quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Chuck Palahniuk: Sobrevivente (trechos)


Ficar aqui e tentar consertar a vida dela não é nada além de uma grande perda de tempo. As pessoas não querem consertar a própria vida. Ninguém quer resolver os próprios problemas. Seus dramas. Suas distrações. Resolver suas histórias. Consertar suas confusões. Porque, nesse caso, o que sobraria? Apenas o grande e assustador desconhecido. A maioria das pessoas que me liga já sabe o que quer. Algumas querem morrer, mas esperam minha permissão. Algumas querem morrer e só precisam de um pouco de incentivo. Um empurrãozinho. Uma pessoa com tendências suicidas já não tem mais muito senso de humor. Uma palavra errada e ela se torna um obituário na semana seguinte. Eu mal presto atenção à maioria das ligações que recebo, de qualquer forma. Na maioria dos casos, decido quem vai viver e morrer só pelo tom da voz. (p. 10).

Por favor, não pense que estou aqui para salvar vidas. Ser ou não ser, não me dou ao trabalho de decidir. E não pense que estou dando uma de superior ao falar com as mulheres desse jeito. Mulheres vulneráveis. Aleijadas emocionais. (p. 12).

Se você usar o primeiro tipo de adesivo, as pessoas vão ligar para confessar pecados, reclamar, pedir conselhos, pedir aprovação. As garotas que você conhece nunca estão muito longe de ser casos perdidos. Um harém de mulheres vai agarrar o telefone em desespero e pedir que você retorne a ligação, por favor, retorne a ligação. Por favor. Pode me chamar de predador sexual, mas, quando penso em predadores, penso em leões, tigres, grandes felinos, tubarões. Não se trata de uma relação entre predador e presa. Não se trata de um urubu comedor de carniça ou de uma hiena risonha contra uma carcaça. Não se trata de um parasita contra um hospedeiro. Somos todos miseráveis juntos. (p. 13). 

As pessoas sempre se decepcionam quando digo a verdade, que nenhum de nós se sentia oprimido. Nenhum de nós se ressentia da igreja. Nós simplesmente vivíamos. Nenhum de nós era muito torturado por sentimentos. Essa era a profundidade total da nossa fé. Pode chamá-la de superficial ou de profunda. Não havia nada que nos amedrontasse. Era no que as pessoas criadas na colônia da igreja acreditavam. Tudo que acontece no mundo foi um decreto de Deus. Uma tarefa a ser concluída. Todas as tristezas ou alegrias só atrapalhavam sua utilidade. Todas as emoções eram decadentes. Expectativas ou arrependimentos eram uma bobagem a mais. Um capricho. Essa era a definição da nossa fé. Nada deveria ser conhecido. Tudo deveria ser esperado. No mundo lá fora, Adam disse que um pacto com o demônio abastecia os automóveis e movia os aviões através dos céus. O mal fluía nos fios elétricos* para tornar as pessoas preguiçosas. As pessoas colocavam pratos sujos no armário e o armário os lavava. Água encanada levava embora o lixo e a merda deles, de modo que eram problema dos outros. Adam segurou meu queixo entre o polegar e o indicador e se inclinou para me olhar nos olhos, e disse que, no mundo lá fora, as pessoas olhavam em espelhos. Ele disse que, bem na frente dele no ônibus, as pessoas pegavam espelhos e todo mundo ficava ocupado olhando a própria aparência. Era uma vergonha. Lembro-me de que esse foi meu último corte durante um bom tempo, mas não me lembro bem por quê. Minha cabeça era um campo de palha eriçada com o pouco cabelo que havia restado. No mundo lá fora, Adam disse, todas as contas são feitas por máquinas. Toda a comida era servida por garçonetes. (p. 17 e 18).

Não dá para decorar a Bíblia inteira de cabeça. Não sobraria espaço para você se lembrar nem do seu nome. A casa da qual cuido há seis anos é como se pode imaginar: é grande e fica em uma área grã-fina da cidade. Isso comparado à região onde moro. Todas as quitinetes no meu bairro são como um assento sanitário quentinho. Alguém estava lá segundos antes de você e alguém vai estar lá assim que você sair. Na área da cidade onde trabalho todas as manhãs, há pinturas nas paredes. Atrás das portas da frente, há salas e mais salas nas quais ninguém entra. Cozinhas onde ninguém cozinha. Banheiros que nunca ficam sujos. O dinheiro que deixam por aí para testar se vou pegá-lo nunca é menos do que uma nota de cinquenta dólares, caída atrás da cômoda, como se estivesse lá por acidente. As roupas deles parecem ter sido criadas por um arquiteto. Ao lado do interfone há uma agenda gorda que eles mantêm cheia de tarefas para mim. Eles querem planejar meus próximos dez anos, tarefa por tarefa. À maneira deles, tudo na vida se transforma em um item de uma lista. Algo a ser executado. Você começa a perceber como a vida é monótona. A menor distância entre dois pontos é uma linha reta, uma agenda, uma tabela de horários, o itinerário do resto da sua vida. (p. 20).

Às vezes, fico aqui até tarde da noite. Ou seja, depois que todos foram embora. Aí caminho sozinho depois da meia-noite e meu sonho é que, numa noite dessas, uma catacumba vai estar aberta num canto da parede e próximo dela vai haver um cadáver ressecado, com a pele do rosto murcha e o traje rígido e manchado pelos fluidos que pingam e vazam do seu corpo. Vou esbarrar com essa carcaça em uma galeria escura e silenciosa, onde só se ouve o zumbido de uma única lâmpada fluorescente que pisca em clarões alguns momentos antes de me deixar na escuridão, para sempre, com esse monstro falecido. Os olhos do cadáver devem estar soltos das cavidades e eu quero que ele tropece cegamente e agarre as paredes frias de mármore, deixando um rastro de gosma podre que expõe os ossos das duas mãos. A boca cansada está entreaberta e dois buracos escuros formam o nariz inexistente, a camisa frouxa pendendo das clavículas expostas. (p. 32).

A catacumba número 678 fica em uma fileira alta na parede da galeria. A única maneira de vê-la de perto é usar uma escada ou um elevador para caixões e, mesmo do alto de uma escada, dois degraus acima do que é considerado seguro, consigo perceber que há algo diferente nessa garota. Algo europeu. Algo relacionado à desnutrição. Não é a quantidade diária recomendada de alimento e sol que deixam você bonita para os padrões norte-americanos. Ela tem um aspecto encerado e seus braços e pernas saem do vestido com uma aparência bruta e branca. Dá para imaginá-la vivendo por trás de arame farpado. E crescendo em mim há a esperança aflita de que talvez ela esteja morta. É assim que me sinto quando assisto a filmes antigos em casa, nos quais vampiros e zumbis voltam dos túmulos com fome de carne humana. Dentro de mim há a mesma esperança aflita que sinto ao ver os mortos-vivos vorazes e ao pensar: Ah, por favor, por favor, por favor. Minha ânsia interior é ser agarrado por alguma garota morta. Encostar meu ouvido no peito dela e não ouvir nada. Até ser devorado por zumbis é melhor do que pensar que sou somente carne e sangue, pele e osso. Demônio ou anjo ou espírito do mal, eu só preciso que algo apareça. Fantasmagórico, demoníaco ou monstro de pernas longas, só quero que segure minha mão. Daqui de cima, da sexta fileira de catacumbas, o vestido preto dela parece ter sido passado à exaustão. Os braços e as pernas finos e brancos parecem revestidos de um novo tipo de pele humana de má qualidade. Mesmo aqui de cima o rosto dela parece ser um produto de fabricação em massa. Cânticos de Salomão, capítulo sete, versículo um: “Quão formosos são os teus pés nos sapatos, ó filha do príncipe! Os contornos de tuas coxas são como joias...” Mesmo com o sol aquecendo tudo lá fora, aqui dentro tudo continua frio ao toque. A luz entra através do vitral. O cheiro é de chuva absorvida pelas paredes de cimento. A sensação de tudo é de mármore polido. O som vem de algum lugar, as gotas de chuva velha deslizando pelos vergalhões, as gotas de chuva caindo pela claraboia rachada, as gotas de chuva dentro de catacumbas ainda não vendidas. A poeira se acumula com caspas e cabelos e forma cotões que rolam pelo chão. As pessoas chamam isso de cocô de fantasma. (p. 34).

