sedosas da parte interna da coxa (aqueles pequenos trechos de carne ainda ocultos pela saia), e então, após deixar os dedos vagarem por ali durante vários segundos, sentiu-os deslizar pela borda da calcinha até o Éden das nádegas e de um púbis denso e latejante. Era uma encenação mental tremenda, mas, depois que o projetor começou a rodar na sua cabeça, Sachs não teve mais forças para desligá-lo. E ainda por cima Maria parecia saber exatamente o que ele estava pensando. Caso ela tivesse se mostrado ofendida, o feitiço poderia ter se quebrado, mas Maria obviamente gostava de ser o objeto desses pensamentos lascivos e, a julgar pela expressão dela toda vez que a olhava, Sachs começou a desconfiar que Maria, em silêncio, o estava estimulando, desafiando-o a ir em frente e fazer o que tinha vontade de fazer. (p. 97 e 98).

Só podia ter certeza daquilo que sentia e isso era muito simples: ardia de desejo por uma mulher desconhecida e atraente e, por causa disso, sentia desprezo por si mesmo.
— Não vejo nada de que você devesse ter vergonha — falei. — Você é humano, afinal, e Maria pode ser um bocado sedutora quando ela resolve ser assim. Contanto que nada tenha acontecido, não há nenhum motivo para você se censurar.
— Não é que eu tenha me sentido atraído — explicou Sachs lentamente, escolhendo as palavras com todo o cuidado. — O problema é que eu a deixei atraída por mim. Eu não queria nunca mais fazer esse tipo de coisa, veja bem. Eu prometera a mim mesmo que isso havia acabado, e lá estava eu de novo fazendo a mesma coisa.
— Você está confundindo pensamentos com atos — objetei. — Há um mundo de diferença entre fazer uma coisa e simplesmente pensar nisso. Se não estabelecêssemos essa distinção, a vida seria impossível. (p. 98).

Foi por isso que Sachs levou Maria para a escada de incêndio. Era uma saída para a cena embaraçosa que se desenrolara na cozinha, mas foi também o primeiro passo de um plano complexo, um ardil que lhe permitiria roçar no corpo de Maria Turner e ainda assim manter intacta a sua honra. Era isso o que tanto o agoniava, em retrospecto: não o fato do seu desejo, mas a negação desse desejo como um meio dúbio de satisfazê-lo. Tudo era caos lá fora, disse ele. Aplausos da multidão, fogos que explodiam, um estrondo contínuo e pulsante em seus ouvidos. Os dois ficaram parados na platibanda por longos instantes, vendo uma saraivada de foguetes iluminar o céu, e aí ele pôs em ação a primeira parte do seu plano. Em vista de uma vida inteira dominada pelo pavor de situações desse tipo, foi uma coisa notável Sachs não ter hesitado. Movendo-se para a frente, para a beirada da platibanda, rodou a perna direita por cima da grade, equilibrou-se rapidamente segurando a beirada com as duas mãos, e então rodou também a perna esquerda por cima da grade. Balançando de leve para a frente e para trás enquanto corrigia seu equilíbrio, ouviu Maria soltar um suspiro de susto atrás dele. Maria pensou que ele ia pular, Sachs percebeu, e assim ele rapidamente tratou de tranquilizá-la, insistiu que apenas tentava encontrar uma posição melhor para ver o espetáculo. Felizmente, Maria não se satisfez com essa explicação. Implorou que ele descesse dali e, quando viu que não ia descer, Maria fez aquilo que Sachs esperava que fizesse, exatamente a ação que estava nos cálculos dos seus ardis atrevidos. Maria veio correndo por trás dele e enlaçou seu peito com os braços. Foi só isso: um pequenino gesto de cuidado que tomou o disfarce de um abraço ardente, total. Se não chegou a produzir a reação de êxtase que Sachs esperava (ele estava apavorado demais para dar ao abraço toda a sua atenção), tampouco o decepcionou inteiramente. Sachs pôde sentir o calor da respiração de Maria palpitando na sua nuca, pôde sentir os seios pressionando as suas costas, pôde sentir o perfume. Foi um instante rapidíssimo, o mais breve e* o mais efêmero dos prazeres, mas, enquanto os braços nus e esguios de Maria se comprimiam em torno dele, Sachs experimentou algo que parecia felicidade — um tremor microscópico, uma onda de beatitude passageira. Sua aposta parecia ter dado certo. Bastava agora que ele descesse dali e toda aquela farsa já teria valido a pena. (p. 99 e 100).

Um imenso e avassalador surto de convicção, o gosto de alguma verdade suprema. Nunca me senti tão seguro de alguma coisa em toda a minha vida. Primeiro entendi que estava caindo e depois entendi que estava morto. Não quero dizer que senti que ia morrer, quero dizer que já estava morto. Era um homem morto que caía pelo ar e, muito embora eu ainda estivesse tecnicamente vivo, estava morto, tão morto quanto um homem enterrado na sua cova. Não sei de que outra maneira eu poderia me exprimir. Mesmo enquanto caía, eu já havia ultrapassado o momento em que bati contra o chão, o momento do choque, eu já havia ultrapassado o momento em que me despedacei. Eu me transformara em um cadáver e, na hora em que bati nas cordas do varal e aterrissei em cima daquelas toalhas e mantas, eu já não existia mais. Eu tinha abandonado meu corpo e, por uma fração de segundo, de fato me vi desaparecer.
Havia perguntas que eu queria lhe fazer, mas não o interrompi. Sachs estava com dificuldade para pôr aquela história para fora, falava em meio a um transe de hesitações e de silêncios embaraçosos, e eu receava que uma palavra repentina da minha parte pudesse desviá-lo do seu caminho. (p. 100).

A questão com Maria me pareceu banal, sem nenhuma importância genuína, uma trivial comédia de costumes sobre a qual nem valia a pena falar. Na mente de Sachs, porém, havia uma ligação direta. Uma coisa havia causado a outra, o que significava que ele não via a queda como um acidente, ou um lance de má sorte, mas sim como uma grotesca forma de punição. Eu quis lhe dizer que ele estava enganado, que estava sendo exageradamente severo consigo mesmo — mas não o fiz. Limitei-me a ficar quieto e ouvi-lo enquanto Sachs continuava a analisar o próprio comportamento. Ele tentava me apresentar um relato absolutamente preciso, detinha-se nas mais ínfimas minúcias com a paciência de um teólogo medieval, esforçava-se ao máximo para concatenar todas as nuances de seu inofensivo flerte com Maria junto à escada de incêndio. Era infinitamente sutil, infinitamente elaborado e complexo, e, após certo tempo, comecei a compreender que aquele drama liliputiano havia assumido, para ele, a mesma magnitude da queda em si mesma. Não existia mais nenhuma diferença. Um abraço rápido e burlesco se tornara o equivalente moral da morte. Se Sachs não se mostrasse tão sério a respeito do assunto, eu teria achado tudo aquilo cômico. Infelizmente, não me ocorreu rir. Tentava me mostrar solidário, ouvir e aceitar, nos seus próprios termos, o que ele tinha a dizer. Relembrando, agora, creio que teria sido mais útil para Sachs se lhe tivesse dito o que eu pensava. Eu devia ter rido na cara dele. Devia ter dito que ele estava maluco e obrigá-lo a parar com aquilo. Se houve um momento em que, como amigo, deixei Sachs na mão, foi naquela tarde, quatro anos atrás. Tive a chance de ajudá-lo e deixei a oportunidade fugir entre os meus dedos. (p. 101).

Ele quis responder alguma coisa, mas sua mente já estava em um tumulto, girava em todas as direções ao mesmo tempo e, com a dor nos ossos se fazendo se sentir de repente, ele concluiu que estava fraco demais para responder a ela naquele momento e deixou passar a oportunidade. (p. 101).

Toda vez que alguém falava com ele, Sachs era possuído pela mesma estranha compulsão de conter a língua. À medida que os dias se passaram, ele se tornou ainda mais determinado em seu silêncio, agiu como se fosse uma questão de honra, um desafio secreto para ele ser fiel a si mesmo. Sachs ouvia as palavras que as pessoas lhe dirigiam, pesava cuidadosamente cada frase quando ela penetrava em seus ouvidos, mas então, em vez de oferecer um comentário seu, ele virava a cara, ou fechava os olhos, ou olhava de volta para o seu interlocutor como se enxergasse através dele. Sachs sabia o quanto esse comportamento era infantil e petulante, mas isso não tornava menos difícil para ele deixar de agir assim. (p. 102).

Às vezes, enquanto ficava deitado ali na cama, em guerra com a sua consciência, Sachs fazia débeis tentativas de sorrir para ela, e uma ou duas vezes ele de fato chegou a mover os lábios, produziu alguns tênues sons gorgolejantes no fundo da garganta para convencê-la de que ele estava fazendo o melhor possível, de que mais cedo ou mais tarde palavras autênticas começariam a sair dele. Sachs tinha ódio de si mesmo por causa dessas fraudes, mas àquela altura aconteciam coisas demais dentro do seu silêncio e ele não conseguia reunir a vontade suficiente para rompê-lo. (p. 102).

Nada era turvo, nenhuma parte era menos nítida do que a outra. O acontecimento todo se apresentava em uma exagerada abundância de clareza, em uma avalanche de recordações inelutáveis. Uma coisa extraordinária tinha acontecido e, antes que aquilo perdesse a força dentro dele, Sachs precisava devotar-lhe sua atenção implacável. Daí seu silêncio. Não era tanto uma rejeição, mas antes um método, um modo de se concentrar no horror daquela noite por tempo suficiente para depreender o seu significado. Ficar calado era se encerrar na contemplação, reviver muitas e muitas vezes os instantes da queda, como se ele pudesse se manter suspenso em pleno ar pelo resto do tempo — para sempre a apenas cinco centímetros do chão, para sempre* à espera do apocalipse do último momento.
Sachs não tinha a menor intenção de perdoar a si mesmo, disse-me ele. Sua culpa era uma sentença já consumada e quanto menos tempo ele perdesse com isso, melhor. (p. 102 e 103).

Mas o fato é que o meu acidente não foi causado pela má sorte. Eu não fui uma simples vítima, fui um cúmplice, um sócio atuante de tudo o que me aconteceu, e não posso ignorar isso, preciso assumir alguma responsabilidade pelo papel que desempenhei. Será que isso faz algum sentido para você, ou estou falando disparates? Não quero dizer que flertar com Maria Turner tenha sido um crime. Foi uma bobagem, uma travessurazinha aviltante, mas não foi de jeito nenhum nada mais grave do que isso. Eu devo ter me sentido um canalha por ficar cheio de tesão por ela, mas, se a história toda se resumisse a essa comichão nas minhas gônadas, eu já teria esquecido tudo, a essa altura. O que estou dizendo é que não creio que o sexo tenha muito a ver com o que aconteceu naquela noite. Foi uma das coisas que vim a compreender no hospital, deitado na cama durante todos aqueles dias sem falar nada. Se eu tivesse sido sério de verdade no meu tesão por Maria Turner, por que teria ido a tal extremo do ridículo para engabelar a moça e obrigá-la a tocar em mim? Deus sabe como havia maneiras menos perigosas de alcançar esse objetivo, mil estratégias mais eficientes para obter o mesmo resultado. Mas eu me transformei em um acrobata temerário lá na beira da escada de incêndio, pus efetivamente em risco a minha vida. Por quê? Por um pequeno abraço no escuro, por nada, na verdade. Ao recordar a cena, no meu leito de hospital, entendi por fim que tudo era diferente do que eu tinha imaginado. Eu tinha visto de trás para a frente, olhara para tudo aquilo de cabeça para baixo. O propósito das minhas palhaçadas não era levar Maria a pôr os braços em volta de mim, mas sim arriscar minha vida. Ela não passava de um pretexto, um instrumento para me colocar sobre a beira da grade, uma mão para me conduzir até o limiar do desastre. A questão era: por que fiz isso? Por que me mostrei tão ansioso de cortejar esse risco? Devo ter feito essa pergunta a mim mesmo cem vezes por dia e, cada vez que perguntava, um abismo apavorante se abria dentro de mim e, imediatamente depois, eu estava caindo de novo, mergulhando de cabeça dentro das trevas. Não quero parecer exageradamente dramático, mas aqueles dias no hospital foram os piores da minha vida. Eu me colocara numa posição propícia para cair, compreendi isso, e tinha agido assim de propósito. Essa foi a minha descoberta, conclusão incontestável que emergiu do meu silêncio. Entendi que eu não queria viver. Por razões ainda impenetráveis para mim, subi na beira da grade naquela noite para me matar. a* (p. 103 e 104).

