quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A pérola, John Steinbeck


– Antes de você nascer, Kino, os antigos pensaram numa maneira de conseguir um preço melhor para as suas pérolas. Pensaram que seria melhor que tivessem um agente que levaria todas as pérolas deles para a capital e ali as vendesse, ficando apenas com a sua parte do dinheiro.
– Eu sei – disse Kino, batendo com a cabeça. – Era um bom pensamento esse.
– Conseguiram um homem assim – continuou Juan Tomás. – Juntaram as pérolas e o homem partiu. Nunca mais se soube dele e as pérolas se perderam. Conseguiram outro homem, que partiu e nunca mais se soube dele. Depois disso, desistiram e voltaram ao jeito antigo.
– Eu sei – disse Kino. – Ouvi nosso pai contar isso. A idéia era boa mas contra a religião e o padre mostrou isso bem claro. A perda das pérolas foi um castigo para aqueles que procuravam sair da posição que tinham na vida. O padre disse de maneira positiva que cada pessoa é como um soldado mandado por Deus para montar guarda a algum ponto da fortaleza do universo. Alguns ficam nos baluartes e outros bem embaixo, na escuridão das muralhas. Cada um deve, portanto, ficar firme no seu posto e não abandoná-lo, pois do contrário a fortaleza ficará aberta aos ataques do inferno (p. 62 e 63).

– É difícil saber, Kino. Bem sabemos que somos roubados em tudo desde que nascemos até que morremos, quando cobram demais pelos nossos caixões. Mas vamos vivendo. Você desafiou não apenas os compradores de pérolas, mas toda a armação, a vida toda como é organizada, e eu tenho medo por sua causa (p. 72).

STEINBECK, John. A pérola. Tradução de Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Record, 1968.

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