A máscara redonda que serve de rosto à garota olha para mim do pé da escada. Como dizer se ela está viva ou se é um fantasma, eu não sei. Ela está muito vestida para que eu consiga ver a ascensão e a queda do seu peito. O ar está quente demais para que sua respiração seja visível. Cânticos de Salomão, capítulo sete, versículo dois: “O teu umbigo como uma taça redonda, a que não falta bebida; o teu ventre como montão de trigo, cercado de lírios.” A Bíblia cita sexo e comida com bastante frequência. Aqui, com o espécime número 136, as pequenas conchas pintadas de rosa para se parecerem com botões de rosa, e o espécime número 78, o narciso de baquelita, quero ser abraçado por seus braços frios e mortos, e ouvi-la dizer que a vida não tem um fim absoluto. Minha vida não é um adubo de categoria funeral que vai apodrecer amanhã e viver menos do que meu nome em um obituário. A impressão que se tem em meio a esses quilômetros de paredes de mármore com pessoas presas dentro delas, é a de que estamos em um prédio lotado com milhares de pessoas, mas, ao mesmo tempo, estamos sozinhos. Poderia se passar um ano entre o momento de uma pergunta dela e a minha resposta. (p. 35).

A hora está quase acabando, e nem cheguei a falar sobre Fertility Hollis. Como nos encontramos no mausoléu. Caminhamos por uma hora e ela me contou sobre diferentes movimentos artísticos do século XX e como eles retratavam Jesus crucificado. Na ala mais antiga do mausoléu, a chamada Contentamento, Jesus é magro e romântico, com enormes olhos úmidos e cílios longos de mulher. Na ala construída na década de 1930, Jesus é um realismo social, com grandes músculos de super-herói. Nos anos 1940, na ala Serenidade, Jesus se transforma em uma montagem abstrata de planos e cubos. O Jesus dos anos 1950 é de madeira polida, um esqueleto da modernidade dinamarquesa. O Jesus dos anos 1960 foi feito com pedaços de madeira. Não há ala dos anos 1970 e, na dos anos 1980, não há Jesus, somente os mesmos mármore e latão verdes seculares polidos que você encontraria em uma loja de departamentos. (p. 41).

— Você se lembra daquela seita que as pessoas se mataram? Faz uns sete ou oito anos. A cidade toda foi à igreja e bebeu veneno, e o FBI os encontrou de mãos dadas no chão, mortos. Esse cara me fez lembrar desse episódio. Nem tanto pelas roupas apatetadas, mas o cabelo, parece que ele mesmo o cortou de olhos fechados — ela fala. (p. 49).

— Diga alguma coisa que me faça gozar. Eu não sei do que você está falando.
— Você sabe do que estou falando — diz ela. Gênesis, capítulo três, versículo doze: “... A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi...” Ouça, eu digo. Não estou sozinho aqui. Estou cercado de voluntários caridosos que também doam seu tempo.
— Vamos lá. Lamba meus peitos — diz ela.
Digo que ela está se aproveitando da minha natureza caridosa. Digo que preciso desligar agora.
— Me chupa inteira com a sua boca — ela diz. Digo: vou desligar agora.
— Mais. Mais! Ah, me lambe toda, me lambe toda — ela fala e ri. — Me chupa. Me chupa. Me chupa. Me. Chupa. Digo: vou desligar agora. Mas não desligo.
— Você sabe que me deseja. Diga o que quer que eu faça. Você sabe que quer. Me obrigue a fazer alguma bobagem — Fertility continua falando. E, antes que eu consiga sair da conversa, Fertility Hollis solta um uivo estrondoso de orgasmo de deusa pornô. Aí eu desligo. I Timóteo, capítulo cinco, versículo quinze: “Porque já algumas se desviaram, indo após Satanás.” Sinto-me vulgar e usado, sujo e humilhado. Sujo e enganado e descartado. Aí o telefone toca. É ela. Tem de ser ela, então eu não atendo. O telefone toca a noite toda e eu fico aqui, me sentindo enganado, e não ouso atender. (p. 51).

Foi o apocalipse, a Libertação, e, apesar de todo o meu trabalho e todo o dinheiro que ganhei para nosso plano, o Paraíso na Terra simplesmente não ia acontecer. (p. 55).

Eles foram fracos. As regras se foram e isso não importa. Somos todos uma grande entrega expressa direto para o Inferno. (p. 56).

Ela toma um gole. Deixa o copo de volta no lugar enquanto lhe respondo. Escreve no bloco amarelo sobre os joelhos, faz mais uma pergunta, toma outro gole. O rosto parece soterrado sob uma camada de maquiagem. (p. 56).

A verdade é que não atendo o telefone porque não quero falar com Fertility Hollis até vê-la pessoalmente. Por telefone, ela parecia tão sexualmente excitada que não posso arriscar. É uma competição contra mim mesmo. Não quero que* ela se apaixone por mim como uma voz ao telefone ao mesmo tempo que me dá um fora na vida real. É melhor que ela nunca mais fale comigo ao telefone. O feioso esquisito aqui, que vive e respira, não se compara à fantasia, então bolei
um plano, um plano terrível, para fazê-la me odiar e, ao mesmo tempo, se apaixonar por mim. O plano é desseduzi-la. Desatraí-la. (p. 57 e 58).

No início, ninguém no programa deu atenção, diz ela. Suicídios são apenas suicídios, especialmente entre essas pessoas. Os suicídios dos clientes acontecem em ondas. Um estouro de boiada. Um ou dois dão início a até vinte. Lêmingues.* O bloco amarelo no colo dela desliza até o chão, e ela fala:
— Suicídios são muito contagiosos.
O padrão desses novos falsos suicídios mostra que a tendência é de que ocorram ao fim de uma série de suicídios naturais.
Pergunto: como assim, falsos suicídios? Surrupio o martíni, que tem um gosto estranho de enxaguante bucal. (p. 58 e 59).

Deus me livre de tentar ficar bonito para Fertility. A pior estratégia seria me aperfeiçoar. Seria um grande erro me arrumar, me esforçar ao máximo, pentear o cabelo ou até pegar algumas roupas emprestadas do cara para quem trabalho, tipo uma camisa de tom pastel e cem porcento algodão, escovar os dentes, colocar o que chamam de desodorante e ir até o mausoléu Memorial de Columbia para meu segundo grande encontro ainda muito feio, mas dando sinais de que me esforcei o quanto pude pra ficar bonito. Então aqui estou eu. Melhor, impossível. É pegar ou largar. Como se eu não ligasse para o que ela acha. Ficar bonito não faz parte do grande plano. Meu plano é ser um potencia inexplorado. A aparência que busco é natural. Real. A aparência que quero é a de matéria-prima. Não desesperado nem carente, mas sim maduro e cheio de* potencial. Não faminto. Claro, quero parecer com alguém que vale o esforço. Lavado, mas não passado. Limpo, mas não polido. Confiante, mas humilde. Sincero é o que quero parecer. A verdade não brilha nem reluz. Taí a agressão passiva em ação. Minha ideia é fazer a feiura trabalhar a meu favor. Estabelecer um nível de exigência baixo para contrastar comigo mesmo mais tarde. Antes e Depois. O sapo e o príncipe. (p. 61 e 62).

