sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A Christmas Carol, Scrooge's Story Part1, Charles Dickens


In this version Seymour Hicks plays the title role in the first sound film of the story about the miser who's visited by three ghosts on Christmas Eve. This British import is notable for being the only adaptation of this story with an invisible Marley's Ghost and its Expressionistic cinematography.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Porto Alegre dança um tango literário com o Brasil, Léa Masina


Léa Masina é crítica literária, bacharel em Direito, doutora em Literatura Comparada e professora no Instituto de Letras da UFRGS, autora da obra Percursos de leitura, entre outras.

Dançar tango em Porto Alegre, de Sérgio Faraco, foi escolhido pela Academia Brasileira de Letras para receber, este ano, o Prêmio de Ficção. A distinção foi atribuída à coletânea publicada por L&PM Editores, com textos selecionados pelo autor. Amigos e leitores do escritor estão em festa, comemorando o reconhecimento da obra literária de um dos contistas mais expressivos do Brasil, um escritor altamente profissionalizado, que desenvolve e articula, aqui no sul, intensa atividade intelectual. Escrevendo ficção, traduzindo escritores, orientando e apoiando editoras e planos editoriais, correspondendo-se com intelectuais e amigos brasileiros e platinos, Faraco há muitos anos vem contribuindo, sistematicamente, para qualificar a literatura brasileira. Portanto, nada mais justo do que a legitimação de sua obra ficcional pelas instâncias acadêmicas.

Dançar tango em Porto Alegre chegou ao centro do país por mérito do editor, que investiu em sua distribuição. Lido e compreendido, venceu o preconceito que advém da tendência homogeneizadora de cada leitor, que pretende reconhecer-se no que lê. O Brasil que Faraco oferece aos brasileiros destaca-se por suas peculiaridades e suas diferenças. Para compreendê-lo, é preciso perfazer um caminho cultural histórico e lembrar, por exemplo, que a literatura do Norte e do Nordeste, desde os anos 30, já integra o imaginário brasileiro, ao passo que a literatura gaúcha ainda é pouco lida fora do Rio Grande do Sul. Por aqui, circulam alegações, uma das quais, a dominante, é a de que os textos sul-rio-grandenses possuem um caráter essencialmente localista. Diz-se, para compensar, que por isso mesmo existe aqui um circuito de produção cultural quase auto-suficiente:temos bons escritores identificados com temáticas locais, um público-leitor fiel e atento, boas editoras, uma Feira do Livro consagrada como evento cultural permanente e, ainda, o Seminário de Literatura de Passo Fundo, que legitima e consagra os escritores do Brasil. Além disso, diz-se também que os textos dos escritores sul-rio-grandenses são difíceis de compreender, que abusam de vocabulário de uso restrito, marcado por laivos dialetais. Evidente que, por trás disso, há um preconceito anti-regionalista, concepção literária anacrônica e representativa de ideologias extremamente reacionárias. No contexto da literatura brasileira, a que a sul-rio-grandense sempre acompanha, essas manifestações são indicativas de que as diferenças culturais do sul do país, originadas pela proximidade com os países do Prata, vem sendo, há muito tempo, rechaçadas pelas instâncias legitimadoras da cultura nacional. Nós, os gaúchos, somos os brasileños platinos.

Agora, é óbvio que alguma coisa mudou. Talvez seja a postura da crítica que se dispõe a avaliar o legado do século. E assim, dentre os textos exemplares da literatura brasileira, inclui a obra de Sérgio Faraco como um texto especial, digno de um prêmio nacional de ficção.

Tem-se afirmado em diversas ocasiões que o regionalismo de Sérgio Faraco representa o melhor veio da literatura brasileira, porque registra, ficcionalmente, o que é peculiar e característico à cultura da região. A diferença cultural é um dos aspectos importantes da obra desse escritor fronteiriço, que escreve sobre um espaço regional, que é o seu, e que existe e continuará existindo, quer seja no Rio Grande do Sul, no Norte, no Nordeste, em Minas ou onde for que haja uma vertente cultural não de todo contaminada pela homogeneização urbana. Como já foi dito por inúmeros críticos, um escritor pode ver o universo a partir do seu quintal. E rever o seu quintal por uma ótica que o integre ao conjunto maior de que faz parte. Isso, se me expresso bem, não anula a diferença, ao contrário, visa acentuá-la, matizando-a com as cores do particular e do específico. No caso de Sérgio Faraco, o específico é a criação literária de uma cultura fronteiriça, presente nos recortes temáticos, na cosmovisão das personagens e na linguagem.

