terça-feira, 6 de outubro de 2009

Petrificado


Fazia tempo que minhas mãos não escreviam. Pareciam envoltas por uma camada de argila seca, de tão rijas que estavam. Sinto-me, agora, como um sobrevivente à lava vulcânica que encobriu Pompéia. Ou como um inseto que se libertou do exoesqueleto, pois modificou as proporções. Durante minha infância, vivi num alçapão bolorento. Meu pai me deixou lá, alegando que era para o meu bem. Queria me poupar dos sofrimentos da vida. Minha mãe morreu quando nasci – soube pelo meu pai. Ele era um homem taciturno, nunca tive coragem de romper o casulo do silêncio com um verbo sequer. Aprendi a ficar quieto, a criar monólogos com as sombras que se alongavam nas paredes, em função do bruxulear das velas noturnas. Eu nunca saí para passear. Conheci o mundo através dos livros da biblioteca do meu pai. Ele gostava muito de fazer leituras e de escrever, nas tardes gris de inverno – apenas em dias assim. Da última vez que o interrompi, perguntando o porquê de estar rindo, ele me esbofeteou com tanta força que perdi um dente. Fui me esconder no alçapão, com medo de levar mais pancada. Depois, ele veio me confortar, abraçando-me enquanto eu tremia de pavor. Explicou que não era para eu dirigir-lhe a palavra quando estivesse lendo, pois senão perderia a concentração. Eu prometi que não faria mais aquilo. Ele consentiu, cravando o olhar avermelhado no meu. – E não chore mais, disse, batendo a porta. Na escuridão, eu fiquei encolhido no canto da parede, receoso de fazer qualquer ruído. Comecei a arranhar o reboco que cedia aos movimentos feitos com os dedos. Cansado, me virei de bruços e, ainda soluçando, comecei a acreditar que eu poderia viver ali dentro. O meu pai ainda roncava, apesar do dia ter despontado. Fora do alçapão, o espreitei. Uma garrafa de Vodka pendia sobre o peito dele. Caminhei devagarzinho até a cozinha e peguei uma colher. Desci as escadas novamente. Um degrau rangeu, meu pai sufocou-se com a própria respiração, e acordou. Fui rápido, acho que ele não me viu. Guardei a colher no bolso da única calça que eu tinha. Meu pai vivia de rendas. Minha falecida mãe foi enfermeira. Cuidava das pessoas, inclusive do meu pai, como ele me contou. Uma mesma música tocava ao meio-dia; meu pai a escutava sempre. Antes que ele me chamasse para comer o que sobrou em seu prato, eu usava a colher para perfurar a parede, sem machucar minhas mãos. Arredava o armário para tapar o buraco. Seguia a rotina. Todos os dias eram metodicamente idênticos. Esta repetição permitia que meu isolamento fosse produtivo. Continuava a cavar. Meu pai fechava as janelas com pedaços de madeira, pois seus olhos não suportavam a claridade. Eu imaginava o que podia existir para além daqueles vidros empoeirados trespassados por madeiras e pregos. Talvez eu tenha sido amado, mas de uma forma pouco comum. Meu pai, quando bebia demais, me espancava, gritando que eu era um assassino. Eu não entendia, até que um dia compreendi tudo. Mas eu não posso ter matado a minha mãe, pensava. Meu pai tinha um caderninho no bolso do casaco. Ele escrevia algumas coisas nele. Não faço ideia do que era. Fui alfabetizado muito cedo. Ele me ensinou a ler e a escrever. Nunca fui à escola. Conheci professoras descritas em livros, nada mais. Continuei cavando um buraco, até que pude me esconder no vão da parede. Fiquei ali durante muito tempo. Já não atendia mais aos chamados do meu pai. Finalmente, consegui não existir, ser imaterial ou, melhor, mineral. Eu me transformei em tijolo para cessar o sofrimento do meu pai, meu pobre pai. Eu não devia ter matado minha mãe. Não podia ter nascido. A porta abria de madrugada. Era ele quem me procurava. Não fazia ideia de onde eu tinha ido. Eu o espiava, desde então. Ele parecia mais vulnerável, mais velho. Tinha vezes que ele chorava, quando entrava no alçapão. Nunca entendi o porquê. Continuava me disfarçando de parede, para não ser visto. À noite, enquanto ele dormia, eu roubava alimentos e água. Já faz alguns anos que meu pai dorme. Eu nunca me atrevi a acordá-lo. Peguei, um dia, o caderninho no bolso do casaco dele. Não houve reação. Manteve-se na mesma posição. Eu acho que ele não me via mais. Acho que transformei meu espírito em pedra mesmo, uma pedra invisível. Ele devia estar sonhando com a minha mãe, por isso não acordava. Havia muitos rabiscos naquele caderninho. Alguns desenhos meus, inclusive. Por que ele os guardou? Pelo que entendi, se tratava de um diário, mas só falava de mim. Tinha uma página que dizia que minha mãe estava viva e que meu pai tinha um outro nome. Que sobrenome eu tinha, então? Este homem não era meu pai? Onde estariam o meu pai e a minha mãe? Voltei a me abrigar no útero daquela parede. Não sairia mais de lá até que eu nascesse novamente, matando a história que havia naquele caderninho. Mas antes escrevi esta carta. Um dia, se me desemparedassem, saberiam o que aconteceu. Eu não posso ter sido raptado.


Conto publicado no livro 103 que contam, organizado pelo escritor Charles Kiefer.

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