Não dá para ouvir música em lugar algum, a não ser que você preste muita atenção. É música tipo papel de parede, utilitária, música Prozac ou Frontal para controlar seus sentimentos. Música tipo aromatizador de ambientes em aerossol. (p. 63).

Tudo nela parece à prova de mártires. (p. 63).

Passamos dançando por estátuas de santos da religião de outras pessoas. Para mim, são apenas pedras em forma de fulanos glorificados. (p. 66).

Se o corpo é um templo, dá para acumular bastante manutenção adiada. Se o corpo é um templo, o meu estava muito precisado de uma reforma. De alguma forma, eu deveria ter previsto isso. Assim como cada geração reinventa Cristo, o agente está me refazendo. O agente diz que ninguém vai adorar alguém com tantos pneuzinhos. Hoje, as pessoas não lotam estádios para ouvir a pregação de alguém que não seja bonito.
É por isso que não vou a lugar nenhum na velocidade de setecentas calorias por hora. Por volta do oitavo andar, sinto como se minha bexiga estivesse aninhada entre minhas coxas. Quando você tira o plástico de algo que estava no micro-ondas e o vapor queima seus dedos em um instante, meu hálito está quente nesse nível. Você sobe e sobe e sobe e não chega a lugar algum. É a ilusão de progresso. O que você quer pensar que é a salvação. O que as pessoas esquecem é que uma viagem para o nada também começa com um único passo.
Não é como se o grande espírito do coiote viesse até você, mas, por volta do octogésimo primeiro andar, esses pensamentos aleatórios advindos do ozônio ficam na cabeça. Coisas bestas que o agente falou, agora elas fazem sentido. Como a sensação de esfregar com o vapor puro do amoníaco e de remover a pele de frango da grelha da churrasqueira, todas as coisas idiotas do mundo, café descafeinado, cerveja sem álcool, StairMasters, fazem todo o sentido, não porque você está mais inteligente, mas porque a parte inteligente do seu cérebro está de* férias. É esse tipo de falso conhecimento, esse tipo de sabedoria de biscoito chinês que você sabe que vai esquecer dez minutos depois de parar de pensar a respeito. (p. 116 e 117).

Por volta do centésimo andar, tudo fica claro. O universo inteiro, e não é por causa das endorfinas. Depois de passar do centésimo andar, você entra em um estado místico. Como uma árvore que cai na floresta e ninguém está lá para ouvir, você percebe, se ninguém estivesse testemunhando a agonia de Cristo, ele teria sido salvo? A chave da salvação é chamar muita atenção. O nível da sua personalidade. Da sua audiência. Da sua exposição. Do seu reconhecimento. Dos seus seguidores na imprensa. Do falatório. Por volta do centésimo andar, o suor traça linhas no seu cabelo. A mecânica entediante do funcionamento do corpo fica muito clara, os pulmões sugam ar para levar ao sangue, o coração bombeia sangue para os músculos, os tendões se contraem, apertando-se para colocar as pernas para a frente, o quadríceps se aperta para colocar os joelhos para a frente. O sangue leva ar e alimento para serem consumidos dentro das mito-sei-lá-o-que no centro de cada célula dos músculos. O esqueleto só serve para evitar que a pele caia no chão. O suor só serve para* manter o corpo resfriado. As revelações surgem de todos os lados. Por volta do centésimo quinto andar, você não consegue acreditar que é escravo desse corpo, desse bebezão. Você tem de alimentá-lo e adormecê-lo e levá-lo ao banheiro. Você não consegue acreditar que ainda não inventamos coisa melhor. Algo menos dependente. Que desperdice menos tempo. Você percebe que as pessoas se drogam porque essa é a única aventura pessoal que lhes resta em um mundo sem tempo, com lei e ordem, delimitado por propriedades. Só nas drogas ou na morte vamos conhecer novidades, e a morte é muito controladora. Você percebe que não faz sentido fazer algo se ninguém estiver olhando. Você pensa, se tivessem aparecido poucas pessoas na crucificação, eles a teriam reagendado? Você percebe que o agente tinha razão. Você nunca viu um crucifixo com um Jesus que não estivesse quase pelado. Nunca viu um Jesus gordo. Ou um Jesus com cabelo no peito. Em todos os crucifixos que você viu na vida, Jesus parece estar fazendo propaganda de um jeans de marca ou de um perfume masculino. A vida é bem como disse o agente. Você percebe que, sem ninguém vendo, é mais fácil ficar em casa. Se masturbar. Assistir à TV.
Por volta do centésimo décimo andar, você percebe que, se não estiver sendo filmado, melhor ainda, transmitido por satélite para o mundo inteiro ver, você não existe. Você é aquela árvore que cai na floresta e ninguém dá a mínima. Não interessa o que você faz. Se ninguém notar, sua vida vai se resumir a um grande zero. Nada. Uma nulidade. Falsas ou não, você é invadido por esse tipo de verdades. Você percebe que nossa desconfiança quanto ao futuro dificulta que a gente desista do passado. Não conseguimos deixar de lado o conceito de quem éramos. Todos aqueles adultos que brincam de arqueólogos em brechós, procurando por objetos da infância, jogos de tabuleiro, Candy Land, Twister, eles estão apavorados. Porcarias se tornam relíquias. My stery Date8. Bambolês. Nossa forma de sentir saudade do que jogamos no lixo só porque temos medo de evoluir. Crescer, mudar, perder peso, nos reinventarmos. De nos adaptarmos. É o que o agente está me dizendo enquanto estou na Stair-Master. Ele grita para mim:
— Adapte-se!
Tudo está acelerado, exceto eu e meu corpo encharcado de suor, com seus movimentos peristálticos e pelos. Minhas pintas e unhas amarelas. E eu percebo que estou preso a esse corpo, e ele já está decadente. Sinto como se minha coluna estivesse sendo forjada a marretadas. Meus braços balançam, finos e* molhados, dos dois lados do meu corpo. Como a mudança é constante, você reflete se as pessoas buscam a morte porque é a única maneira de conseguirem finalizar alguma coisa. O agente está gritando que, não importa se você é bonito, seu corpo só serve como algo para vestir ao receber um Oscar. Sua mão só serve para segurar um Prêmio Nobel. Seus lábios só existem para você dar beijinhos no apresentador de um programa de entrevistas. E é melhor estar bem bonito. É por volta do centésimo vigésimo andar que você tem de rir. Você vai perder tudo de qualquer maneira. Seu corpo. Você já o está perdendo. É a hora de apostar tudo. É por isso que, quando o seu agente chega para você com anabolizantes, você diz sim. Você diz sim para as sessões de bronzeamento total. Eletrólise? Sim. Renovação dental? Sim. Dermoabrasão? Sim. Peeling químico? Segundo o agente, o segredo da fama é dizer sim.
7. Trocadilho com o nome de uma famosa marca de máquinas para exercícios e a música “Stairway to Heaven”, do Led Zeppelin. (N. da T.)
8. Jogo de tabuleiro popular nos EUA. (N. da T.) (p. 117, 118 e 119).