Dançar tango em Porto Alegre, que toma o título de um dos contos eróticos mais bem realizados da literatura brasileira, divide-se em três partes. A primeira reúne textos de cunho regional, de natureza telúrica, em que a presença da campanha gaúcha se evidencia pelo caráter fronteiriço das histórias contadas. Há, nesses contos de recorte realista, a revelação de uma sintaxe cultural que articula, a seu modo, os componentes brasileiros e platinos, deixando claro que a literatura dá forma a uma visão de mundo intrínsecamente formada pelo contexto histórico e social. E também pelo antropológico, eis que as personagens de Sérgio Faraco agem segundo uma lógica também fronteiriça, produto de uma cultura brasileira extremamente diferenciada, urdida nos séculos de convívio com a cultura platina. E entram aí os mitos, os arquétipos, os modelos de comportamento que se formam na vida social. E que se transculturam, para usar uma expressão do crítico uruguaio Ángel Rama, ao referir-se ao processo de transformação por que passam as literaturas quando emigram de um sistema cultural para outro.

Mas como literatura se faz com palavras, contribui para a excelência dos contos de Sérgio Faraco o modo como o escritor assenhora-se da frase, da palavra, deixando para o leitor a sensação de vida. O boleio platino das frases, algumas expressões em espanhol, preservando a oralidade da fala e trabalhando a naturalidade do texto, completam a tarefa de tornar verossímeis esses textos, em que os sentimentos humanos destacam-se pela perspicácia e pela delicadeza com que o autor os engendra. Nos contos de Faraco, o amor se revela em formas múltiplas, com uma delicadeza e uma finura psicológica que só se lêem nos grandes escritores.

Nos textos ligados à temática regional, a concepção da complexidade humana revela-se no modo como o narrador subverte o mito da gauchônia, este sim, superado pelo tempo. Os gaúchos fronteiriços de Sérgio Faraco têm sentimentos e por isso vivem conflitos íntimos, como o rapazinho de "Dois guachos", cuja ambivalência com relação à figura da irmã serve de contraponto à rudeza primitiva dos costumes da campanha. Em "Noite de matar um homem", a experiência da primeira morte, espécie de ritual de iniciação na comunidade dos changueiros e dos contrabandistas e bandidos da fronteira, torna-se dramática: o indivíduo eliminado nem trazia armas consigo, só uma pequena gaita de boca. Em "Travessia", há o menino que se inicia com o tio no contrabando, cruzando a fronteira pelo rio. Esses ritos de iniciação repetem-se noutros contos, como se o escritor procurasse compreender, pelas vertentes da ficção, o que se passa no coração dos homens, quando vivem situações-limite das quais sairão, para sempre, transformados. Em "O vôo da garça-pequena", Maria Rita, a menina prostituta, têm idéias e encomenda um rádio ao contrabandista López. Ela deseja voar, como a mais graciosa de todas as aves do banhado, a garça-pequena com seu véu de noiva, suas plumas alvíssimas, e voava longe, para o alto, e era o vôo mais tristonho e mais bonito. Em "Guapear com frangos", os gaúchos arrastam o corpo, já decomposto, de Guido Sarasua, na obrigação de não deixar corpo de homem sem velório. O percurso, em meio ao calor, aos odores da matéria em decomposição e à ação das aves carniceiras, das moscas e dos vermes, termina com um golpe de misericórdia: E como quem parte uma acha de lenha (...) abriu-lhe o osso do peito ao meio. Já em "Sesmarias do urutau mugidor", confrontam-se os valores da cultura antiga com a do homem urbano. Nesse conto, o personagem-narrador, por ser um homem culto, um escritor, favorece, com seus monólogos, uma leitura crítica do confronto de culturas, com seus valores e seus rituais de preservação e sobrevivência. Espécie de alter-ego do próprio escritor, suas emoções fluem numa narrativa densa e perceptiva, que vê o íntimo das demais personagens para respeitá-las e tratá-las com dignidade. Seu encontro final, quando Maria deita-se com ele e lhe pergunta se ouvira o urutau mugindo, e ele responde que era apenas um boi, pode ser lido como metáfora desses processos de trocas culturais: cada um preserva a sua unidade, embora componha, com o outro, um conjunto novo. Híbrido, se quisermos. Ou transculturado.

