domingo, 22 de novembro de 2009

Pedro Páramo, Juan Rulfo


Cada suspiro é como um sorvo de vida de que a gente se desprende. (p. 49).

O calor me despertou por volta da meia-noite. E o suor. O corpo daquela mulher, feito de terra, envolto em crostas de terra, se desfazia como se se estivesse derretendo num charco de lodo. Eu me sentia nadar no suor que ela jorrava a cântaros e faltou-me o ar de que se necessita para respirar.Então me levantei. A mulher dormia, de sua boca borbotava um ruído de borbulhas muito parecido ao do estertor. Saí para a rua em busca de ar, mas o calor que me perseguia não se despregava de mim.
É que não havia ar; só a noite entorpecida e quieta, aquecida pela canícula de agosto.
Não havia ar. Tive que sorver o mesmo ar que saía de minha boca, detendo-o com as mãos antes que se fosse. Sentia-o ir e voltar, cada vez menos; até que se fez tão tênue que se filtrou entre meus dedos para sempre.
Digo para sempre.
Tenho lembrança de ter visto algo como nuvens espumosas fazendo redemoinho sobre minha cabeça e depois enxaguar-me com aquela espuma e perder-me em seu nevoeiro. Foi a última coisa que vi.
(p. 62 e 63).

RULFO, Juan. Pedro Páramo. Trad. Jurema Finamour. São Paulo: Editora Brasiliense, 1969.

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