— Você me contou que caiu porque estava assustado demais para tocar nas pernas de Maria. Agora quer mudar a história e vem me dizer que caiu de propósito. Não dá para ficar com as duas coisas. Tem de ser uma ou outra.
— São as duas. Uma coisa levou à outra, e elas não podem ser separadas. Não estou dizendo que eu entendo, estou só dizendo como foi, aquilo que sei que é verdade. Eu estava pronto a dar cabo de mim mesmo naquela noite. Ainda posso sentir isso nas entranhas e morro de pavor quando me vejo andando por aí com esse sentimento dentro de mim.
— Existe em todo mundo uma parte que deseja morrer — respondi —, um pequeno caldeirão de autodestruição que está sempre fervendo por baixo da superfície. Por algum motivo, as chamas para você ficaram muito altas naquela noite e uma coisa doida aconteceu. Mas, só porque aconteceu uma vez, não quer dizer que vá acontecer de novo.
— Talvez. Mas isso não elimina o fato de que aconteceu, e aconteceu por uma razão. Se eu pude ser apanhado assim de surpresa, deve ser porque existe em mim algo fundamentalmente errado. Deve ser porque não acredito mais na minha vida.
— Se você não acreditasse na sua vida, não teria recomeçado a falar. Você deve ter tomado algum tipo de decisão. Deve ter traçado um rumo para você mesmo. (p. 104).

— Tudo o que você precisa é voltar a trabalhar. No instante em que recomeçar a escrever, começará a se lembrar de quem você é.
— A ideia de escrever me repugna. Isso não significa mais nada para mim.
— Esta não é a primeira vez que você fala desse jeito.
— Talvez. Mas desta vez falo sério. Não quero passar o resto da minha vida enrolando folhas de papel em branco numa máquina de escrever. Quero me levantar da minha escrivaninha e fazer alguma coisa. Os dias de ser uma sombra terminaram. Tenho de penetrar no mundo real agora e fazer alguma coisa. (p. 105).

Sachs tinha muita resistência, disse a mim mesmo, tinha muita inteligência e determinação para permitir que o acidente o esmagasse. É possível que eu tenha subestimado o quanto sua confiança fora abalada, mas tendo a achar que não. Vi como ele estava atormentado, vi a angústia das suas dúvidas e autorrecriminações, mas, apesar das coisas abomináveis que ele disse a respeito de si mesmo naquela tarde, também fez brilhar um sorriso para mim e interpretei essa eclosão fugaz de ironia como um sinal de esperança, uma prova de que Sachs seria capaz de se recuperar integralmente.
Semanas se passaram, no entanto, e depois meses, e a situação permanecia exatamente a mesma. É verdade que ele retomou boa parte da sua estabilidade social e, à medida que o tempo corria, seu sofrimento se tornava menos óbvio (ele já não ficava absorto diante dos outros, já não se mostrava mais tão alheio), porém isso só acontecia porque ele falava menos sobre si mesmo. Não era o mesmo silêncio do hospital, mas seu efeito era semelhante. Agora Sachs falava, abria a boca e usava as palavras nos momentos convenientes, mas nunca dizia nada daquilo que realmente o preocupava, nada sobre o acidente ou suas consequências, e aos poucos me dei conta de que ele havia empurrado seu* sofrimento para o subsolo e enterrado em um lugar onde ninguém poderia vê-lo. Se tudo o mais fosse igual, talvez isso não tivesse me deixado tão perturbado. Eu poderia ter aprendido a viver com esse Sachs mais calado e mais contido, entretanto os sinais externos eram desanimadores demais e eu não conseguia me desvencilhar da sensação de que eram sintomas de uma angústia mais vasta. Ele recusava propostas de trabalho para revistas, não fazia nenhum esforço para retomar seus contatos profissionais, parecia haver perdido todo interesse em sentar-se de novo diante da sua máquina de escrever. Sachs me havia dito isso depois de sair do hospital e ir para casa, mas não acreditei. Agora que ele mantinha sua palavra, comecei a ficar assustado. Desde que o conhecera, sua vida girava em torno do trabalho, e vê-lo de repente sem esse trabalho tornava-o semelhante a um homem sem vida alguma. Sachs estava à deriva, boiava sem rumo em um mar de dias que não se distinguiam uns dos outros e, até onde eu podia perceber, não fazia para ele a menor diferença voltar para a terra ou não. (p. 105 e 106).
Não é que eu preferisse que Sachs tivesse esta ou aquela aparência, mas me angustiava o simples fato de mudar, qualquer mudança em si mesma. Quando lhe perguntei por que tinha feito aquilo, sua primeira reação foi um evasivo dar de ombros. Em seguida, após uma pausa breve, percebendo que eu esperava uma resposta mais completa, resmungou alguma coisa sobre não querer mais se preocupar. Iria se ater aos cuidados pessoais elementares, disse ele, se restringiria à higiene pessoal básica. Além do mais, queria dar a sua pequena contribuição ao capitalismo. Ao fazer a barba três ou quatro vezes por semana, estaria ajudando as fábricas de barbeadores a se manterem em atividade, o que significava que estaria contribuindo para o bem da economia americana, para o bem-estar e a prosperidade de todos.
Aquilo não passava de papo-furado, mas, depois de conversarmos sobre o assunto daquela vez, a coisa nunca mais veio à tona. Sachs nitidamente não queria se deter na questão e não insisti para que me desse mais explicações. O que não significa que não fosse importante para ele, contudo. Todo homem é livre para escolher sua aparência, mas no caso de Sachs achei que representava um gesto particularmente violento e agressivo, quase uma forma de automutilação. O lado esquerdo do rosto e do crânio ficaram muito feridos em virtude da queda, e os médicos costuraram vários trechos em redor da têmpora e da mandíbula. De barba e cabelo compridos, as cicatrizes desses ferimentos se mantinham ocultas. Uma vez que o cabelo se fora, as cicatrizes se tornaram visíveis, os afundamentos e os talhos se apresentavam nus, para que todos os* vissem. A menos que eu o tenha entendido muito erradamente, creio ter sido por isso que ele mudou sua aparência. Queria expor suas feridas, anunciar ao mundo que essas cicatrizes eram aquilo que o definiam agora, queria poder olhar para si mesmo no espelho toda manhã e lembrar o que lhe havia acontecido. As cicatrizes eram um amuleto contra o esquecimento, um sinal de que nada jamais seria perdido. (p. 106 e 107).

Sabendo o que sei agora, posso constatar como era limitada a minha compreensão. Eu tirava conclusões do que não passava de uma série de indícios parciais, baseava minha reação em um aglomerado de observações aleatórias que contavam apenas um fragmento da história. Caso eu tivesse acesso a mais* informações, talvez formasse uma imagem diferente do que se passava, o que poderia atenuar um pouco o meu desespero. (p. 107 e 108).

Quando agora recordo a situação, faz todo sentido que Sachs tenha procurado por Maria. Ela era a personificação da sua catástrofe, a figura central no drama que havia precipitado sua queda e, portanto, ninguém mais poderia ser tão importante para ele. Já comentei a determinação dele de examinar a fundo os fatos daquela noite. Para executá-lo, que método melhor do que se manter em contato com Maria? Ao torná-la uma amiga, Ben poderia ter constantemente diante dos olhos o símbolo da sua transformação. Suas feridas ficariam abertas, e toda vez que ele a visse, poderia repor em cena a mesma sequência de tormentos e emoções que por pouco não o levou à morte. Poderia repetir a experiência muitas e muitas vezes e, com bastante aplicação e trabalho duro, talvez aprendesse a dominá-la. Foi assim que deve ter começado. O desafio não era seduzir Maria ou levá-la para a cama; era se expor à tentação e verificar se tinha força para resistir. Sachs buscava uma cura, um modo de recuperar seu respeito próprio, e somente medidas drásticas o contentariam. Para descobrir o quanto ele valia, precisava arriscar tudo, muitas e muitas vezes. (p. 108).

O que ele parecia apreciar em     particular era a combinação de documentário e jogo, a objetificação de estados interiores. Ele compreendeu que todas as minhas obras eram histórias e, mesmo quando se tratava de histórias verdadeiras, eram também inventadas. Ou, mesmo que fossem inventadas, eram também verdadeiras. Portanto, conversamos sobre isso por um tempo e daí passamos para várias outras coisas, e, quando ele foi embora, eu já começava a arquitetar mais uma das minhas ideias bizarras. (p. 109).

Sachs assumiu o papel que Maria havia representado e ela se transformou no detetive particular. Foi essa a cena com que topei em Manhattan, quando vi Sachs caminhando do outro lado da rua. Maria também estava lá, e o que interpretei como prova conclusiva da infelicidade do meu amigo não passava, na verdade, de uma charada, uma pequenina encenação, uma tola remontagem dos episódios da história em quadrinhos Espião versus Espião. Só Deus sabe como deixei de notar a presença de Maria naquele dia. Eu devia estar tão concentrado em Sachs que fiquei cego para tudo o mais. (p. 110).

Embora as sessões de terça-feira nunca tivessem se desenvolvido em uma obra coerente e contínua, exerceram um valor terapêutico para Sachs — o que, a princípio, era tudo o que Maria pretendia alcançar. Quando Sachs veio visitá-la em outubro, ele havia se recolhido tão fundo na sua dor que já não conseguia mais enxergar a si mesmo. Digo isso em um sentido fenomenológico, do mesmo modo que uma pessoa fala sobre autoconsciência ou forma uma imagem de si mesma. Sachs perdera a capacidade de se arredar de seus pensamentos e fazer um reconhecimento do lugar onde estava, medir as dimensões exatas do espaço ao seu redor. O que Maria conseguiu realizar no decorrer daqueles meses foi atraí-lo, por meio de ardis, para fora da própria pele. A tensão sexual era parte do processo, mas havia também a sua câmera, o assalto constante da sua máquina ciclope. Toda vez que Sachs posava para um retrato, era obrigado a personificar a si mesmo, participar da brincadeira que consistia em fingir ser quem era.
Depois de um tempo, isso deve ter produzido algum efeito sobre ele. Ao repetir tantas vezes esse procedimento, Sachs deve ter chegado a um ponto em que começou a se ver através dos olhos de Maria, onde tudo se duplicava e era* devolvido para ele, e Sachs foi capaz de se encontrar de novo. Dizem que uma câmera fotográfica pode roubar a alma de uma pessoa. Nesse caso, creio que foi exatamente o contrário. Graças à câmera de Maria, creio que a alma de Sachs foi aos poucos restituída a ele. (p. 110 e 111).

