terça-feira, 17 de novembro de 2009

As armas secretas, Julio Cortázar


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O perseguidor

- Essa questão do tempo é complicada, vive me pegando de tudo que é jeito. Aos poucos começo a reparar que o tempo não é como uma sacola que a gente vai enchendo. Quero dizer que mesmo que a gente mude o que vai colocando na sacola, só cabe uma determinada quantidade, e pronto. Está vendo minha mala, Bruno? Cabem dois ternos e dois pares de sapatos. Bem, agora imagine que você esvazia a mala e depois vai pôr de novo os dois ternos e um par de sapatos e de repente vê que só cabem um terno e um par de sapatos. Mas o melhor não é isso. O melhor é quando você percebe que pode botar uma loja inteira na mala, centenas e centenas de ternos, como eu às vezes ponho a música no tempo quando estou tocando. A música e o que eu penso quando ando de metrô (p. 83).

- Bruno, se eu pudesse viver apenas como nesses momentos, ou como quando estou tocando e também o tempo muda... Você percebe o que poderia acontecer num minuto e meio... Então um homem, e não só eu mas também essa aí e você e todos os rapazes, poderiam viver centenas de anos, se a gente encontrasse a maneira poderíamos viver mil vezes mais do que estamos vivendo por culpa dos relógios, por causa dessa mania de minutos e de depois de amanhã... (p. 87).
Quando não se tem muita certeza de nada, o melhor é criar deveres para si próprio, como bóias (p. 91).

Invejo um pouco essa igualdade que os aproxima, que os torna cúmplices com tanta facilidade; do meu mundo puritano – não necessito confessar isso, qualquer um que me conheça sabe de meu horror à desordem moral – vejo-os como anjos enfermos, irritantes graças à irresponsabilidade, mas pagando seus pecados com coisas como os discos de Johnny, a generosidade da marquesa. E não digo tudo, e quisera forçar-me a dizer: os invejo, invejo Johnny, esse Johnny do outro lado, sem que ninguém saiba exatamente qual é esse outro lado. Invejo tudo menos sua dor, coisa que ninguém deixará de compreender, mas mesmo em sua dor deve haver instantes de alguma coisa que me é negada. Invejo Johnny e ao mesmo tempo me dá raiva que esteja se destruindo pelo mau exemplo de seus dons, pelo estúpido acúmulo de insensatez que sua pressão de vida exige. Penso que se Johnny pudesse orientar sua vida, inclusive sem sacrificar nada, nem mesmo as drogas, e se acabasse na pior, na completa loucura, na morte, mas não sem antes haver tocado fundo o que busca em seus tristes monólogos a posteriori, em seus relatos de experiências fascinantes mas que sempre ficam na metade do caminho. E tudo isso asseguro na minha covardia pessoal, e talvez no fundo quisesse que Johnny acabasse de uma vez, como uma estrela que se arrebenta em mil pedaços e deixa os astrônomos abobados durante uma semana, e depois a gente vai dormir e amanhã é outro dia (p. 94).

Vejo ali o alto paradoxo de seu estilo, sua agressiva eficácia. Incapaz de se satisfazer, vale como um estímulo contínuo, uma construção infinita cujo prazer não está no arremate e sim na reiteração exploradora, no emprego de faculdades que deixam atrás o imediatamente humano sem perder a humanidade. E quando Johnny se perde como esta noite na criação contínua de sua música, sei muito bem que não está fugindo de nada. Ir a um encontro não pode ser nunca fugir, embora cada vez releguemos o lugar do encontro; e quanto ao que possa ficar para trás, Johnny o ignora e despreza soberanamente (p. 99).

Seria como viver atado a um pára-raios em plena tempestade e achar que não vai acontecer nada (p. 99).

Você nem acabou de sentir e já vem outra, vêm as palavras... Não, não são as palavras, é o que está nas palavras, essa espécie de cola-tudo, essa baba. E a baba vem e cobre você, e o convence que o espelho é você. Claro, mas como entender? Mas se sou eu, com meu cabelo, com esta cicatriz. E as pessoas não entendem que a única coisa que aceitam é a baba, e por isso acham tão fácil se olhar no espelho. Ou cortar um pedaço de pão com uma faca. Você cortou um pedaço de pão com uma faca? (p. 105).

Decidi não tocar na segunda edição do livro, continuar apresentando Johnny como o que era no fundo: um pobre coitado de inteligência apenas medíocre, dotado como tantos músicos, tantos jogadores de xadrez e tantos poetas do dom de criar coisas maravilhosas sem ter a menor consciência (no máximo o orgulho do lutador de boxe que se sabe forte) das dimensões de sua obra. Tudo me induzia a conservar tal e qual esse retrato de Johnny; não era o caso de criar complicações com um público que quer muito jazz mas nada de análises musicais ou psicológicas, nada que não seja a satisfação momentânea e bem delineada, as mãos que marcam o ritmo, as caras que amolecem beatificamente, a música que passeia pela pele, se incorpora ao sangue e à respiração, e depois basta, nada de razões profundas (p. 129 e 130).

Do livro: CORTÁZAR, Julio. As armas secretas: contos. Tradução e posfácio de Eric Nepomuceno. 4ª Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

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