sábado, 31 de outubro de 2009

Democracia, José Saramago

video

Ao interpretar a realidade, ao redescobri-la, a literatura pode ajudar a conhecê-la. E conhecê-la é o primeiro passo para começar a mudá-la: não existe experiência de mudança social e política que não se desenvolva a partir de um aprofundamento da consciência da realidade (p. 42).

Do livro: GALEANO, Eduardo. A Descoberta da América (que ainda não houve). Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso, Galeano

video

O doutor Frankenstein do capitalismo gerou um monstro que caminha por conta própria e não há quem o detenha. É uma espécie de estado por cima de estados, um poder invisível que a todos governa, embora não tenha sido eleito por ninguém. Neste mundo há muita miséria, mas também muito dinheiro e a riqueza não sabe o que fazer consigo mesma. Em outros tempos, o capital financeiro ampliava, por via do crédito, os mercados de consumo. Estava a serviço do sistema produtivo, que para ser necessita crescer: atualmente, já num grau fora de controle, o capital financeiro pôs o sistema produtivo a seu serviço e com ele brinca o gato como brinca com o rato. (p. 164 e 165).

Do livro: GALEANO, Eduardo. De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. Tradução de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999.

De cima para baixo, Artur Azevedo

video

Conto de Artur Azevedo, De cima para baixo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

O homem que soube calar



Juan Rulfo disse o que tinha para dizer em poucas páginas, puro osso e carne sem gordura, e depois guardou silêncio.
Em 1974, em Buenos Aires, Rulfo me disse que não tinha tempo para escrever como queria, por causa do trabalhão que tinha em seu emprego na administração pública. Para ter tempo precisava uma licença e essa licença tinha de pedi-la aos médicos. E a gente não pode, me explicou Rulfo, ir ao médico e dizer: “Me sinto muito triste”, porque por essas coisas os médicos não dão licença. (p. 122).


Extraído do livro: Galeano, Eduardo. Dias e noites de amor e de guerra. Tradução de Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2002.

José Saramago, Janela da alma

video

Confira na íntegra o documentário Janela da alma, de João Jardim e Walter Carvalho: http://video.google.com/videoplay?docid=1046435147561692538#

A linguagem/3, por Eduardo Galeano

video


Na era vitoriana, era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:
o capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;
o imperialismo se chama globalização;
as vítimas do imperialismo se chamam países em vias de desenvolvimento, que é como chamar meninos aos anões;
o oportunismo se chama pragmatismo;
a traição se chama realismo;
os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos;
a expulsão dos meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de deserção escolar;
o direito do patrão de despedir o trabalhador sem indenização nem explicação se chama flexibilização do mercado de trabalho;
a linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria;
em lugar de ditadura militar, diz-se processo;
as torturas são chamadas constrangimentos ilegais ou também pressões físicas e psicológicas;
quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, são cleptomaníacos; (p. 41).
o saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome de enriquecimento ilícito;
chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis;
em vez de cego, diz-se deficiente visual;
um negro é um homem de cor;
onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler câncer ou Aids;
mal súbito significa infarto;
nunca se diz morte, mas desaparecimento físico;
tampouco são mortos os seres humanos em batalha são baixas, e os civis, que nada têm a ver com o peixe e sempre pagam o pato, são danos colaterais;
em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefatos que explodem”;
chamam-se Conviver alguns dos bandos assassinos da Colômbia, que agem sob a proteção militar;
Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia;
Chama-se Paz e Justiça o grupo paramilitar que, em 1997, matou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, que rezavam numa igreja do povoado de Acteal, em Chiapas. (p. 42).

Trechos retirados do livro: GALEANO, Eduardo. De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. Tradução de Sergio Faraco. Porto Alegre: L&PM, 1999.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Entrevista com Manoel Ricardo de Lima


Manoel Ricardo de Lima foi um dos arguidores em minha banca do Mestrado. Confiram o que ele nos diz sobre poesia:

Diário Do Nordeste, COLUNA

Carlos Augusto Lima

Uma conversa: poesia número 7


Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com o desequilíbrio. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Poeta é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadas.

Com esta conversa poesia, a de número 7, encerro cá um ciclo, um estiramento de papo com alguns bons poetas de cá, ou de cá ao longe, este melhor lugar de ficar. Sete conversas que me deixaram feliz, escolhas certeiras, precisas, inteligentes. Que outras venham, de outra forma, outros lugares do saber e conhecer. Ou que seja apenas silêncio, quem sabe.

Para este último papo, convido Manoel Ricardo de Lima, que nasceu no Piauí, mas é cearense, e anda nos longes de uma ilha, fincando lastros, conexões, conversas das mais variadas, que esticam o dedo de prosa para além da literatura (por ela mesma), e prefere criar um território de saber, contemporâneo, sem mesmo a ideia de território, como você vai ler e verá. Manoel é uma das vozes críticas mais contundentes e espertas da literatura contemporânea brasileira. Voz aguda, diversa, filosófica, de mil referências e saberes atuais que tanto o empolgam. Entre tantas e outras coisas, Manoel Ricardo foi articulista deste jornal, é doutor em Literatura e Textualidades Contemporâneas, pensando Joaquim Cardozo, pela UFSC, e retomou a escrita do poema no seu mais recente livro "Quando todos os acidentes acontecem" (Editora 7 Letras, 2009). Com vocês, Manoel. Que esteja presente.