As pessoas vão dizer que foram os esteroides que me deixaram maluco. O Durateston 250. As pílulas abortivas Mifepristone, da França. O Plenastril, da Suíça. O Masterone, de Portugal. Esses são esteroides de verdade e não apenas nomes registrados de futuros medicamentos. Esses são injetáveis, em comprimidos, em emplastros. As pessoas vão ter certeza de que os esteroides é que me levaram a isso, a ser este sequestrador de aviões maluco que sobrevoa o mundo até se matar. Como se as pessoas tivessem ideia do que é ser um líder espiritual famoso e renomado. Como se alguma dessas pessoas já não estivesse procurando um novo guru para dar significado ao seu estilo de vida enfadonho e sem riscos, enquanto assistem às notícias na TV e me julgam. Todo mundo procura por isso, uma mão para segurar. Apoio. A promessa de que tudo vai ficar bem. Era tudo o que queriam de mim. De mim, o estressado, o desesperado, o renomado aqui. O pressionado. Nenhuma dessas pessoas sabe o mínimo sobre ser grande e glamoroso, grande e carismático, um grande exemplo de vida. Por volta do andar número 130, você começa a delirar, a desvairar, a falar bobagens, a dizer coisas sem sentido. Não que alguém além da Fertility saiba o tamanho do esforço diário que fiz para chegar a este ponto. Imagine como você se sentiria se sua vida fosse reduzida a um trabalho que você odeia. Não, todo mundo acha que a vida inteira deveria ser tão divertida quanto a masturbação. Eu queria ver essa gente pelo menos tentar viver fora dos quartos de hotel e conseguir comer comida saudável e ser minimamente convincente ao fingir sentir uma paz interior profunda e uma unicidade com Deus. Quando você fica famoso, o jantar não é mais comida, mas sim um combustível de meio quilo de proteína, um quilo de carboidratos, nada de sal, gordura, açúcar. Essa é a refeição para cada duas horas, seis vezes ao dia. Comer já não se trata mais de comer. Trata-se de assimilar proteínas. Trata-se de cremes de rejuvenescimento celular. A higiene se torna esfoliar. O que antes era respiração agora é tomar fôlego. Eu seria o primeiro a parabenizar quem mais bem fingisse ter uma beleza perfeita e oferecer mensagens vagas e inspiradoras: Acalme-se. Todo mundo respirando fundo. A vida é boa. Seja justo e generoso. Seja o amor. Até parece. Na maioria dos casos, essas mensagens e crenças profundas vêm direto das* mãos da equipe de redação para as minhas trinta segundos antes de subir no palco. Era por isso que eu abria com uma prece silenciosa. Para ter um minuto para abaixar o olhar no palanque e ler meu roteiro.  Cinco minutos se passam. Dez minutos. Os quatrocentos miligramas de Deca- Durabolin e cipionato de testosterona que você injetou ainda são somente uma pequena protuberância na pele da sua nádega. Os quinze mil fiéis pagantes estão ajoelhados diante de você de cabeça baixa. Como uma ambulância que passa zunindo por uma rua silenciosa, é a sensação dessa química na minha corrente sanguínea. Comecei a usar roupas litúrgicas no palco porque, com tanto Equipoise no seu sistema, você passa metade do tempo de pau duro. Quinze minutos se passam e toda essa gente está de joelhos. Quando você estiver pronto, basta falar a palavra mágica. Amém. E aí o espetáculo começa. — Vocês são os filhos da paz em um universo de vida eterna e de uma abundância ilimitada de amor e bem-estar, blá-blá-blá. Vão em paz. (p. 128 e 129).

O risco de ser famoso é ter de tomar levotiroxina sódica para emagrecer. Sim, é preciso se preocupar com o sistema nervoso central. Tem a insônia. O metabolismo fica descontrolado. O coração palpita. Você sua. Fica nervoso o tempo todo, mas o seu visual fica fantástico. (p. 129).

Anfetamina é a droga mais americana. Você faz tantas coisas. Sua aparência* fica ótima e seu sobrenome é Realização.
— Seu corpo inteiro serve de modelo para a sua marca de roupas esportivas!
— grita o agente.
Sua tireoide estanca a produção natural de tiroxina. Mas você ainda parece ótimo. E está, você é o Sonho Americano. Você é a economia em constante crescimento. Segundo o agente, essas pessoas que buscam um líder desejam vibração. Desejam grandiosidade. Desejam dinamismo. Ninguém deseja um deus magricelo. Elas desejam um abismo de quinze centímetros entre a largura do peito e a da cintura. Peitorais grandes. Pernas longas. Queixo furado. Panturrilhas bojudas. Elas desejam alguém que vá além do humano. Elas desejam algo grandioso. Ninguém deseja apenas o anatomicamente correto. As pessoas querem o aprimoramento anatômico. O cirurgicamente aumentado. O novo e melhorado. Implantado com silicone. Injetado com colágeno. Só para constar, depois do primeiro ciclo de três meses de Deca-Durabolin, eu não conseguia me esticar para amarrar os cadarços. Meus braços estavam enormes nesse nível. Sem problemas, diz o agente, e contrata alguém para amarrar os cadarços de todos os meus sapatos. Depois de dezessete semanas tomando Metahapoctehosich fabricado na Rússia, meu cabelo caiu e o agente me deu uma peruca.
— Nós temos que chegar a um meio-termo. Ninguém quer louvar um Deus que amarra os próprios sapatos — diz o agente.
Ninguém vai adorar você se os seus problemas, mau hálito, cabelo desgrenhado e unhas malcuidadas forem os mesmos de uma pessoa normal. Você tem de ser o que as pessoas normais não são. Onde elas fracassam, você tem de prosperar. Ser o que as pessoas têm medo de ser. Tornar-se a pessoa que elas admiram. As pessoas que compram um messias querem qualidade. Ninguém vai seguir um fracassado. Quando se trata de escolher um salvador, ninguém se contenta com um ser humano.
— Uma peruca é melhor para você — disse o agente. — Ela tem uma perfeição consistente na qual podemos confiar. Ao sair dos helicópteros, sob os holofotes, a cada minuto em público, não dá para controlar a aparência de um cabelo de verdade. Como o agente me explicou, esse plano foi afirmando que nosso público-alvo não é composto das pessoas mais inteligentes do mundo, mas sim da maioria.
— De agora em diante, pense em si mesmo como um novo refrigerante diet — disse ele. *— Pense nesses jovens por aí que se debatem com religiões ultrapassadas ou que não têm religião, pense nessa gente como o seu público-alvo — disse ele. As pessoas buscam uma forma de juntar tudo. Elas precisam de uma teoria de campo unificada que combine glamour e santidade, moda e espiritualidade. As pessoas precisam conciliar bondade com beleza. Depois de dias e dias sem ingerir nada sólido, dormindo pouco, subindo milhares de degraus e ouvindo o agente me contar sem parar suas ideias aos berros, tudo isso faz todo sentido.
A equipe musical estava ocupada redigindo louvores antes que eu tivesse assinado um contrato. A equipe de redação perdia o sono com a minha autobiografia. A equipe de mídia cuidava dos comunicados à imprensa, dos contratos de licenciamento de produtos, do espetáculo de patinação “A Tragédia Mortal da Crendice on Ice”, das transmissões por satélite, das sessões de bronzeamento. A equipe de imagem controlava a minha aparência. A equipe de redação controlava todas as palavras que me saíam da boca. Para encobrir a acne causada pelos ciclos de Laurabolin, comecei a usar maquiagem. Para curar a acne, alguém da equipe de apoio me arrumou uma receita de Roacutan. Para a queda de cabelo, a equipe de apoio borrifava Rogaine na minha cabeça. Tudo o que fizemos para me corrigir tinha efeitos colaterais que tínhamos de corrigir. Aí as correções tinham efeitos colaterais que tinham de ser corrigidos, e por aí vai. Imagine um conto de fadas no qual o herói se olha no espelho e quem o encara de volta é um completo desconhecido. Cada palavra dita por ele é escrita por uma equipe de profissionais. Tudo o que ele veste é escolhido ou criado por uma equipe de estilistas. Cada minuto de cada dia é planejado pela assessora de imprensa. Acho que agora dá para sacar a situação. Além disso, o herói injeta medicamentos que só podem ser comprados na Suécia ou no México, e ele não consegue ver além do próprio peitoral inchado. Ele está bronzeado e barbeado e usa uma peruca e uma agenda, porque as pessoas em Tucson, as pessoas em Seattle ou Chicago ou Baton Rouge não querem um representante com as costas peludas. Por volta do ducentésimo andar você chega ao ápice. Você está anaeróbico e queima músculo em vez de gordura, mas sua mente está cristalina. A verdade é que tudo faz parte do processo de suicídio. Afinal, o bronzeamento e os esteroides só se tornam um problema se seu plano for viver muito tempo. Afinal, a única diferença entre o suicídio e o martírio é a intensidade da cobertura da imprensa. *Se uma árvore cai na floresta e ninguém está lá para ouvir, ela não fica lá e apodrece? E se Cristo tivesse morrido por overdose, sozinho no chão de um banheiro, Ele estaria no Paraíso? A questão não era se eu me mataria ou não. Tudo isso, esse esforço, esse dinheiro e esse tempo, a equipe de redação, os medicamentos, a dieta, o agente, os lances de escada que não levavam a lugar algum, tudo isso era só para eu acabar com a minha vida diante do olhar atento de todos. (p. 129, 130, 131, 132).

