quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Crônica de uma morte anunciada, Gabriel García Márquez


Ela o viu da mesma rede e na mesma posição em que a encontrei prostrada pelas últimas luzes da velhice, quando voltei a este povoado abandonado, tentando recompor, com tantos estilhaços dispersos, o espelho quebrado da memória (p. 13).

A cozinha enorme, com o sussurrar do fogo e das galinhas adormecidas nos poleiros, tinha uma respiração secreta (p. 17).

... onde Plácida Linero sentava-se nas tardes de março para se consolar de sua solidão (p. 20).

Ângela Vicário era a mais bela das quatro, e minha mãe dizia que nascera como as grandes rainhas da história, com o cordão umbilical enrolado no pescoço. Tinha, porém, um ar de desamparo e uma pobreza de espírito que lhe auguravam um futuro duvidoso (p. 48 e 49).

Estava mais sadio que nós, mas quando a gente o auscultava sentia borbulhar as lágrimas dentro do seu coração (p.56).


Ela foi a sua paixão desvairada, sua professora de lágrimas aos 15 anos, até que Ibrahim Nasar o tirou da cama a pancadas e o enterrou mais de um ano em O Divino Rosto. Desde então continuaram ligados por um afeto sério, mas sem a desordem do amor, e ela o respeitava tanto que não voltou a ir para a cama com ninguém se ele estivesse presente (p. 97).

Deitei-me a seu lado, vestido, sem falar, e chorando eu também a meu modo (p. 115).

Estavam há três noites sem dormir, mas não podiam descansar, porque tão logo começavam a dormir voltavam a cometer o crime (p. 116).

"Era como estar acordado duas vezes." Essa frase me fez pensar que o mais insuportável para eles no calabouço deve ter sido a lucidez (p. 116).

A mãe, de uma velhice malcuidada, recebeu-me como a um incômodo fantasma. (p. 131).

Entretanto, ele parecia insensível a seu delírio: era como escrever a ninguém (p. 139).

Certa madrugada de ventos, no décimo ano, acordou-a a certeza de que ele estava nu em sua cama. Escreveu-lheentão uma carta febril de vinte páginas e na qual deitou sem pudor as amargas verdades que guardava apodrecidas no coração desde a sua funesta noite. Falou-lhe das marcas eternas que ele havia deixado em seu corpo, do sal de língua, da trilha de fogo de sua verga africana. Entregou-a à funcionária do correio que, nas sextas-feiras, à tarde, ia bordar com ela para levar as cartas, e convenceu-se de que aquele desabafo final seria mesmo o último de sua agonia. Mas não houve resposta. A partir de então já não tinha consciência do que escrevia nem a quem escrevia; continuou, porém, escrevendo sem quartel durante 17 anos (p. 139 e 140).

Do livro: MÁRQUEZ, Gabriel García. Crônica de uma morte anunciada. Trad. Remy Gorga, filho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Editora Record.

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