1) Por que escrever poesia, essa insistência? Ontem assisti a um documentário simples, O equilibrista, sobre o cara que andou entre as torres do WTC, Philippe Petit, não pelo filme, nada pelo filme, mas pelo ato poético, este ato que não tem porquê. 45 minutos num cabo, pra lá e pra cá, entre os terraços das torres, solto no tempo e com um imenso sorriso aliviado no rosto. Então é óbvio que Petit se irrite com a pergunta que todos lhe fazem: "mas por que você fez isso?", e se irrita porque defende o gesto de uma vida mais perto do perigo, uma vida que possa provocar uma rebelião. Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com isso, com o desequilíbrio do corpo lançado sobre um fio de vida alegre. Poesia, acredito, é lançamento. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Esta insistência passa um pouco por aí, por uma certa ética para o fanciullo, para a imaginação, para o amor, para o acidente que é o amor (descontrole, fúria, rasgo, acesso, distração, comum etc, e o que mais você quiser incluir aí, acho que cabe). E este ato não tem a ver com a palavra, apenas, isto me parece pobre e muito cristão, mas tem a ver com os modos de uso dos corpos com a vida, das operações do corpo e seus gestos políticos mais tensos. Quando escrevo, escrevo assim, como uma responsabilidade para nada, como "um território de luta", uma recusa e um lance com uma história aberta. E tenho tido cada vez mais vontade de escrever pra nada, num caráter insustentável do sentido.


2) Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje? Poeta é o que está expulso, Carlos, mas é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadas. E estas mesmas coisas, me parece, de fato, todas elas, sem exceção, não tem mais saber histórico, não tem história, mas apenas um ajuste de emergência para o progresso. Uma história pré-fabricada, a que chamamos de poder, é a lei única e definitiva. O que nos sobra, a angústia? Esta pergunta é a marca feita com água a partir de uns versos de Alexandre Barbalho, "só o que me salva é a/ angústia"; versos que vem como afirmativa, inclusive. A questão para o poeta agora, imagino, ainda pode ser retomar a utopia como um campo desejante, um campo para o desejo. Sempre com uma imprecisão interrogativa: como furar o campo da necessidade, que é o da política, com um poema, para armar um estado de utopia? Eu insisto nisso do poema porque preciso de um sonho, Carlos, ao menos um. Fazer a flor que posso ou tocar com a ponta do meu nariz num ponto furo de alguma ou qualquer imagem do mundo.


3) Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipo de reflexões pode apontar a partir desse dado? Se eu começar a pensar em Fortaleza só como este lugar que tem nome de forte, posso começar a me sentir como Julio Cesar Chaves e desferir uns ganchos de esquerda, quase sem desperdício. Você deve lembrar que em 1990 Chaves ficou mais célebre ainda depois de derrubar Meldrick Taylor no último round, quando perdia por pontos, e mandou a frase: "Luta se ganha no ringue, não enquanto se discute." A frase é boba, de efeito, mas aponta pro chão, aponta pra onde o ato se constrói, pra onde é a queda, pra onde não tem porquê. Eu abandonei a discussão, Carlos, tenho me enchido de cansaço porque ela anda simplista, fora de prumo, atrás de significados e sem impertinência, e aí tanto faz se em Fortaleza ou em qualquer outro canto. Mas não abro mão de minha postura, do meu lugar político como poeta, por isso tenho a impressão de que não larguei o chão enquanto faço um pouco de silêncio e ando mais devagar, mas é só um pouco.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Uma história enfadonha, Anton Tchekhov



No conto Uma história enfadonha, Tchekhov deu voz ao que sinto:

"Um bom regente de orquestra, ao transmitir o pensamento do compositor, executa simultaneamente vinte tarefas: lê a partitura, agita a batuta, observa o cantor, faz um movimento ora na direção do bombo, ora do corno-inglês etc. O mesmo faço eu, dando aula. Tenho na frente cento e cinqüenta rostos, que não se parecem entre si, e trezentos olhos que me encaram bem de frente. O meu objetivo é vencer esta hidra de muitas cabeças. Se em cada momento da minha aula tenho uma noção nítida do grau da sua atenção e da intensidade da sua aprendizagem, ela está em meu poder. O meu outro inimigo aloja-se em mim mesmo. É a variedade infindável de formas, fenômenos e leis e o grande número de pensamentos meus e alheios por eles condicionados. A cada momento, devo ter a agilidade de arrancar deste material imenso o que é mais importante e necessário e, com a mesma velocidade com que ocorre o meu discurso, revestir o meu pensamento de uma forma que seja acessível à compreensível da hidra e que desperte a sua atenção, sendo então necessário vigiar com muita perspicácia para que os pensamentos se transmitam não na medida do seu acúmulo, mas numa ordem determinada, indispensável à correta composição do quadro que eu quero pintar. Em seguida, procuro fazer com que o meu discurso tenha estilo elevado, as definições sejam breves e exatas, a frase, se possível, singela e bonita. A cada momento, devo frear-me e lembrar que tenho à disposição apenas quarenta minutos. Numa palavra, não falta trabalho. Ao mesmo tempo, é preciso fazer de si um cientista, um pedagogo, um orador, e as coisas vão mal se o orador vence o pedagogo e o cientista, ou vice-versa" (p. 123 e 124).

Tchekhov, A. P. O beijo e outras histórias. Organização, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman. São Paulo: ed. 34, 2006. 272 p. (Coleção Leste).