Desta vez, o agente perguntou como eu me via dali a cinco anos. Morto, respondi. Me vejo morto e apodrecendo. Ou em cinzas, eu consigo me ver reduzido a cinzas. Eu tinha uma arma carregada no bolso, lembro-me. Estávamos só nós dois no fundo de um auditório lotado e escuro. Eu me lembro de que era a noite da minha primeira grande aparição pública. Eu me vejo morto e no Inferno, eu disse. Eu me lembro de que planejava me matar naquela noite Eu disse ao agente: eu acho que passaria meus primeiros mil anos no Inferno como um aprendiz, mas depois desse período ia querer chegar à gerência. Trabalhar bem em equipe. O Inferno veria um enorme crescimento da sua fatia
de mercado no próximo milênio. Eu queria estar na vanguarda. O agente disse que era uma ideia bem realista.
Nós estávamos fumando cigarros, eu me lembro. Lá no palco, um sacerdote
estava fazendo o show de abertura. Parte desse aquecimento servia para deixar a plateia hiperventilada. Basta cantar bem alto. Ou recitar. Segundo o agente, quando as pessoas gritam desse jeito ou dão graças a plenos pulmões, elas respiram demais. O sangue das pessoas deve ser ácido. Quando elas hiperventilam, o nível de dióxido de carbono no sangue delas cai e o sangue fica alcalino.
— Alcalose respiratória — diz ele.
As pessoas ficam tontas. Caem no chão com um zumbido nos ouvidos, os dedos ficam dormentes, sentem dores no peito, suam. Teoricamente, isso deveria ser o arrebatamento. As pessoas vão ao chão com as mãos retesadas como garras. Isso é que deveria ser o êxtase. — As pessoas no mercado religioso chamam isso de “virar lagosta”. Chamam de “falar em línguas”. Movimentos repetitivos ampliam o efeito, e o show de abertura no palco faz o trabalho de sempre. A plateia bate palmas em uníssono. Longas fileiras de pessoas dão-se as mãos e balançam juntas em delírio. As pessoas fazem aquele gesto de arco-íris. Quem quer que tenha inventado essa coreografia, diz o agente, deve ser o chefão do Inferno. Lembro-me de que o patrocinador era a Limonada Instantânea Tradicional Summer Time. Minha deixa é a chamada para o palco, minha parte do show é enfeitiçar todo mundo. — Um estado de transe natural — diz o agente. Ele tira um frasco marrom do bolso do paletó: — Tome uns Endorphinols se* ficar emocionado — diz o agente. Digo a ele para me dar logo um monte. Para preparar esta noite, os funcionários da equipe visitaram pessoas e distribuíram entradas gratuitas. O agente está me contando isso pela centésima vez. Os funcionários pedem para usar o banheiro durante a visita e anotam tudo o que encontram na gaveta de remédios. Segundo o agente, o reverendo Jim Jones fez isso e funcionou como um milagre para o People’s Temple. “Milagre” provavelmente não é a palavra certa. No púlpito há uma lista de pessoas que nunca vi e suas respectivas doenças. Sr. Steven Brandon, eu tenho de chamar. Venha e receba o toque de Deus nos seus rins debilitados. Sr. William Doxy , venha e ponha seu coração estropiado na mão de Deus. Parte do meu treinamento foi sobre como pressionar os dedos nos olhos de alguém fundo e rápido o suficiente para que a pressão seja registrada pelo nervo óptico como um clarão de luz branca.
— Luz divina — diz o agente.
Parte do meu treinamento foi sobre como pressionar as mãos nas orelhas de alguém forte o suficiente para causar um zumbido que eu diria que é o Om eterno. — Entre — diz o agente. Eu perdi minha deixa. No palco, o sacerdote da abertura grita por Tender Branson no microfone. O único, o maior, o último sobrevivente, o grande Tender Branson. — Espere — diz o agente. Ele tira o cigarro da minha boca e me empurra corredor acima. — Agora vá — diz ele. Todos os braços se esticam pelo corredor para me tocar. Os holofotes no palco diante de mim brilham muito. Na escuridão ao meu redor, há o sorriso de mil pessoas em delírio que pensam que me amam. Só o que preciso fazer é caminhar até os holofotes. Isso é morrer sem se preocupar com controle. A arma é pesada e bate no meu quadril dentro do bolso da calça. Isso é ter uma família sem ter parentes. Ter relacionamentos sem laços. No palco, os holofotes estão mornos. Isso é ser amado sem o risco da reciprocidade. Eu me lembro de que esse era o momento perfeito para morrer. Não era o Paraíso, mas foi o mais perto disso que consegui chegar. Levantei os braços e as pessoas aplaudiram. Abaixei os braços e elas se calaram. O roteiro estava no palanque para que eu lesse. A lista datilografada me informava quem na escuridão sofria de quê. O sangue de todo mundo estava alcalino. O coração de todo mundo estava à disposição. Era assim que eu me sentia quando roubava. Era assim que me sentia* ao ouvir as confissões na minha linha de emergência. Era assim que imaginava que fosse o sexo. (p. 134, 135 e 136).

— O que é uma prece? — pergunta ele. — É um sortilégio — ele diz e grita comigo ao telefone. — É uma maneira pela qual as pessoas concentram energia em torno de uma necessidade específica. As pessoas precisam ter clareza quanto a uma única intenção e realizá-la. Prece para Evitar Multas de Trânsito Prece para Cessar Vazamentos — As pessoas rezam para resolver problemas e esses aí são os problemas mais sinceros delas — o agente continua gritando comigo. Prece para Hipersensibilidade Vaginal — Uma prece é uma forma de fazer o mundo girar — diz ele. O coração dele é de pedra mesmo. — Você ora para que suas necessidades sejam reconhecidas. Prece para Ruídos Estranhos do Carro Prece para Encontrar uma Vaga no Estacionamento Ó divino e piedoso Deus Ninguém na história jamais Vos adorará como eu Se Vós me oferecerdes hoje uma vaga para estacionar. Pois Vós sois o provedor. E Vós sois a origem. Vós concedeis todo o bem. Em Vós tudo é encontrado. Sob Vosso cuidado, eu encontro descanso. Sob Vossa orientação, eu encontro paz. Para parar, descansar, paralisar, estacionar. Vós podeis me conceder. É o que peço. Amém. Já que estou prestes a morrer aqui, as pessoas precisam saber que minha intenção sempre foi servir à glória de Deus. Mais ou menos. Não que isso esteja na nossa declaração de missão, mas era o meu plano, em linhas gerais. Eu quero pelo menos fazer um esforço. Esse novo livro simplesmente não parecia se muito religioso. Nem um pouco devoto. (p. 140).

