domingo, 8 de novembro de 2009

O dia de um escrutinador, Italo Calvino


(O que é esta nossa necessidade de beleza?, perguntava-se Amerigo. Uma característica adquirida, um reflexo condicionado, uma convenção lingüística? E o que é, em si, a beleza física? Um sinal, um privilégio, um dado irracional da sorte, como – entre estas pessoas – a feiúra, a deformidade, a desvantagem? Ou seria um modelo sempre diferente que forjamos para nós mesmos, que vai se transformando, mais histórico do que natural, uma projeção de nossos valores culturais?) (p. 29).

É bom ter beatitude? Ou seria melhor essa ansiedade, essa carga que enrijece os rostos diante do flash do fotógrafo e não nos contenta com o que somos? Sempre pronto a compor os extremos, Amerigo teria gostado de continuar se chocando com as coisas, a bater-se, e ainda assim, enquanto isso, alcançar dentro de si a calma que está além de tudo... Não sabia do que gostaria: só compreendia como estava distante, ele como todos, de viver como deve ser vivido o que procurava viver (p. 40).

Havia tempo procurava afastar de si a literatura, quase se envergonhando da vaidade de ter desejado ser escritor na juventude. Entendera rapidamente o erro que há por trás: a pretensão de uma sobrevivência individual, sem ter feito, para merecê-la, nada mais do pôr a salvo uma imagem – verdadeira ou falsa – de si. A literatura das pessoas parecia-lhe uma extensão de lápides de cemitério: a dos vivos e a dos mortos. Agora nos livros procurava outra coisa: a sabedoria das épocas ou simplesmente alguma coisa que fosse útil para compreender alguma coisa. Mas como estava acostumado a raciocinar por imagens, continuava a escolher os livros dos pensadores o cerne imaginoso, ou seja, a tomá-los por poetas, ou então a extrair a ciência ou a filosofia ou a história raciocinando sobre como Abrão está pronto a sacrificar Isaac, e como Édipo se cega, e Rei Lear na tempestade perde o siso (p. 54).

E pensou: é isso, esse modo de ser é o amor.
E depois: o humano chega onde chega o amor; não tem fronteiras, a não ser as que lhe damos (p. 74).

Sabemos como são esses momentos em que parece que compreendemos tudo: pode até ser que um instante depois se busque definir o que se compreendeu, e tudo nos escapa. Talvez nele não tivesse mudado grande coisa: suas ações e seus motivos, a defesa de si próprio etc., isso dificilmente muda; falamos falamos, mas a certa altura as pessoas são como são (p. 76).

Atravessara um mundo que recusava a forma, e ao se encontrar agora no meio dessa harmonia quase fora do mundo, percebia que não lhe importava. Era outra coisa o que buscava fixar agora, não as imagens do passado e do futuro. O passado (justamente pelo fato de ter uma imagem tão acabada na qual não se podia pensar em mudar nada, como neste dormitório) parecia-lhe uma grande armadilha (p. 80 e 81).

Trechos do livro: CALVINO, Italo. O dia de um escrutinador. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

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