quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A última casa de ópio, Nick Tosches


Enquanto pondero sobre a cebola, minha memória retrocede mais de um quarto de século a este lugar... (p. 11).

A nossa era é, cada vez mais, a era do pseudoconhecimento, o modo pelo qual tentamos totalmente nos diferenciar da maioria medíocre. Sentar-se ao redor de uma garrafa de suco de uva azedo, falando de toques delicados de groselha-preta, fumaça de carvalho, trufas ou de qualquer outro absurdo refinado que a natureza teria usado para enriquecer o seu sabor é ser um cafone de primeira grandeza. Porque, se há algum toque delicado a ser percebido em qualquer vinho, é provável que seja o de pesticida e esterco. Sobre um Château Margaux 1978, um connaisseur pronuncia: “Após uma hora exposto ao ar, este vinho desabrocha, revelando aromas de cassis doce, chocolate, violetas, tabaco e doce baunilha acarvalhada. E cerca de dez anos, este vinho pode evoluir para a clássica mistura Margaux de cassis, trufas negras, violetas e baunilha”. Como se isso não fosse absurdo o bastante, “um traço de pimentão se esconde no cassis”.
Como um nariz tão sofisticado pode não ter detectado a merda de vaca com a qual essa celebrada propriedade de Bordeaux fertiliza suas videiras? Um verdadeiro conhecedor de vinhos, se tal coisa existisse, detectaria o pesticida e o esterco antes de tudo: ele não seria um goûteur de vin, e sim um goûteur de merde. Mas não existe conhecimento real de vinho sem ser o daqueles que sabem que a verdadeira alma do vinho, l’âme du vin, é o vinagre. Só saboreia realmente maravilhas quem bebe, puros, aqueles raros vinagres envelhecidos, denominados da bere: a coisa pra valer, um néctar bem distante do suco glorificado dessa indústria de adjetivos e falsidade, que já foi a bebida simples e nobre de camponeses simples e nobres – bem mais nobres e conhecedores do que os otários endinheirados de hoje em dia, engambelados a acreditar que a degustação de vinho pede mais palavras do que “bom”, “ruim”, ou “cala essa boca e bebe logo” (p. 13, 14 e 15).

Hip – literalmente “quadril” em inglês. Adotado pelo jargão jazzístico nos anos 20, o termo passou a ser sinônimo de “descolado”, “entendido”, “moderno”, e se popularizou no EUA na década de 60 (N.E.) (p. 29).


O comunismo é uma betoneira que cospe um concreto cinza, baço e indistinguível. Aonde o comunismo chega, tudo – a arquitetura física do lugar, e depois sua lama – se torna baço e cinza e, em sua fraqueza, desmorona nesse embaraçamento cinzento, muito mais feio e deprimente (p. 36).

“Esplendor sibarita”. Sibarita – Referente à antiga Sibaris, cidade da magna Grécia, o adjetivo é sinônimo de volúpia e luxo. (N.E.) (p. 41).

Cuidando o tempo todo, com a ponta da haste, do ópio borbulhante em seu pequeno orifício, ele puxa até que suas bochechas sejam só ossos angulosos e pele côncava e estirada, um exercício facial intensos que, depois de alguns anos, deixa a marca do hábito nos contornos do rosto do fumante: aquelas “bochechas de Ho Chi Minh” pelas quais um usuário habitual pode reconhecer outro (p. 63).

O mestre Ch’na Niu-t’ou Fa-Yung, mais de 1300 anos atrás: “Como podemos obter a verdade com palavras?” (p. 65).

Iatrogênico – alteração patológica provocada em um paciente, por tratamento de qualquer tipo. (N.E.) (p. 66).

Malles maleficarum
Ancestrais palavras coptas do Evangelho de Tomé: “Se trazes à tona o que está dentro de ti, o que trazes à tona te salva. Se não trazes à tona o que está dentro de ti, o que não trazes à tona te destrói”. (p. 67).

Nunca uma tarde passou com tanta serenidade, com a vida vivida tão por inteiro, tão livre dos vermes daquela massa de carne enrugada e nojenta que chamamos de mente. Estar aqui, sem palavras, cada respiro uma invocação, olhando calmo e à deriva através dos interstícios do para sempre (p. 84 e 85).

Em algum lugar da Indochina, numa cidade em ruínas cujas ruas não têm nome, saio, sob o calor e a poeira do meio-dia, e desdobro o mapa desenhado à mão (p. 86).

TOSCHES, Nick. A última casa de ópio. Tradução Michele de Aguiar Vartuli. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2006.

Nenhum comentário:

Postar um comentário