William Blake e Victor Giudice

Ao folhear o livro de William Blake, O Matrimônio do Céu e do Inferno e O Livro de Thel (2000), encontrei os seguintes versos: “É isso um verme? Vejo-te indefeso & nu, chorando/ E ninguém para acudir, ninguém para confortá-lo com/ sorrisos de mãe” (p.75). Esta passagem me levou a pensar no conto abaixo: O arquivo, de Victor Giudice.

video

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Porque sustenta no espírito


Porque sustenta no espírito a imagem do passado, o poder do presente, a aspiração de futuro é que a escrita se configura como necessidade. Ao escrever sempre se tomam emprestadas ideias lidas. A própria sintaxe é moldada a partir do gosto que se tem por autores, por estilos, por visões de mundo. Tenta-se imitar a arte de quem nos quedou em perplexidade.
A escrita traz para si um campo de associações semânticas que a torna única, mas ao mesmo tempo inteligível e comunicável. Isso ocorre porque a língua tem códigos e fundamentos que a sistematizam; à gramática se devem os recursos que se prestam à expressão. O modo como se lê influencia radicalmente a maneira pela qual se escreve.
Cada texto condensa a alma de várias obras numa só. A escrita evoca certos signos ancestrais, oriundos de uma fonte autobiográfica, enquanto se processa. Quando se escreve, algo se inscreve em nós, e as temporalidades nivelam-se, sobrepondo-se em uma superfície de celulose. Nos interstícios das páginas moram histórias elípticas, que aludem às incursões feitas em livros.
A leitura aprimora a escrita, faz com que o sentido irrompa da casca para se tornar ave, para ser Fênix
[1]. Quem escreve, sabe que seu ofício é feito de pequenos lampejos de lucidez, acompanhados de longos períodos de escuridão. Amassar, rasgar, refazer, abdicar, incluir, revisar, omitir são verbos cuja intensidade é sempre superlativa para quem tem como hábito escrever. Não foi à toa que se mencionou Fênix, pois grande parte do que se tece tem como destino a fogueira, como já nos trouxe Gaston Bachelard. Incineram-se textos num afã de exorcizar, no ritual, a influência de uma leitura ruim. No fim, tem-se uma espécie de liberdade simbólica: a renovação idiossincrática completa-se nas cinzas do que não mais é.
Ler acende a consciência: a combustão do pensamento alastra-se nos pavios da mente, empapada com o óleo inflamável do desejo de saber. Cada escrito é povoado por uma chama, assim como o foi Prometeu, de Ésquilo. As ideias, à maneira do jogo do anel, passam de olho em olho, elidindo a cegueira. O leitor, apropriando-se da aliança com a linguagem, produz a escrita. Logo, o matrimônio entre a palavra e o sentido realiza-se.
Em contrapartida, existe um quê de masoquismo no ato de pesquisar. Ler desacomoda, desordena, nos põe diante de Esfinges. Faltam-nos respostas. Somos devorados, e o universo que passamos a residir é o próprio interior enigmático das obras que nos engoliram. No ventre da Esfinge, o pesquisador volta à caverna
[2], só não perde o que já adquiriu. Lá, fica recluso e escreve. Transforma-se em trevas, brinca com a claridade da metáfora, faz das sombras companhia. Está novamente em gestação. Nascerá no mundo, para o mundo e fora dele, quando o oráculo, que é o problema que o move, indagá-lo: por onde andavas que não me sabias? Eu sempre estive aqui, onde tu não estavas. Tu não soubeste me procurar, não tinhas treinado a visão para enxergar-me. Agora, me vês, me desejas: sou teu, decifra-me. Dito isto, o problema, para o pesquisador, já não era mais o mesmo. Urge um outro ciclo: abre-se um novo livro. A desgraça se processa[3].


[1] Na mitologia antiga, ave fabulosa que, segundo a tradição egípcia, durava muitos séculos e queimada, renascia das próprias cinzas.
[2] Regressa tanto à caverna do período neolítico quanto à de Platão, no livro A República.
[3] “A resposta é a desgraça da questão” (Blanchot, p. 43).BLANCHOT, Maurice. A Conversa Infinita. São Paulo: Escuta, 2001.

O escritor é um pouco Pigmalião: está ao encalço de sua Galatéia[1].

[1] Alusão à Mitologia greco-romana e, também, à peça teatral de George Bernard Shaw intitulada Pigmalião: nela, o protagonista conhece uma florista e, à força de reformá-la a partir de uma imersão no mundo da linguagem, acaba por se encantar com a própria invenção. Mas, ao contrário do mito, eles não ficam juntos.

Banquete-carniça


Na parede,
A cópia de Velásquez.
A velha frita relógios
Tempera-os com humanos
No óleo quente da panela.

Na tinta a óleo,
Espectadores queimam
Os olhos-realidade.
São humanos,
Ingredientes do globo.
A culinária do diabo.
Não há Diotima
[1].
Violência-crisálida,
Amor-borboleta.
E a velha frita relógios.

[1] A primeira mulher a sentar-se junto aos filósofos, no Banquete, de Platão. Seu nome significa: a destinada a Deus. Diotima também é o pseudônimo de Ermelinda Tuzzi, no romance de Robert Musil, O homem sem qualidades.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009


Lentes de ferro, ente de Letes[1]

A criança atrás das grades...
Estava presa, a criança?
Não, esperava alguém nas grades da creche.
Olhar de vórtice tinha o menino-presa-limite da educação.
Entrincheirado lá, a violência ficava a um palmo de distância.
Ele via por detrás das grades as ruas, os sonhos, os átomos de si.
Delírios de estar fora da blindagem cotidiana.
Era um menino delido da memória dos pais, esquecido ao deus-dará?
Ruas delgadas, não-sei-quê de intestinais,
Quase orgânicas de tão concretas que eram naquelas retinas.
Grades memoriais, óculos de ver realidade.
Embaçou-me a criança que fui o menino que vi.

