domingo, 22 de novembro de 2009

Aura, Carlos Fuentes


Abre aos poucos os olhos, como se temesse os reflexos do quarto. Por fim, poderás ver esses olhos de mar que fluem, se fazem espuma, voltam à calmaria verde, tornam a se inflamar como uma onda: tu os vês e te repetes que não é verdade, que são uns olhos belos e verdes iguais a todos os olhos belos e verdes que já encontraste ou poderás encontrar. Mas não podes estar enganado: esses olhos fluem, se transformam, como se oferecessem uma paisagem que apenas tu podes adivinhar e querer (p. 26).

Tomas o lugar de Aura, estiras as pernas, acendes um cigarro, invadido por um prazer que jamais conheceste, que sabias existir em ti mas que somente agora sentes plenamente, deixando-o escapar porque sabes que desta vez encontrará um eco... E Consuelo te espera: ela te avisou: te espera depois do jantar... (p. 32 e 33).

Ao lado dos talheres, sob o guardanapo, esse objeto que roças com os dedos, uma bonequinha de pano, cheia de farinha que escapa pelo ombro mal cosido: o rosto desenhado com tinta nanquim, o corpo nu, pincelado com poucos traços. Comes teu jantar frio – rins, tomate, vinho – com a mão direita: apertas a boneca entre os dedos da esquerda (p. 52).

Não olharás mais teu relógio, esse objeto inútil que mede falsamente um tempo permitido à vaidade humana, esses ponteiros que marcam com tédio as longas horas inventadas para enganar o verdadeiro tempo, tempo que corre com a rapidez insultuosa e mortífera que relógio algum pode medir. Uma vida, um século, cinqüenta anos: não poderás mais pensar nessas medidas mentirosas, não poderás voltar a tomar entre as mãos essa poeira sem substância (p. 67).

Do livro: FUENTES, Carlos. Aura. Tradução de Sergio e Marisa Bath. Rio de Janeiro: Ed Inova, 1968.

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