Mas Dançar Tango... compõe-se de mais duas partes. A segunda acolhe contos em que um personagem, menino, descobre os viéses do mundo. Este não se apresenta de forma monolítica ou maniqueísta: pelo contrário, o amor e o carinho convivem com perdas irreparáveis, como a morte e outras mortes, o que torna o conjunto de textos uma espécie de visão do mundo, apreendida no seu processo de formação.

São, porém, os contos do terceiro bloco, que deixam ler, de forma muito clara, o que Sérgio Faraco concebe ser a função do escritor. Em todas as histórias, as marcas visíveis são a solidariedade, a generosidade, o reconhecimento das qualidades humanas, a dignificação do homem, independente da adversidade e das circunstâncias. As personagens de "A dama do Bar Nevada", "Um aceno na garoa", "Dançar tango em Porto Alegre", são prostitutas, marginais, mendigos, gente desvalida e desesperada, que vive situações-limite. Lidando com essa matéria humana, Faraco mostra, com a força de sua ficção, que o respeito e a dignidade não são adereços tão-só de cidadãos distintos e abonados. Sem proselitismo e sem concessões a idéias que não sejam exatamente aquelas que o conto está a exigir, Faraco constrói um painel de seres desvalidos, pobre-coitados que a sociedade, por princípio, exclui. Nesses contos, no entanto, o autor resgata um detalhe qualquer, para que nós, leitores, possamos saber que para todos ainda resta uma esperança.

Dançar tango em Porto Alegre, Sergio Faraco


CARREGAVA POUCA ROUPA NA VALISE. Duas camisas, uma calça grossa, meias e cuecas que me envergonhavam quando precisava pendurá-las para secar. Era, enfim, a roupa que eu tinha, mais a do corpo e o casaco listrado que trazia nos ombros, prevenindo o frio da madrugada. Um casaco antigo, resistente, comprara-o em certa ocasião para procurar emprego em Porto Alegre. Ele durava, mas os empregos... As pessoas costumavam me demitir como contristadas: “O senhor trabalha devagar e é muito distraído” ou “O senhor se esquece demais de suas obrigações”. Era engraçado que, depois de tantos anos, estivesse retornando á capital para tentar novo emprego e vestisse o mesmíssimo casaco. Mudava o mundo, minha roupa não.
Quase duas horas e o trem atravessava a noite escura, uma viagem sem fim, Uruguaiana a Porto Alegre era como a volta ao mundo. Noite úmida, fria, o vidro da janela se embaciava e eu me distraia imaginando como seria, numa noite assim, ver do campo o trem passar. Devia causar algum assombramento a cobra do ferro, luminosa, vomitando na treva o seu clamor de bielas rugidoras. Tinha vontade de erguer o vidro, espiar o tênder e a locomotiva numa curva da estrada, lembrança do tempo em que, menino, me debruçava no perigo para fruir a pressão do vento e investigar o trajeto das fagulhas. Mas não convinha. Havia crianças no vagão, pessoas idosas, e eu também não era jovem.
Me aborrecia com aquela idéia, os achaques de um homem maduro, quando a passageira ao lado advertiu:
- O senhor vai acabar queimando meu vestido.
Movi tão depressa o braço que o cigarro me escapou da mão e, infortunadamente, foi cair em seu regaço. Na tentativa de salvar-lhe a roupa meu desempenho não foi o melhor.
- Quer ter a bondade de tirar as mãos?
Passageiros mais próximos nos olharam e um deles sacudiu a cabeça, decerto pensando que eu tinha desacatado a moça.
