quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A insustentável leveza do ser, Milan Kundera


Ora, ele não somente não a mandou embora, como lhe tomou a mão e beijou a ponta de seus dedos, pois naquele momento, ele próprio sentia a dor que ela experimentava sob as unhas, como se os nervos dos dedos de Tereza estivessem diretamente ligados ao cérebro dele (p. 29).

Desde a mocidade, não fazia outra coisa senão falar, escrever, dar cursos, inventar frases, procurar fórmulas, corrigi-las, logo as palavras não tinham mais nada de exato, seu sentido se esfumava, perdiam o conteúdo e delas sobravam apenas migalhas, partículas, poeira, areia, que flutuava no cérebro dele, que lhe dava enxaqueca, que era sua insônia, sua doença (p. 113).

(São sempre as mesmas perguntas que desde a infância passam pela cabeça de Tereza. Porque as perguntas realmente sérias são apenas aquelas que uma criança pode formular. Só as perguntas mais ingênuas são realmente perguntas sérias. São as interrogações para as quais não há resposta. Uma pergunta para a qual não há resposta é uma cancela além da qual não há mais caminhos. Em outras palavras: são precisamente as perguntas para as quais não há resposta que marcam os limites das possibilidades humanas e que traçam as fronteiras de nossa existência) (p. 160 e 161).

Muitas vezes nos refugiamos no futuro para escapar do sofrimento. Imaginamos uma linha na estrada do tempo e que além dessa linha o sofrimento presente deixará de existir. Mas Tereza não via essa linha diante de si. Só podia encontrar consolo olhando para trás (p. 189).

Aquele que escolhe, por exemplo, a carreira de político faz do público necessariamente seu juiz, na fé ingênua e confessa de conquistar o seu favor (p. 209).

Os homens que perseguem uma multidão de mulheres podem facilmente ser divididos em duas categorias. Uns procuram em todas as mulheres seu próprio sonho, sua idéia subjetiva da mulher. Outros são movidos pelo desejo de se apoderar da infinita diversidade do mundo feminino objetivo.
A obsessão dos primeiros é uma obsessão romântica: o que procuram nas mulheres é a si próprios, é ao ideal deles, e ficam sempre e continuamente decepcionados, porque, como sabemos, o ideal é o que é impossível encontrar. Como a decepção que os leva de mulher em mulher dá à sua inconstância uma espécie de desculpa melodramática, muitas mulheres sentimentais acham comovente essa poligamia obstinada.
A outra obsessão é uma obsessão libertina, e as mulheres não vêem nisso nada de comovente: como o homem não projeta nas mulheres um ideal subjetivo, tudo lhe interessa e nada pode decepcioná-lo. E precisamente essa inaptidão para a decepção tem algo de escandaloso. Aos olhos do mundo, a obsessão do fornicador libertino não pode ser perdoada (porque não é resgatada pela decepção) (p. 229).

Não queria desvendar nada em Tereza. Já a havia encontrado desvendada. Fizera amor com ela sem ter tido tempo para apanhar o bisturi imaginário com que abria o corpo prostrado do mundo. Sem perder tempo tentando imaginar como ela seria durante o amor, já a amava (p. 238).

Basta que os olhos do ser amado se fechem para que a sala fique mergulhada na escuridão (p. 305).

Do caos confuso dessas idéias, germina na mente de Tereza uma idéia blasfematória de que ela não consegue se desvencilhar (p. 333).

KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. Trad. Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

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