segunda-feira, 2 de novembro de 2009

É isto um homem?, Primo Levi



Não sei quem é o meu vizinho; nem posso estar seguro de que seja sempre a mesma pessoa, porque nunca lhe vi a cara, a não ser por uns instantes no tumulto da alvorada; muito melhor do que a cara, conheço-lhe o dorso e os pés. Ele não trabalha no meu Kommando e vem para o beliche só na hora de dormir; enrola-se no cobertor, empurra-me de lado com um golpe de seu quadril magro, vira-me as costas e já começa a roncar. Dorso contra dorso, esforço-me por conquistar uma superfície razoável do colchão; com os rins faço pressão progressiva contra os rins dele; logo me viro e procuro empurrar com os joelhos, pego nos seus tornozelos e tento ajeitá-los um pouco mais longe, de modo a não ter seus pés na minha cara; tudo é inútil, porém; ele é bem mais pesado do que eu e no sono parece que virou pedra.
Então dou um jeito para deitar assim, imóvel, com metade do corpo por cima da borda de madeira. Estou tão cansado, porém, tão atordoado, que em breve eu também mergulho no sono, e parece-me dormir em cima dos trilhos.
O trem está por chegar: ouve-se ofegar a locomotiva – e a locomotiva é o meu vizinho. Ainda não estou tão adormecido que não me dê conta da dupla natureza da locomotiva. É essa mesma que, hoje na fábrica, rebocava os vagões que tivemos de descarregar; reconheço-a porque, agora também, como quando passou ao nosso lado, percebo o calor que se irradia de seu negro flanco. Arfa, cada vez mais perto; já vem por cima de mim... e nunca chega. O meu sono é leve, leve como um véu; posso rasgá-lo quando quero. Quero, sim, para sair de cima dos trilhos. Pronto: estou acordado. Não bem acordado; só um pouco, entre a insensibilidade e a consciência. Tenho os olhos fechados; não quero abri-los, não, para que o sono não fuja de mim, mas ouço os ruídos: este apito ao longe eu sei que é de verdade, não é da locomotiva do sonho. É o apito do trenzinho da fábrica, que trabalha dia e noite. Uma longa nota firme, logo outra, mais baixa de um semitom, logo a primeira nota de novo, mas curta, truncada. Esse apito é importante; é de certo modo, essencial: tantas vezes já o ouvimos, ligado ao sofrimento do trabalho e do Campo, que se tornou seu símbolo, evoca diretamente a idéia do Campo, assim como acontece com certos cheiros, certas músicas.
Aqui está minha irmã, e algum amigo (qual?), e muitas outras pessoas. Todos me escutam, enquanto conto do apito em três notas, da cama dura, do vizinho que gostaria de empurrar para o lado, mas tenho medo de acordá-lo porque é mais forte que eu. Conto também a história da nossa fome, e do controle dos piolhos, e do Kapo que me deu um soco no nariz e logo mandou que me lavasse porque sangrava. É uma felicidade interna, física, inefável, estar em minha casa, entre pessoas amigas, e ter tanta coisa para contar, mas bem me apercebo de que eles não me escutam. Parecem indiferentes; falam entre si de outras coisas, como seu eu não estivesse. Minha irmã olha para mim, levanta, vai embora em silêncio.
Nasce então, dentro de mim, uma pena desolada, como certas mágoas da infância que ficam vagamente em nossa memória; uma dor não temperada pelo sentido da realidade ou a intromissão de circunstâncias estranhas, uma dor dessas que fazem chorar as crianças. Melhor, então, que eu torne mais uma vez à tona, que abra bem os olhos; preciso estar certo de que acordei, acordei mesmo.
O Sonho está na minha frente, ainda quentinho; eu, embora desperto, continuo, dentro, com essa angústia do sonho; lembro, então, que não é um sonho qualquer; que, desde que vivo aqui, já o sonhei muitas vezes, com pequenas variantes de ambiente e detalhes. Agora estou bem lúcido, recordo também que já contei o meu sonho a Alberto e que ele me confessou que esse é também o sonho dele e o sonho de muitos mais; talvez de todos. Por quê? Por que o sofrimento de cada dia se traduz, constantemente, em nossos sonhos, na cena sempre repetida da narração que os outros não escutam? (p. 59 e 60).
Do livro: LEVI, Primo. É isto um homem?. Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

Um comentário:

  1. Boa Tarde,

    Procuro um poema de Primo Levi, que começa assim....

    Vivo na minha casa, como vivo na minha pele....

    Sabe do que falo? Pode enviar-me para o email: betina.severiano@hotmail.com

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