domingo, 8 de novembro de 2009

O caminho de San Giovanni, Italo Calvino


Lembrança de uma batalha

Não é verdade que já não me lembro de nada, as lembranças ainda estão lá, escondidas no novelo cinzento do cérebro, no úmido leito de areia que se deposita no fundo da torrente dos pensamentos – se é verdade que cada grão dessa areia mental guarda um momento da vida fixado de tal modo que já não seja possível apagá-lo, mas sepultado por bilhões de outros grãozinhos. Estou tentando trazer de novo à tona um dia, uma manhã, uma hora entre a escuridão e a luz no raiar daquele dia. Há anos deixei de remexer essas lembranças, encafuadas feito enguias nas poças da memória. Tinha certeza de que a qualquer momento bastaria revolver a água rasa para vê-las aflorar num golpe de cauda. Na pior das hipóteses, teria de levantar algumas das pedras enormes que servem de barragem entre o presente e o passado, para descobrir as pequenas cavernas atrás da testa onde se anicham as coisas esquecidas. Mas por que aquela manhã e não outro momento? Há alguns pontos emergindo do fundo de areia, sinal de que ao redor daquele ponto girava uma espécie de vórtice, e, quando as lembranças, após um longo sono, despertam, é a partir do centro de um daqueles vórtices que a espiral do tempo se desdobra (p. 67).

Trecho do livro: CALVINO, Italo. O caminho de San Giovanni. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

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