quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A verdade das mentiras, Mario Vargas Llosa

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Quando lemos romances, não somos o que somos habitualmente, mas também os seres criados para os quais o romancista nos transporta. Esse traslado é uma metamorfose: o reduto asfixiante que é nossa vida real abre-se e saímos para ser outros, para viver vicariamente experiências que a ficção transforma como nossas. Sonho lúcido e fantasia encarnada, a ficção nos completa – a nós, seres mutilados, a quem foi imposta a atroz dicotomia de ter uma única vida, e os apetites e as fantasias, que exigem que seja mais rica e mais diversa, é preenchido pelos livros de ficção (p. 17).

Mas a imaginação concebeu um paliativo astuto e sutil para esse divórcio inevitável entre a nossa realidade limitada e os nossos apetites desmedidos: a ficção. Graças a ela somos mais e somos outros, sem deixar de ser nós mesmos. Nela nos dissolvemos e nos multiplicamos, vivendo diversas outras vidas além da que temos e das que poderíamos viver se permanecêssemos confinados no verídico, sem sair do cárcere da história (p. 25).

O vínculo fraterno que a literatura estabelece entre os seres humanos, obrigando-os a dialogar e fazendo-s conscientes de uma matéria comum, de fazer parte de uma mesma linhagem espiritual, transcende as barreiras do tempo. A literatura nos retroage ao passado e nos irmana com os que, em épocas idas, forjaram, gozaram e sonharam com esses textos que nos legaram e que agora, fazem-nos desfrutar e sonhar também. Esse sentimento de pertencer à coletividade humana, através do tempo e do espaço, é a realização mais elevada da cultura, e nada contribui tanto para renová-la, a cada geração, como a literatura (p. 353 e 354).

Uma humanidade sem leitura, não contaminada de literatura, parecer-se-ia muito com uma comunidade de gagos e de afásicos, afetada por tremendos problemas de comunicação devido à sua linguagem grosseira e rudimentar. Isso vale também para os indivíduos, está claro. Uma pessoa que não lê, ou que lê pouco, ou que só lê lixo, pode falar muito, porém, dirá sempre poucas coisas porque dispõe de um repertório mínimo e deficiente de vocábulos para se expressar. Não é uma limitação somente verbal; é, ao mesmo tempo, uma limitação intelectual e de horizonte imaginário, uma indigência de pensamentos e de conhecimentos, porque as idéias, os conceitos, mediante os quais nos apropriamos da realidade existente e dos segredos da nossa condição, não existem dissociados das palavras, através das quais a consciência os reconhece e os define. Aprende-se a falar com correção, profundidade, rigor e sutileza graças à boa literatura, e somente graças a ela. Nenhuma outra disciplina, tampouco um ramo das artes pode substituir a literatura na formação da linguagem com que as pessoas se comunicam. Os conhecimentos que os manuais científicos e os tratados técnicos nos transmitem são fundamentais; porém, eles não nos ensinam a dominar as palavras nem a nos expressar com propriedade: ao contrário, com freqüência são muito mal escritos e transmitem uma confusão lingüística, pois seus autores, às vezes indiscutíveis eminências em sua profissão, são literariamente incultos e não sabem se servir da linguagem para comunicar os tesouros conceituais que possuem. Falar bem, dispor de uma fala rica e diversa, encontrar a expressão adequada para cada idéia ou emoção que se quer comunicar, significa estar mais bem preparado para pensar, ensinar, aprender, dialogar e, também, fantasiar, sonhar, sentir e se emocionar. De uma maneira sub-reptícia, as palavras reverberam em todos os atos de vida, mesmo naqueles que parecem muito distanciados da linguagem (p. 355 e 356).

Do livro: LLOSA, Mario Vargas. A verdade das mentiras. Tradução Cordélia Magalhães. São Paulo: ARX, 2004.

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