Sachs estava melhorando, mas isso não queria dizer que estava bem, que algum dia voltaria a ser a pessoa que tinha sido. Bem no fundo, ele sabia que nunca poderia voltar à vida que levava antes do acidente. Tentou me explicar isso durante nossa conversa em agosto, mas não o compreendi. Pensei que ele estivesse falando acerca de trabalho — escrever ou não escrever, abandonar sua carreira ou não —, mas acontece que estava falando de tudo: não só de si mesmo, mas também da sua vida com Fanny. Um mês depois de sair do hospital e ir para casa, creio que ele já andava atrás de um jeito de se ver livre do casamento. Era uma decisão unilateral, fruto da sua necessidade de passar uma esponja em tudo e recomeçar do zero, e Fanny não passava de uma vítima inocente dessa purgação. Os meses iam passando, porém, e Sachs não conseguia criar coragem de dizer a ela. Isso provavelmente explica boa parte das enigmáticas contradições do comportamento de Sachs naquele tempo. Não queria magoar Fanny e no entanto sabia que iria magoá-la, e saber disso apenas aumentava o seu desespero, apenas fazia Sachs odiar mais ainda a si mesmo. Daí o longo período de conversa-fiada e inércia, de recuperações e recaídas simultâneas. Pelo menos, creio que isso revela a bondade essencial do coração de Sachs. Ele se convenceu de que sua sobrevivência dependia da execução de um ato de crueldade e, durante vários meses, optou por não praticá-lo, chafurdou nos abismos de um tormento privado para poupar a esposa da brutalidade de sua decisão. Chegou perto de destruir a si mesmo por pura bondade. Suas malas já estavam feitas e mesmo assim ele ficou em casa porque os sentimentos da mulher significavam tanto para ele quanto os seus próprios sentimentos. Quando a verdade enfim veio à tona, ela já estava quase irreconhecível.
Sachs nunca conseguiu se pôr na frente de Fanny e dizer a ela que queria ir embora. Sua falta de coragem era grande demais para fazer isso; sua vergonha era profunda demais para ser capaz de exprimir um pensamento assim. Em vez disso, de uma forma muito mais oblíqua e tortuosa, Sachs começou a deixar Fanny perceber que ele já não era mais digno dela, que já não merecia mais estar casado com ela. Estava arruinando a vida dela, disse Sachs, e antes que a arrastasse junto com ele para a desgraça inexorável, Fanny devia salvar o que ainda era possível e cair fora. Não creio haver a menor dúvida de que Sachs acreditava sinceramente nisso. De propósito ou não, ele engendrou uma situação em que essas palavras podiam ser ditas de boa-fé. Depois de meses de conflito e indecisão, encontrou um jeito de poupar os sentimentos de Fanny. Não teria de magoá-la declarando sua intenção de ir embora. Em vez disso, invertendo os* termos do dilema, ele a convenceria a deixá-lo. Ela tomaria a iniciativa do seu próprio salvamento; ele a ajudaria a resistir sozinha e salvar a própria vida. Mesmo que os motivos de Sachs se mantivessem ocultos para ele, Sachs na verdade se instalava em uma posição favorável para conseguir o que queria. Não desejo parecer cínico, mas me chama a atenção o fato de ele haver submetido Fanny a muitas das mesmas inversões ardilosas e dos mesmos requintados autoenganos que usara com Maria Turner junto à escada de incêndio, no verão anterior. Uma consciência extremamente sofisticada, uma predisposição para a culpa em face de seus próprios desejos, tudo isso compelia um homem bom a agir de uma forma estranhamente dissimulada, de uma forma que comprometia sua própria bondade. Este é o nó da catástrofe, penso. Sachs aceitava as fraquezas de todos os outros, mas, quando se tratava dele mesmo, exigia a perfeição, impunha um rigor quase sobre-humano, mesmo nos atos mais ínfimos. O resultado foi a decepção, a espantosa consciência da sua própria imperfeição humana, o que o levou a impor exigências ainda mais rigorosas à sua conduta, o que por sua vez acarretou decepções ainda mais sufocantes. Se ele houvesse aprendido como amar um pouco mais a si mesmo, não teria o poder de causar tanta infelicidade à sua volta. Mas Sachs foi levado a fazer penitência, a tomar sua culpa como a culpa do mundo e trazer suas marcas na própria carne. Não o censuro pelo que fez. Não o censuro por dizer a Fanny para deixá-lo ou por querer mudar de vida. Simplesmente tenho pena dele, uma pena inexprimível por causa das coisas aterradoras que Sachs atraiu sobre si.
Levou certo tempo para que a sua estratégia produzisse algum efeito. Mas o que pode pensar uma mulher quando o marido lhe diz para se apaixonar por outra pessoa, para se livrar dele, para fugir e nunca mais voltar? No caso de Fanny, ela não deu importância a essa conversa, tomou-a por um disparate, mais um indício da instabilidade crescente de Ben. Fanny não tinha a menor intenção de fazer nada disso e, a menos que ele lhe dissesse de forma direta que estava farto, que não queria mais ficar casado com ela, estava resolvida a não arredar pé. O afastamento durou quatro ou cinco meses. Para mim, isso parece um tempo insuportável, mas Fanny se recusava a ceder. Ben a estava pondo à prova, pensava ela, tentava empurrá-la para fora da sua vida para verificar com que tenacidade ela resistia, e se Fanny desistisse agora, os piores temores de Bem acerca de si mesmo iriam tornar-se realidade. Essa era a lógica circular da luta de Fanny para salvar seu casamento. Toda vez que Ben falava com ela, Fanny o interpretava como se quisesse dizer o contrário do que dizia. Vá embora significava não vá embora; amar outro homem significava amar a mim; desista significava não desista. À luz do que aconteceu mais tarde, não estou muito seguro de que Fanny estivesse errada. Sachs pensava saber o que queria, mas, depois de alcançá-lo, aquilo já não tinha mais nenhum valor para ele. A essa altura, porém, já era tarde demais para Sachs. O que havia perdido, perdera para* sempre.
Segundo o que Fanny me contou, nunca houve um rompimento categórico entre eles. Em vez disso, Sachs a deixou esgotada, exauriu-a com sua persistência, debilitou-a lentamente até que ela já não teve mais forças para reagir. Houve algumas cenas histéricas no início, disse ela, uns poucos acessos de choro e gritos, mas logo tudo isso cessou. Aos poucos, os contra-argumentos de Fanny se esgotaram, e quando Sachs por fim pronunciou as palavras mágicas e, certo dia, no início de março, declarou para Fanny que um pedido de separação na justiça talvez fosse uma boa ideia, ela limitou-se a fazer que sim com a cabeça e concordou com ele. Na ocasião, eu não sabia de nada disso. Nenhum deles se abriu comigo a respeito dos seus problemas e, como minha própria vida andava particularmente tumultuada na época, eu não podia estar em companhia deles com a frequência que desejava. (p. 111, 112 e 113).

A ideia do livro, àquela altura, se instalara confortavelmente dentro de mim e, para variar, eu estava animado, fazia muito tempo que não me sentia tão otimista. Talvez isso explique por que fiquei tão deprimido depois. Deparei com um homem que vivia no que parecia ser um estado de completa degradação e não conseguia me convencer a aceitar o que tinha visto: meu amigo exuberante de outros tempos perambulava sem rumo durante horas, em um semitranse, quase indistinguível dos homens e mulheres miseráveis que lhe pediam moedas pela rua. Fui para casa naquela noite com um peso no coração. A situação estava fora de controle, eu disse para mim mesmo, e, a menos que agisse depressa, não haveria milagre capaz de salvá-lo. (p. 114).

Achava que seus artigos para revistas eram textos de ocasião, escritos por motivos específicos, em uma situação específica, e um livro seria um lugar demasiado permanente para eles. Deveríamos deixá-los morrer de morte natural, disse-me Sachs certa vez. Que as pessoas os lessem uma vez e depois esquecessem para sempre — não havia a menor necessidade de erguer um mausoléu. Eu já estava familiarizado com essa argumentação, portanto não apresentei a ideia em termos literários. Falei estritamente como uma proposta de negócios, uma fria questão de dinheiro. Sachs vinha vivendo à custa de Fanny havia sete meses, disse eu, e talvez já fosse hora de ele ganhar seu próprio sustento. Se não queria sair por aí à procura de trabalho, o mínimo que podia fazer era publicar esse livro. Esqueça a si mesmo para variar, falei. Faça isso por Fanny. (p. 114).

Isso não significa que Sachs não tencionasse publicar o livro, mas seus motivos eram muito diferentes daqueles que eu imaginava. Eu via o livro como um modo de ele retornar ao mundo, ao passo que Sachs o via como um caminho de fuga, um último gesto de boa vontade antes de ele se esgueirar para dentro das trevas e desaparecer. (p. 115).

O livro permitia que Sachs fosse embora com as bênçãos de Fanny, que ambos ignorassem o propósito verdadeiro da sua partida. Durante as duas semanas seguintes, Fanny organizou a viagem de Ben para Vermont como se ainda fosse um de seus deveres conjugais, desmontando zelosamente seu casamento como se acreditasse que fossem ficar casados para sempre. O costume de cuidar do marido já se tornara tão automático àquela altura, tão profundamente arraigado na pessoa que ela era, que provavelmente nunca lhe passou pela cabeça parar e refletir sobre o que ela estava fazendo. Esse era o paradoxo do fim. Eu havia passado por uma coisa semelhante, com Delia: aquele estranho pós-escrito em que um casal não está nem junto nem separado, quando a única coisa que mantém os dois ligados é o fato de estarem separados. Fanny e
Ben não agiram de forma diferente. Ela o ajudou a se afastar da sua vida e ele aceitou essa ajuda como a coisa mais natural do mundo. Fanny desceu para o porão e desencavou folhas avulsas de textos antigos para ele; tirou fotocópias de originais amarelados e esfrangalhados; foi à biblioteca e vasculhou carretéis de microfilmes à cata de artigos perdidos; pôs em ordem cronológica toda a massa de recortes de jornal, folhas rasgadas e páginas arrancadas. No último dia, Fanny até saiu e comprou fichários de papelão para guardar os papéis e, ha manhã seguinte, quando chegou a hora de Sachs partir, ela o ajudou a carregar essas caixas para o andar de baixo e colocá-las no porta-malas do carro. Nada de despedidas. Nada de emitir algum sinal claro. Nessa altura, não creio que nenhum dos dois fosse capaz de fazer isso. (p. 115).

Sachs escrevia de novo, eu dizia a mim mesmo, Sachs estava saudável de novo e, no meu modo de ver, isso significava que tudo no mundo estava em seu lugar.
Iris e eu estivemos com Fanny várias vezes naquela primavera. Recordo pelo menos um jantar, um almoço de domingo e algumas idas ao cinema. Para ser inteiramente franco, não detectei nela nenhum sinal de tristeza ou preocupação. É verdade que Fanny falou muito pouco sobre Sachs (o que já deveria ter me alertado), mas, toda vez que ela falava sobre ele, parecia satisfeita e até entusiasmada com o que acontecia em Vermont. Não só estava escrevendo de novo, disse ela, como também o que escrevia era um romance. Isso era melhor do que qualquer outra coisa que ela poderia imaginar, e não importava que o livro de ensaios tivesse ido para escanteio. Sachs trabalhava com furor, disse ela, mal parava para comer ou dormir, e se essas informações eram exageradas ou não (quer por Sachs, quer por Fanny), o fato é que punham uma pá de cal em quaisquer outras dúvidas. Iris e eu nunca perguntávamos a Fanny por que ela não ia visitar Ben. Não perguntávamos porque a resposta já era óbvia. Ele estava envolvido demais no seu trabalho e, depois de esperar tanto tempo que isso acontecesse, Fanny não queria interferir. (p. 116).

Mas isso foi depois e não quero me precipitar. Aparentemente, as coisas continuavam a rolar do mesmo jeito que vinham rolando havia vários meses. Sachs trabalhava no seu romance, em Vermont, Fanny trabalhava no museu e Iris e eu esperávamos que nosso bebê nascesse. Depois que Sonia chegou (no dia 27 de junho), perdi contato com todo mundo durante seis ou oito semanas. Iris e eu estávamos na Bebelândia, um país onde o sono é proibido e o dia é indistinguível da noite, um reino cercado por muros, governado pelos caprichos de um monarca absoluto e minúsculo. Pedimos a Fanny e Ben para serem os padrinhos de Sonia, e os dois aceitaram com esmeradas declarações de orgulho e* gratidão. Choveram presentes depois disso, Fanny entregava os seus pessoalmente (roupas, mantas, chocalhos) e os de Ben vinham pelo correio (livros, ursos, patos de borracha). Fiquei especialmente comovido com a reação de Fanny, a maneira como ela vinha à nossa casa depois do trabalho só para segurar Sonia nos braços durante uns quinze ou vinte minutos, como arrulhava para ela toda sorte de bobagens carinhosas. Fanny parecia resplandecer com o bebê nos braços e sempre me entristecia pensar que nada disso tinha sido possível para ela. “Meu bebezinho”, dizia ela para Sonia. “Meu anjinho”, “minha florzinha querida”, “meu coraçãozinho”. A seu modo, Sachs não se mostrava menos entusiasmado do que ela, e eu tomava os pequeninos pacotes que não paravam de chegar pelo correio como um sinal de autêntico progresso, uma prova categórica de que ele estava bem outra vez. No início de agosto, Sachs começou a insistir para irmos a Vermont visitá-lo. Estava pronto para me mostrar a primeira parte do seu livro, disse, e queria que o apresentássemos à sua afilhada. (p. 117 e 118).

