segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O Apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger


Entre outras coisas, você vai descobrir que não é a primeira pessoa a ficar confusa e assustada, e até enojada, pelo comportamento humano. Você não está de maneira nenhuma sozinho nesse terreno, e se sentirá estimulado e entusiasmado quando souber disso. Muitos homens, muitos mesmo, enfrentaram os mesmos problemas morais e espirituais que você está enfrentando agora. Felizmente, alguns deles guardaram um registro de seus problemas. Você aprenderá com eles, se quiser. Da mesma forma que, algum dia, você tiver alguma coisa a oferecer, alguém irá aprender alguma coisa de você. É um belo arranjo recíproco. E não é instrução. É história. É poesia.
Não estou querendo dizer que só os homens instruídos e cultos são capazes de contribuir com algo valioso para o mundo. Não é isso. O que eu quero dizer é que os homens instruídos e cultos, se de fato tiverem brilho e capacidade criadora – o que, infelizmente, é raro – tendem a deixar registros infinitamente mais valiosos do que aqueles que apenas têm brilho e capacidade criadora. Tendem a se expressar com mais clareza e, geralmente, têm a paixão de desenvolver seu pensamento até o fim. E – o que é mais importante – na grande maioria dos casos têm mais humildade do que o pensador menos culto. Você está me acompanhando?
Há outra coisa que uma educação acadêmica poderá proporcionar a você. Se você prosseguir nela por um tempo razoável, ela acabará lhe dando uma idéia das dimensões da sua mente. Do que ela comporta e, talvez, do que ela não comporta. Depois de algum tempo, você vai ter uma idéia do tipo de pensamento que sua mente deve abrigar. A vantagem disso é que talvez lhe poupe uma enormidade de tempo, que você perderia experimentando idéias que não se ajustam a você, não combinam com você. Você começará a conhecer as suas medidas exatas, e vestirá sua mente de acordo com elas (p. 184 e 185).

Do livro: J.D. Salinger. O Apanhador no campo de centeio (the catcher in the rye). 16ª ed. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1945, 1946, 1951.

Um comentário:

  1. Até o 3° parágrafo o narrador-autor não deixava transparecer que falava da educação acadêmica. Era até mais universal. Talvez esse terceiro parágrafo pudesse ter ficado de fora do trecho do JD Salinger, já que como um funil, desembocou na medida exata da escolha do que enfiar dentro da cabeça.
    Ao mesmo tempo que lia o 3° Paragrafo pensava na perda de tempo de quem escolhe errado, nas variantes de escolha e na persistência da opção acadêmica por uma gama de fatores determinam a escolha.
    Interessante o trecho...
    Abração, Paulinho.

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