terça-feira, 6 de outubro de 2009

O homem, algoz de si mesmo

Como pensar a sociedade em bases tais que nela a pobreza seja impossível? Ao longo dos anos, a camada pensante da cultura engendrou numerosas digressões de melhoria do mundo. Muitas delas, em nome do progresso, explodiram em mil fragmentos as polias de uma maquinaria despótica, enquanto outras, azeitaram ainda mais as peças desta mecânica que avilta a humanidade. Séculos de opressão tingiram com sangue os calendários, por isso algumas datas, civis ou religiosas, em que se suspendem os trabalhos, encontram-se em vermelho.
Se auscultássemos o coração da História, perceberíamos emanar-se dali uma gritaria desesperada, oriunda de uma legião de espíritos, que tiveram os corpos volatilizados, os ossos triturados, os sonhos reduzidos a migalhas, tudo em acordo com o Establishment. Porque cada época cria ícones para adorar, não importando se são nocivos ou não, se incitam à incivilidade ou se põem em xeque direitos há muito valorados pelo ideário coletivo, é que o homem caminha pelas cristas do tempo com o cadáver de heróis e vilões, muitos deles desconhecidos, sobre os ombros. Supliciado pelos erros dos antepassados, transformou-se em Atlas. Aprendeu a represar o ódio, sofrendo as penas infligidas de forma passiva para, depois, mais forte, converter todas as dores, que se somaram às já existentes, em munição para destruir a natureza. E, assim, ignorante dos efeitos de seus atos, vive o homem – algoz de si mesmo.

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