A vida cotidiana era mais fácil para ele do que fora em Nova York e pouco a pouco Sachs havia conseguido recuperar o autocontrole. Conforme ele me disse em uma de nossas conversas tarde da noite, era mais ou menos como estar de novo na prisão. Não havia nenhuma preocupação exterior para aborrecê-lo. A vida se reduzira a seus elementos básicos mais despojados e ele já não precisava mais se questionar sobre como gastava seu tempo. Todo dia era mais ou menos uma repetição do dia anterior. Hoje parecia ontem, amanhã pareceria hoje e o que viria a acontecer na semana seguinte se fundia em uma névoa com o que se passava nesta semana. Para Sachs, havia nisso um consolo. O elemento surpresa fora eliminado e isso o fazia sentir-se mais desenvolto, mais apto a se concentrar em seu trabalho.
— É estranho — prosseguiu ele —, mas, nas duas vezes em que consegui parar para escrever um romance, estava separado do resto do mundo. Primeiro, na prisão, quando era um garoto, e agora aqui em Vermont, vivendo como um eremita na floresta. Eu queria saber que diabo isso significa.
— Significa que você não pode viver sem os outros — falei. — Quando eles estão perto de você, em carne e osso, o mundo real é suficiente. Quando você fica sozinho, precisa inventar personagens imaginários. Precisa deles para lhe fazer companhia. (p. 119).

— Não consigo saber se é bom ou ruim. Não consigo saber se é a melhor coisa que já escrevi ou se não passa de um monte de lixo.
Não era lixo. Isso ficou claro para mim desde a primeira página, mas, à medida que eu enveredava mais fundo no resto daquele rascunho, fui me dando conta também de que Sachs estava enfronhado em algo notável. Era o livro que eu sempre imaginara que ele poderia escrever e, se foi necessário um desastre para levá-lo a começar aquele livro, talvez não tenha sido um desastre, no fim das contas. Ou, pelo menos, me convenci de que era assim, na ocasião. Por mais problemas que eu tenha encontrado no manuscrito, por mais cortes e alterações que fossem necessários fazer no final, o mais importante era que Sachs havia começado, e eu não o deixaria mais parar. (p. 120).

As páginas que eu tinha lido eram uma coisa, mas eu e Sachs também havíamos conversado e, com base no que ele disse sobre o livro nas duas noites seguintes, me convenci de que ele tinha a situação sob controle, que ele compreendia o que tinha pela frente. Se isso for verdade, então não consigo imaginar nada mais lamentável ou terrível. De todas as tragédias que o meu pobre amigo engendrou para si mesmo, deixar esse livro inacabado vem a ser a mais difícil de suportar. Não quero dizer que livros são mais importantes do que a vida, mas o fato é que todo mundo morre, todo mundo desaparece, no fim, e se Sachs tivesse conseguido concluir seu livro haveria uma chance de a obra sobreviver a ele. Em todo caso, foi nisso que preferi acreditar. Do jeito que as coisas estão agora, o livro não passa da promessa de um livro, um livro potencial enterrado em uma caixa cheia de uma barafunda de páginas manuscritas e um monte de anotações avulsas. É tudo o que sobrou, junto com nossas conversas nas duas últimas noites, ao ar livre, sentados sob um céu sem lua, apinhado de estrelas. Pensei que a vida de Sachs estava recomeçando por inteiro, que ele estava à beira de um futuro extraordinário, mas na verdade ele estava quase no fim. (p. 120).

No verão passado, quando por fim eu soube o quanto ela vinha escondendo de mim, fiquei tão furioso que tive vontade de matá-la. Mas isso era problema meu, não de Maria, e eu não tinha nenhum direito de extravasar minha frustração em cima dela. Promessa é promessa, afinal de contas, e, mesmo que o seu silêncio redundasse em muito estrago, não creio que ela estivesse errada ao fazer o que fez. Se alguém tinha de dar com a língua nos dentes, era Sachs. Ele foi o único responsável pelo que aconteceu, e era o seu segredo que Maria protegia. Mas Sachs não falou nada. (p. 122).

Nunca tive nenhum palpite mais firme quanto ao fato de Sachs estar vivo ou morto — nenhuma intuição repentina, nenhum surto de conhecimento extrassensorial, nenhuma experiência mística —, mas eu estava mais ou menos convencido de que nunca mais o veria de novo. Digo “mais ou menos” porque não tinha certeza de nada.
Nos primeiros meses após o seu desaparecimento, experimentei as reações mais contraditórias e violentas, mas essas emoções aos poucos se consumiram sozinhas e, no fim, termos como tristeza ou revolta ou mágoa já não pareciam mais ter cabimento. Perdi contato com Sachs, e sua ausência era sentida cada vez menos como uma questão pessoal. Toda vez que eu tentava pensar nele, minha imaginação me abandonava. Era como se Sachs tivesse se transformado em um buraco no universo. Não era mais simplesmente o meu amigo desaparecido, era um sintoma da minha ignorância acerca de tudo, um emblema do próprio desconhecido. Isso na certa soa um tanto vago, mas não consigo arranjar nada melhor. Iris me disse que eu estava virando um budista, e creio que isso descreve minha situação mais acuradamente do que qualquer outra coisa. Fanny era uma cristã, disse Iris, porque nunca abandonava sua crença de que Sachs, um dia, ia voltar; ela e Charles eram ateus; e eu era um acólito zen, um crente no poder do nada. Em todos os anos desde que ela me conhecera, disse Iris, aquela era a primeira vez em que eu não manifestava uma opinião. (p. 124 e 125).

Sachs olhou à sua volta, na esperança de encontrar pontos de referência, mas nada era familiar, e se deu conta de que jamais havia estado naquele lugar. Sentindo-se um idiota, deu meia-volta e começou a correr na direção de onde tinha vindo. (p. 126).

Sachs ouviu o baque do impacto, o esfacelar da cartilagem e do osso, e depois o homem tombou. Simplesmente caiu morto no meio da estrada, e tudo ficou em silêncio. Sachs correu até Dwight, mas, quando se curvou para examinar o corpo do rapaz, viu que o terceiro tiro o havia matado. A bala entrara em cheio por trás da cabeça e seu crânio estava estraçalhado. Sachs perdera sua chance. Era uma simples questão de tempo e ele fora lento demais. Se tivesse alcançado o homem uma fração de segundo antes, aquele último tiro não aconteceria e, em vez de olhar para um cadáver no chão, estaria pondo ataduras nos ferimentos de Dwight, fazendo todo o possível para salvar sua vida. Um segundo depois de ter esse pensamento, Sachs sentiu o próprio corpo tremer. Sentou-se na estrada, pôs a cabeça entre os joelhos e fez força para não vomitar. O tempo passou. Sentia o ar soprar através das suas roupas; ouviu um gaio azul piar na mata; fechou os olhos. Quando abriu de novo, apanhou na mão um punhado de terra da estrada e esfregou contra o rosto. Enfiou a terra na boca e se pôs a mastigar, deixou que as pedrinhas menores raspassem contra os dentes, apalpou os seixos com a língua. Mastigou até não aguentar mais e então curvou-se para a frente e cuspiu da boca aquela imundície, gemendo como um bicho doente e enlouquecido. (p. 130).

O motor pegou na primeira tentativa. Ia haver marcas de rodas, é claro, e essas marcas retirariam toda dúvida de que um terceiro homem estivera ali, mas Sachs estava assustado demais para ir embora a pé. Isso seria o mais sensato: ir embora a pé, ir para casa, esquecer toda aquela história sórdida. Mas seu coração batia depressa demais para isso, seus pensamentos o assaltavam fora de qualquer controle e ações ponderadas como essa já não eram mais possíveis. Sachs precisava de velocidade. Precisava da velocidade e do ronco do carro e, agora que estava pronto, tudo o que desejava era ir embora, sentar-se ao volante e fazer o carro andar o mais depressa possível. Só isso poderia aplacar o tumulto dentro dele. Só isso permitiria que ele calasse o urro de terror dentro de sua cabeça. (p. 131).

Não havia nenhuma cabeça dentro da bolsa. Não havia orelhas cortadas, nenhum dedo amputado, nenhum órgão genital. O que havia era dinheiro. E não era pouco dinheiro, mas um monte, mais dinheiro do que Sachs jamais vira em um só lugar. A bolsa estava dura de tão abarrotada de dinheiro: maços compactos de notas de cem dólares enfeixadas com elásticos, cada maço continha três, quatro mil dólares. Quando Sachs terminou de contar, ficou razoavelmente seguro de que o total chegava a algo entre cento e sessenta e cento e sessenta e cinco mil dólares. Sua primeira reação ao descobrir o dinheiro foi de alívio, gratidão por seus temores não darem em nada. Em seguida, ao conferir pela primeira vez algum sentido àquilo tudo, teve uma sensação de choque e de vertigem. Ao recontar as notas, porém, viu que estava se acostumando a elas. Essa foi a parte mais estranha, disse-me ele: a rapidez com que assimilou toda aquela circunstância implausível. No momento em que se pôs a contar o dinheiro de novo, já havia começado a pensar nas notas como suas. (p. 134).

Sua* certeza se dissolveu em humilhação e tudo o que conseguiu fazer foi balbuciar algumas palavras de desculpas antes de sair às pressas do apartamento. Tudo acontecera ao mesmo tempo, e embora ele tenha conseguido recuperar o autocontrole suficiente para gritar, da rua, os seus votos de felicidade, isso não passava de um blefe, um débil esforço de última hora para salvar as aparências. Na verdade, ele tinha a impressão de que o céu desabara sobre a sua cabeça. Sentia como se seu coração tivesse sido arrancado para fora do peito. (p. 134 e 135).

Mas um novo ingrediente foi acrescentado à receita já bastante perturbadora das últimas vinte e quatro horas e acabou por produzir uma mistura fatal, um copo cheio de ácido até a boca, que chiava sem parar suas ameaças em uma clamorosa profusão de fumaça.
Mesmo agora, é difícil para mim aceitar isso. E falo como alguém que já devia ter entendido essas coisas, alguém que refletiu longa e arduamente acerca das questões em jogo aqui. Toda minha vida adulta foi consumida em escrever histórias, pôr pessoas imaginárias em situações inesperadas e, muitas vezes, improváveis, mas nenhum de meus personagens jamais experimentou algo tão implausível quanto o que Sachs viveu naquela noite, na casa de Maria Turner. Se ainda me choca relatar o que aconteceu, é porque o real está sempre à frente do que podemos imaginar. Por mais fantásticas que consideremos nossas invenções, elas nunca conseguem igualar a imprevisibilidade daquilo que o mundo real continuamente vomita. Esta lição me parece, agora, inescapável. Tudo pode acontecer. E, de um jeito ou de outro, sempre acontece.
As primeiras horas que os dois passaram juntos foram bastante penosas e ambos as recordavam como uma espécie de tempestade, uma conflagração interior, um turbilhão de lágrimas, silêncios e palavras sufocadas. Pouco a pouco, Sachs conseguiu pôr para fora a sua história. Maria o segurou nos braços a maior parte do tempo, ouvindo em uma enlevada incredulidade, enquanto ele lhe relatava tudo aquilo que conseguia. (p. 136).  

Sachs estava se desintegrando e, uma vez que as palavras começaram a sair da sua boca, uma vez que ele começou a ouvir a si mesmo descrever as coisas que havia feito, foi dominado pela repulsa. (p. 136).

