domingo, 22 de novembro de 2009

A outra voz, Octavio Paz


Na alegoria desaparece a distância entre o ser e o sentido: o signo devora o ser. Cada elemento da alegoria – rosto, corpo, gesto, roupas – é um atributo e cada atributo é um signo. Mas a alegoria não oculta a própria coisa que nos apresenta. Não é uma presença, embora assuma uma forma corpórea, nem é alguma coisa que se apreende com os olhos e rapidamente, mas lentamente e com o entendimento: ver uma alegoria é interpretá-la. Contemplamos as formas do mundo, deciframos as alegorias.
A natureza intelectual da alegoria, que reduz o ser ao signo, se manifesta também na atitude do poeta diante de sua obra. Ao contrário do poeta romântico, possuído pela inspiração, o poeta alegórico, sim, sabe do que fala (p. 17).


A modernidade começa com o descobrimento do duplo infinito: o cósmico e o psíquico. O homem sentiu logo que lhe faltava, literalmente, chão. A nova ciência abrira o espaço e por essa fenda o olho humano descobriu alguma coisa rebelde ao pensamento: o infinito. Assim, a modernidade nascente, por meio de seus poetas e artistas, descobriu um novo vértice (p. 21).

A primeira dificuldade que enfrentamos é a natureza esquiva e mutável da palavra: o moderno é por natureza transitório e o contemporâneo é uma qualidade que se desvanece tão logo a enunciamos. Existem tantas modernidades e antiguidades como épocas e sociedades: um asteca era moderno diante de um olmeca e Alexandre diante de Amenófis IV (p. 33).

A Idade Moderna não tardará em ser a Antigüidade de amanhã. Mas, por agora, temos que nos resignar e aceitar que vivemos na Idade Moderna, conscientes de que se trata de uma designação equivocada e provisória.
O que queremos dizer com esta palavra: modernidade? Quando começou? Alguns pensam que se iniciou com o Renascimento, a Reforma e o descobrimento da América; outros imaginam que começou com o nascimentos dos Estados nacionais, a instituição bancária, o nascimento do capitalismo mercantil e o surgimento da burguesia; uns poucos insistem em que o fator decisivo foi a revolução científica e filosófica do século XVII, sem a qual não teríamos nem técnica nem indústria. Todas essas opiniões são admissíveis. Isoladas são insuficientes; unidas, oferecem uma explicação coerente. Por isso, talvez, a maioria se incline pelo século XVIII: não só é o herdeiro destas mudanças e inovações como é o ponto em que se percebem já muitos dos traços que seriam nossos. Essa época foi uma pré-figuração da que vivemos hoje? Sim e não. Mais exato seria dizer que a nossa foi a desfiguração das idéias e projetos desse grande século.
A modernidade começa como uma crítica da religião, da filosofia, da moral, do direito, da história, da economia e da política. A crítica é seu traço diferencial, seu sinal de nascimento. Tudo o que foi a Idade Moderna tem sido obra da crítica, entendida esta como um método de pesquisa, criação e ação. Os conceitos cardeais da Idade Moderna – progresso, evolução, liberdade, democracia, ciência, técnica – nasceram da crítica. No século XVIII a razão fez a crítica do mundo e de si própria; assim transformou pela raiz o antigo racionalismo e as suas geometrias intemporais. Crítica de si mesma: a razão renunciou às construções grandiosas que a identificavam com o Ser, o Bem e a Verdade; deixou de ser a Casa da Idéia e se converteu em caminho: foi um método de exploração (p. 34 e 35).