Distante daqueles problemas pequeninos, o maquinista tocava seu trem. Meia hora até Santa Maria, no corredor um funcionário recolhia os bilhetes dos que iam descer. Observei minha companheira. Ela embarcava em Cacequi e desde lá quase não se movera. Agora estava outra vez imóvel, olhar perdido no vazio. Sua aparente melancolia estimulava minhas veleidades de bom samaritano, mas me continha, evitando dirigir-lhe a palavra. Tristeza por tristeza já bastavam as minhas de homem só.
E foi ela, afinal, quem começou.
- Eu sei que o senhor não fez por mal.
- Oh, não se preocupe.
Mas ela se preocupava, insistia em desculpar-se. O vagão sacolejava, de vez em quando caía nos olhos uma mecha de cabelo, que afastava com alguma negligência. Era uma jovem senhora de modos esquisitos. Tão quieta, longínqua, e no entanto, ao falar, parecia conter-se. Gesticulava lentamente, como sem vontade, mas um gesto perdido não raro se completava com um movimento brusco, imprevisto, deixando o interlocutor hesitante em pensá-la nervosa ou apenas absorta. Magra, um pouco mais do que deveria, mas se quisesse seria bem bonita, era só despertar, dando mais vida àqueles olhos de um castanho profundo.
Com um apito prolongado e o repique da sineta o trem se anunciou à estação de Santa Maria. Luzes, homens andando apressados pela gare, já freava o trem e crescia na plataforma o burburinho, multidões que fluíam e refluíam como sem destino, e no meio delas, como mortos em pé, como estátuas de exaustiva eternidade, aquelas indefectíveis criaturas paradas, olhando o trem, que sempre me intrigavam. Me perguntava se estariam partindo ou esperando alguém, talvez chegando, talvez admirando o trem, eu as contemplava e me perguntava que sonhos, angústias, tormentos não se ocultavam naqueles corações imperscrutáveis
Alheia ao movimento, ás misteriosas questões da vida e da morte suscitadas pelas estações, minha companheira nem ao menos olhava para fora.
- Acho que vou descer um pouco- disse-lhe.
Afastou as pernas, notei-lhe os joelhos redondos, as pernas bem torneadas.
- Quer que lhe traga alguma coisa? Uma revista?
Me olhou, era a primeira vez que o vazia mais longamente. Disse que ia sair também e descemos juntos.
Estação de Santa Maria, encruzilhada de trens, de antigas baldeações para as cidades da serra, da campanha, com seu cheiro de carvão e de fumaça, comida quente, ferro e pedregulho, e os vendedores de confeitos e maças argentinas, e os revisteiros oferecendo exemplares de O Cruzeiro, A Cigarra, Grande Hotel, e os bilheteiros de loteria anunciando o 13, o 17, o 44, com uma pressa cheia de ansiedade... Estação de Santa Maria, festa urgente, provisória, quase trágica, era em Santa Maria que as locomotivas prendiam ou desprendiam seus engates, que os vagões se separavam, que as composições partiam nas sombras da noite com suspiros de fumo e soluços de bielas, era em Santa Maria que as pessoas vindas de longe se encontravam, também ali se separavam, ou que se viam pela primeira vez e nunca mais. Estação de Santa Maria, encruzilhada de trens, ah quisera eu que em Santa Maria pudesse encontrar alguém que também estivesse à procura de alguém, e se a ninguém me fosse dado encontrar, que ao menos me encontrasse a mim mesmo, perdido que andava na pradaria sem carril da minha alma atormentada.
Levei-a ao restaurante da estação, onde nos serviram café quente e sanduíches. Fiz alguma observações a respeito do frio, da geada, do mau estado dos trens, ela me ouvia sem atenção, apenas assentindo ou murmurando qualquer coisa inexpressiva. No outro lado do salão, encarapitado numa escada bamba, um garçom colava esparadrapos nas frestas da janela.
- Aposto que ele vai escorregar.
Mas o homem se equilibrava e ela logo se desinteressou. Que chato, eu pensava, me sentindo um estranho no umbral de seu mundo ensimesmado. Ah, e não era novidade eu notar que alguém não apreciava minha companhia. Eu também era um pouco “difícil”. Gostava das pessoas, mas para que me aproximasse delas, me expusesse e as aceitasse lisamente, era preciso de que de algum modo tivesse de ajudá-las. Quando não era o caso, ou não tinha ocasião de fazê-lo, me surpreendia como sem função, não sabia do que falar e me tornava superficial, cerimonioso.