Sachs abriu a bolsa de boliche para mostrar a Maria o que tinha encontrado no porta-malas do carro e lá estava o passaporte jogado em cima do dinheiro. Apanhou-o e o entregou para ela, insistindo para ela dar uma olhada, no intuito de provar que o desconhecido era uma pessoal real — um homem com nome, idade, local de nascimento. Isso tornava tudo muito concreto, disse ele. Se o homem fosse um anônimo, seria possível imaginar que era um monstro, que merecia mesmo morrer, mas o passaporte o desmitificava, mostrava que era um homem como qualquer outro. Ali estavam seus dados pessoais, o esboço de uma vida real. E ali estava o seu retrato. Por mais incrível que parecesse, o homem sorria na foto. Conforme Sachs disse a Maria quando pôs o documento na mão dela, ele estava convencido de que aquele sorriso o destruiria. Por mais que se transportasse para longe dos fatos daquela manhã, Sachs nunca conseguiria se livrar deles. (p. 137).

No modo de ver de Maria, Lillian com certeza imaginava que Dimaggio haveria de transformá-la, que só por conhecê-lo ela seria alçada da sua mediocridade e teria meios para, enfim, ser alguém. Tornar-se estrela de cinema não passava, afinal, de um sonho infantil. Talvez ela tivesse a aparência necessária, talvez até tivesse o talento suficiente — mas, conforme Maria explicou para Sachs, Lillian era preguiçosa demais para cavar aquilo que desejava, impulsiva demais para suportar os reveses e persistir, volúvel demais em suas ambições. (p. 139).

Durante os dois anos seguintes, foi como se ele tivesse evaporado da face da Terra. Não escrevia, não telefonava, não fez nenhuma tentativa de entrar em contato com sua filha. Até o instante em que surgiu do nada no meio das florestas de Vermont, no dia da sua morte, a história desses dois anos era uma página totalmente em branco. (p. 140).

Depois que Maria lhe contou acerca de Dimaggio e Lillian Stern, ele entendeu que aquela coincidência digna de um pesadelo representava na verdade uma solução, uma oportunidade na forma de um milagre. O essencial era aceitar a estranheza do fato — não a negar, mas sim abraçar essa estranheza, aspirá-la para dentro de si como uma força de sustentação. Onde antes tudo fora sombrio, Sachs agora enxergava uma claridade bela e espantosa. Ele iria para a Califórnia e daria para Lillian Stern o dinheiro que encontrara no carro de Dimaggio. Não o dinheiro, simplesmente — mas o dinheiro como um símbolo de tudo o que ele tinha de dar, sua alma inteira. A alquimia da retribuição impunha isso, e assim que tivesse cumprido esse ato, talvez houvesse alguma paz para ele, talvez tivesse alguma desculpa para continuar a viver. Dimaggio tirara uma vida; ele tirara a vida de Dimaggio. Agora era a vez de Sachs, agora sua vida tinha de ser tirada também.
Essa era a lei interna, e a menos que ele tivesse coragem de suprimir a si mesmo, o círculo de desgraças nunca se fecharia. Por mais que vivesse, sua vida nunca mais lhe pertenceria. Ao entregar o dinheiro para Lillian Stern, Sachs estaria pondo a si mesmo nas mãos dela. Essa seria a sua penitência: usar a própria vida para dar vida a outra pessoa; confessar; arriscar tudo em um sonho insano de misericórdia e perdão. (p. 141).

A situação já era horrorosa demais sem que Maria, ainda por cima, tivesse de rodar aos tropeções à cata de palavras para explicar tudo isso. (p. 142).

A voz de Lillian descia filtrada através do teto, como um rumor sem palavras, um sussurro vago feito de suspiros, silêncios e exclamações abafadas. Embora aflito para saber o que ela dizia, seus ouvidos não tinham a agudeza suficiente e ele renunciou ao esforço após um ou dois minutos. Quanto mais a conversa se prolongava, mais nervoso ele ficava. Sem saber mais o que fazer, Sachs abandonou seu posto ao pé da escada e começou a percorrer os cômodos do térreo. Só havia três, e todos em lamentável desordem. Altas pilhas de pratos sujos se amontoavam dentro da pia da cozinha; a sala de estar era um caos de almofadas espalhadas, cadeiras caídas e cinzeiros cheios até a borda; a mesa da sala de jantar havia desabado. Uma a uma, Sachs acendia as luzes e depois apagava. Era um lugar sórdido, constatou, uma casa de infelicidade e de pensamentos confusos, e se sentiu perdido só de olhar para aquilo. (p. 146).

— A única loucura para você seria negar o que aconteceu. Tomei uma coisa que pertencia a você e agora vim aqui para lhe dar algo em troca. É muito simples. Não escolhi você. As circunstâncias deram você a mim, e agora preciso cumprir direito a minha parte da transação. (p. 148).

Nesse momento, sem a menor indicação do que ia acontecer, Lillian se pôs a sorrir. Foi uma interrupção espontânea, uma reação completamente involuntária à guerra de nervos que vinha sendo travada entre os dois. Muito embora não tivesse durado mais do que um ou dois segundos, Sachs sentiu-se encorajado. Alguma coisa tinha sido comunicada, ele sentiu, algum pequeno contato se estabelecera e, conquanto não pudesse afirmar que coisa era essa, percebia que os ânimos haviam mudado. (p. 149).

Sachs não tinha mais a menor ideia do que estava fazendo. Era um ato de pura improvisação, um voo cego para o desconhecido. Quando se voltou de novo na direção da casa, viu Lillian parada na porta, uma figura pequena, iluminada, de mãos nos quadris, observando atentamente enquanto Sachs cuidava de seus negócios na rua silenciosa. Atravessou o gramado ciente de que os olhos dela estavam sobre ele, subitamente instigado pelas próprias incertezas, pela loucura da coisa terrível — qualquer que fosse ela — que estava prestes a acontecer. (p. 149).

Não havia mais sorrisos, nenhum lampejo de curiosidade nos olhos dela. Lillian convertera seu rosto em uma máscara, e enquanto ele a fitava do outro lado da mesa, em busca de um sinal, de alguma deixa que o ajudasse a começar, Sachs teve a sensação de que examinava a superfície de uma parede. Não havia como penetrar em Lillian, não havia meios de enxergar dentro dos seus pensamentos. Nenhum dos dois falou nada. Cada um esperava que o outro começasse, e quanto mais o silêncio de Lillian se prolongava, mais obstinadamente ela parecia resistir a Sachs. A certa altura, compreendendo que ele estava à beira de sufocar, que um grito começava ganhar impulso em seus pulmões, Sachs ergueu o braço direito e, calmamente, varreu para o chão tudo o que estava à sua frente. (p. 150).

Tinha dormido menos de quatro horas, e naqueles primeiros momentos após abrir os olhos sentia-se grogue demais para se mexer, pesado demais para mover um músculo. Queria fechar de novo os olhos, mas a meninazinha o olhava com demasiada atenção e, portanto, ele continuou a fitar seu rosto, aos poucos chegando à compreensão de que era a filha de Lillian Stern. (p. 152).

Sachs, porém, conseguiu encontrar um pacote de pão integral fatiado, e depois de pôr de lado as quatro primeiras fatias (cobertas por um mofo felpudo e azulado), optaram por uma refeição constituída de torradas e geleia de morango. Enquanto o pão esquentava na torradeira, Sachs desencavou do fundo do congelador uma lata de suco de laranja congelado toda coberta de neve, misturou-o em um jarro de plástico (que, antes, teve de ser lavado) e o serviu acompanhando o pão. Não havia nem sombra de café propriamente dito, mas, depois de uma busca minuciosa nos armários, ele acabou descobrindo um vidro de café solúvel descafeinado. Enquanto bebia a poção amarga, Sachs fazia caretas gaiatas e agarrava a garganta com as mãos. Maria riu da encenação, o que o animou a cambalear pela cozinha e emitir uma série de agoniantes sons sufocados. (p. 153).

Ela era tão pequena, pensou Sachs, e no entanto dava mostras de uma atitude quase amedrontadora, seus olhinhos bravios perfuravam muito firmes por dentro de Sachs, enquanto ela falava — inabalável, sem o menor vestígio de* tremor ou confusão. Sachs se espantou ao ver como ela conseguia imitar tão bem o jeito dos adultos, como se mostrava tão senhora de si quando, na verdade, não sabia nada, não sabia absolutamente nada. Ele teve pena de Maria por causa da sua coragem, pelo simulacro de heroísmo do seu rosto sério e radiante, e gostaria de poder voltar atrás e não ter dito nada do que disse e, assim, fazer dela uma criança outra vez, qualquer outra coisa que não essa patética miniatura de um adulto, com sua boca banguela, sua fita de cabelo amarela pendente no meio dos cachinhos. (p. 154 e 155).

Quanto mais áreas conseguiam limpar (dando a si mesmos cada vez mais espaço para se movimentarem), mais depressa conseguiam trabalhar, até que, no fim, começaram a parecer dois personagens de um velho filme mudo, movimentando-se em velocidade acelerada. (p. 157).

Sachs sentiu-se minimamente apaziguado pelo beijo que Lillian depositou na testa da filha, mas, tão logo Maria foi despachada para o andar de cima para mudar de roupa, ele não soube mais o que fazer. Lillian lhe dedicou a atenção mais limitada possível, movimentou-se pela cozinha encerrada em seu mundo particular e assim Sachs se conservou plantado onde estava, na porta, imóvel e em silêncio, enquanto ela conseguia desencavar do congelador um saco de café de verdade (que Sachs não havia notado) e pôs uma chaleira para ferver no fogão. Lillian usava roupas informais — calça preta, camisa branca de gola rolê, sapatos sem saltos —, mas passara batom e sombra nos olhos, e havia no ar um inequívoco aroma de perfume. Mais uma vez, Sachs não tinha a menor ideia de como interpretar o que se passava. O comportamento de Lillian lhe parecia insondável — ora amigável, ora fechado, ora desconfiado, ora distraído —, e quanto mais Sachs tentava entender, menos sentido fazia. (p. 158).

Quando voltou para a cozinha três ou quatro minutos depois, ela ainda estava na mesma posição, fitando pela janela, com uma das mãos no quadril, concentrada em algum pensamento secreto. Sachs caminhou direto até ela, abanou os mil dólares bem diante do seu rosto e perguntou onde deveria pôr o dinheiro. Ponha onde quiser, respondeu Lillian. Sua passividade estava começando a deixá-lo nervoso, e assim, em vez de pôr o dinheiro na bancada da cozinha, Sachs foi até a geladeira, abriu a porta de cima e jogou as notas dentro do congelador. Isso produziu o efeito desejado. Lillian virou-se para ele com uma expressão de espanto e perguntou por que tinha feito aquilo. Em vez de responder, Sachs voltou para o armário, retirou da prateleira os cinco mil dólares originais e pôs esse maço de notas também no congelador. Em seguida, afastando-se da porta do congelador, voltou-se para ela e disse:
— Ativos congelados. Como você não me diz se quer ou não quer o dinheiro, vamos deixar o seu futuro dormir no gelo. Nada mau, hein? Vamos enterrar o seu ninho de ovos na neve, e quando chegar a primavera e a terra começar a degelar, você vai lá espiar e aí descobre que está rica. (p. 158).
— Ótimo. Em outras palavras, quanto menos for dito, melhor.
— Não vamos dizer mais nenhuma palavra. E um dia vou abrir os olhos e você não estará mais aqui.
— Exatamente. O gênio vai se esgueirar de volta para dentro da garrafa e você nunca mais terá de pensar nele outra vez. (p. 159).

Sachs passou quase uma hora no banheiro do andar de cima — primeiro, de molho na banheira, depois se barbeando diante do espelho. Era absolutamente esquisito estar ali, pensava Sachs, deitado nu dentro da água, enquanto olhava para os objetos de Lillian: os intermináveis potes de cremes e loções, os recipientes dos batons e os vidros de delineadores de olhos, os sabonetes, os esmaltes de unha e os perfumes. Havia naquilo uma intimidade forçada que ao mesmo tempo o excitava e o repugnava. Fora admitido no reino secreto de Lillian, o local onde ela cumpria os rituais mais particulares e, no entanto, mesmo ali, instalado no coração dos domínios dela, Sachs não se sentia mais próximo de Lillian do que estivera antes. Podia cheirar, fuçar e tocar tudo o que desejasse. Podia lavar o cabelo com o xampu dela, podia se barbear com o seu aparelho de depilar, podia escovar os dentes com a escova de Lillian — e no entanto o fato era que permitir que Sachs fizesse essas coisas apenas vinha provar como ele significava pouco para ela. (p. 160).