[1] Na Mitologia grega, o lago em que se banhava a fronte para apagar a memória.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Etimologia


A palavara ALUNO (verbo alo, alere, alumnus) significa, em latim, "criança que precisa ser alimentada" e não "sem luz", como pensam alguns.


FICÇÃO (origem latina do verbo irregular FINGO - IS - FINXI - FICTUM – FINGERE (+ LATIM TARDIO: FINCTUM)

Acepções:

• Modelar em barro
• Modelar em qualquer substância plástica (cera, argila)
• Esculpir
• Formar
• Representar
• Arranjar
• Dar forma, pentear o cabelo...
• Reproduzir os traços de alguém.
• Tocar levemente, acariciar
• Imaginar
• Inventar
• Fingir
• Imaginar os outros por si
• Ficção (oposta a realidade): RES VERA x RES FICTA (coisa verdadeira x coisa ficcional)
• Ajustar
• Adaptar
• Instruir (dar formato educacional)
• Afagar


Fontes: Dicionários de Língua Latina: SARAIVA; GOMES FERREIA(PORTO); Dicionário de L. Portuguesa: A. HOUAISS.

Momentos










































































































Minha dissertação: Ensaios em psicanálise e literatura


Os Ensaios em psicanálise e literatura evocam, pelo estilo, a estética e o espírito do pensamento em ato e buscam a um só tempo uma maneira de escrever que não se converta ao que critica. O autor, no primeiro capítulo, toma de empréstimo a personagem de um conto do escritor Jorge Luis Borges para problematizar a memória na contemporaneidade. No capítulo seguinte, faz uma autópsia sobre as motivações da escrita estimulada pela leitura. E no último capítulo, inspirado em Roland Barthes, Gaston Bachelard, Eduardo Galeano e na obra As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, resgata dos capítulos anteriores emblemas e questões abordadas de forma indireta e as transforma em crônica, poemas, axioma e narrativas ficcionais. A unidade e a diversidade interpenetram-se ao longo das páginas, e o leitor ou leitora é quem fará os elos e os incorporará à sua visão de mundo.

Ao invés de reproduzir o discurso que trata da miséria, por exemplo, o autor escreveu uma narrativa ficcional em que a estética da depauperação emergiu da trama. Para não repetir o que já foi dito sobre a violência, três poemas a invocaram. Sem que se devassasse As Cidades Invisíveis, de Calvino, uma outra cidade, também inventada, surgiu a partir da leitura do livro. Esfacelar uma obra não diz nada a respeito dela, só se fica com as partes formais, decomponíveis, que passam a pertencer à área da propedêutica, e isso não é grande coisa. Então, com a ausência de vocábulos herméticos e de toda a algaravia científica que, muitas vezes, eclipsam mais do que elucidam, pois, como Cortázar (1999) já apontou: “É horrível falar de um jasmim com termos que servem para explicar um motor a diesel” (p. 235), o autor problematizou, de forma plástica, o que se dispôs a pensar. Evitou discussões sincrônicas; preferiu uma modalidade mais anárquica nas exposições efetuadas, até porque a dissertação se movimentou no campo experimental da escrita e se propôs a estender as fronteiras do discurso acadêmico, a partir de uma ruptura em ato dos circuitos de repetição do mesmo. Em nenhum momento, o receptor foi subestimado, porque a validade da pesquisa se concentra nele, em suas percepções. Por isso, dentre outros casos, a palavra autoria não foi utilizada: para o bom leitor, o silêncio é ruidoso; o que está oculto tem mais significado e riqueza do que aquilo que se mostra sem esforço. Afirmações categóricas podem ter sido feitas nas páginas precedentes, mas, como há de se suspeitar, os juízos devem ser relativos, por trazerem à tona o ponto de vista do autor, que se expressou da forma que considerou a melhor possível. Às vezes, justificar o porquê de se pensar de um jeito e não de outro se torna estéril, visto que, com o passar dos anos, se acumulam experiências que se confundem com certezas, e tudo o que é humano só tem uma garantia: a morte. E se o que foi escrito for realmente importante, outros sucederão com novas idéias e proposições o que aqui foi abordado, sem que se neutralizem as diferenças ou se institucionalize um saber, e isso é o suficiente.


Leia na íntegra os Ensaios em psicanálise e literatura:


Estereofonia


Aposto em uma construção dialética de visões de mundo. Proponho a plasticidade do pensamento: as afirmações categóricas podem inibir a criatividade. Tenho sempre em mente uma frase: se rigor metodológico funcionasse, as escolas e as universidades gerariam mais escritores (revolucionários, portanto) e menos papagaios. Faço aulas expositivas, apresento autores (quanto melhores leitores, melhores escritores) e sugiro que os integrantes compartilhem o que produziram, não importando o gênero, crônica, conto, poesia, axioma, artigo científico, monografia, dissertação, tese etc. Além disso: "Todos devem deixar alguma coisa para trás quando morrem, dizia meu avô. Um filho, um livro, um quadro, uma casa ou parede construída, um par de sapatos. Ou um jardim. Algo que sua mão tenha tocado de algum modo, para que sua alma tenha para onde ir quando você morrer. E quando as pessoas olharem para aquela árvore ou aquela flor que você plantou, você estará ali. Não importa o que você faça, dizia ele, desde que você transforme alguma coisa, do jeito que era antes de você tocá-la, em algo que é como você depois que suas mãos passaram por ela. A diferença entre o homem que apenas apara gramados e um verdadeiro jardineiro está no toque, dizia ele. O aparador de grama podia muito bem não ter estado ali; o jardineiro estará lá durante uma vida inteira". (p. 192). (A citação veio do livro: BRADBURY, Ray (1920-). Fahrenheit 451: a temperatura na qual o papel do livro pega fogo e queima. Tradução Cid Knipel, prefácio Manuel da Costa Pinto. São Paulo: Globo, 2003).