Não é por acidente que estas grandes revoluções, fundadoras da história moderna, tenham se inspirado no pensamento do século XVIII. Foi um século rico em projetos de reforma social e em utopias. Costuma-se dizer que essas utopias são a parte menos feliz de seu legado; contudo, não podemos desdenhá-las nem condená-las; se por um lado muitos horrores foram cometidos em seu nome, por outro lhes devemos quase todas as ações e os sonhos generosos da Idade Moderna. As utopias do século XVIII foram o grande fermento que pôs em movimento a história dos séculos seguintes. A utopia é a outra cara da crítica e só uma idade crítica pode ser inventora de utopias: o buraco deixado pelas demolições do espírito crítico é sempre ocupado pelas construções utópicas. As utopias são os sonhos da razão. Sonhos ativos que se transformam em revoluções e reformas. A proeminência das utopias é outro traço original e característico da Idade Moderna. Cada época se identifica com uma visão do tempo e na nossa a presença constante das utopias revolucionárias denuncia o lugar privilegiado que tem o futuro para nós. O passado não é melhor que o presente: a perfeição não está atrás de nós, e sim na frente, não é um paraíso abandonado, mas um território que devemos colonizar, uma cidade que precisa ser construída. (p. 36).

Os movimentos de adesão que suscitam todas as revoluções podem ser explicados, em primeiro lugar, pela necessidade que sentimos, nós homens, de remediar e pôr fim à nossa infeliz condição. Há épocas em que essa necessidade de redenção se faz mais viva e urgente pelo desvanecimento das crenças tradicionais. As antigas divindades, carcomidas pela superstição, aviltadas pelo fanatismo e roídas pela crítica, se desmoronam; entre os escombros brota a tribo dos fantasmas: aparecem primeiro como idéias radiantes mas logo são endeusadas e convertidas em ídolos espantáveis. (p. 65).

Ao contrário da crítica reacionária, a liberal tem sido eficaz: desmontou as construções ideológicas das revoluções, lhes arrancou a máscara religiosa e as mostrou na sua desnudez histórica, profana. O liberalismo não se propôs a substituir essas construções por outras; a própria índole desta tradição intelectual, essencialmente crítica, lhe proibiu propor, como as outras grandes filosofias políticas, uma meta-história. Este domínio fora antes das religiões; o liberalismo não ofereceu nada em troca e circunscreveu a religião à esfera privada. Fundou a liberdade sobre a única base que pode constituí-la: a autonomia da consciência e o reconhecimento da autonomia das consciências alheias. Foi admirável e também terrível: nos fechou num solipsismo, rompeu a ponte que unia o eu ao tu e ambos à terceira pessoa: o outro, os outros. Entre liberdade e fraternidade não há contradição e sim distância – uma distância que o liberalismo não conseguiu anular. Qual poderia ser o fundamento da fraternidade? (p. 67 e 68).

Qual pode ser a contribuição da poesia na reconstituição de um novo pensamento político? Não idéias e sim alguma coisa mais preciosa e frágil: a memória. A cada geração os poetas redescobrem a terrível antiguidade e a não menos terrível juventude das paixões. Nas escolas e faculdades onde se ensinam as chamadas ciências políticas deveria ser obrigatória a leitura de Ésquilo e Shakespeare. Os poetas nutriram o pensamento de Hobbes e Locke, de Marx e Tocqueville. Pela boca do poeta fala – advirto: fala, não escreve – a outra voz. É a voz do poeta trágico e a do bufão, da solitária melancolia e da festa, é a risada e o suspiro, a voz do abraço dos amantes e a de Hamlet diante do crânio, a voz do silêncio e a do tumulto, louca sabedoria e sensata loucura, sussurro de confidência na alcova e cheiro de multidão na praça. Ouvir essa voz é ouvir o próprio tempo, o tempo que passa e que, apesar disso, volta transformado em umas quantas sílabas cristalinas. (p. 73 e 74).

Os homens se reconhecem nas obras de arte porque estas oferecem imagens de sua totalidade oculta. Mesmo quando expressam a dispersão e a atomização das sociedades e dos indivíduos, como ocorre com a poesia e o romance modernos, são um emblema da comunidade perdida. Por isso não importa muito que a obra seja lida ao princípio só por alguns: a preservação da memória coletiva por um grupo, embora pequeno, é uma verdadeira tábua de salvação para a comunidade inteira. Nessas tábuas, as tradições e as culturas atravessam os mares do tempo. (p. 80).