Em seguida, foi ao quarto de Maria, passou os olhos por suas bonecas e livros, as fotografias do jardim de infância na parede, os jogos de tabuleiro e os bichos de pelúcia. Mesmo em desordem, o quarto se mostrava em condições bem melhores do que o de Lillian. Ali era a capital da bagunça, o quartel-general da catástrofe. Sachs notou a cama desfeita, os montes de roupas e peças íntimas largadas ao acaso, a tevê portátil coroada por duas xícaras de café manchadas de batom, os livros e as revistas espalhados pelo chão. (p. 160).

Sachs sabia que ela estaria aborrecida, mas não estava preparado para a enxurrada de insultos que se seguiu. No instante em que ouviu a voz dele, Maria começou a xingá-lo: imbecil, sacana, trapaceiro. Nunca tinha ouvido Maria falar assim — com ninguém, em nenhuma circunstância —, e sua fúria se tornou tão grande, tão monumental, que se passaram vários minutos até que ela o deixasse falar alguma coisa. Sachs estava mortificado. Ali, sentado, ouvindo Maria, entendeu enfim o que fora burro demais para perceber em Nova York. Maria estava apaixonada por ele e, além de todas as razões óbvias para o seu ataque (o inesperado da partida de Sachs, a afronta da sua ingratidão), ela falava com ele como uma amante que levou um fora, como uma mulher que tivesse sido trocada por outra. Isso piorava ainda mais a situação, pois Maria achava que essa outra mulher tinha sido, em outros tempos, a sua melhor amiga. Sachs lutou para dissuadi-la dessa ideia. Viera à Califórnia por motivos particulares, explicou; Lillian não significava nada para ele, não era nada do que Maria estava pensando, e assim por diante — mas não conseguiu soar muito convincente, e Maria o acusou de estar mentindo. A conversa corria o risco de ficar muito feia, mas Sachs, de algum modo, conseguiu se conter e não retrucar, e, no fim, o orgulho de Maria acabou vencendo a sua raiva, o que significava que ela já não tinha mais vontade de insultá-lo. Em vez disso, Maria se pôs a rir dele, ou talvez de si mesma, e então, sem nada que indicasse uma transição, o riso se converteu em lágrimas, um acesso de soluços agoniantes que fez Sachs se sentir, até a raiz dos cabelos, tão infeliz quanto ela. Levou certo tempo até que a tempestade passasse, mas, depois disso, eles puderam conversar. Não que a conversa os levasse a algum lugar, mas pelo menos o rancor acabara. (p. 161).

Não havia mais certo e errado, só opiniões, teorias e interpretações, um pântano de palavras conflitantes. Não faria a menor diferença se guardassem essas palavras para si mesmos. (p. 162).

— Você vai acabar no fundo do poço.
— Já estou lá. A questão toda agora é como sair desse buraco.
— Há maneiras mais simples.
— Não, para mim não há.
Houve uma longa pausa do outro lado da linha, uma inspiração e mais uma pausa. Quando Maria voltou a falar, sua voz tremia.
— Estou tentando decidir se devo ter pena de você ou simplesmente abrir a boca e berrar. (p. 162).

Sachs ficou seriamente abalado depois que desligaram. As últimas palavras de Maria foram uma espécie de despedida, uma declaração de que ela não estava mais do seu lado. Não importava o que os levara ao desentendimento: se fora causado por ciúme, por uma preocupação sincera ou por uma mistura das duas coisas. O resultado é que ele nunca mais poderia procurar por ela. Mesmo que a intenção de Maria não fosse deixar Sachs com essa ideia, mesmo que ela ficasse contente de receber notícias dele de novo, a conversa deixara para trás nuvens demais, incertezas demais. Como Sachs poderia vir a procurar apoio em Maria quando o simples ato de falar com ela bastava para fazê-la sofrer? Ele não tinha intenção de ir tão longe assim, mas, agora que as palavras haviam sido ditas, Sachs entendeu que tinha perdido o seu melhor aliado, a única pessoa com que podia contar em caso de necessidade. Estava na Califórnia havia pouco mais de um dia, e as pontes por onde ele poderia voltar já estavam em chamas. (p. 163).

Tratava-se de um desdobramento natural, um fenômeno tão pouco relevante quanto uma árvore, uma pedra ou uma partícula de poeira no ar. Era exatamente isso o que Sachs desejava, e, no entanto, seu papel naquela casa nunca ficou claramente definido. Tudo fora assentado segundo algum critério secreto e tácito, e ele, instintivamente, sabia que seria um erro confrontar Lillian com perguntas sobre o que ela queria dele. Sachs tinha de adivinhar sozinho, tinha de descobrir um lugar para si, na força presente nos menores gestos e alusões, nos mais inescrutáveis comentários e evasivas. Não que temesse o que poderia acontecer caso fizesse algo errado (embora nunca tenha duvidado de que a situação podia se voltar contra ele; que Lillian podia retomar sua ameaça e ligar para a polícia), mas a questão era que Sachs queria que sua conduta fosse cem por cento exemplar. Esse era o motivo principal da sua vinda para a Califórnia: reinventar sua vida, encarnar um ideal de bondade que o poria em uma relação completamente distinta consigo mesmo. Mas Lillian era o instrumento que ele escolhera e só por meio dela essa transformação poderia ser alcançada. Sachs pensara nisso como uma viagem, uma longa viagem rumo às trevas da sua alma, mas, agora que a viagem estava em curso, ele não tinha mais certeza de estar seguindo na direção certa.
Talvez não fosse tão difícil para ele se Lillian fosse uma outra pessoa, mas a tensão de dormir toda noite sob o mesmo teto que Lillian o mantinha em constante desequilíbrio. Após dois dias apenas, Sachs sentiu-se aterrorizado ao descobrir como desejava desesperadamente tocá-la. O problema não era a beleza de Lillian, compreendeu Sachs, mas o fato de sua beleza ser a única parte dela que Lillian lhe permitia conhecer. Caso fosse menos intransigente, menos avessa a criar qualquer relação mais pessoal com Sachs, ele teria alguma outra coisa para pensar, e o feitiço do desejo poderia ser quebrado. No pé em que estavam as coisas, Lillian se recusava a revelar-se para ele, o que significava que ela nunca chegava a ser nada além de um objeto, nada além da soma dos atributos da sua pessoa física. E essa pessoa física comportava um poder enorme: deslumbrava e chocava, acelerava o pulso, punha por terra qualquer resolução nobre. Não foi para esse tipo de luta que Sachs havia se preparado. Isso não se encaixava no esquema que ele havia arquitetado tão cuidadosamente em sua cabeça. Agora, o seu corpo era acrescentado à equação, e aquilo que antes parecia simples se tornava um atoleiro de estratégias febris e motivações clandestinas. (p. 165).

Sachs manteve tudo isso em segredo. Nas circunstâncias, seu único recurso era dar uma resposta à altura para a indiferença de Lillian, agindo com uma calma inabalável, fingindo estar perfeitamente feliz com o modo como as coisas corriam entre eles. Simulava um ar de despreocupação quando estava com ela; *mostrava-se tranquilo, cordial, solícito; sorria com frequência; nunca reclamava. Como sabia que ela vivia com um pé atrás, que já desconfiava de que houvesse em Sachs os sentimentos de que ele agora se sentia culpado, era especialmente importante que Lillian nunca o visse olhando para ela do jeito que tinha vontade de olhar. Um único relancear de olhos poderia arruiná-lo, sobretudo com uma mulher experiente como Lillian. Ela passara toda a vida sendo observada por homens e havia de ser extremamente sensível aos olhares de Sachs, ao mais leve sinal de alguma intenção em seus olhos. Isso produzia em Sachs uma tensão quase insuportável toda vez que ela estava por perto, mas ele se segurava com bravura e nunca abandonava a esperança. Não pedia nada dela, não esperava nada e rezava para que, mais cedo ou mais tarde, ele a vencesse pelo cansaço. Essa era a única arma de que dispunha e a empregava sempre que podia; humilhava-se diante dela com tamanha determinação, com uma abnegação tão ardorosa, que sua própria fraqueza se convertia em uma forma de força. (p. 165 e 166).

Sachs tentava cobrar ânimo dessa anomalia. Nunca punha em dúvida que, de certa maneira, Lillian se aproveitava dele — jogava suas responsabilidades nas costas de um palerma cheio de boa vontade —, mas, de outro lado, a mensagem parecia muito clara: ela se sentia segura com ele, sabia que não estava ali para lhe fazer mal.
Maria tornou-se sua companheira, seu prêmio de consolação, sua recompensa indelével. Sachs preparava o café da manhã para ela todo dia, levava-a para escola, ia apanhá-la de tarde, escovava seu cabelo, dava-lhe banho, envolvia-a nas cobertas da cama, de noite. Esses eram prazeres que ele não podia ter previsto e, à medida que seu lugar na rotina de Maria se tornava mais firmemente arraigado, a afeição entre os dois se aprofundava cada vez mais. (p. 167).

Não fazia isso para suborná-la. Era simplesmente uma manifestação espontânea de afeto, e quanto mais a conhecia, mais seriamente encarava a tarefa de torná-la feliz. Sachs nunca passara muito tempo com crianças e o espantou descobrir quanto esforço era necessário para cuidar delas. Requeria uma enorme adaptação interior, mas, uma vez ajustado ao ritmo das exigências de Maria, passou a acolhê-las com alegria, a apreciar o esforço por si só. Mesmo quando ela estava longe, Maria o mantinha ocupado. Era um remédio contra a solidão, descobriu Sachs, um modo de aliviar o fardo de ter sempre de pensar em si. (p. 169).

Nem mesmo a sua crescente amizade com Maria parecia afetar Lillian. Isso não provocou nenhum acesso de ciúme, nenhum sorriso de incentivo, nenhuma reação que ele pudesse avaliar. Lillian entrava na casa enquanto ele a menina estavam juntinhos no sofá lendo um livro, ou debruçados sobre o chão desenhando, ou preparando um chá festivo para uma festa de bonecas, e a única coisa que ela fazia era dizer alô, dar um beijo rápido no rosto da filha e depois ir para o quarto, onde trocava de roupa e se aprontava para sair de novo. Não era nada mais do que um fantasma, uma linda aparição que flutuava para dentro e para fora da casa em intervalos irregulares, sem deixar vestígios de sua passagem. Sachs pressentia que ela devia saber o que estava fazendo, que devia* haver um motivo para aquele comportamento enigmático, mas nenhuma das razões que ele conseguia imaginar o satisfazia. No máximo, Sachs concluía que ela o estava pondo à prova, o atiçava com essa brincadeira de esconde-esconde, para ver quanto tempo ele conseguia suportar. Lillian queria saber se ele iria explodir, queria saber se a vontade dele ainda era tão forte quanto a dela. (p. 169 e 170).

Sachs ficou impressionado, mas, em vista de tudo o que precedera aquele desempenho, não estava muito disposto a ir atrás das aparências. Podia se tratar de uma armadilha, pensou, uma escaramuça para iludi-lo e induzi-lo a baixar a guarda, e embora tudo o que desejava fosse estar em harmonia com ela, aderir à torrente da alegria de Lillian, Sachs não foi capaz de se persuadir a fazer isso. Ficou tenso e perplexo, incapaz de falar, e o jeito alegre que tanto se empenhava em simular diante de Lillian de repente o abandonou. Lillian e Maria conversavam quase sozinhas e, após um tempo, ele se tornou pouco mais do que um espectador, uma presença ambígua, que espreitava na periferia da festa. Teve ódio de si mesmo por agir assim, e quando recusou um segundo copo de vinho que Lillian se propôs a lhe servir, começou a pensar em si com desagrado, como um completo imbecil. (p. 170).

A confusão deixou Sachs estupefato. Mesmo as suas incertezas eram agora objeto de dúvida, e pouco a pouco ele se sentiu dobrar sob o peso de toda aquela aventura tenebrosa. Talvez devesse ter dado ouvidos a Maria Turner, pensou. Talvez ele não tivesse nenhuma razão para estar ali e devesse fazer as malas e cair fora. (p. 170).

