quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Me alugo para sonhar, Gabriel García Márquez, Doc Comparato et al


“A cidade é um ato de poder, objeto das expectativas de todos. Nela está o governo, estão as prisões, uma grande porcentagem das fábricas, a quarta parte da população do país. O terremoto abalou seu poder, diminuiu os empregos, os serviços, a habitação; famílias inteiras de atingidos vivem num quarto, depois de perder suas casas em segundos. Mas a cidade continua crescendo. Cada ano recebe um milhão de pessoas procurando trabalho. Imagine-se a capacidade de sobreviver. Há palhaços e engolidores de fogo, há mulheres que se alugam para a cama e há mulheres que se alugam para sonhar” (Susana).

É sempre bom recordar que conflito designa a confrontação entre forças e personagens através da qual a ação se organiza e vai se desenvolvendo até o final. É o cerne, a essência *do drama. Etimologicamente, drama, do latim “drama”, por sua vez do grego “drâma”, “dráo”, “eu trabalho”, significa ação. Sem conflito, sem ação, não existe drama. (p. 62 e 63).

Décima terceira jornada

Apontamentos de Doc

“Enquanto escreve o roteiro, você não tem qualquer objetividade, não tem visão geral. Não enxerga nada exceto a cena que está escrevendo, a cena que acabou de escrever e a cena que escreverá a seguir. Às vezes nem isso você enxerga.
É como escalar uma montanha. Enquanto sobe para o topo, tudo o que vê é a pedra diretamente à sua frente e acima de você. Somente quando chega ao topo é que você pode olhar o panorama abaixo.
A coisa mais difícil ao escrever é saber o que escrever. Ao escrever um roteiro, você deve saber para onde está indo. Encontrar uma direção, uma linha de desenvolvimento que conduza à resolução, ao final.
Se não, você vai ter problemas. Porque é muito fácil perder-se no labirinto de sua própria criação.
Por isto é tão importante: ele é o ponto de virada, um incidente, ou evento, que toma conta da ação e reverte o final”.
Este trecho pertence ao conhecido teórico de dramaturgia Syd Field. Ele demonstrar a relevância do paradigma, do ponto de mudança a partir do qual o texto se prepara para a finalização. (p. 139).

Décima quarta jornada

Apontamento de Doc

As idéias sobre o sonho, como sobre o símbolo, evoluíram muito. Mesmo hoje em dia os especialistas ainda estão divididos a respeito.
Para Freud, o sonho é a expressão, ou realização, de um desejo reprimido. Jung pensava que ele á a auto-representação, espontânea e simbólica, da situação atual do inconsciente. Já para J. Sutter o sonho tem a menos interpretativa das definições, ele é um fenômeno psicológico que se produz durante o sono, constituído por uma série de imagens cujo desenrolar representa um drama mais ou menos concatenado.
O sonho se subtrai, portanto, à vontade e à responsabilidade do homem, em virtude de sua dramaturgia noturna ser espontânea e incontrolada. É por isso que o homem vive o drama sonhado, como se ele existisse realmente fora de sua imaginação. A consciência das realidades se oblitera, o sentimento de identidade se aliena e se dissolve.
A famosa parábola chinesa nos conta: o velho Tchuang-Tcheu não sabe mais se foi Tcheu que sonhou que era uma borboleta ou se foi a borboleta que sonhou que era Tcheu.
Nesta décima quarta jornada isto praticamente ocorreu.
A imaginação dos participantes levou Alma a sonhar com a estória, ou foi o sonho de Alma que instigou a todos a escreverem esta estória?
Como num caleidoscópio infinito, também Alma sonha com Amparo, Amparo com Alma e, por fim, ambas trocam de posição no drama.
Amparo passa a personificar Alma, e esta toma o lugar de Amparo. Confuso? Incoerente?
Com certeza uma resolução inesperada para o roteiro. Pois a estória que cresceu na fronteira do realismo, acaba desaguando num violento drama psicológico. Ainda que disfarçado em “sonho do sonho”, o final se deixa possuir pela mais completa violência psicológica: a transmutação de personalidades. (p. 146 e 147).

Décima quinta jornada

Apontamentos de Doc

A eternidade é a ausência ou a solução de conflitos, o ultrapassar das contradições, tanto no plano cósmico quanto no plano espiritual. É a perfeita integração do ser em seu princípio. É a intensidade absoluta e permanente da vida, que escapa a todas as vicissitudes do tempo. Para o homem, o desejo de eternidade reflete sua luta por uma vida que de tão intensa possa triunfar sobre a morte. A eternidade não reside no imobilismo, nem tampouco no turbilhão: ela está na intensidade do ato.
Os episódios da série já estavam totalmente estruturados, quer dizer escaletados, mesmo assim os participantes ainda teimavam em criar novas situações que corriam o risco de destruir o trabalho já feito.
E como todos nós sabemos que se tiramos uma carta de um castelo de cartas ele se destrói, minha apreensão nesta décima-quinta jornada tinha muito sentido.
Se continuássemos a inventar finais e estórias compulsivamente iríamos matar o roteiro de tanta criatividade. E este é o maior risco que se corre quando se trabalha em grupo.
Por isto tornei-me um Macunaíma. Se reação aparente, deixava que os participantes inventassem o que quiserem, para depois exigir que a estrutura dramática, ou escaleta, fosse respeitada.
Parem de sonhar. Ou querem ficar aqui eternamente?
Era o recado que tentava passar para os participantes. Sabendo que eles se comportavam assim porque não suportavam a idéia de que a Oficina estivesse chegando ao fim. Queriam eternizá-la. (p. 156 e 157).

Do livro: MÁRQUEZ, Gabriel García; COMPARATO, Doc; DIEGO, Eliseo Alberto... [et al.]. Me alugo para sonhar. Tradução de Eric Nepomuceno, Maria do Carmo Brito. Niterói, RJ: Casa Jorge Editorial, 1997 (Oficina de Roteiro de Gabriel García Márquez; 2).

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