domingo, 8 de novembro de 2009

O visconde partido ao meio, Italo Calvino



- Que se pudesse partir ao meio toda coisa toda coisa inteira – disse meu tio, de bruços no rochedo, acariciando aquelas metades convulsivas de polvo –, que todos pudessem sair de sua obtusa e ignorante inteireza. Estava inteiro e para mim as coisas eram naturais e confusas, estúpidas como o ar: acreditava ver tudo e só havia a casca. Se você virar a metade de você mesmo, e lhe desejo isso, jovem, há de entender coisas além da inteligência comum dos cérebros inteiros. Terá perdido a metade de você e do mundo, mas a metade que resta será mil vezes mais profunda e preciosa. E você há de querer que tudo seja partido ao meio e talhado segundo sua imagem, pois a beleza, a sapiência e justiça existem só no que é composto de pedaços (p. 52).

E o carpinteiro era assaltado pela dúvida sobre se construir máquinas boas não estaria além das possibilidades humanas, ao passo que as únicas que de fato podiam funcionar com eficácia e exatidão seriam os patíbulos e as torturas. Com efeito, assim que o Mesquinho expunha a Pedroprego a idéia de um novo mecanismo, logo vinha à mente do mestre o modo para realizá-lo e se punha a trabalhar, e cada detalhe lhe parecia insubstituível e perfeito, e o instrumento acabado uma obra-prima de técnica e engenho (p. 85).

Assim passavam os dias em Terralba, e os nossos sentimentos se tornavam incolores e obtusos, pois nos sentíamos como perdidos entre maldades e virtudes igualmente desumanas (p. 90).

Não há noite de lua em que nos espíritos selvagens as idéias perversas não se enrosquem como ninhos de serpentes e em que os espíritos caridosos não se abram em lírios de renúncia e dedicação. Assim, entre os precipícios de Terralba, as duas metades de Medardo vagavam atormentadas por ímpeto opostos (p. 91).

Eis o que me vai pelo coração. Há tempos penso que a infelicidade alheia que pretendo socorrer talvez seja alimentada pela minha presença. Vou embora de Terralba. Mas só se minha partida der paz a duas pessoas: a sua filha, que dorme numa gruta enquanto lhe toca um nobre destino, e à minha infeliz parte direita, que não deve permanecer tão sozinha. Pamela e o visconde devem unir-se pelo matrimônio (p. 92).

Assim, meu tio Medardo voltou a ser um homem inteiro, nem mau nem bom, uma mistura de maldade e bondade, isto é, aparentemente igual ao que era antes de se partir ao meio. Mas tinha a experiência de uma e de outra metade refundidas, por isso devia ser bem sábio. Viveu feliz, teve muitos filhos e fez um bom governo. Nossa vida também mudou para melhor. Talvez se esperasse que, uma vez inteiro o visconde, se abrisse um período de felicidade maravilhosa; mas é claro que não basta um visconde completo para que o mundo inteiro se torne completo (p. 99).

Eu chegara ao limiar da adolescência e ainda me ocultava entre as raízes das grandes árvores do bosque para me contar histórias. Uma agulha de pinheiro podia representar para mim um cavaleiro ou uma dama ou um bufão; movimentava-a diante de meus olhos e me exaltava em relatos intermináveis. Depois ficava com vergonha dessas fantasias e fugia (p. 99).

Trechos do livro: CALVINO, Italo. O visconde partido ao meio. Tradução Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

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