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Esperança


Quando Pandora desobedeceu ao pedido de Hermes, o emissário dos deuses, e abriu a caixa em que Zeus concentrou todos os males que, hoje, infestam o mundo, ouviu pronunciar-se do interior do fatídico recipiente, antes lacrado com cera, a voz lânguida da Esperança, única virtude que, no fundo, nos restou.

Pelas barbas de Marx!


O capitalismo é um gigante que come à mesa um farto banquete, preparado pela força de trabalho dos proletários, que se alimentam apenas das migalhas que caem no chão.

O homem, algoz de si mesmo

Como pensar a sociedade em bases tais que nela a pobreza seja impossível? Ao longo dos anos, a camada pensante da cultura engendrou numerosas digressões de melhoria do mundo. Muitas delas, em nome do progresso, explodiram em mil fragmentos as polias de uma maquinaria despótica, enquanto outras, azeitaram ainda mais as peças desta mecânica que avilta a humanidade. Séculos de opressão tingiram com sangue os calendários, por isso algumas datas, civis ou religiosas, em que se suspendem os trabalhos, encontram-se em vermelho.
Se auscultássemos o coração da História, perceberíamos emanar-se dali uma gritaria desesperada, oriunda de uma legião de espíritos, que tiveram os corpos volatilizados, os ossos triturados, os sonhos reduzidos a migalhas, tudo em acordo com o Establishment. Porque cada época cria ícones para adorar, não importando se são nocivos ou não, se incitam à incivilidade ou se põem em xeque direitos há muito valorados pelo ideário coletivo, é que o homem caminha pelas cristas do tempo com o cadáver de heróis e vilões, muitos deles desconhecidos, sobre os ombros. Supliciado pelos erros dos antepassados, transformou-se em Atlas. Aprendeu a represar o ódio, sofrendo as penas infligidas de forma passiva para, depois, mais forte, converter todas as dores, que se somaram às já existentes, em munição para destruir a natureza. E, assim, ignorante dos efeitos de seus atos, vive o homem – algoz de si mesmo.
video

Petrificado


Fazia tempo que minhas mãos não escreviam. Pareciam envoltas por uma camada de argila seca, de tão rijas que estavam. Sinto-me, agora, como um sobrevivente à lava vulcânica que encobriu Pompéia. Ou como um inseto que se libertou do exoesqueleto, pois modificou as proporções. Durante minha infância, vivi num alçapão bolorento. Meu pai me deixou lá, alegando que era para o meu bem. Queria me poupar dos sofrimentos da vida. Minha mãe morreu quando nasci – soube pelo meu pai. Ele era um homem taciturno, nunca tive coragem de romper o casulo do silêncio com um verbo sequer. Aprendi a ficar quieto, a criar monólogos com as sombras que se alongavam nas paredes, em função do bruxulear das velas noturnas. Eu nunca saí para passear. Conheci o mundo através dos livros da biblioteca do meu pai. Ele gostava muito de fazer leituras e de escrever, nas tardes gris de inverno – apenas em dias assim. Da última vez que o interrompi, perguntando o porquê de estar rindo, ele me esbofeteou com tanta força que perdi um dente. Fui me esconder no alçapão, com medo de levar mais pancada. Depois, ele veio me confortar, abraçando-me enquanto eu tremia de pavor. Explicou que não era para eu dirigir-lhe a palavra quando estivesse lendo, pois senão perderia a concentração. Eu prometi que não faria mais aquilo. Ele consentiu, cravando o olhar avermelhado no meu. – E não chore mais, disse, batendo a porta. Na escuridão, eu fiquei encolhido no canto da parede, receoso de fazer qualquer ruído. Comecei a arranhar o reboco que cedia aos movimentos feitos com os dedos. Cansado, me virei de bruços e, ainda soluçando, comecei a acreditar que eu poderia viver ali dentro. O meu pai ainda roncava, apesar do dia ter despontado. Fora do alçapão, o espreitei. Uma garrafa de Vodka pendia sobre o peito dele. Caminhei devagarzinho até a cozinha e peguei uma colher. Desci as escadas novamente. Um degrau rangeu, meu pai sufocou-se com a própria respiração, e acordou. Fui rápido, acho que ele não me viu. Guardei a colher no bolso da única calça que eu tinha. Meu pai vivia de rendas. Minha falecida mãe foi enfermeira. Cuidava das pessoas, inclusive do meu pai, como ele me contou. Uma mesma música tocava ao meio-dia; meu pai a escutava sempre. Antes que ele me chamasse para comer o que sobrou em seu prato, eu usava a colher para perfurar a parede, sem machucar minhas mãos. Arredava o armário para tapar o buraco. Seguia a rotina. Todos os dias eram metodicamente idênticos. Esta repetição permitia que meu isolamento fosse produtivo. Continuava a cavar. Meu pai fechava as janelas com pedaços de madeira, pois seus olhos não suportavam a claridade. Eu imaginava o que podia existir para além daqueles vidros empoeirados trespassados por madeiras e pregos. Talvez eu tenha sido amado, mas de uma forma pouco comum. Meu pai, quando bebia demais, me espancava, gritando que eu era um assassino. Eu não entendia, até que um dia compreendi tudo. Mas eu não posso ter matado a minha mãe, pensava. Meu pai tinha um caderninho no bolso do casaco. Ele escrevia algumas coisas nele. Não faço ideia do que era. Fui alfabetizado muito cedo. Ele me ensinou a ler e a escrever. Nunca fui à escola. Conheci professoras descritas em livros, nada mais. Continuei cavando um buraco, até que pude me esconder no vão da parede. Fiquei ali durante muito tempo. Já não atendia mais aos chamados do meu pai. Finalmente, consegui não existir, ser imaterial ou, melhor, mineral. Eu me transformei em tijolo para cessar o sofrimento do meu pai, meu pobre pai. Eu não devia ter matado minha mãe. Não podia ter nascido. A porta abria de madrugada. Era ele quem me procurava. Não fazia ideia de onde eu tinha ido. Eu o espiava, desde então. Ele parecia mais vulnerável, mais velho. Tinha vezes que ele chorava, quando entrava no alçapão. Nunca entendi o porquê. Continuava me disfarçando de parede, para não ser visto. À noite, enquanto ele dormia, eu roubava alimentos e água. Já faz alguns anos que meu pai dorme. Eu nunca me atrevi a acordá-lo. Peguei, um dia, o caderninho no bolso do casaco dele. Não houve reação. Manteve-se na mesma posição. Eu acho que ele não me via mais. Acho que transformei meu espírito em pedra mesmo, uma pedra invisível. Ele devia estar sonhando com a minha mãe, por isso não acordava. Havia muitos rabiscos naquele caderninho. Alguns desenhos meus, inclusive. Por que ele os guardou? Pelo que entendi, se tratava de um diário, mas só falava de mim. Tinha uma página que dizia que minha mãe estava viva e que meu pai tinha um outro nome. Que sobrenome eu tinha, então? Este homem não era meu pai? Onde estariam o meu pai e a minha mãe? Voltei a me abrigar no útero daquela parede. Não sairia mais de lá até que eu nascesse novamente, matando a história que havia naquele caderninho. Mas antes escrevi esta carta. Um dia, se me desemparedassem, saberiam o que aconteceu. Eu não posso ter sido raptado.


