segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Porque sustenta no espírito


Porque sustenta no espírito a imagem do passado, o poder do presente, a aspiração de futuro é que a escrita se configura como necessidade. Ao escrever sempre se tomam emprestadas ideias lidas. A própria sintaxe é moldada a partir do gosto que se tem por autores, por estilos, por visões de mundo. Tenta-se imitar a arte de quem nos quedou em perplexidade.
A escrita traz para si um campo de associações semânticas que a torna única, mas ao mesmo tempo inteligível e comunicável. Isso ocorre porque a língua tem códigos e fundamentos que a sistematizam; à gramática se devem os recursos que se prestam à expressão. O modo como se lê influencia radicalmente a maneira pela qual se escreve.
Cada texto condensa a alma de várias obras numa só. A escrita evoca certos signos ancestrais, oriundos de uma fonte autobiográfica, enquanto se processa. Quando se escreve, algo se inscreve em nós, e as temporalidades nivelam-se, sobrepondo-se em uma superfície de celulose. Nos interstícios das páginas moram histórias elípticas, que aludem às incursões feitas em livros.
A leitura aprimora a escrita, faz com que o sentido irrompa da casca para se tornar ave, para ser Fênix
[1]. Quem escreve, sabe que seu ofício é feito de pequenos lampejos de lucidez, acompanhados de longos períodos de escuridão. Amassar, rasgar, refazer, abdicar, incluir, revisar, omitir são verbos cuja intensidade é sempre superlativa para quem tem como hábito escrever. Não foi à toa que se mencionou Fênix, pois grande parte do que se tece tem como destino a fogueira, como já nos trouxe Gaston Bachelard. Incineram-se textos num afã de exorcizar, no ritual, a influência de uma leitura ruim. No fim, tem-se uma espécie de liberdade simbólica: a renovação idiossincrática completa-se nas cinzas do que não mais é.
Ler acende a consciência: a combustão do pensamento alastra-se nos pavios da mente, empapada com o óleo inflamável do desejo de saber. Cada escrito é povoado por uma chama, assim como o foi Prometeu, de Ésquilo. As ideias, à maneira do jogo do anel, passam de olho em olho, elidindo a cegueira. O leitor, apropriando-se da aliança com a linguagem, produz a escrita. Logo, o matrimônio entre a palavra e o sentido realiza-se.
Em contrapartida, existe um quê de masoquismo no ato de pesquisar. Ler desacomoda, desordena, nos põe diante de Esfinges. Faltam-nos respostas. Somos devorados, e o universo que passamos a residir é o próprio interior enigmático das obras que nos engoliram. No ventre da Esfinge, o pesquisador volta à caverna
[2], só não perde o que já adquiriu. Lá, fica recluso e escreve. Transforma-se em trevas, brinca com a claridade da metáfora, faz das sombras companhia. Está novamente em gestação. Nascerá no mundo, para o mundo e fora dele, quando o oráculo, que é o problema que o move, indagá-lo: por onde andavas que não me sabias? Eu sempre estive aqui, onde tu não estavas. Tu não soubeste me procurar, não tinhas treinado a visão para enxergar-me. Agora, me vês, me desejas: sou teu, decifra-me. Dito isto, o problema, para o pesquisador, já não era mais o mesmo. Urge um outro ciclo: abre-se um novo livro. A desgraça se processa[3].


[1] Na mitologia antiga, ave fabulosa que, segundo a tradição egípcia, durava muitos séculos e queimada, renascia das próprias cinzas.
[2] Regressa tanto à caverna do período neolítico quanto à de Platão, no livro A República.
[3] “A resposta é a desgraça da questão” (Blanchot, p. 43).BLANCHOT, Maurice. A Conversa Infinita. São Paulo: Escuta, 2001.

Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto Paulo!! Muito bem escrito! Refinado, claro e reflexivo! O blog está muito bom! Conntinue. Um abraço!

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