Essas palavras deram a partida e, durante as duas horas seguintes, ela lhe contou mais a respeito de si mesma do que a soma de tudo o que dissera nas semanas anteriores, e falava com Sachs de um modo que gradualmente dissolveu as mágoas que ele vinha nutrindo contra ela. Não que Lillian tivesse, diretamente, se desculpado pelo que quer que fosse, e Sachs tampouco estava ansioso para acreditar no que ela dizia, mas aos poucos, e apesar de toda a sua prudência e desconfiança, ele veio a entender que ela não estava se sentindo nem um pouco melhor do que ele com aquela situação, que ele a deixava tão infeliz quanto Lillian a ele.
Mas isso demorou certo tempo. No início, Sachs supôs que fosse uma encenação, mais uma manobra para manter seus nervos à flor da pele. Em meio ao turbilhão de absurdos que bramia à sua volta, conseguiu até se convencer de que Lillian sabia que ele planejava ir embora — como se ela pudesse ler a sua mente, como se tivesse entrado no seu cérebro e escutado seus pensamentos*.
Lillian não descera para fazer as pazes com ele. Descera para amolecer seu coração, para ter certeza de que ele não desertaria antes de ter entregado todo o dinheiro. Sachs estava à beira do delírio, nessa altura, e se Lillian não tivesse ela mesma mencionado o dinheiro, ele nunca saberia o quanto havia sido injusto com ela. Foi nesse momento que a conversa deu uma guinada. Ela começou a falar sobre o dinheiro, e o que disse tinha tão pouca semelhança com aquilo que Sachs imaginara que Lillian ia dizer que, de repente, ele sentiu vergonha de si mesmo, vergonha o bastante para se pôr a escutá-la a sério.
— Você já me deu quase trinta mil dólares — disse ela. — E continua a entrar mais e mais dinheiro todo dia, e quanto mais dinheiro vem, mais fico apavorada. Não sei por quanto tempo você pretende levar isso adiante, mas trinta mil dólares já é o bastante. É mais do que o bastante, e acho que a gente deve parar antes que as coisas saiam do controle. (p. 171 e 172).

Ela então começou a chorar, de olhos fixos em Sachs, e deixou as lágrimas rolarem pela face — sem tocar nelas, como se não quisesse admitir que estavam ali. Era um pranto orgulhoso, pensou Sachs, ao mesmo tempo uma demonstração de angústia e uma recusa de se submeter a isso, e ele a respeitou por conseguir se controlar com tamanha firmeza. Contanto que ela as ignorasse, contanto que Lillian não as enxugasse com a mão, aquelas lágrimas nunca poderiam humilhá-la. Lillian, depois, falou quase sozinha, fumando um cigarro após o outro, enquanto desfiava um comprido monólogo de remorsos e recriminações contra si mesma. Para Sachs, foi difícil acompanhar boa parte desse discurso, mas ele não se atreveu a interrompê-la, temeroso de que alguma palavra inadequada ou alguma pergunta fora de hora a levasse a parar. (p. 172).

Ele gostou de Lillian haver usado marcas de beijo em lugar de assinar o nome. Mesmo que essas marcas tivessem sido postas ali com a mais inocente das intenções — como um reflexo, uma variante da saudação rotineira —, o triplo X sugeria também outras coisas. Era o mesmo código para sexo que Sachs vira no rótulo da caixa de fósforos na noite anterior, e ficou excitado ao imaginar que Lillian fizera isso de propósito, que substituíra o seu nome por aquele sinal com o objetivo de pôr no pensamento dele a semente de uma associação de ideias. (p. 173).

Era a última coisa que ele esperava, e saiu de lá se sentindo traído, causticado pela mentira que ela lhe contara. Lillian não voltou para casa nessa noite, e Sachs se sentiu quase contente de poder ficar sozinho, de ser poupado do mal-estar de ter de vê-la. Não havia nada que ele pudesse dizer, afinal de contas. Se Sachs contasse aonde fora naquela tarde, seu segredo seria revelado e aquilo destruiria toda e qualquer chance que ainda tivesse com relação a ela. No fundo, talvez tivesse sido sorte dele passar por aquilo naquele momento, e não mais tarde. Teria de ser mais cauteloso com seus sentimentos, disse para si mesmo. Chega de gestos impulsivos. Chega de arroubos de entusiasmo. Era uma lição que ele precisava aprender, e esperava nunca mais esquecer.
Mas esqueceu. E não apenas com o correr do tempo, mas no dia seguinte. Novamente, era tarde da noite. Novamente, já tinha posto Maria para dormir, e novamente estava acomodado em seu sofá, na sala — ainda desperto, dessa vez, lendo um dos livros de Lillian sobre reencarnação. Espantou-o que ela pudesse se interessar por tamanha conversa-fiada e tocava a leitura adiante com uma espécie de sarcasmo vingativo, examinava cada página como se fosse um testemunho da burrice de Lillian, da sua asfixiante estreiteza mental. Ela era ignorante, disse Sachs para si mesmo, uma tola mixórdia de modismos e ideias mal digeridas, e como ele poderia esperar que uma pessoa assim o compreendesse, assimilasse uma décima parte do que estava fazendo? (p. 174).

— Gostou do meu vestido? — perguntou. — Seiscentos dólares, na promoção. Um negócio da China, não acha?
— Valeu cada centavo do preço. E o tamanho está exato também. Se fosse um pouquinho menor, a imaginação perderia o emprego. Nem daria para notar que você o estava usando, quando o vestisse.
— É do jeito que eu gosto. Simples e sedutor.
— Não estou muito seguro quanto à simplicidade. A outra coisa, sim. Mas, definitivamente, não é simples.
— E nada tem de vulgar.
— Não, nem um pouco. É bem-feito demais para isso.
— Ótimo. Alguém me disse que era vulgar e eu queria ouvir a sua opinião antes de tirá-lo. (p. 175). 

— Às vezes você é meio tapado, não é não?
— Provavelmente. Muitas vezes me saio bem em questões complicadas. Mas coisas simples costumam me deixar confuso.
— Como tirar um vestido, suponho. Se você ficar nessa ensebação muito tempo, vou ter de tirar o vestido sozinha. E assim não ia ser tão bom, não é?
— Não, não ia ser tão bom. Sobretudo quando ele não parece muito difícil de tirar. Não tem botões nem colchetes para manusear, não tem zíper para correr. É só puxar de baixo para cima e soltar.
— Ou então começar por cima e ir descendo. A escolha é sua, senhor Sachs.
Um instante depois, Lillian estava sentada a seu lado, no sofá, e em seguida o vestido estava jogado no chão. Lillian se atirou sobre ele com uma mistura de furor e brincadeira, atacou seu corpo em investidas curtas, arquejantes, e em nenhum momento ele fez nada para detê-la. Sachs sabia que Lillian estava embriagada, mas, mesmo que tudo fosse um acidente, mesmo que fossem só a bebedeira e o tédio que a impeliam para os seus braços, ele estava ansioso para aproveitar. Talvez não houvesse outra chance, disse para si mesmo, e após quatro semanas esperando que exatamente aquilo acontecesse, seria inimaginável rejeitá-la. (p. 175).

Era impossível saber o que havia acontecido, e Sachs nunca teve coragem de perguntar. Simplesmente aceitou, deixou-se levar por uma onda de felicidade inexplicável, sem desejar outra coisa que não estar exatamente onde estava. Da noite para o dia, ele e Lillian viraram um casal. Ela, agora, ficava em casa com ele, partilhava os afazeres domésticos, assumia de novo as responsabilidades de mãe de Maria, e toda vez que olhava para Sachs, era como se repetisse o que lhe dissera naquela primeira manhã, juntos, na cama. Passou-se uma semana e, quanto mais parecia improvável que ela fosse voltar atrás, mais Sachs tomava por genuíno o que estava acontecendo. Durante vários dias seguidos ele saiu com Lillian, em orgias de consumo — derramou sobre ela vestidos e sapatos, roupas íntimas de seda, brincos de rubi e um colar de pérolas. Eles se esbaldaram em bons restaurantes e beberam vinhos caros, conversaram, fizeram planos, treparam até dizer chega. Era bom demais para ser verdade, talvez, mas naquela altura ele já não era mais capaz de refletir no que era bom ou no que era verdadeiro. Em pouco tempo, ele já não era mais capaz de raciocinar a respeito de nada. (p. 176).

É impossível saber quanto tempo poderia ter durado. Se fossem só os dois, eles poderiam ter tirado algum proveito dessa explosão sexual, desse romance bizarro e absolutamente implausível. Apesar de suas implicações diabólicas, é possível que Sachs e Lillian conseguissem se fixar em algum lugar e levassem uma vida autêntica, juntos. Mas outros fatos se impuseram a eles, e menos de duas semanas após o início de tudo, essa nova vida já estava sendo posta em questão. Haviam se apaixonado, talvez, mas haviam também perturbado o equilíbrio doméstico, e a pequena Maria não ficou nem um pouco satisfeita com a mudança. Sua mãe lhe fora devolvida, mas Maria também perdera alguma coisa e, do seu ponto de vista, aquela perda devia ter parecido o desmoronamento de um mundo. Durante quase um mês, ela e Sachs tinham vivido juntos em uma espécie de paraíso. Ela fora o único objeto das afeições dele, e Sachs a mimou e paparicou de uma forma como ninguém jamais havia feito. Agora, sem nenhuma palavra de aviso, ele a abandonara. Mudou-se para a cama da mãe e, em vez de ficar em casa e fazer companhia a Maria, Sachs a deixava com babás e saía toda noite. Ela ficou magoada por isso. Ficou magoada porque a mãe se colocou entre eles, ficou magoada porque Sachs a desprezou, e depois de aguentar tudo isso calada por três ou quatro dias, a normalmente dócil e* carinhosa Maria se converteu em um horror, um pequeno motor de birras, manhas e lágrimas enfurecidas. (p. 176 e 177).
Mesmo quando Maria, um pouco depois, bateu a cabeça com força nas traves de um brinquedo de escalar, não parecia haver nenhum motivo de alarme. Ela correu para eles, chorando, como qualquer criança faria, e Lillian a abraçou, a acalmou, beijou a marca vermelha na sua têmpora com um carinho e uma ternura especiais. Isso é um bom remédio, pensou Sachs, o tratamento tradicional, mas nesse caso não produziu nenhum efeito. Maria continuou a chorar, recusou-se a se deixar consolar pela mãe e, muito embora o machucado não passasse de uma leve esfoladura, ela se queixava com veemência, soluçava com tanta força que quase começou a sufocar. Sem se abalar, Lillian a abraçou de novo, mas dessa vez Maria a rechaçou, acusou a mãe de estar apertando com muita força. Sachs pôde ver a mágoa nos olhos de Lillian quando isso aconteceu, e depois, quando Maria a empurrou para trás, viu também um lampejo de raiva. Sem mais nem menos, elas pareciam à beira de uma crise generalizada. (p. 177).

Eram forçosamente curtas, mas pareciam melhorar com o passar do tempo: mais concisas, mais poéticas, mais originais em sua maneira de expressar a decepção com o país. “Todo mundo está só”, começava uma delas. “Portanto, não temos para onde nos voltar, senão uns para os outros.” Ou: “A democracia não é uma dádiva. Deve ser conquistada todos os dias, de outro modo corremos o risco de perdê-la. A única arma à nossa disposição é a justiça”. Ou: “Se tratarem mal as crianças, vocês acabarão por destruir a si mesmos. Só podemos existir no presente na condição de mantermos nossa fé no futuro”. (p. 181).

Nesse sentido, havia algo quase bíblico em suas exortações e, após um tempo, ele passou a soar menos um político revolucionário do que um profeta sofrido e moderado. No fundo, ele meramente dava voz àquilo que muita gente já sentia e, em certos círculos pelo menos, havia quem declarasse efetivamente apoiar o que ele estava fazendo. 9p. 181).

Mas isso era o máximo a que eu chegava. O Fantasma era um sinal da ausência do meu amigo, um catalisador do sofrimento pessoal, porém mais de um ano se passou antes que eu tivesse notícia do Fantasma em pessoa. (p. 182).

