quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Os sujeitos trágicos (literatura e psicanálise), Ricardo Piglia


A relação entre psicanálise e literatura é, sem dúvida, tensa e conflituosa. Em primeiro lugar, os escritores sempre sentiram que a psicanálise falava de algo que eles já conheciam e sobre o que era melhor guardar silêncio. Faulkner, Nabokov, Borges (entre outros) observaram que o psicanalista quer intervir naquilo que os escritores, desde Homero, têm convocado com essa rotina cerimoniosa com que se convocam as musas, em relações muito frágeis e sempre tocadas pela graça. Nessa relação impossível de se estabelecer deliberadamente, nessa situação de espera tão sutil, os escritores sentiram que a psicanálise avançava como um louco furioso.

Mas há outro ponto sobre o qual os escritores disseram algo que, na minha opinião, pode ser útil para os psicanalistas. Nabokov e também Manuel Puig – nosso grande romancista argentino – insistiram em algo que os psicanalistas raramente percebem ou explicitam: a psicanálise gera muita resistência, mas também muita atração. A psicanálise é um dos aspectos mais atraentes da cultura contemporânea, e isto porque todos nós queremos ter uma vida intensa.

Gostamos de admitir que, em algum lugar de nossas vidas banais, experimentamos grandes dramas, que quisemos matar nossos pais e que, portanto, vivemos num universo de grande intensidade, em que conseguimos superar o tédio, a monotonia em que habitualmente estamos mergulhados. O psicanalista nos convoca como sujeitos trágicos; diz que há um lugar em que todos somos sujeitos extraordinários, lutando contra tensões e dramas profundíssimos, e isso é muito atraente.

Assim, Nabokov (1899-1977) via a psicanálise como um fenômeno da cultura de massas. Considerava que esse elemento de atração, capaz de pôr cada um de nós em conexão com as grandes tragédias, as grandes traições, pode estar relacionado com um procedimento clássico na cultura de massas: convocar o sujeito a um lugar extraordinário, tirando-o de sua experiência cotidiana.

Manuel Puig (1932-1990) costumava dizer algo que sempre me pareceu muito produtivo, e que sem dúvida o foi na construção de sua própria obra. Puig dizia que o inconsciente tem estrutura de folhetim. Ele, que escrevia sua ficção com muito interesse pela estrutura das telenovelas e dos grandes folhetins da cultura de massas, tinha conseguido captar essa dramaticidade implícita na vida de todos, que a psicanálise põe no centro da experiência de construção da subjetividade.

No que eu disse até aqui se vai esboçando um tipo de relação ambígua: por um lado, a psicanálise avança sobre um terreno íntimo, acerca do qual o artista considera que é melhor esperar e não pensar; mas, por outro lado, a psicanálise surge como uma espécie de concorrência: gera uma espécie de bovarismo, no sentido da experiência de Madame Bovary, que lia aqueles romancezinhos água-com-açúcar e queria vivê-los.

A literatura usou a psicanálise

Vou acrescentar agora duas questões: de que modo a literatura tem usado a psicanálise e de que modo a psicanálise tem usado a literatura. Para pensar sobre a primeira, convém esquecermos experimentos um tanto superficiais como o do surrealismo, que confundia essa espera da graça da musa com o procedimento mecânico da escrita automática: a musa é uma dama frágil o bastante para demandar um tratamento mais delicado que esse escrever sem pensar, deixando-se levar. É um pouco ingênuo supor que essa seria a melhor maneira de conectar-se com o inconsciente no trabalho.

Quem de fato fez da relação com a psicanálise uma chave de sua obra talvez tenha sido o maior escritor do século 20: James Joyce. Foi ele quem melhor utilizou a psicanálise, porque viu nela um modo de narrar, porque soube enxergar na psicanálise uma possibilidade de construção formal. É certo que Joyce conhecia bem a "Psicopatologia da Vida Cotidiana" e "A Interpretação dos Sonhos" (ambos de Freud): sua presença salta aos olhos na escritura do "Ulisses" e do "Finnegan's Wake". Não nos temas: não se tratava, para Joyce, de refinar a caracterização psicológica dos personagens, segundo a crença corrente de que a melhor ajuda que a psicanálise pode prestar ao romancista é a oferta de melhores instrumentos para essa caracterização. Não: Joyce percebeu que ali havia modos de narrar; que, na construção de uma narração, o sistema de relações não precisa obedecer a uma lógica linear, e aí temos o monólogo interior. Joyce utilizou a psicanálise de uma maneira notável e produziu na literatura, no modo de narrar, uma revolução sem volta.