Disse-lhe que ia voltar para o vagão.
- Espere – disse ela, como despertando.
Fitava-me, inquieta, tocou na minha mão.
- Estou pedindo para o senhor ficar e nem sei se o senhor, se tu... simpatizaste comigo.
- Eu? – murmurei, atônito.
- Ainda não simpatizo contigo, mas... não deve ser difícil, é só a gente conversar um pouco.
O tom era incerto, dúbio, estaria brincando? Tropeçando nas palavras, disse-lhe que aquilo de simpatizar ou não, realmente, era algo importante, mas que me confundia tratar do assunto com tamanha objetividade.
- São as circunstâncias...
- Que circunstâncias?
- Ah, não me pergunta isso agora.
Acendi um cigarro e logo apaguei, para que não me visse com a mão trêmula.
- Como é teu nome?
- Jane.
- Em princípio, simpatizo contigo e... não, desculpa, não era isso que eu queria dizer.
Ela sorriu.
- A gente viaja no mesmo trem, isso é uma viagem tão longa, cansativa, não é preciso dizer muita coisa.
Seus olhos postos nos meus, não, não era preciso dizer mais nada e, no entanto eu me assombrava. Quis tomar-lhe a mãe, ela a recolheu.
- Aqui não.
Quando retornávamos, pediu:
- Fala com o Chefe do Trem, sempre há cabines desocupadas.
Talvez se tratasse de uma mulher que, em viagem, desejava divertir-se, mas a questão era justamente essa: não dava a impressão de que o divertimento fosse o seu objetivo. Que pretendia de mim? Que circunstâncias eram aquelas que mencionara com uma ponta de impaciência? Eu estava com medo. Ter medo do desconhecido era outra marca da minha idade madura e eu costumava me demorar em sondagens e meditações antes de me decidir por qualquer coisa.
Procurei o Chefe do Trem, por certo, mas longe de me regozijar com a promessa de uma noite de prazer, inquietava-me a sensação do passo no escuro.
No compartimento havia dois beliches e a pia com um espelho. Coloquei nossas maletas sob a cama e, a seu pedido, baixei a cortina da janela. Ela experimentou a torneira.
- Não tem água.
- Nuca tem.
Mas a luz da cabeceira funcionava.
- Essa ascendeu.
- Menos mal.
Ia verificar a outra, junto ao espelho, ela me tomou da mão e a sua estava úmida.
- Me ajuda – murmurou.
Ajudá-la? Em que sentido? O trem punha-se em movimento e me deixei ficar com ela em pé, contra a parede, querendo que sentisse que podia desejá-la.
- Vem.
Sentou comigo, e quando a abracei novamente deixou escapar um soluço. Ocultou o rosto nas mãos, e que surpresa, chorava.
- Que houve? Fiz alguma coisa errada?
Olhava-a, pensando que a situação era nova. Da enigmática companheira de banco não restava um vestígio e em seu lugar havia uma mulher com problemas que, pelo visto, em breve me contaria. De algum modo me sentia mais à vontade.
- Que espécie de ajuda esperas de mim?
Enxugou as lágrimas com o dorso a mão, pediu um cigarro.
- Se preferes – tornei-, podemos voltar para o vagão.
- Não, não quero.
O trem diminuiu a marcha, parecia que ia parar. Dois apitos e reacelerou. Pois baixo de nós, o bater das rodas nas emendas dos trilhos. Recém deixáramos Santa Maria, eram quatro horas, havia muito chão pela frente, muita escuridão antes que o primeiro albor viesse clarear nossa janela.
Acariciei suas mãos entre as minhas, com remorso por ter estado a receá-la. Era como se me inquietasse com estalidos de folhagem, e espiando, desse com uma podre coelhinha assustada. E depois, quando começou a falar, positivamente, suas dificuldades não eram pequenas. Questões de vida e de morte, era natural quer não as intuísse ao redor de si, pois já as trazia dentro do peito. O marido enfermo em Porto Alegre suas entranhas mastigadas num processo irreversível, havia semana que o visitara, encontrando-o tão consumido que dava menos pena do que horror. Sempre o amara muito, mas agora não sabia o que sentia. Sentia, sim, um aperto no coração, e estava desesperada.