Ele havia provocado uma perturbação em algum ponto profundo da Terra e agora as ondas começavam a vir à tona, alcançando toda a superfície ao mesmo tempo. Algo tinha acontecido, algo novo estava no ar, e, naquela primavera, havia dias em que eu caminhava pela cidade e quase tinha a impressão de poder sentir as calçadas vibrarem debaixo dos meus pés. (p. 182).

Há um ponto em que o livro começa a tomar conta da vida da gente, um ponto em que o mundo que você imaginou se torna mais importante do que o real, e passou muito rápido pela minha cabeça que eu estava sentado na mesma cadeira que Sachs usava, que escrevia na mesma mesa em que ele escrevia, que respirava o mesmo ar que ele, tempos antes, havia respirado. Para mim, dava no mesmo; no máximo, aquilo era uma fonte de prazer para mim. Apreciei ter meu amigo por perto outra vez e sentia que, se ele soubesse que eu ocupava seu antigo lugar, ficaria feliz. Sachs era um fantasma bem-vindo e não deixou para trás nenhuma ameaça e nenhum espírito maligno em seu barracão. Ele queria que eu estivesse ali, eu sentia isso, e muito embora, aos poucos, eu tenha adotado a mesma opinião de Iris (de que ele estava morto, de que nunca mais voltaria), era como se nós dois ainda nos entendêssemos, como se nada entre nós tivesse mudado. (p. 182).

Em vista do que eu sabia acerca de suas últimas atividades, a dissertação obviamente representava algo mais do que um mero trabalho acadêmico. Constituía um passo no seu desenvolvimento interior, um modo de pôr em xeque suas próprias ideias sobre a mudança política. (p. 187).

Eu jamais levantara um dedo por coisa nenhuma. Ficara parado resmungando e reclamando durante quinze anos, mas, a despeito de todas as minhas opiniões veementes e as minhas atitudes aguerridas, nunca me pus de fato na linha de combate. Eu era um hipócrita, e Dimaggio não, e quando me comparei a ele, comecei a sentir vergonha. Meu primeiro pensamento foi escrever algo a seu respeito. Uma coisa semelhante ao que ele havia escrito sobre Berkman, só que melhor, mais profundo, um autêntico exame da sua alma. Eu planejava uma elegia, um monumento em forma de livro. Se eu conseguisse fazer isso por Dimaggio, pensei, talvez pudesse começar a me redimir, talvez algo de bom pudesse advir da sua morte. (p. 187).

Mas eu andava às cegas, entende, procurava aos trancos e barrancos alguma coisa em que me segurar e, por algum tempo, isso me pareceu sólido, uma solução melhor do que qualquer outra coisa. Nunca cheguei a lugar nenhum com esse projeto. Até parei para fazer anotações, algumas vezes, mas não conseguia me concentrar, não conseguia pôr meus pensamentos em ordem. Eu não sabia qual era o problema. Talvez eu ainda tivesse demasiada esperança de que minha situação com Lillian se arranjasse de novo. Talvez eu não acreditasse que era possível, para mim, voltar a escrever. Só Deus sabe o que me detinha, mas, toda vez que eu pegava uma caneta e tentava começar, me punha a suar frio, minha cabeça girava e eu tinha a sensação de que estava à beira de despencar. Exatamente como na vez em que caí da escada de incêndio. Era o mesmo pânico, a mesma sensação de impotência, o mesmo ímpeto rumo ao esquecimento. (p. 188).

Encolhi-me no primeiro portal que encontrei, só para sair da rua. Calhou de ser uma livraria de livros usados, uma loja grande, com teto alto, e seis ou sete salas. Atravessei toda a sua extensão até o fundo e me escondi atrás de uma fila de estantes altas, meu coração martelava, e eu tentei me acalmar. Havia uma montanha de livros na minha frente, milhões de palavras empilhadas umas sobre as outras, um universo inteiro de literatura refugada, livros que as pessoas não queriam mais, livros que tinham sido vendidos, que haviam sobrevivido à sua utilidade. (p. 188).

De uma hora para outra, minha vida pareceu ganhar sentido, para mim. Não apenas os meses anteriores, mas minha vida inteira, desde o primeiro momento. Foi uma confluência milagrosa, uma surpreendente conjunção de* motivos e ambições. Eu descobrira o princípio unificador, e essa única ideia acabaria por colar todos os cacos de mim mesmo. Pela primeira vez na vida, eu existiria por inteiro. Não dá nem para começar a transmitir a você a força da minha felicidade. Eu me senti livre outra vez, absolutamente emancipado pela minha decisão. Não que eu desejasse deixar Lillian e Maria, mas havia agora coisas mais importantes para eu resolver e, uma vez que entendi isso, toda a amargura e o sofrimento do mês precedente dissiparam-se no meu coração. Eu já não estava enfeitiçado. Me sentia animado, revigorado, purificado. Quase como um homem que tivesse descoberto a religião. Como um homem que tivesse ouvido o apelo da sua vocação. A questão inacabada da minha vida de repente deixou de ser importante. Eu estava pronto a marchar para o deserto e pregar a palavra sagrada, estava pronto a começar tudo de novo. (p. 189 e 190).

Eu trouxe Lillian para uma aliança impossível, e ela não soube como encarar aquilo. Queria o dinheiro e ao mesmo tempo não queria. O dinheiro a deixara cobiçosa e sua ganância a humilhava. Lillian queria que eu a amasse e odiava a si mesma por, em troca, me amar também. Não a culpo mais por me fazer comer o pão que o diabo amassou. Lillian é uma pessoa sem freios. Não é apenas linda, entende, mas incandescente. Sem temores, fora de controle, pronta para o que der e vier, e nunca teve uma chance de ser, ao meu lado, quem ela era na realidade. No fim, o notável não foi eu ter ido embora, mas sim haver conseguido ficar ali tanto tempo. As circunstâncias eram tão singulares, tão perigosas e perturbadoras, que acho que começaram a excitar Lillian. Foi isso que a atraiu: não eu, mas o estímulo da minha presença ali, as sombras que eu representava. A situação estava impregnada de toda sorte de possibilidades românticas e, após um tempo, Lillian não conseguiu mais resistir a isso, deixou-se levar bem mais longe do que pretendia. (p. 190).

A gente se vê diante de tantas oportunidades e de repente a vida vem e toma tudo de nós, e então a gente fica de fora, à margem, e para sempre tem de se virar sozinho. (p. 191).

Duvidei que eu fosse capaz de dormir. Havia coisas demais para digerir, imagens demais se agitavam na minha mente, mas, assim que minha cabeça tocou no travesseiro, comecei a perder a consciência. Senti-me como se tivesse levado uma paulada, como se meu crânio tivesse sido esmagado por uma pedra. Algumas histórias são, talvez, terríveis demais, e o único modo de admiti-las dentro de nós é fugir, dar as costas para elas e nos refugiar nas trevas. (p. 191).

Dessa vez, estávamos ao ar livre, sentados nas mesmas cadeiras reclináveis, de madeira, onde nos sentamos em tantas outras noites ao longo dos anos: duas vozes incorpóreas no escuro, invisíveis um para o outro, sem enxergar coisa alguma, exceto quando um de nós acendia um fósforo e nosso rosto fulgurava por um instante, nas trevas. Recordo a ponta cintilante dos charutos, os vaga-lumes que pulsavam nos arbustos, um vasto céu de estrelas no alto — as mesmas coisas que recordo de tantas outras noites, no passado. Isso ajudava a me manter calmo, penso eu, porém ainda mais importante do que o cenário era o próprio Sachs. O longo sono o havia recuperado, e desde o início ele se mostrou com pleno domínio da conversa. Não havia a menor incerteza em sua voz, nada que me fizesse sentir que eu não podia confiar nele. (p. 192).

Era uma história comprida e inacreditável, uma saga de viagens e disfarces, de calmarias e frenesis, e de fugas no último minuto. (p. 192).

Era uma experiência de estraçalhar os nervos, disse ele, mas valeu a pena cada minuto. (p. 193).

Entrar e sair; bom dia e até logo. Num instante ia embora, como se seu corpo houvesse se dissolvido no ar rarefeito. Era um trabalho duro, mas, após um ano e meio, Sachs ainda não deixara um só vestígio atrás de si. (p. 194).

O movimento constante, a tensão de sempre fingir ser outra pessoa, a solidão — mas Sachs fez pouco-caso de minhas apreensões, como se não tivessem nenhuma importância. Estava preocupado demais, explicou, concentrado demais no que fazia para pensar nesse tipo de coisa. Se Sachs havia criado algum problema para si mesmo, consistia unicamente em como enfrentar o sucesso. (p. 194).

Sachs estava deixando uma marca, disse ele, uma marca muito maior do que jamais pensara ser possível. Enquanto estivesse em condições de levar aquilo adiante, estava disposto a enfrentar todo e qualquer inconveniente, abrir a ferro e fogo o seu caminho. Era o tipo de coisa que um fanático diria, entendi depois, o reconhecimento de que não precisava mais de uma vida própria, porém Sachs falava com tamanha felicidade, tamanho entusiasmo e ausência de dúvida, que mal me dei conta do significado dessas palavras, na ocasião.
Havia mais a dizer. Todos os tipos de perguntas haviam se acumulado na minha cabeça, mas àquela altura já amanhecera e eu estava esgotado demais para prosseguir. 9p. 195).

Havia mil pontas soltas e eu imaginava ter o direito de saber de tudo, imaginava que ele tinha a obrigação de responder a todas as minhas perguntas. Mas não o pressionei a continuar. (p. 195).

Talvez eu fosse apenas o último em uma longa série de escapadas silenciosas, mais uma pessoa cujo nome Sachs riscara da sua lista. (p. 195).

O que quer que você pense de mim, sou grato por ter me ouvido. A história precisava ser contada, e foi melhor que fosse você do que qualquer outra pessoa. Se a hora chegar, você saberá como contá-la aos outros fará com que compreendam o que significa, afinal, tudo isso. Seus livros dão prova disso e, quando tudo estiver encerrado, você será o único com quem poderei contar. Você foi muito mais longe do que jamais cheguei, Peter. Admiro você pela sua inocência, pelo modo como persistiu em uma só coisa por toda a vida. Meu problema foi que nunca consegui acreditar nisso. Sempre quis algo mais, porém nunca soube onde o encontrar. Agora sei. Depois de todas as coisas horríveis que aconteceram, por fim descobri algo em que acreditar. Isso é a única coisa que importa para mim agora. Perseverar nesse caminho e mais nada. Por favor, não me censure por isso — e acima de tudo não tenha pena de mim. Estou bem. Nunca estive melhor. Vou continuar a infernizar a vida deles enquanto eu puder. (p. 196).

Devo ter lido e relido aquela carta umas vinte ou trinta vezes. Não havia mais nada que eu pudesse fazer, e levei pelo menos esse tempo para assimilar o choque da sua partida. As primeiras leituras me deixaram magoado, aborrecido com ele por escapulir enquanto eu estava de costas. Mas depois, bem lentamente, à proporção que relia a carta mais vezes, comecei, de má vontade, a reconhecer que Sachs tinha razão. A conversa seguinte seria mais difícil do que as outras. É verdade que eu planejava contestá-lo, que havia resolvido fazer todo o possível para convencê-lo a parar. Sachs pressentira isso, suponho, e, em lugar de permitir que alguma animosidade se desenvolvesse entre nós, ele foi embora. Eu não podia, na verdade, condená-lo por isso. Ele quis que a nossa amizade sobrevivesse, e como sabia que essa visita poderia ser a última ocasião em que nos veríamos, não quis que ela terminasse de forma ruim. Esse era o objetivo da carta. Levar as coisas a um final, mas sem lhes dar fim. Foi o jeito de Sachs me dizer que não podia se despedir de mim. (p. 196). 

Eu lhe dera minha palavra de que não contaria nada, e quanto mais eu guardava seu segredo, menos eu pertencia a mim mesmo. Deus sabe de onde vinha minha obstinação, mas jamais deixei escapar uma sílaba. Nem para Iris, nem para Fanny e Charles, nem para ninguém. Pus nos ombros o fardo desse silêncio por Sachs e, no fim, o peso quase me esmagou. (p. 197).