Não dá para chamar a Fertility Hollis de fada madrinha, mas você se surpreenderia com os lugares onde ela aparece. Mas, na maioria das vezes, não era o que acontecia. Fertility e seus olhos cinza entediados como o oceano. Fertility com sua respiração de suspiros exaustos. Ela é o olho enfastiado do furacão, o mundo dela é assim. Fertility e seus braços e expressões preguiçosos como os de um sobrevivente esgotado, um imortal, um vampiro egípcio depois de passar milhões de anos assistindo às reprises que chamamos de história, ela joga-se na cadeira à minha frente e eu fico agradecido por isso, pois preciso que ela me arrume um milagre, de qualquer forma. Isso foi quando eu ainda conseguia escapar do meu séquito. Eu ainda não era um anônimo, mas estava quase lá graças ao meu declínio na mídia. Meu desabamento publicitário. Pela moleza de Fertility, com os cotovelos na mesa e o rosto nas mãos, o cabelo vermelho insípido caindo na cara, dava para achar que ela acabara de chegar de um planeta com menos gravidade que a Terra. Como se aqui, magra como é, ela pesasse uns quatrocentos quilos. Ela está desleixada, com calças, blusa, sapatos e carregando uma bolsa simples. O ar-condicionado está ligado e dá para sentir o cheiro do amaciante de roupas, doce e artificial. A aparência dela é de algo diluído. A aparência dela é de algo desaparecendo. A aparência dela é de algo apagado. (p. 143).

Em quase todos os banheiros masculinos há um buraco nas divisórias entre dois privativos. Ele é aberto na madeira com uns dois centímetros e meio de espessura por alguém que usou somente os dedos para fazê-lo. Ele demora dias ou meses para ficar pronto. Há buracos como esse em mármore, em aço. Como se fosse alguém tentando fugir de uma prisão. O buraco é grande o suficiente para olhar ou conversar através dele. Ou para meter um dedo ou uma língua ou um pênis e fugir assim, um pouquinho por vez. As pessoas chamam esses orifícios de glory holes. É como achar um veio de ouro. É onde você encontra a glória. Eu estou sentado em um vaso sanitário no aeroporto de Miami e, na altura do meu ombro, há na divisória um buraco cheio de mensagens em volta, deixadas por homens que sentaram aqui antes de mim. John M. esteve aqui em 14/3/64. Carl B. esteve aqui em 8 de janeiro de 1976. Epitáfios. Alguns foram escritos há pouco tempo. Outros foram cobertos, mas tinham sido entalhados tão fundo que ainda dá para lê-los mesmo por baixo de décadas de pinturas. Aqui estão as sombras deixadas por milhares de momentos, milhares de estados de espírito, de necessidades traçadas aqui nessa parede por homens que se foram. Aqui está o registro de que estiveram aqui. Da visita deles. Da passagem deles. Aqui está o que a assistente social chamaria de um documento original principal. Um histórico do inaceitável. Venha hoje à noite e ganhe um boquete. Sábado, 18 de junho de 1973. Tudo isso escrito na parede. Aqui estão palavras sem imagens. Sexo sem nomes. Imagens sem palavras. Raspada aqui há uma mulher nua com as longas pernas abertas, seios redondos e firmes, longos cabelos soltos e sem rosto. Há um pênis decepado tão grande quanto um homem respingando gotas enormes na vagina cabeluda da mulher. O Paraíso, dizem os escritos, é um bufê de boceta. O Paraíso é levar no rabo. Vá para o Inferno, veado. Já estive lá. Vá à merda. (p. 149).

A voz vem do buraco, mas, quando olho através dele, só consigo ver dois lábios pintados de batom. Lábios vermelhos, dentes brancos e um vislumbre de língua úmida dizem: — Eu sabia que você estaria aqui. Eu sei tudo.  É Fertility . Agora no buraco há um olho cinza, que a sombra azul e o delineador aumentaram, e cílios que piscam cheios de rímel. A pupila pulsa, grande e depois pequena. Aí a boca aparece para dizer:
— Não se preocupe. Seu voo vai atrasar mais algumas horas. Na parede ao lado da boca está escrito: Eu chupo e engulo. Ao lado, está escrito: Eu só queria que ela me desse uma chance de amá-la. Há um poema que começa assim: Quente em você há o amor... O restante do poema foi lavado da parede e apagado por ejaculações.
— Estou aqui a trabalho — diz a boca.
Deve ser o trabalho perverso dela.
— É o meu trabalho perverso. É o calor — diz ela.
Nós não conversamos a respeito.
— Não quero falar sobre isso — ela diz.
Parabéns, eu sussurro. Pelas abelhas assassinas, quero dizer. Na parede está escrito: Como se chama uma garota Crente que paga boquete? Morta. Como se chama um veado Crente que dá o cu?
— Você precisa de outra tragédia, né? — diz a boca.
Está mais para umas quinze ou vinte, eu sussurro. — Não — diz a boca. — Você está ficando como todos os caras em quem confiei na vida. Você está ficando ganancioso. Eu só quero salvar as pessoas — Você é um porco ganancioso.
Eu quero salvar as pessoas dos desastres.
— Você é só um cachorro que faz truques.
Eu só faço isso para poder me matar.
— Eu não quero que você morra.
Por quê?
— Por que o quê?
Por que ela não quer que eu morra? É porque ela gosta de mim?
— Não — diz a boca.
 — Eu não odeio você, mas preciso de você. Mas então ela não desgosta de mim? (p. 150)

— Nós todos assistimos aos mesmos programas de TV. Ouvimos as mesmas coisas no rádio, conversamos sobre os mesmos assuntos uns com os outros. Não há mais novidades. É tudo mais do mesmo. Reprises — diz a boca. Dentro do buraco, os lábios dizem: — Todos nós crescemos vendo os mesmos programas de TV. É como se tivéssemos os mesmos implantes artificiais de memória. Não nos recordamos de quase nada da nossa verdadeira infância, mas nos lembramos de tudo o que aconteceu com as famílias dos seriados de comédia. Temos os mesmos objetivos básicos. Todos nós temos os mesmos medos. Os lábios dizem: — O futuro não é promissor. Muito em breve, todos nós pensaremos sempre igual. Seremos um uníssono perfeito. Sincronizado. Unido. Igual. Exato. Como as formigas. Insetos. Ovelhas. Tudo é tão derivativo. Uma referência a uma referência a uma referência. — A grande questão que as pessoas se perguntam não é “Qual é a natureza da existência?” — diz a boca. — A grande questão que as pessoas se perguntam é “De onde é isso?” Eu ouvi o buraco da mesma maneira que ouço as pessoas se confessarem ao telefone, como ouvi as catacumbas procurando por sinais de vida. Perguntei: Então, por que ela precisa de mim? — Porque você foi criado em um mundo diferente — diz a boca. — Porque, se alguém pode me surpreender, esse alguém é você. Você ainda não faz parte da cultura de massa. É a minha única esperança de visualizar algo novo. Você é o príncipe mágico que pode quebrar esse feitiço de tédio. Esse transe de uniformidade diária. Já passei por isso. Conheço bem. Você é um grupo controle de uma pessoa só. Mas não sou, eu sussurro, não sou assim tão diferente. — É sim. E a minha única esperança é que você continue a ser diferente — diz a boca. (p. 151). 

