domingo, 4 de outubro de 2009

Um começo


Contarei um pouco da genealogia da oficina: a partir do Mestrado com o professor Pós-doutor Edson Luiz André de Sousa elaborei ensaios que trataram do campo de estudo da psicanálise e da literatura. Na minha dissertação, ao invés de reproduzir o discurso que trata da miséria, por exemplo, escrevi uma narrativa ficcional em que a estética da depauperação emergiu da trama. Para não repetir o que já foi dito sobre a violência, três poemas a invocaram. Sem que se devassasse As Cidades Invisíveis, de Calvino, uma outra cidade, também inventada, surgiu a partir da leitura do livro. Esfacelar uma obra não diz nada a respeito dela, só se fica com as partes formais, decomponíveis, que passam a pertencer à área da propedêutica, e isso não é grande coisa. Então, com a ausência de vocábulos herméticos e de toda a algaravia científica que, muitas vezes, eclipsam mais do que elucidam, pois, como Cortázar (1999) já apontou: “É horrível falar de um jasmim com termos que servem para explicar um motor a diesel” (Obra Crítica, p. 235), problematizei, de forma plástica, o que me dispus a pensar. Evitei discussões sincrônicas; preferi uma modalidade mais anárquica nas exposições efetuadas, até porque a dissertação se movimentou no campo experimental da escrita e se propôs a estender as fronteiras do discurso acadêmico: trata-se de uma ruptura em ato dos circuitos de repetição do mesmo.
Há um mal crônico que nos assola, o da anestesia da singularidade. Os gestos tornaram-se maquinais, como se algo nos movesse por cordéis. Já não nos sentimos autores de nosso destino e nem de nossos textos: tudo nos guia à estranheza. Nossa voz parece atrofiar-se aos poucos com esse sintoma social, pois a mercadoria, como um ventríloquo, se faz de intérprete e dá as legendas do desejo: responde quem somos, alude à nossa origem e indica o montante de dinheiro que dispomos para gastar. A estereofonia da alma cedeu lugar à esteira de produção, e a linguagem das transações comerciais infiltra-se, de modo sub-reptício, no dicionário de valores que portamos para nos orientar.
Com a Oficina de produção psicanalítica e literária pretendo transferir aos participantes novas formas de abordar questões referentes à leitura e à escrita. Para tanto, estruturei um conteúdo programático que abarca exercícios de estilo e contempla as obras dos seguintes autores: Mario Vargas Llosa, Octavio Paz, Julio Cortazar, Italo Calvino, Ricardo Piglia, Daniel Pennac, Franciene Prose, Eduardo Galeano, Borges, Walter Benjamin, Roland Barthes, Tzvetan Todorov, Freud, Lacan, Primo Levi etc.

OFICINA DE PRODUÇÃO PSICANALÍTICA E LITERÁRIA

1. EMENTA

Discussão e análise de textos exemplares da tradição do conto, da crônica, da poesia;
Discussão e análise da crítica a respeito do gênero de escrita científica (projetos, artigos, monografias, dissertações, teses);
Produção e discussão de textos feitos pelos participantes da oficina.

2. OBJETIVOS

O aluno deverá ser capaz de:

2.1 – Ter uma visão panorâmica e diacrônica do conto, da crônica, da poesia;
2.2 – Analisar os aspectos que norteiam a produção textual;
2.3 – Produzir textos de natureza narrativo-ficcionais e/ou científicos, em diferentes gêneros;
2.4 – Discutir, sob a forma de seminários, seus próprios textos e os de outros autores.

Segue o endereço eletrônico de uma entrevista que concedi sobre a Oficina de produção psicanalítica e literária:

http://www.portalpsico.com.br/home.php?1=noticias/cab_noticias&2=noticias/act_detalhar&codigo=1&3=componentes/rodape&codigo=493

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