Conto publicado no livro 103 que contam, organizado pelo escritor Charles Kiefer.

Crônica de um perdido


Se as palavras fossem apenas segundos, as horas páginas completas, os dias livros entendidos desde o início, então, tudo seria mais fácil para mim. Mas a realidade está cifrada em uma linguagem obtusa e ambígua. Por mais treinado que sejam os olhos, por mais aguçada que seja a razão, só consigo balbuciar o que vejo, o que sinto. Não sou capaz de fazer um pôr do sol em uma frase. Aliás, mais coisas em mim me inquietam além do mencionado. É disso mesmo que quero tratar. Mil são as histórias que me compõem. Em cada célula mora uma memória; em cada passado se oculta a forma que tenho hoje. À medida que se somam os anos, acumulam-se as vivências, ampliam-se os repertórios de percepções e por aí vai. No entanto, há um paradoxo: falto de recursos lingüísticos ou de experiências, talvez, não consigo dar nome, classificar, tudo que me acontece. Uma barreira separa o que penso do que sou capaz de pensar e de transmitir. Parece haver uma interdição de ultrapassagens, de deslocamentos, de sondagens e de testemunhos. Ocupo um lugar que não gosto, e sou forçado a permanecer nele contra a vontade. Como se obedecendo eu fosse recompensado com algum prêmio abstrato e, ao mesmo tempo, equívoco. E espero por isso, que foge à concepção, que se esvai na tentativa de se definir. A promessa disso é que me põe em marcha; só que ainda estou parado. Parado e incrivelmente longe de estar parado, porque em tudo há um movimento de moléculas, de átomos, de sutilezas e de milagres. Mesmo que não se note, há. Fora e dentro de mim, vivem tantas coisas que não percebo e outras tantas que adivinho sem realmente o querer. Afinal, o que sou capaz de apreender, de apalpar com os sentidos e os verbos? Que clarividência eu tenho? O Paulo que sou pergunta ao Paulo que fui antes de formular essa questão. Aí me transformo em germe de alguma outra coisa que não eu, um arremedo de eu. Não sou o mesmo depois que escrevo: enterro e exumo até à exaustão o que fui, o que sou, o que serei e não me acho nunca.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

E há Taylor na escrita

Ler eletriza os circuitos do pensamento, recruta o pulso para a mecânica da escrita, faz com que os dínamos da alma movimentem as polias dos dedos para fabricar textos. A palavra é a matéria-prima da indústria do conhecimento. O escritor é o operário da sintaxe: pressiona os botões da máquina da forma, produz estilo, faz a rotação das manivelas da gramática, põe em tensão a seqüência de bielas do conteúdo, lubrifica as peças alfabéticas, diminui o atrito da linguagem. Revisa as construções frasais na esteira das linhas de produção. Aciona as correntes de transmissão de idéias. Usa as alavancas do dicionário, se preciso. Monitora a qualidade dos vocábulos, agrupa-os em categorias, em setores semânticos afins. Aumenta a velocidade dos tornos ortográficos: dá acabamento ao sentido. O signo está pronto para consumo. A empresa de transporte chama-se livro.