A jornalista está sentada diante de mim. As pernas dela, comparadas ao resto do corpo, não são muito longas. As orelhas estão expostas o suficiente para mostrar os brincos. Todos os problemas dela estão ocultos lá dentro. Os defeitos estão todos disfarçados. O único cheiro que ela emana, até no hálito, é de spray de cabelo. A forma como está encolhida na cadeira, com as pernas cruzadas, mãos pousadas no colo, está mais para um origami de carne e osso. Segundo os storyboards, fico em um sofá na ilha de luzes incandescentes cercada de câmeras e cabos e técnicos silenciosos que fazem seu trabalho na escuridão ao meu redor. O agente se vira para o local onde alguns redatores sinalizam revisões de última hora do texto antes que ele seja exibido no teleprompter. (p. 155).

Ao lado do agente, a tela do teleprompter me diz: EU ME SENTI VIOLENTADO AO SER LEILOADO NU COMO ESCRAVO. Segundo o teleprompter: EU ME SENTI TOTALMENTE HUMILHADO. Segundo o teleprompter: EU ME SENTI USADO E CORROMPIDO. . . MOLESTADO. Os redatores se aglomeram em torno do teleprompter e balbuciam as palavras conforme as leio em voz alta. Enquanto, observado pelas câmeras, eu leio tudo isso em voz alta, a jornalista olha para o diretor em meio à escuridão e toca o pulso. O diretor levanta dois dedos, depois oito dedos. Um técnico avança sob a luz e arruma o cabelo sobre a orelha da jornalista. (p. 156).

Nas sombras, o agente e os redatores comemoram em silêncio. O agente faz um sinal de aprovação empolgado para mim. Minhas mãos estão dormentes. Não consigo sentir o rosto. Minha língua é de outra pessoa. Meus lábios estão mortos, com parestesia circumoral. Efeitos colaterais. A parestesia periférica aniquila a sensibilidade dos pés. Sinto como se meu corpo todo estivesse distante e separado, como a minha imagem, vestindo umterno preto e sentado em um sofá marrom no monitor do estúdio. Essa deve ser a sensação de quando sua alma sobe ao Paraíso e observa o resto do corpo, em carne e osso, morrer. O diretor está acenando com os dedos para mim, dois em uma mão e quatro na outra. O que ele está tentando me dizer, eu não sei. Quase tudo que é exibido no teleprompter saiu da autobiografia que eu não escrevi. A terrível infância que não tive. Segundo o teleprompter, todos os Crentes* estão queimando no fogo do Inferno. (p. 156 e 157).

Durante o intervalo, ela me pergunta se minha infância foi mesmo assim tão horrível. O agente se intromete e diz: Sim, foi. Foi terrível. Um técnico que puxa os fios que passam pela cintura dele e em volta da cabeça se aproxima e pergunta se eu quero beber água. O agente responde: Não. O diretor pergunta se preciso ir ao banheiro e o agente afirma que eu estou bem. Ele diz que eu não gosto de lidar com desconhecidos que fazem perguntas. Eu evoluí para além das necessidades físicas. Aí o técnico revira os olhos e o diretor e a jornalista trocam olhares e dão de ombros, como se tivesse sido eu quem os dispensou. (p. 157).

É Fertility, é a voz dela nos alto-falantes, falando sobre mim para toda a América do Norte. Será que ela vai provocar uma discussão aqui na TV? Meus pensamentos se ramificam em um fluxograma de todas as mentiras que contei e das possíveis respostas para o que ela pode dizer. Será que ela vai me expor e as minhas previsões de tragédias? Será que ela juntou lé com cré e percebeu que eu dei uma força para o suicídio do irmão dela? Ou será que ela sabia disso o tempo todo? E, se ela sabe que matei o irmão dela, o que vai acontecer? (p. 158).

— Telespectadora número três, você ainda está aí? — pergunta a jornalista. O diretor está apontando para nós, cinco, quatro, três, dois, um. Aí ele atravessa o indicador pela garganta. (p. 160).

A Campanha do Gênesis foi a ideia menos minha. Resisti à Campanha do Gênesis o quanto pude. O problema era que as pessoas perguntavam se eu era virgem. Pessoas inteligentes perguntavam se não era meio insensato ainda ser virgem na minha idade. As pessoas perguntavam: Qual é o problema do sexo? O que eu tinha de errado? A Campanha do Gênesis foi a solução rápida do agente. Cada vez mais, as coisas na minha vida eram a solução para uma solução anterior de uma solução anterior até eu me esquecer do problema original. Nesse caso, a questão era que não dava para ser um virgem norte-americano de meia-idade sem que haja algo errado com você. As pessoas não conseguem conceber que alguém tenha uma virtude que elas não conseguem conceber em si mesmas. Em vez de acreditar que você é mais forte, é mais fácil acreditar que você é mais fraco. Você é um viciado em masturbação. Você é um mentiroso. As pessoas sempre acreditam de cara no contrário do que você disser. (p. 167). 

O lance do sexo, o agente me diz, é que, não importa qual seja a intensidade do seu desejo, você consegue esquecê-lo. Quando era adolescente, o agente desenvolveu uma alergia a leite. Ele adorava leite, mas não podia bebê-lo. Anos depois, criaram um leite sem lactose que ele podia beber, mas hoje em dia detesta o gosto de leite. Quando ele parou de beber álcool por causa de um problema nos rins, achou que enlouqueceria. Agora ele nem pensa mais em bebida. Para evitar rugas, a equipe de dermatologia aplicou Botox, a toxina botulínica, em quase todos os músculos ao redor da minha boca e dos meus olhos para paralisá-los pelos próximos seis meses. Com os efeitos colaterais de parestesia periférica de todas as interações medicamentosas, mal consigo sentir as mãos e os pés. Com as injeções de Botox, mal consigo mexer o rosto. Eu consigo falar e sorrir, mas de maneira bastante limitada. (p. 168).

As pessoas não querem que eu aja de maneira mundana. Elas esperam que eu guarde certa inocência vinda do Jardim do Éden pré-maçã. Algo como a ingenuidade de Jesus quando bebê. As pessoas perguntam: Eu sei como funciona uma TV? Não, eu não sei, mas a maioria das pessoas também não sabe. Para início de conversa, a verdade é que eu nunca fui um gênio, e a cada dia fico mais ignorante. Não sou um idiota, mas estou chegando lá. Não dá para viver no mundo aqui fora durante toda a vida adulta sem pegar o jeito. Eu sei como funciona um abridor de latas. A parte mais difícil de ser um líder religioso famoso e renomado é ter de me rebaixar às expectativas das pessoas. As pessoas perguntam: Eu sei para que serve um secador de cabelo? Segundo o agente, o segredo para estar sempre no topo é não ser ameaçador. Ser um nada. Um espaço em branco que as pessoas possam preencher. Ser um espelho. Eu sou a versão religiosa de um ganhador da loteria. Os EUA estão cheios de gente rica e famosa, mas, teoricamente, eu sou uma mistura rara: renomado e idiota, famoso e humilde, inocente e rico. As pessoas acham que basta viver sua vidinha simples, sua rotina de Joana D’Arc, ser a Virgem Maria que lava louças, e um dia a vez delas vai chegar. As pessoas perguntam: Eu sei o que é um quiroprático? As pessoas acham que a santidade é algo que acontece do nada. O processo como um todo deveria ser fácil assim. Como se qualquer um pudesse ser a Lana Turner na farmácia Schwab ao ser descoberto. Quem sabe no século XI fosse possível ser tão submisso. Hoje, as pessoas removem as ruguinhas ao redor da boca com laser antes de gravar o especial de Natal para a TV. Agora temos peelings químicos. Dermoabrasão. Para Joana D’Arc foi moleza. Hoje, as pessoas perguntam: Eu sei o que é uma conta-corrente? As pessoas sempre me perguntam por que não sou casado. Eu tenho pensamentos impuros? Acredito em Deus? Eu me masturbo? Eu sei o que uma picotadeira faz? Eu não sei. Eu não sei. Tenho minhas dúvidas. Não vou dizer. E tenho o agente para me explicar tudo sobre picotadeiras. Mais ou menos a essa altura da história, recebo uma cópia do Manual diagnóstico e estatístico de doenças mentais pelo correio. Alguém da equipe de correspondências o encaminha para um assistente de interfaces de mídia que o entrega a um subassessor de imprensa que o direcionou ao programador diurno que o deixou na bandeja do meu café da manhã na suíte do hotel. (p. 171). 