É indiscutível que hoje se lê mais o que antes, mas será que se lê melhor? Duvido. A distração é nosso estado habitual. Não a distração daquele que se afasta do mundo para internar-se no secreto e movediço país de sua fantasia, mas a daquele que está sempre fora de si, perdido na medíocre e insensata agitação cotidiana. Mil coisas solicitam ao mesmo tempo nossa atenção e nenhuma delas consegue nos segurar; assim a vida se torna areia entre os dedos, e as horas, fumaça no cérebro. Se tivéssemos a coragem de fazer um exame diário de nossos atos e pensamentos, confessaríamos que somos culpados não de crimes em expiação, mas sim de incontáveis e momentâneos desejos e apetites, seguidos de pequenas abjurações e traições a nós mesmos e aos outros. Mas ao menos somos capazes de lembrar o que fizemos ontem? Se nosso pecado se chama dissipação, nosso castigo se chama esquecimento. Ler é o contrário dessa dispersão; ler é um exercício mental e moral de concentração que nos leva a entrar em mundos desconhecidos que pouco a pouco se revelam como uma pátria mais antiga e verdadeira: de lá viemos. Ler é descobrir insuspeitos caminhos para dentro de nós mesmos. É um reconhecimento. Na era da propaganda e da comunicação instantânea, quantos podem ler assim? Muito poucos. Mas é neles, e não nas cifras das estatísticas, que está a continuidade de nossa civilização. (p. 86).

Afinal, nos movemos realmente ou só giramos e giramos no mesmo lugar? Ilusão ou realidade, o passado se afasta vertiginosamente e desaparece. Por sua vez, a perda do passado provoca fatalmente a perda do futuro. Desde o século XVIII nossa civilização tem se orientado em direção ao futuro. Seu guia nessa peregrinação tem sido a idéia do progresso, nossa estrela polar. Há alguns anos essa estrela polar escureceu; o presente herdou seu brilho. Mas é um presente sem peso; flutua e não ascende, se move e não avança. Acredita que vai a todos os lugares e não vai a nenhum: perdeu o sentido de orientação. A evaporação dos fins é a contrapartida do crescimento dos meios. Nosso presente é um tempo sem um norte para guiá-lo, literalmente desorientado. No âmbito da tradição literária, a expansão do presente se manifesta pela tendência à comunicação instantânea. A duração, atributo da perfeição, cede lugar ao consumo rápido. O passado se perde e o futuro se esfuma: por sua vez, o presente se aguça num instante: os três tempos são uma exalação. O instante explode e se dissipa. (p. 108).

Pode-se dizer até, sem exagerar, que o tema central deste fim de século não é o da organização política de nossas sociedades nem de sua orientação histórica. O urgente, hoje, é saber como vamos assegurar a sobrevivência da espécie humana. Diante dessa realidade, qual pode ser a função da poesia? Que pode dizer a outra voz? Já disse que se nascesse um novo pensamento político, a influência da poesia seria indireta: lembrar certas realidades enterradas, ressuscitá-las e apresentá-las. Diante da questão da sobrevivência da espécie humana em uma terra envenenada e desolada, a resposta não seria diferente. Sua influência seria direta: sugerir, inspirar e insinuar. Não demonstrar, mas mostrar. (p. 146).

A poesia exercita nossa imaginação e assim nos ensina a reconhecer as diferenças e a descobrir as semelhanças. O universo é um tecido vivo de afinidades e oposições. Prova vivente da fraternidade universal, cada poema é uma lição prática de harmonia e de concórdia, embora seu tema seja a cólera do herói, a solidão da jovem abandonada ou o naufrágio da consciência na água parada do espelho. A poesia é o antídoto da técnica e do mercado. A isso se reduz o que poderia ser, em nosso tempo e no que chega, a função da poesia. Nada mais? Nada menos. (p. 147).

Se o homem se esquecesse da poesia, se esqueceria de si próprio. Voltaria ao caos original. (p. 148).

Do livro: PAZ, Octavio (1914-). A outra voz. Tradução Wladyr Dupont. São Paulo: Siciliano, 1993.

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