Travessia


Não sei se julgo como sonho ou pesadelo o que me sucedeu em uma destas noites: no necrotério, em companhia do médico legista – senhor de feições graves, cabelos grisalhos, olhar perturbado e avental manchado de sangue –, eu fui levado a uma sala sombria. A luz incidia apenas sobre o leito de inox em que jazia um cadáver, coberto pelo lençol branco. Ali respirava uma atmosfera de mistério. À maneira de um prestidigitador, o médico pôs à mostra o corpo inerte e voltou-se para mim, esperando flagrar minha reação. Mirei demoradamente o falecido, sem perplexidade. Isso deve tê-lo frustrado um pouco. Depois, liberto de uma espécie de torpor, tomei parte do que acontecia, e senti o pavor irradiar-se em mim: o defunto era eu. Atônito, quis tapar o rosto, para não imprimir nas retinas o que me foi dado testemunhar. Nisso, o velho doutor pegou a minha mão e nela colocou um bisturi, dizendo calmamente no ouvido, como se me confidenciasse um segredo: perfure o tórax, extirpe o coração e o introduza na boca do morto. De imediato, relutei às instruções, mas ele, segurando meu antebraço com violência, não me deixou alternativa: entre raivoso e conformado, cravei o bisturi na pele daquele eu sem alma. O sangue coagulado raiou do interior da pele fria e afluiu pelos tubos laterais do leito de inox, desembocando no ralo. Depois de penetrar as espessuras das carnes com a lâmina, cheguei ao coração. A esta altura, parado ao meu lado, o médico estampava nas faces um contentamento infantil; antevia algo que, para mim, àquela hora, era puro sortilégio. Então, obedecendo à ordem funesta, agarrei o órgão e o inseri na boca rija do cadáver. No mesmo instante, acordei abruptamente. A despeito de a cena macabra durar em mim, eu estava inundado por uma felicidade incomum. O velho, meio obstetra, meio feiticeiro, expatriou-me prematuramente da terra dos sonhos; só não teve tempo de cortar o cordão umbilical que continua me unindo ao útero das coisas insólitas, nutridoras de meu imaginário: por isso escrevo, para fazer travessias entre lá e cá.
Conto publicado no livro 104 que contam, organizado pelo escritor Charles Kiefer.

Eu, depois


A chuva acirrava o cheiro da terra à noite, enquanto o vento zunia nas frinchas da janela e lembrava um canto fantasmagórico vindo não sei de onde, talvez de mim mesmo. No quarto, sentado à escrivaninha, em vão eu tentava escrever. O frio me penetrava os poros. Cheguei a suspeitar que nas artérias circulavam pequenos icebergs ao invés de sangue. Será isso o que sentem os que buscam nos livros a chave para tudo na vida? E deitada à minha frente, sobre o halo de luz, a folha queria inundar-se em tinta, unir-se a algum sentido, e uma fina camada de gelo parecia envolver as minhas mãos, retesando-as. Eu mal conseguia empunhar a caneta, porque um leve tremor me impedia. Às vezes, nos é difícil contar aos papéis o que vem da intimidade. Sou um homem que dá a própria carne para alimentar os textos. Reconheço-me no que faço. Só que estou mergulhado em letargia. Uma espécie de brisa branqueia-me os pensamentos. Não sei bem que Paulo é este que me habita e que se dilui em existências.
Lá fora, os rumores cessaram. Já não havia chuva, já o vento se cansara de vergastar as folhagens. O silêncio se infiltrava nos cantos da peça. Levantei, consultei o relógio. Madrugada. Apaguei a luz. Fui para a cama. Enrodilhei-me no cobertor para dissipar a sensação gélida da pele. Aos poucos, o calor crescia por debaixo dos lençóis e eu relaxava. Algumas frases, como de costume, formavam-se em minha cabeça, como uma canção de ninar. Deixei que ecoassem sob meu crânio, esperando que a realidade geométrica da vigília começasse a empalidecer e a dar espaço aos sonhos. E assim adormeci e acordei em outro lugar.
Movia-me em um jardim, mais precisamente. Talvez, o da casa de minha bisavó. Não sei. Eu me assistia de longe, como se eu fosse dois: o espectador e o que cavava um buraco. No bolso da calça, estavam metidos vários manuscritos de minha autoria. Em um lavor absurdo, eu os aninhava no regaço agreste da terra. Pareciam defuntos de celulose, tatuados com grafias achinesadas. Os anagramas eram ilegíveis; por mais que eu rolasse os olhos sobre eles, desordenavam-se diante das pupilas. Em meio às minhocas, aos caracóis, aos túneis de formigas e toda sorte de criaturas que vivem distantes da luz, segui cavando, cavoucando a mim mesmo naquela terra que era eu, que era ninguém, que era o caixão em que guardava as sementes de minha escrita. Ao meu redor, algumas árvores rasgavam dramaticamente o solo e emergiam dos subterrâneos. Tinham gravadas nos troncos e nas ramagens a minha caligrafia. Suas raízes se desenvolviam às custas da seiva dos papéis em que pousei as ideias. Um pouco do meu sumo irrigava as entranhas daqueles vegetais lenhosos. Mas eu envelhecia sulcando buracos, perdendo as unhas dos dedos agora em carne viva nas cavidades terrosas. E o meu sangue embebia as palavras que se misturavam ao solo e se plasmavam em frutos. E ali eu me esvaía no lodo, errando nas galerias que construí com as mãos, fitando as copas em que pendiam os renovados textos. Volvia e revolvia a lama, a argila em que nasci, e da algibeira brotavam incontinenti mais escritos. O terreno era um útero macerado, porém fecundo. Eu me sentia, àquela altura, cada vez mais mineral. O gosto acre assomava às papilas. Os músculos hirtos já não obedeciam aos comandos. No rosto, colhia-se a dor. O ar escasseava-se. Um estado sonambúlico dominava o velho Paulo que continuava cavando. Cavando ao lado do próprio fantasma o túmulo em que jazeria depois.