Messias. Salvador. Líder, é como me chamam. Herege. Blasfemo. Anticristo. Demônio, é como me chamam. Então estou sentado na cama com a bandeja no colo e leio o manual. Não há remetente no pacote, mas a assinatura da assistente social está na contracapa. É estranho como os nomes superam os donos, o significante supera o significado, o símbolo supera o simbolizado. Como os nomes entalhados em pedra nas catacumbas do mausoléu Memorial de Columbia, a única coisa que sobrou da assistente social foi o nome. Nós nos sentimos superiores aos mortos. Por exemplo: Se Michelangelo era assim tão esperto, por que morreu? Como me sinto lendo o MDE: posso ser um bobalhão obeso, mas ainda estou vivo. A assistente social continua morta e aqui está a prova de que tudo o que ela estudou e acreditou durante a vida já está errado. No final desta edição do MDE estão relacionadas as revisões da última edição. As regras já foram alteradas. Aqui estão as novas definições do que é aceitável, do que é normal, do que é são. O Orgasmo Masculino Inibido agora é Transtorno do Orgasmo Masculino. O que era Amnésia Psicogênica agora é Amnésia Dissociativa. O Transtorno de Ansiedade no Sonho agora é Transtorno de Pesadelo.  Os sintomas mudam de edição para edição. Pessoas lúcidas são loucas de acordo com o novo padrão. As pessoas que eram consideradas loucas são a imagem da saúde mental. (p. 172). 

Vindos de um dos privativos ao meu lado, ouço gemidos e respirações. Alguém fazendo sexo ou defecando, não consigo distinguir. O privativo onde estou tem buracos nas duas divisórias, mas não consigo olhar através deles. Se Fertility já está aqui, eu não sei. Se Fertility estiver sentada aqui ao meu lado, calada até ficarmos a sós, eu vou implorar pelo meu grande milagre. Ao lado do buraco, à minha direita, está escrito: Aqui me sento com dor no peito, tento cagar e só peido. Ao lado dessa frase, está escrito: Essa é a história da minha vida. Ao lado do buraco, à minha esquerda, está escrito: Pau duro ganha punheta. Ao lado dessa frase, está escrito: Vá tomar no cu. Ao lado dessa frase está escrito: Com prazer. Este é o aeroporto de Nova Orleans, o aeroporto mais próximo do Superdome, onde vai acontecer o Super Bowl amanhã, onde, no intervalo, eu vou me casar. E o tempo está se esgotando. Lá fora, no corredor, meu séquito e minha nova noiva estão esperando por mim há mais de duas horas, enquanto fiquei aqui sentado por tanto tempo que minhas entranhas estão prestes a cair da minha bunda. Minhas calças estão esmagadas entre meus tornozelos. O protetor de papel do vaso sanitário está absorvendo água da privada e molhando minha pele. O cheiro das coisas dos outros invade minhas narinas quando respiro. Descarga após descarga, sempre que um homem vai embora, chega outro. Na parede, está entalhado: você sabe como a vida e os filmes pornôs terminam. A única diferença é que a vida começa em um orgasmo. Ao lado dessa frase está entalhado: Chegar ao fim é que é a parte excitante. Ao lado dessa frase está entalhado: Que tântrico. Ao lado dessa frase está entalhado: Esse lugar cheira a merda. Ouço a última descarga. O último homem lava as mãos. Os últimos passos saem pela porta. Sussurro no buraco à minha esquerda: Fertility ? Você está aí? Sussurro no buraco à minha direita: Fertility ? Você está aí? Não há mais nada além do meu medo de que outro homem entre aqui para ler seu jornal e descarregue mais uma série espetacular de seis refeições. Aí, do buraco à minha direita, ouço: — Odiei você ter me chamado de puta na TV.
Sussurro de volta: Sinto muito. Eu só estava lendo o roteiro que me passaram.
— Eu sei disso. Eu sei que ela sabe.
A boca vermelha dentro do buraco diz: — Eu liguei sabendo que você ia me trair. Livre-arbítrio não tem nada a ver* com isso. Foi um lance Jesus/Judas. Basicamente, você é meu fantoche. Obrigado, eu digo. (p. 177 e 178).

— Aquilo que falei para você está começando. Precisamos urgentemente trancafiá-lo em algum lugar. Ele vai entrar em Síndrome de Abstinência de Atenção — diz Fertility . (p. 200).

O mundo inteiro é um desastre anunciado. (p. 205).

Pode ser o Botox que me injetaram ou as interações medicamentosas ou a falta de sono ou os efeitos de longo prazo da Síndrome de Abstinência de Atenção, mas eu não sinto nada. O interior da minha boca tem um gosto amargo. Aperto os gânglios linfáticos no meu pescoço, mas tudo o que sinto é desdém. Pode ser que, depois que todo mundo à minha volta morreu, eu tenha desenvolvido uma habilidade para perder as pessoas. Um talento natural. Uma bênção. Como ser estéril é uma habilidade profissional perfeita para que Fertility seja mãe de aluguel, pode ser que eu tenha desenvolvido uma ausência útil de sentimentos.
Assim como você consegue olhar para sua perna amputada na altura do joelho e não sentir nada a princípio, pode ser que seja apenas o choque. Mas eu espero que não seja. Não quero que isso passe. Rezo para nunca mais sentir nada. Porque, se isso passar, vai doer muito. Vai doer muito pelo resto da minha vida. Você não aprende isso em uma escola de etiqueta qualquer, mas, para evitar que os cães cavem algo que você enterrou, despeje amoníaco no local. Para evitar formigas, borrife bórax. Para evitar baratas, use sulfato de alumínio. Óleo de hortelã evita ratos. Para retirar manchas de sangue sob as unhas, enfie os dedos na metade de um limão e mexa-os. Enxágue-os em água morna. Os restos do carro queimaram até sobrar somente os assentos incandescentes. Apenas uma faixa de fumaça flutua sobre o vale.* Quando tento levantar o corpo de Adam, a arma cai do bolso do casaco. O único som vem de algumas moscas que zunem em torno da pedra ainda gravada com uma cópia ensanguentada da minha mão. (p. 227 e 228).

Ela sabe. Durante todas aquelas noites em que eu estava desmaiado, foi só sobre isso que Adam conversou com Fertility. Eu e ela temos de fazer sexo. Para me libertar e me empoderar. Para provar a Fertility que o sexo poderia ser mais do que um rico consultor de marketing de meia-idade esguichando o DNA dele dentro dela. (p. 234).