segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Eu, depois


A chuva acirrava o cheiro da terra à noite, enquanto o vento zunia nas frinchas da janela e lembrava um canto fantasmagórico vindo não sei de onde, talvez de mim mesmo. No quarto, sentado à escrivaninha, em vão eu tentava escrever. O frio me penetrava os poros. Cheguei a suspeitar que nas artérias circulavam pequenos icebergs ao invés de sangue. Será isso o que sentem os que buscam nos livros a chave para tudo na vida? E deitada à minha frente, sobre o halo de luz, a folha queria inundar-se em tinta, unir-se a algum sentido, e uma fina camada de gelo parecia envolver as minhas mãos, retesando-as. Eu mal conseguia empunhar a caneta, porque um leve tremor me impedia. Às vezes, nos é difícil contar aos papéis o que vem da intimidade. Sou um homem que dá a própria carne para alimentar os textos. Reconheço-me no que faço. Só que estou mergulhado em letargia. Uma espécie de brisa branqueia-me os pensamentos. Não sei bem que Paulo é este que me habita e que se dilui em existências.
Lá fora, os rumores cessaram. Já não havia chuva, já o vento se cansara de vergastar as folhagens. O silêncio se infiltrava nos cantos da peça. Levantei, consultei o relógio. Madrugada. Apaguei a luz. Fui para a cama. Enrodilhei-me no cobertor para dissipar a sensação gélida da pele. Aos poucos, o calor crescia por debaixo dos lençóis e eu relaxava. Algumas frases, como de costume, formavam-se em minha cabeça, como uma canção de ninar. Deixei que ecoassem sob meu crânio, esperando que a realidade geométrica da vigília começasse a empalidecer e a dar espaço aos sonhos. E assim adormeci e acordei em outro lugar.
Movia-me em um jardim, mais precisamente. Talvez, o da casa de minha bisavó. Não sei. Eu me assistia de longe, como se eu fosse dois: o espectador e o que cavava um buraco. No bolso da calça, estavam metidos vários manuscritos de minha autoria. Em um lavor absurdo, eu os aninhava no regaço agreste da terra. Pareciam defuntos de celulose, tatuados com grafias achinesadas. Os anagramas eram ilegíveis; por mais que eu rolasse os olhos sobre eles, desordenavam-se diante das pupilas. Em meio às minhocas, aos caracóis, aos túneis de formigas e toda sorte de criaturas que vivem distantes da luz, segui cavando, cavoucando a mim mesmo naquela terra que era eu, que era ninguém, que era o caixão em que guardava as sementes de minha escrita. Ao meu redor, algumas árvores rasgavam dramaticamente o solo e emergiam dos subterrâneos. Tinham gravadas nos troncos e nas ramagens a minha caligrafia. Suas raízes se desenvolviam às custas da seiva dos papéis em que pousei as ideias. Um pouco do meu sumo irrigava as entranhas daqueles vegetais lenhosos. Mas eu envelhecia sulcando buracos, perdendo as unhas dos dedos agora em carne viva nas cavidades terrosas. E o meu sangue embebia as palavras que se misturavam ao solo e se plasmavam em frutos. E ali eu me esvaía no lodo, errando nas galerias que construí com as mãos, fitando as copas em que pendiam os renovados textos. Volvia e revolvia a lama, a argila em que nasci, e da algibeira brotavam incontinenti mais escritos. O terreno era um útero macerado, porém fecundo. Eu me sentia, àquela altura, cada vez mais mineral. O gosto acre assomava às papilas. Os músculos hirtos já não obedeciam aos comandos. No rosto, colhia-se a dor. O ar escasseava-se. Um estado sonambúlico dominava o velho Paulo que continuava cavando. Cavando ao lado do próprio fantasma o túmulo em que jazeria depois.

Nenhum comentário:

Postar um comentário