segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

De vagões e vagabundos: memórias do submundo, Jack London


Quanto a maiores detalhes esta testemunha declara-se muda, embora possa-se desconfiar que o seu patriotismo tenha se evaporado um pouco e vazado por alguma fresta no fundo de sua alma – pelo menos, desde que passou por essa experiência, ele já se deu conta de que se interessa muito mais por homens, mulheres e crianças do que por fronteiras geográficas imaginárias (p. 98).

Eu tinha nascido na classe operária, e estava agora, aos dezoito anos, abaixo do ponto no qual tinha começado. Estava caído nos porões da sociedade, jogado no profundo subterrâneo da miséria a respeito do qual não é agradável nem digno falar: eu estava no fosso, no abismo, no esgoto humano, no matadouro, na capela mortuária da nossa civilização. Esta é a parte do edifício social que a sociedade prefere esquecer. A falta de espaço me leva aqui a ignorá-la, e eu devo dizer apenas que as coisas que vi lá me deram um medo terrível (p. 104).

Quando um comerciante vende seus sapatos, continuamente repõe o estoque. Mas não havia como repor o estoque de energia do trabalhador. Quanto mais ele vende sua força, menos sobra para ele. A força física é sua única mercadoria, e a cada dia seu estoque diminui. No fim, se não morrer antes, ele vendeu tudo e fechou as portas. Está arruinado fisicamente e nada lhe restou senão descer aos porões da sociedade e morrer miseravelmente (p. 105).

Lá, eu descobri, num certo tipo de livros, formulados cientificamente, os conceitos sociológicos simples que eu tinha tentado descobrir por mim mesmo. Outras grandes mentes, antes que eu tivesse nascido, tinham elaborado tudo que eu havia pensado e muitas coisas mais. Eu descobri que era um socialista (p. 105).

Com o inverno da máquina a vapor ao advento da Revolução Industrial passou a existir a Classe Capitalista, no sentido Moderno da palavra. Estes capitalistas logo triunfaram sobre a antiga sobre a antiga nobreza. Os capitães de indústria despojaram, virtualmente, os herdeiros dos capitães da guerra. A mente e não o músculo vence hoje a corrida pela existência. Mas este estado de coisas está, do mesmo modo, baseado no poder. A mudança foi qualitativa. A antiga baronagem feudal dos velhos tempos assolava o mundo com o fogo e a espada; a atual baronagem do capital explora o mundo através do domínio e do controle das forças econômicas do mundo. O cérebro, e não o bíceps, nos mantém vivos e os mais aptos a sobreviver são os intelectualmente e comercialmente poderosos (p. 115).

Nós somos o inevitável. Somos a culminação do desequilíbrio social e industrial. E agora nos voltamos contra a sociedade que nos criou. Somos os fracassos bem-sucedidos desta era, a peste de uma civilização desgraçada.
Somos os filhos de uma perversa relação social. Enfrentamos a força com a força. Só os fortes sobreviverão. Nós acreditamos na sobrevivência dos mais aptos. O senhor afundou os seus escravos na lama e sobreviveu. Seus capatazes, sob seu comando, mataram como cães seus empregados num bom número de greves sangrentas. Por estes meios o senhor sobreviveu. Não nos queixamos do resultado, pois aceitamos e nos mantemos segundo a mesma lei natural. Agora, a questão se coloca: sob a presente ordem social, qual de nós sobreviverá? (p. 125).

LONDON, Jack. De vagões e vagabundos: memórias do submundo. Tradução de Alberto Alexandre Martin. Porto Alegre: L&PM Editores, 1985.

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