terça-feira, 17 de novembro de 2009

Conversas com Cortázar, Ernesto González Bermejo




- Como você define um bom estilo?

- Um texto bem-sucedido formalmente (e quando um texto é bem-sucedido no plano formal também o é nos outros) exige não tanto a presença, mas a ausência de elementos inúteis e negativos.
Quando corrijo, uma vez em cem adiciono algo, completo uma frase que me parece insuficiente ou agrego uma frase porque sinto que me falta uma ponte. Nas outras 99 vezes, corrigir é suprimir. Qualquer pessoa que veja um rascunho meu pode comprová-lo: pouca complementação e muita supressão.
Ao escrever, especialmente da maneira como escrevo, rapidamente e deixando-me levar, você tem uma tendência à repetição inútil, escapam coisas (mais ainda quando se trabalha com máquina elétrica). Há que eliminá-las, implacavelmente.
É assim que se chega ao que chama de estilo. Para mim, estilo é uma certa tensão, e se chega a esta tensão através da redução do texto ao absolutamente necessário. Imagine a aranha e sua teia. Ela vai tirando franjas daqui e dali até que faz da teia um modelo de tensão. A má literatura está cheia de franjinhas. É literatura com franjas (p. 20 e 21).

- Qual é o seu conceito do conto?

- Muito severo: já o comparei a uma esfera. É uma coisa que tem um ciclo perfeito e implacável. Uma coisa que começa e termina tão satisfatoriamente como uma esfera: nenhuma molécula pode estar fora de seus limites precisos.
Um conto pode revelar uma situação e ter um enredo interessante, mas para mim isso não basta: a esfera tem que ser fechada. Não estou dizendo que eu negue a qualidade de contos admiráveis, dos quais gosto muito – alguns de Katherine Mansfield, por exemplo – só porque eles não atendem à minha noção de conto. Simplesmente, eu não teria escrito da mesma maneira (p. 28).

- Então, para você o fantástico...

- ... é uma coisa muito simples, que pode acontecer em plena realidade cotidiana, neste meio-dia ensolarado, agora, entre você e eu, ou no metrô, quando você estava vindo para este nosso encontro.
Trata-se de algo absolutamente excepcional, concordo, mas que não tem por que ser diferente, em suas manifestações, da realidade que nos envolve. O fantástico pode acontecer sem que haja uma mudança espetacular das coisas.
Para mim, o fantástico é, simplesmente, a indicação súbita de que, à margem das leis aristotélicas e da nossa mente racional, existem mecanismos perfeitamente válidos, vigentes, que nosso cérebro lógico não capta, mas que em certos momentos irrompem e se fazem sentir.
Um fato fantástico se dá uma vez e não se repete mais; haverá um outro, mas aquele mesmo não tornará a acontecer. Dentro das leis habituais, uma causa produz um efeito e, dentro das mesmas condições, é possível se chegar ao mesmo efeito partindo da mesma causa.
Estico a mão e movo esta mesa cinqüenta vezes. O fato fantástico, no entanto, se dá uma única vez porque, evidentemente, responde a um ciclo, a uma série de ações e interações que escapam completamente à nossa razão e às nossas leis. E, sem dúvida, chega a ser sentido como presente, mas pela via intuitiva e não pela racional (p. 37).

- E a literatura como jogo?

- Acho que é o mais sério de todos. Se fizéssemos uma escala de valores dos jogos que fosse do mais inocentes aos mais intencionais, acredito que teríamos de colocar a literatura (e a música, a arte, em geral) entre os de expressão mais alta, mais desesperada (sem o valor negativo desta palavra) (p. 44).

- Quais são as relações entre a realidade real e a realidade fictícia, verbalizada?

- Eu tenho uma relação bélica com a realidade. É uma espécie de batalha fraternal, porque sou muito “realista”, a realidade me apaixona.
Estou muito feliz por estar vivo. Quero viver muito. Sou feliz por ser homem e não ter sido tocado pelo destino de ser um lagarto ou uma galinha. A sorte de termos nascido homens e não sermos aquela mosca que está passando por ali, a sorte de termos acertado no mais alto grau da grande loteria biológica, são coisas que também fazem parte da literatura fantástica (p. 70).

- Para Johnny/Charlie, a música, o jazz, é, concretamente, um instrumento de busca de uma outra realidade. Por quê?

- Jean-Paul Sartre disse, curiosamente, em uma entrevista publicada há pouco no Le Monde, que a música não pode passar informações do tipo inteligível ou do tipo discursivo, mas em compensação pode comunicar coisas que nenhuma linguagem, nenhum texto é capaz de comunicar. E se refere aos sentidos – não apenas à comunicação do prazer ou de estados de ânimo; fala da comunicação de certas dimensões da realidade. Estou totalmente de acordo (p. 91).

- Finalmente, Cortázar, o que foi para você ser um escritor? Uma bênção? Uma condenação?

- De maneira nenhuma uma condenação. Eu falava da minha tristeza de não ter sido músico. Se pudesse refazer a minha vida, a música me interessaria mais do que a literatura. Mas acontece que foi a palavra que impôs sua lei, e não apenas não lamento como tenho a impressão de que ao longo da minha vida de escritor vivi bem.
Em primeiro lugar – você sabe disso, mas é útil repeti-lo –, porque nunca me levei a sério. Até hoje, com quatorze livros escritos, me nego a me considerar um profissional da literatura. Quando vou a países como o México, onde me chamam de “mestre”, fico petrificado. A atmosfera de respeito que me recebe nos ambientes acadêmicos me produz uma mistura de irritação e graça. Penso: “Se estes sujeitos soubessem quem sou verdadeiramente, até que ponto não tenho nada de profissional...!”
Até a morte vou me considerar um amador, um sujeito que escreve porque tem vontade, porque gosta de escrever. Não tenho essa noção de profissionalismo literário, tão acentuada na França, por exemplo.
A literatura é para mim uma atividade lúdica, lúdica naquele sentido que eu dou ao jogo, à brincadeira, mais aquilo que você já conhece bem: uma atividade erótica, uma forma de amor.
Todas estas coisas, com seus altos e baixos, têm sido positivas para a minha vida. Não lamento, absolutamente.
Escrever me faz muito feliz. Sentir que em torno de minha obra há uma grande quantidade de leitores, sobretudo jovens, para quem meus livros significam algo, são companheiros de estrada, me faz muito feliz.
Isso me basta e me sobra (p.127).

Do livro: BERMEJO, Ernesto González. Conversas com Cortázar. Tradução Luís Carlos Cabral; prefácio à edição brasileira Eric Nepomuceno. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

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