quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Entrevista com Manoel Ricardo de Lima


Manoel Ricardo de Lima foi um dos arguidores em minha banca do Mestrado. Confiram o que ele nos diz sobre poesia:

Diário Do Nordeste, COLUNA

Carlos Augusto Lima

Uma conversa: poesia número 7


Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com o desequilíbrio. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Poeta é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadas.

Com esta conversa poesia, a de número 7, encerro cá um ciclo, um estiramento de papo com alguns bons poetas de cá, ou de cá ao longe, este melhor lugar de ficar. Sete conversas que me deixaram feliz, escolhas certeiras, precisas, inteligentes. Que outras venham, de outra forma, outros lugares do saber e conhecer. Ou que seja apenas silêncio, quem sabe.

Para este último papo, convido Manoel Ricardo de Lima, que nasceu no Piauí, mas é cearense, e anda nos longes de uma ilha, fincando lastros, conexões, conversas das mais variadas, que esticam o dedo de prosa para além da literatura (por ela mesma), e prefere criar um território de saber, contemporâneo, sem mesmo a ideia de território, como você vai ler e verá. Manoel é uma das vozes críticas mais contundentes e espertas da literatura contemporânea brasileira. Voz aguda, diversa, filosófica, de mil referências e saberes atuais que tanto o empolgam. Entre tantas e outras coisas, Manoel Ricardo foi articulista deste jornal, é doutor em Literatura e Textualidades Contemporâneas, pensando Joaquim Cardozo, pela UFSC, e retomou a escrita do poema no seu mais recente livro "Quando todos os acidentes acontecem" (Editora 7 Letras, 2009). Com vocês, Manoel. Que esteja presente.


1) Por que escrever poesia, essa insistência? Ontem assisti a um documentário simples, O equilibrista, sobre o cara que andou entre as torres do WTC, Philippe Petit, não pelo filme, nada pelo filme, mas pelo ato poético, este ato que não tem porquê. 45 minutos num cabo, pra lá e pra cá, entre os terraços das torres, solto no tempo e com um imenso sorriso aliviado no rosto. Então é óbvio que Petit se irrite com a pergunta que todos lhe fazem: "mas por que você fez isso?", e se irrita porque defende o gesto de uma vida mais perto do perigo, uma vida que possa provocar uma rebelião. Acho que insistir no poema tem a ver um pouco com isso, com o desequilíbrio do corpo lançado sobre um fio de vida alegre. Poesia, acredito, é lançamento. E isto, talvez, só se torne possível fora das imposições cotidianas de uma vida normatizada. Esta insistência passa um pouco por aí, por uma certa ética para o fanciullo, para a imaginação, para o amor, para o acidente que é o amor (descontrole, fúria, rasgo, acesso, distração, comum etc, e o que mais você quiser incluir aí, acho que cabe). E este ato não tem a ver com a palavra, apenas, isto me parece pobre e muito cristão, mas tem a ver com os modos de uso dos corpos com a vida, das operações do corpo e seus gestos políticos mais tensos. Quando escrevo, escrevo assim, como uma responsabilidade para nada, como "um território de luta", uma recusa e um lance com uma história aberta. E tenho tido cada vez mais vontade de escrever pra nada, num caráter insustentável do sentido.


2) Me faça um paralelo entre poesia/mundo. O que é ser poeta na condição de hoje? Poeta é o que está expulso, Carlos, mas é também o que não conforma. Estamos diante de uma espécie de ruína plena do afeto, como se as coisas todas do mundo estivessem atomizadas. E estas mesmas coisas, me parece, de fato, todas elas, sem exceção, não tem mais saber histórico, não tem história, mas apenas um ajuste de emergência para o progresso. Uma história pré-fabricada, a que chamamos de poder, é a lei única e definitiva. O que nos sobra, a angústia? Esta pergunta é a marca feita com água a partir de uns versos de Alexandre Barbalho, "só o que me salva é a/ angústia"; versos que vem como afirmativa, inclusive. A questão para o poeta agora, imagino, ainda pode ser retomar a utopia como um campo desejante, um campo para o desejo. Sempre com uma imprecisão interrogativa: como furar o campo da necessidade, que é o da política, com um poema, para armar um estado de utopia? Eu insisto nisso do poema porque preciso de um sonho, Carlos, ao menos um. Fazer a flor que posso ou tocar com a ponta do meu nariz num ponto furo de alguma ou qualquer imagem do mundo.


3) Simples: o que é escrever poesia em Fortaleza. Que tipo de reflexões pode apontar a partir desse dado? Se eu começar a pensar em Fortaleza só como este lugar que tem nome de forte, posso começar a me sentir como Julio Cesar Chaves e desferir uns ganchos de esquerda, quase sem desperdício. Você deve lembrar que em 1990 Chaves ficou mais célebre ainda depois de derrubar Meldrick Taylor no último round, quando perdia por pontos, e mandou a frase: "Luta se ganha no ringue, não enquanto se discute." A frase é boba, de efeito, mas aponta pro chão, aponta pra onde o ato se constrói, pra onde é a queda, pra onde não tem porquê. Eu abandonei a discussão, Carlos, tenho me enchido de cansaço porque ela anda simplista, fora de prumo, atrás de significados e sem impertinência, e aí tanto faz se em Fortaleza ou em qualquer outro canto. Mas não abro mão de minha postura, do meu lugar político como poeta, por isso tenho a impressão de que não larguei o chão enquanto faço um pouco de silêncio e ando mais devagar, mas é só um pouco.

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