terça-feira, 17 de novembro de 2009

Obra Crítica 2, Julio Cortázar


A música, os estados de felicidade, a mitologia, os rostos trabalhados pelo tempo, certos crepúsculos e certos lugares que vem nos dizer algo, ou algo disseram que não deveríamos ter perdido, ou estão a ponto de dizer algo; essa iminência de uma revelação que não se produz é, quem sabe, o fato estético (p. 12).

Eis que surgem as criaturas do irracional, do sonho, da pura intuição (p. 187).

Também é verdade que, quando um problema chega a uma solução, convém examinar se esta, afinal, não prolonga o problema sob um disfarce melhor (p. 193).

Um bom modelo de como fazer resenhas sem recorrer – como quase sempre acontece comigo – a vocabulários inutilmente extraídos de ciências que nada têm a ver com o assunto. Não lhe dá pena ver como a nossa generalizada incerteza idiomática positiva, técnica, ansiosamente aplicada a ordens para as quais não foi concebida? É horrível falar de um jasmim com termos que servem para explicar um motor a diesel (p. 235).

E eis que as citações, as recorrências, que o escritor medíocre sempre usa para tapar buracos, no poeta de verdade adquirem um sentido que transcende seu significado imediato: conotam a intuição ou a necessidade do poeta, mas ao mesmo tempo revelam sua valorosa honestidade ao acatá-las em vez de buscar uma substituição pessoal mais ou menos feliz, e além do mais ressoam pitagoricamente, estabelecem a relação simpática da poesia total, de todos os poetas e seus poemas (p. 245).

Porque o poeta é sempre a soma de todos nós, a ponta do funil (p. 246).

O poeta não perde tempo em comprovar seu conhecimento, não se detém para corroborá-lo (p. 268).

O excepcional consiste numa qualidade parecida com a do ímã; um bom tema atrai todo um sistema de relações conexas, coagula no autor, e mais tarde no leitor, uma imensa quantidade de noções, entrevisões, sentimentos e até idéias que flutuavam virtualmente em sua memória ou em sua sensibilidade; um bom tema é como um sol, um astro em torno do qual gira um sistema planetário de que, muitas vezes, não se tinha consciência até que o contista, astrônomo de palavras, nos revelasse sua existência. Ou então, para sermos mais modestos e mais atuais ao mesmo tempo, um bom tema tem algo de sistema atômico, de núcleo em torno do qual giram os elétrons; e tudo isto, afinal, já não é uma espécie de proposta de vida, uma dinâmica que nos insta a sair de nós mesmos e a entrar num sistema de relações mais complexo e mais bonito? (p. 354).

Todo conto perdurável é como a semente em que está adormecida uma árvore gigantesca. Esta árvore crescerá em nós, dará sua sombra em nossa memória (p. 355).

Por minha parte, creio que o escritor revolucionário é aquele em que se fundem indissoluvelmente a consciência do seu livre compromisso individual e coletivo com aquela outra soberana liberdade cultural conferida pelo pleno domínio do seu ofício (p. 360).

Seus temas conterão uma mensagem autêntica e profunda porque não terão sido escolhidos por um imperativo de caráter didático ou proselitista, mas por uma força irresistível que se imporá ao autor, e que este, lançando mão de todos os recursos de sua arte e de sua técnica, sem sacrificar nada a ninguém, haverá de transmitir ao leitor como se transmitem as coisas fundamentais: de sangue a sangue, de mão a mão, de homem a homem (p. 363).

Do livro: CORTÁZAR, Julio. Obra crítica, volume 2. Organização de Jaime Alazraki; tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

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