quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Terra Sonâmbula, Mia Couto


Mas o desdentado aldeão já anoitecera, queixo caído no peito. Seu mundo já era esse que Tuahir anunciara, de extensos sossegos. O próprio Muidinga está como se encontrado com as palavras de Tuahir. Não é a estória que o fascina mas a alma que está nela. E ao ouvir os sonhos de Tuahir, com os ruídos da guerra por trás, ele vai pensando: “Não inventaram ainda uma pólvora suave, maneirosa, capaz de explodir os homens sem lhes matar. Uma pólvora que, em avessos serviços, gerasse mais vida. E do homem explodido nascesse os infinitos homens que lhes estão por dentro”.
Tuahir se revela, por um instante, como um curandeiro amenizando o universo, seu paciente. E ali está o velho Siqueleto, sonecando em trégua de existir. Olhando o seu corpo abandonado dá vontade de sorrir como se faz ao contemplar o sono indefeso de uma criança (p. 67 e 68).

Por entre cortinas vi o corpo de Farida. Ela se banhava, Assim, em contorno de claro e escuro a mulher se esfregava em água ou em claridade? Cheguei à escotilha, espreitei sem disfarce. Farida me notou, virou-se de lado e acenou um gesto de convite.
Entrei, perturbado, ardendo de intenção. Juntei-me a ela, chegadinho, fosse confiar-me um ilegítimo segredo. Ela se prumou, face a face. Nos olhamos como se reconhecêssemos no outro, o único ser da terra. Eu para mim, me garantia: não chegava uma vida inteira para contemplar aqueles olhos. Cinzas, se nos olhos dela dormitavam, em brasas se acenderam. Um dedo foi entrando no canto da sua boca. Toquei primeiro em seus dentes, depois senti sua saliva. Era uma saliva quente, parecia que não era apenas um dedo mas todo eu inteiro que penetrava numa caverna aquecida. Outro dedo caminhou nos interiores dela, nervoso de contente. Lá fora, o mar esturdilhava, lançando espumas. O vento soprou com mais raiva, as ondas começaram a varrer tudo, sem respeito. Mesmo ali, no guardado da nossa sala, a água jorrava. Nem parecíamos notar. O mundo esvanecia e o mar já não importava. As mãos molhadas de Farida desataram as vestes, os dedos dela parecia eram de água. Ela se deitou, derramada no chão de ferro. Nos colamos em gestos de afogado. As vagas ondeavam nossos corpos, indo e vindo. Os dois éramos já só um, emergindo como uma ilha num imenso nada.
Depois, nos desprendemos, fatigados. Ela estremeceu, molhada. Se chegou ao xipefo, se envolveu numa manta. Permaneci, prostrado, seguindo cada movimento dela. Que idade teria? Porque se Farida dava como uma mulher, recebia como uma menina (p. 96 e 97).

Eu sabia que a miséria se cura é com faturas. (p. 97).

E se agremiavam na cervejaria, a juntar conversa, amolecendo fraquezas em voz alta. Mais que os outros todos, dois homens se discutiam (p. 127).

- Lhe vou confessar miúdo. Eu sei que é verdade: não somos nós que estamos a andar. É a estrada (p. 137).

Eu sei que em cada mulher a gente lembra outra, a que nem há. Mas Carolinda me entregava essa doce mentira, o impossível cálculo do amor: dois seres, um e um, somando o infinito. Se aproximou e me acariciou os braços, ali onde as cordas me doeram. A cintura de suas mãos me afagavam, em suave arrependimento. Aquele momento confirmava: o melhor da vida é o que não há-de-vir (p. 152).

COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

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