- É uma tortura a gente saber que vai perder alguém, ter está certeza. Podes me ajudar- e me beijou no rosto, um beijo sôfrego e molhado. – Quero esquecer meu marido, a doença, meu filho, o dinheiro, tudo. Quero uma noite diferente.
Fazia muito frio e a janela da cabina deixava entrar um fio de vento.
- Está bem – eu disse -, vamos tentar.
Outra vez o trem diminuiu a marcha, apitou, mas não reacelerou. Foi parando devagar, as rodas ringindo no ferro e os vagões tironeando, deu mais um apito e, finalmente, imobilizou-se.
Deitados lado a lado, quietos, nós esperávamos, decerto, pelo movimento do trem, e quando ele deu novo sinal e aquele solavanco de partida, foi uma surpresa: recuava. Mas parou em seguida e lá na frente a máquina foi desligada. Fez-se um silêncio súbito, povoado de pequenos ruídos. Algumas vozes chegavam até nós, de longe, e mais audíveis os rumores do carro-restaurante. Um grilo tenaz do lado de fora e uma sombra passou por ali, carregando uma lanterna.
- Que aconteceu?
Afastei a cortina. À frente, á esquerda da linha, lucarnas de uma mordida débeis fímbrias de luz na escuridão. E luzes ainda, adiante, sobre os trilhos: dois, três candeeiros, homens abaixados inspecionaram os dormentes.
- Consertem a linha.
Por algum tempo acompanhei a movimentação dos homens, mas é certo que não os via, ah, que hora para me assaltarem as recordações. Do poço da memória resgatava velhos e usados encantamentos, um passado remoto que continuava vivo, uma roda de tílburi, pedaços de uma ária esquecida, uns olhos castanhos, um seio pequenino na concha da mão, fragmentos fugazes como o canto do grilo ao pé do trem, aquilo teria realmente existido ou eram fantasias consagradas pela solidão?
Começamos devagar, desajeitados, não é fácil de se amar quando o amor é eleito para remediar. Pouco a pouco nossos beijos foram tomando gosto. E a pressão macia do seu corpo no meu, e o regaço movediço procurando meu sexo, parecia outra fantasia, mas não, aquela mulher que queria ser possuída era algo bem natural e concreto. Desejava-a, por certo, mas ao meu desejo, para quebrantá-lo, aderia uma mistura de bondade e susto, impulsos contraditórios que me estimulavam mais a aconchegá-la, a niná-la, do que a enterrar-lhe um músculo ás entranhas. Eu fracassava e Jane percebeu. Sentou-se e me olhou, entre curiosa e aborrecida. Sem demora me desabotoou, pôs-se a examinar meu sexo à luz mortiça do beliche. Acariciava-o com gestos delicados, minuciosos, fixada de tal modo numa pele dobrada ou num feixe de vasos que me sentia como um terceiro e um intruso naquele colóquio de sensual introspecção. Minha sexualidade, porém, só se libertou com um pensamento pulha: se não a satisfizesse, procuraria outro que o faria sem nenhum pudor, talvez o Chefe do Trem, que andava batendo às portas, talvez o camareiro do carro-leito, que a olhara com um ricto obsceno. E imaginei aqueles homens sobre ela, penetrando-a com gana, e aquela Jane, que a mim se oferecia tão sofredora, a suspirar de prazer tendo entre as pernas um fauno estúpido. E já me instigava outra imagem perturbadora: sua boca de lábios grossos tão próxima do membro em crescimento e meio deformado, quase brutal a sua face algo tristonha.
Movia-se de novo no trem e então ela começou a me masturbar, vagarosamente e compassadamente, e enquanto o fazia usou a língua, de início com timidez, como tateando, mas também se comprazia e logo me masturbava com maior vigor, tornando mais demorada as lambidas.
- Não te conheço, não sei quem és – murmurou, e parecia que falava consigo mesma –, e no entanto estou te acariciando, te lambendo, querendo te chupar...
E no primeiro arquejo, naquela queda livre que é a aproximação do orgasmo, só então me abocanhou, me sugou, e estremeceu ao receber a golfada do meu gozo.