De todos os livros o livro

Lá se encontrava, intocado, um livro na estante. Como uma Esfinge em forma de retângulo, ele continha um mistério. De onde eu estava, o título e o nome do autor se embaralhavam numa constelação babélica de letras. Subi na cadeira e estiquei o braço para pegá-lo. Queria-o perto de mim. Bastaria consultá-lo, como a um oráculo, para que o universo preso àquelas páginas se deflagrasse aos olhos. Mas eu não o alcancei. Só encostei de leve a ponta do dedo na lombada cheia de arabescos, recolhendo-a, em seguida, aveludada de poeira. À semelhança de uma tumba de faraó, nunca soube se o tal exemplar ocultava tesouros ou maldições, e esta questão ficou gravada em mim, tanto que, hoje, em todos os livros que abro e folheio, busco sempre aquele, perdido nas estantes de alguma de minhas infâncias.

domingo, 4 de outubro de 2009

Um começo


Contarei um pouco da genealogia da oficina: a partir do Mestrado com o professor Pós-doutor Edson Luiz André de Sousa elaborei ensaios que trataram do campo de estudo da psicanálise e da literatura. Na minha dissertação, ao invés de reproduzir o discurso que trata da miséria, por exemplo, escrevi uma narrativa ficcional em que a estética da depauperação emergiu da trama. Para não repetir o que já foi dito sobre a violência, três poemas a invocaram. Sem que se devassasse As Cidades Invisíveis, de Calvino, uma outra cidade, também inventada, surgiu a partir da leitura do livro. Esfacelar uma obra não diz nada a respeito dela, só se fica com as partes formais, decomponíveis, que passam a pertencer à área da propedêutica, e isso não é grande coisa. Então, com a ausência de vocábulos herméticos e de toda a algaravia científica que, muitas vezes, eclipsam mais do que elucidam, pois, como Cortázar (1999) já apontou: “É horrível falar de um jasmim com termos que servem para explicar um motor a diesel” (Obra Crítica, p. 235), problematizei, de forma plástica, o que me dispus a pensar. Evitei discussões sincrônicas; preferi uma modalidade mais anárquica nas exposições efetuadas, até porque a dissertação se movimentou no campo experimental da escrita e se propôs a estender as fronteiras do discurso acadêmico: trata-se de uma ruptura em ato dos circuitos de repetição do mesmo.
Há um mal crônico que nos assola, o da anestesia da singularidade. Os gestos tornaram-se maquinais, como se algo nos movesse por cordéis. Já não nos sentimos autores de nosso destino e nem de nossos textos: tudo nos guia à estranheza. Nossa voz parece atrofiar-se aos poucos com esse sintoma social, pois a mercadoria, como um ventríloquo, se faz de intérprete e dá as legendas do desejo: responde quem somos, alude à nossa origem e indica o montante de dinheiro que dispomos para gastar. A estereofonia da alma cedeu lugar à esteira de produção, e a linguagem das transações comerciais infiltra-se, de modo sub-reptício, no dicionário de valores que portamos para nos orientar.
Com a Oficina de produção psicanalítica e literária pretendo transferir aos participantes novas formas de abordar questões referentes à leitura e à escrita. Para tanto, estruturei um conteúdo programático que abarca exercícios de estilo e contempla as obras dos seguintes autores: Mario Vargas Llosa, Octavio Paz, Julio Cortazar, Italo Calvino, Ricardo Piglia, Daniel Pennac, Franciene Prose, Eduardo Galeano, Borges, Walter Benjamin, Roland Barthes, Tzvetan Todorov, Freud, Lacan, Primo Levi etc.

OFICINA DE PRODUÇÃO PSICANALÍTICA E LITERÁRIA

1. EMENTA

Discussão e análise de textos exemplares da tradição do conto, da crônica, da poesia;
Discussão e análise da crítica a respeito do gênero de escrita científica (projetos, artigos, monografias, dissertações, teses);
Produção e discussão de textos feitos pelos participantes da oficina.

2. OBJETIVOS

O aluno deverá ser capaz de:

2.1 – Ter uma visão panorâmica e diacrônica do conto, da crônica, da poesia;
2.2 – Analisar os aspectos que norteiam a produção textual;
2.3 – Produzir textos de natureza narrativo-ficcionais e/ou científicos, em diferentes gêneros;
2.4 – Discutir, sob a forma de seminários, seus próprios textos e os de outros autores.

Segue o endereço eletrônico de uma entrevista que concedi sobre a Oficina de produção psicanalítica e literária:

http://www.portalpsico.com.br/home.php?1=noticias/cab_noticias&2=noticias/act_detalhar&codigo=1&3=componentes/rodape&codigo=493