segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Travessia


Não sei se julgo como sonho ou pesadelo o que me sucedeu em uma destas noites: no necrotério, em companhia do médico legista – senhor de feições graves, cabelos grisalhos, olhar perturbado e avental manchado de sangue –, eu fui levado a uma sala sombria. A luz incidia apenas sobre o leito de inox em que jazia um cadáver, coberto pelo lençol branco. Ali respirava uma atmosfera de mistério. À maneira de um prestidigitador, o médico pôs à mostra o corpo inerte e voltou-se para mim, esperando flagrar minha reação. Mirei demoradamente o falecido, sem perplexidade. Isso deve tê-lo frustrado um pouco. Depois, liberto de uma espécie de torpor, tomei parte do que acontecia, e senti o pavor irradiar-se em mim: o defunto era eu. Atônito, quis tapar o rosto, para não imprimir nas retinas o que me foi dado testemunhar. Nisso, o velho doutor pegou a minha mão e nela colocou um bisturi, dizendo calmamente no ouvido, como se me confidenciasse um segredo: perfure o tórax, extirpe o coração e o introduza na boca do morto. De imediato, relutei às instruções, mas ele, segurando meu antebraço com violência, não me deixou alternativa: entre raivoso e conformado, cravei o bisturi na pele daquele eu sem alma. O sangue coagulado raiou do interior da pele fria e afluiu pelos tubos laterais do leito de inox, desembocando no ralo. Depois de penetrar as espessuras das carnes com a lâmina, cheguei ao coração. A esta altura, parado ao meu lado, o médico estampava nas faces um contentamento infantil; antevia algo que, para mim, àquela hora, era puro sortilégio. Então, obedecendo à ordem funesta, agarrei o órgão e o inseri na boca rija do cadáver. No mesmo instante, acordei abruptamente. A despeito de a cena macabra durar em mim, eu estava inundado por uma felicidade incomum. O velho, meio obstetra, meio feiticeiro, expatriou-me prematuramente da terra dos sonhos; só não teve tempo de cortar o cordão umbilical que continua me unindo ao útero das coisas insólitas, nutridoras de meu imaginário: por isso escrevo, para fazer travessias entre lá e cá.
Conto publicado no livro 104 que contam, organizado pelo escritor Charles Kiefer.

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