segunda-feira, 5 de outubro de 2009

De todos os livros o livro

Lá se encontrava, intocado, um livro na estante. Como uma Esfinge em forma de retângulo, ele continha um mistério. De onde eu estava, o título e o nome do autor se embaralhavam numa constelação babélica de letras. Subi na cadeira e estiquei o braço para pegá-lo. Queria-o perto de mim. Bastaria consultá-lo, como a um oráculo, para que o universo preso àquelas páginas se deflagrasse aos olhos. Mas eu não o alcancei. Só encostei de leve a ponta do dedo na lombada cheia de arabescos, recolhendo-a, em seguida, aveludada de poeira. À semelhança de uma tumba de faraó, nunca soube se o tal exemplar ocultava tesouros ou maldições, e esta questão ficou gravada em mim, tanto que, hoje, em todos os livros que abro e folheio, busco sempre aquele, perdido nas estantes de alguma de minhas infâncias.

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