Eu diria que o "Finnegan's Wake", sem dúvida uma das experiências (literárias)-limite deste século, foi em grande medida construído sobre a estrutura formal que se pode inferir de uma leitura criativa de Freud: uma leitura não preocupada com a temática, e sim com a maneira como se desenvolvem certos modos, certas formas, certas construções.

Quando perguntado sobre sua relação com Freud, Joyce costumava responder: "Joyce, em alemão, é Freud". "Joyce" e "Freud" querem dizer "alegria"; nesse sentido os dois querem dizer a mesma coisa, e a resposta de Joyce parece-me uma prova da consciência que ele tinha da relação ambígua, mas de respeito e interesse, que o unia a Freud. Acho que o que Joyce dizia era: eu estou fazendo o mesmo que Freud. Em um sentido mais livre, mais autônomo, mais produtivo.

Mas Joyce manteve outra relação com a psicanálise, ou melhor, com um psicanalista, sobre a qual há uma história que sintetiza muito dessa tensão entre psicanálise e literatura. Joyce tinha os ouvidos muito atentos às vozes das mulheres. Ele saía pouco, passava muito tempo escrevendo e escutava as mulheres que tinha por perto: escutava a Nora, que era sua mulher, uma mulher extraordinária. Escutando a voz dela, Joyce escreveu muitas das melhores páginas do "Ulisses", e os monólogos de Molly Bloom têm muito a ver com as cartas que ele escreveu a Nora em certos momentos de sua vida. Em suma: Joyce está muito atento à voz feminina.

Enquanto Joyce estava escrevendo o "Finnegan's Wake", era sua filha, Lucia, quem ele escutava com grande interesse. Lucia Joyce acabou psicótica e morreu internada numa clínica suíça em 1962. Joyce nunca quis admitir que a filha estava doente e procurava incentivá-la a realizar diversas atividades. Uma das coisas que ela fazia era escrever. Joyce a incentivava a escrever textos, e Lucia escrevia, mas sua situação era cada vez mais difícil. Por fim, alguém lhe recomendou que fosse falar com Jung.

Eles estavam morando na Suíça, e Jung havia escrito um texto sobre o "Ulisses". Joyce o procurou para lhe explicar o caso da filha, e disse a Jung: "Aqui estão os textos que ela escreve, e o que ela escreve é a mesma coisa que eu escrevo". Isso porque na época ele estava escrevendo o "Finnegan's Wake", que é um texto totalmente psicótico, se visto da seguinte perspectiva: é totalmente fragmentado, onirizado, atravessado pela impossibilidade de construir com a linguagem algo além de dispersão. Pois bem, Joyce disse a Jung que sua filha escrevia a mesma coisa que ele, e Jung respondeu: "Só que onde o senhor nada, ela se afoga". É a melhor definição que conheço da distinção entre um artista e... outra coisa, que não chamarei de outro modo.

A arte da natação

De fato, psicanálise e literatura têm muito a ver com a natação. Em certo sentido, a psicanálise é uma arte da natação, uma arte de manter à tona no mar da linguagem as pessoas que estão sempre tentando afundar. E um artista é aquele que nunca sabe se vai conseguir nadar: conseguiu nadar antes, mas não sabe se conseguirá nadar da próxima vez que entrar no mar.

Em todo o caso, a literatura deve a obra de Joyce à psicanálise. Ele foi capaz de ler a psicanálise, assim como foi capaz de ler outras coisas. Joyce foi um grande escritor porque soube entender que havia outras maneiras de fazer literatura fora da tradição literária; que podiam ser encontradas maneiras de narrar no catecismo, por exemplo; que a narração, as técnicas narrativas não estão ligadas apenas às grandes tradições narrativas; que é possível encontrar modos de narrar em outras experiências contemporâneas. A psicanálise foi uma delas.

