terça-feira, 20 de outubro de 2009

Uma história enfadonha, Anton Tchekhov



No conto Uma história enfadonha, Tchekhov deu voz ao que sinto:

"Um bom regente de orquestra, ao transmitir o pensamento do compositor, executa simultaneamente vinte tarefas: lê a partitura, agita a batuta, observa o cantor, faz um movimento ora na direção do bombo, ora do corno-inglês etc. O mesmo faço eu, dando aula. Tenho na frente cento e cinqüenta rostos, que não se parecem entre si, e trezentos olhos que me encaram bem de frente. O meu objetivo é vencer esta hidra de muitas cabeças. Se em cada momento da minha aula tenho uma noção nítida do grau da sua atenção e da intensidade da sua aprendizagem, ela está em meu poder. O meu outro inimigo aloja-se em mim mesmo. É a variedade infindável de formas, fenômenos e leis e o grande número de pensamentos meus e alheios por eles condicionados. A cada momento, devo ter a agilidade de arrancar deste material imenso o que é mais importante e necessário e, com a mesma velocidade com que ocorre o meu discurso, revestir o meu pensamento de uma forma que seja acessível à compreensível da hidra e que desperte a sua atenção, sendo então necessário vigiar com muita perspicácia para que os pensamentos se transmitam não na medida do seu acúmulo, mas numa ordem determinada, indispensável à correta composição do quadro que eu quero pintar. Em seguida, procuro fazer com que o meu discurso tenha estilo elevado, as definições sejam breves e exatas, a frase, se possível, singela e bonita. A cada momento, devo frear-me e lembrar que tenho à disposição apenas quarenta minutos. Numa palavra, não falta trabalho. Ao mesmo tempo, é preciso fazer de si um cientista, um pedagogo, um orador, e as coisas vão mal se o orador vence o pedagogo e o cientista, ou vice-versa" (p. 123 e 124).

Tchekhov, A. P. O beijo e outras histórias. Organização, tradução, prefácio e notas de Boris Schnaiderman. São Paulo: ed. 34, 2006. 272 p. (Coleção Leste).

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