Foi preciso que me sentasse, depois de largo tempo, foi preciso que lhe empurrasse suavemente o rosto para que abandonasse meu sexo dolorido, cabeça pousada em meu regaço, os lábios entreabertos num lambuso só atravessado de cabelos.
- Jane.
- Não fala.
Afaguei-lhe o rosto, uma ternura misteriosa me unia àquela mulher.
- Ás vezes pensou que minha vida é um sonho- disse ela-, e que nada disso que acontece é verdade. Não sei explicar direito, parece que quem está comigo aqui no trem, fazendo isso contigo, não sou eu mesma, é outra pessoa, outra Jane, e a verdadeira fica de fora, apenas assistindo.
Nada comentei, ela me olhou.
- Não quer ouvir?
- Quero sim, continua.
Mas não continuou. Abraçou minha coza, encolheu-se, tentava acomodar-se na cama estreita.
- Quer um cigarro?
- Não.
- Acho que vou fumar um pouco.
- Não, agora não, por favor.
O trem andando, balançando, o ruído das rodas nos trilhos e o calor dos nossos corpos, um cansaço de animal saciado, era bom, era uma entrega, era o portal do sono. Mas o sonho foi um pesadelo. Havia uma grande cratera num monte, na qual se formava uma bolha visguenta. Eu do lado de fora, assistindo seu desmesurado crescimento, e outro eu também estava lá, do lado de dentro, envolvido pela bolha. Quando ela explodiu, espargindo coágulos de sangue e num derrame de trastes mal cheirosos, aquele eu encurralado voltou a mergulhar nos abismos da cratera, até retornar a superfície noutra bolha. Vem, eu gritava e dava-lhe a mão, ele se encolhia, receoso, e escolhia permanecer em sua morada estranha.
Quando despertei, Jane se despia e me despi também. Voltara-se para a parede e eu olhara seu corpo nu, alvíssimo e bem feito, as pernas roliças, as nádegas firmes e arrebitadas, cintura fina, as costas lisas com um pequeno sinal no ombro, de onde pendia um cabelo solitário.
- Estou com frio.
Beijei-a na nuca, nas costas, apalpei-lhe as nádegas muito juntas. Ao contato de minha mão ela relaxou, expondo-se. Vendo-a assim, de bruços, pernas entreabertas e se oferecendo, um desejo selvagem se apossou de mim. Nem pensar em me comover com seu desespero, ela estava me pondo maluco com aquele propósito de dar-se em nome de um sofrimento. Comecei a penetrá-la. Gemeu, mas ainda assim tentava me ajudar, esgarçando-se. Como se quisesse sofrer mais. Tal dose de prazer, tal dose de castigo, uma justiça insana que eu fingia ignorar. Suas nádegas nas minhas virilhas, o calor e a pressão de seu reto, um novo orgasmo estava vindo e foi então que uma parte minha se rebelou. Não, disse comigo, não serei o seu algoz.
- Te vira – pedi.
- Não, não quero.
Recuei, sai de dentro dela.
- Te vira – insisti, agarrando-a pelos ombros.
Tentou livrar-se das minhas mãos, choramingou.
- Não, por favor, estás me machucando.
Era surpreendente a energia que empregava para libertar-se e era quase uma insensatez, mas como pedir coerência a uma mulher em fuga, debatendo-se entre o desejo e a culpa? Com uma violência de que não me sabia capaz, e certamente machucando-a um pouco, fiz com que voltasse e abrisse as pernas e me recebesse de frente. Um protesto desesperado eu calei com um desespero de beijos e ela, vencida, me abraçou. E se tornou macia, cada parte do seu corpo se ajustava numa parte minha e seus movimentos vinham completar os meus. E era outra mulher, doce e faminta, e me dava beijos e me segredava o que sentia e pedia mais depressa e queria morrer e depois suspiros e depois um grito, logo outro grito e palavras loucas que eu nunca ouvira de mulher, beijos como nunca me haviam beijado e estertores que principiavam com gemidos e iam terminando aos poucos, entre contrações de vagina e jatos de esperma, num estuário de muco e saliva.