A outra questão é o que a psicanálise deve à literatura: ela lhe deve muito. Podemos falar da relação que Freud estabeleceu com a tragédia. Não me refiro ao conteúdo de certas tragédias de Sófocles ou de Shakespeare, que deram lugar a metáforas temáticas sobre as quais Freud construiu um universo de análise. Refiro-me à tragédia como forma que estabelece uma tensão entre o herói e a palavra dos mortos.

Em literatura, tende-se a ver a tragédia como um gênero que estabeleceu uma tensão entre o herói e a palavra dos deuses, do oráculo, dos mortos, uma palavra vinda do outro lado, dirigida ao sujeito, mas que este não entende. O herói escuta um discurso personalizado, mas enigmático: é claro para os demais, mas ele não o entende. Isto é Édipo, Hamlet, Macbeth, este é o ponto em torno do qual gira a discussão literária sobre o gênero da tragédia, uma discussão que começa com Nietzsche e chega até Brecht. A tragédia, como forma, é essa tensão entre a palavra superior e um herói que tem uma relação pessoal com essa palavra.

Tal estruturação tem muito a ver com a psicanálise, mas ainda não vi essa questão ser tratada sem que se insista exclusivamente no aspecto do tema. Sem dúvida, em "Édipo" há um problema com pais e mães, em "Hamlet" há um problema com a mãe. Mas em "Hamlet" há também um pai que fala depois de morto.

Outra forma de pensar a relação entre psicanálise e literatura é dada pelo gênero policial. Trata-se do grande gênero moderno: inventado por Poe em 1843, invadiu o mundo contemporâneo. Hoje olhamos o mundo pautados por esse gênero, hoje vemos a realidade sob a forma do crime. Como dizia Bertolt Brecht, o que é roubar um banco comparado com fundá-lo? A relação entre lei e verdade é um elemento constitutivo do gênero, que é muito popular, como o foi a tragédia. Como os grandes gêneros literários, o policial tem sido capaz de discutir o mesmo que a sociedade discute, mas de outra maneira.

É isso que a literatura faz: discute de outra maneira. Se não entendermos isso, estaremos pedindo à literatura que faça algo que o jornalismo faria melhor. A literatura discute os mesmos problemas que a sociedade, mas de outra maneira, e essa maneira é a chave de tudo. Uma dessas maneiras é o gênero policial, que vem discutindo as questões entre lei e verdade, a não-coincidência entre a verdade e a lei.

Poe inventa um sujeito extraordinário, o detetive, cujo destino é estabelecer a relação entre a lei e a verdade. O detetive está ali para interpretar algo que ocorreu, que deixou certos sinais, e ele pode desempenhar essa função porque está fora de qualquer instituição. O detetive não pertence ao mundo do crime nem ao mundo da lei; não é um policial. Dupin, Sherlock Holmes, o detetive particular estão ali para mostrar que a lei funciona mal em seu lugar institucional, a polícia. O detetive vem abrir o lugar da verdade que não pertence a nenhuma instituição onde a verdade é legitimada.

Pensemos no seguinte paradoxo, (que também diz respeito a nós, argentinos) (1): como falar de uma sociedade que nos determina? A partir de que lugar externo podemos julgá-la, se nós também estamos dentro dela? O gênero policial oferece uma resposta que é extrema: o detetive, embora forme parte do universo que analisa, pode interpretá-lo porque não tem relação com nenhuma instituição, nem sequer com o casamento. O detetive não pode se integrar a nenhuma instituição social, nem à mais microscópica, pois, onde quer que se integre, não poderá mais dizer aquilo que ele tem que dizer: essa tensão entre a lei e a verdade.

Na tragédia, o sujeito recebe uma mensagem dirigida a ele e a interpreta de maneira equivocada. A tragédia é o percurso dessa interpretação, é o modo pelo qual o sujeito entende errado. No policial, aquele que interpreta está livre de travas e fala de uma história que não é a dele, dedica-se a uma questão que não é a dele: acho que os psicanalistas têm alguma familiaridade com isso...

Nota

1. Este texto é uma transcrição da conferência realizada em Buenos Aires, com o patrocínio da Associação Psicanalítica Argentina em 7 de julho de 1997.

Tradução de Sérgio Molina.

O artigo pode ser encontrado na íntegra no livro: PIGLIA, Ricardo. Formas breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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