sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Outras inquisições, Jorge Luis Borges


O sujeito de tais enunciações é indiscutivelmente Alguém, um Alguém corporal que os séculos irão agigantando e tornando impreciso. Seus títulos variam: Fortaleza de Jacó, Pedra de Israel, Sou Aquele que Sou, Deus dos Exércitos, rei dos Reis (p. 167).

Isto é, assinalado e eminente dentre todos e mais excelente que outros muitos (p. 168).

Ser uma coisa é, inexoravelmente, não ser todas as outras coisas; a intuição confusa dessa verdade induziu os homens a imaginar que não ser é mais do que ser algo e que, de certo modo, é ser tudo (p. 170).

Argumentam que nada é real e todo conhecimento é fictício (p. 170).

Croce não admite diferença entre o conteúdo e a forma. Esta é aquele e aquele é esta. A alegoria lhe parece monstruosa porque aspira a resumir numa forma dois conteúdos: o imediato ou literal (Dante guiado por Virgílio, chega a Beatriz) e o figurado (o homem finalmente chega à fé, guiado pela razão). Julga que esse modo de escrever comporta trabalhosos enigmas (p. 178).

A história da filosofia não é um vão museu de distrações e jogos verbais; verossimilmente, as duas teses correspondem a dois modos de intuir a realidade (p. 180).

D’artagnan executa inúmeras façanhas e Dom Quixote é espancado e escarnecido, mas sentimos mais o valor de Dom Quixote. Essa afirmação nos leva a um problema estético até agora não colocado: pode um autor criar personagens superiores a ele próprio? Eu responderia que não, e nessa negação compreenderia aspectos intelectuais e morais. Penso que de nós não sairão criaturas mais lúcidas ou mais nobres que nossos melhores momentos (p. 184).

No século IX, Erígena escreveria que Deus não sabe quem é nem o que é, porque não é um quê nem um quem (p. 188).

“Sou Aquele que Sou” é uma afirmação ontológica. (p. 189).

Um prosador chinês observou que o unicórnio, justamente por ser anômalo, pode passar despercebido. Os olhos lêem o que estão habituados a ver; Tácito não percebeu a Crucificação, embora seu livro a registre (p. 192).

Berkeley afirmou a existência contínua dos objetos, uma vez que, quando algum indivíduo não os percebe, Deus os percebe (p. 201 e 202).

Um mundo de impressões evanescentes; um mundo sem matéria nem espírito, nem objetivo num subjetivo; um mundo sem a arquitetura ideal do espaço; um mundo feito de tempo, do absoluto tempo uniforme dos principia, um labirinto inexaurível, um caos, um sonho. A essa quase imperfeita desagregação chegou David Hume (p. 202).

As ruidosas catástrofes gerais – incêndios, guerras, epidemias – são uma só dor, ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos (p. 206).

O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, infelizmente, é real; eu, infelizmente, sou Borges (p. 218).

Saber que cálculo, em latim, quer dizer pedrinha e que os pitagóricos usaram essas pedrinhas antes da invenção dos números não nos permite dominar os arcanos da álgebra; saber que hipócrita era ator e persona, máscara, não é um instrumento valioso para o estudo da ética. Da mesma forma, para fixar o que hoje entendemos por clássico; é inútil saber que esse adjetivo provém do latim classis, frota, que mais tarde adquiriria o sentido de ordem (p. 219).


Do livro: BORGES, Jorge Luis Borges (1952). Outras inquisições. Tradução David Arrigucci Jr.. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Nenhum comentário:

Postar um comentário