quarta-feira, 14 de outubro de 2009


Lentes de ferro, ente de Letes[1]

A criança atrás das grades...
Estava presa, a criança?
Não, esperava alguém nas grades da creche.
Olhar de vórtice tinha o menino-presa-limite da educação.
Entrincheirado lá, a violência ficava a um palmo de distância.
Ele via por detrás das grades as ruas, os sonhos, os átomos de si.
Delírios de estar fora da blindagem cotidiana.
Era um menino delido da memória dos pais, esquecido ao deus-dará?
Ruas delgadas, não-sei-quê de intestinais,
Quase orgânicas de tão concretas que eram naquelas retinas.
Grades memoriais, óculos de ver realidade.
Embaçou-me a criança que fui o menino que vi.

[1] Na Mitologia grega, o lago em que se banhava a fronte para apagar a memória.

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