Não, nunca tinha sido tão bom, e o que se seguiu, não sei, talvez no momento não estivesse compreendido, era uma sensação esquisita, minúscula a princípio, esgueirando-se em mim como através dos poros, depois se avolumando, se espalhando, um certo contentamento, uma certa felicidade, uma vontade muito grande de gostar, gostar de tudo, e eram outros olhos com que olhava ao meu redor, vendo a pia, a lâmpada do beliche, o casaco pendurado, ai, meu casaco, meu xergão velho, companheiro de tantas noites, madrugadas, um junto do outro no sofá da casa, fazendo sala para Miss Solidão...
Como estávamos, ficamos. Já clareava o dia quando despertei, cansado, moído. Jane estava à janela, olhando os campos branquicentos da geada.
- Que horas são?
- Passa das seis.
- Ainda temos duas horas.
Ela me olhou rapidamente.
- E de manhã- tornei-, vais embora, simplesmente...
Me olhou de novo. Disse-lhe então que agora podia responder com segurança àquela pergunta que me fizera em Santa Maria, se simpatizava ou não com ela. Pois simpatizava muito. E disse-lhe mais: algo importante havia acontecido em mim. Que eu era um homem soturno, mergulhado em lembranças juvenis e de mal com a vida, nem amigos conseguia fazer, mas que algo acontecera, podia até jurar. E queria muito vê-la em Porto Alegre, talvez não em seguida, mas mais tarde, ou quando quisesse.
- Como te esqueces das coisas...
- Não é verdade – protestei, argumentando que, a despeito do que a levara a me procurar, podíamos começar de novo em terra firme e era isso que eu queria.
Olhos baixos, parecia tão triste que me constrangia, mas eu não pensava em desistir.
- Te dou meu endereço.
Levantou-se, ligou a lâmpada do espelho. Passava a escova no cabelo, como sem vontade. Nenhuma pintura no rosto, nenhum artifício, e como era bela na indecisa luz que vinha um pouco da lâmpada, um pouco da suava claridade do amanhecer.
- Jane.
- Vou ao restaurante. Queres que eu te trague uma torrada?
Ia abrir a porta, voltou-se.
- Foi uma noite e tanto, tipo letra de tango.
- Gostas de tango? A gente podia se encontrar em Porto Alegre e...
- Por favor.
- Sei que seria uma loucura, mas...
- É uma loucura.
- Espera, não vai.
Levantei-me também.
- Conheço uma casa em Porto Alegre onde se dança tango, é um lugar muito bonito, muito romântico.
- Dançar tango em Porto Alegre, que idéia.
Abriu a porta.
- Olha, queria que soubesse que não me senti usado.
E abracei-a, um impulso me fazia apertá-la, protegê-la de algo que não sabia o que era, mas, desconfiava, podia roubá-la de mim.
- Escuta, não vai, fica comigo.
Sua resposta foi um beijo demorado, quase amoroso. Livrou-se do abraço e saiu.
Deite-me. Queria pensar, apelar à minha razão, e não conseguia. Uma mulher desconhecida, uma viagem de trem, um leito, uma noite de prazer, e ali estava eu feito um garoto de colégio, repentinamente apaixonado. E não podia conceber o dia seguinte sem aquela mulher que, com suas maluquices, dera um sopro de vida aos meus dias sem sabor de velho precoce. Não podia conceber que, no dia seguinte, fosse fazer as mesmas coisas que fizera até então. Disparate? Mas eu me perguntava se de fato não havia sentido, ou se não era mais humano, natural, que a vida acontecesse assim mesmo, loucamente. Sim, precisava pensar, ou por outra, por que pensar? Por que não me entregar à aventura de amar que me fazia tanto bem?
O trem deu uma parada brusca e rolei na cama, dando com as ancas na parede da pia. Ouvi gritos no corredor, outros dias mais distantes, som de vidros quebrados e objetos caindo e rolando no chão.
- Merda – gritou alguém a minha porta.
Tive um pressentimento atroz. Vesti-me às pressas e deixei a cabina, abrindo caminhos entre as pessoas que se acotovelavam no corredor. Perguntava, ninguém sabia o que tinha acontecido. Fui adiante, percorri dois vagões de passageiros inquietos e curiosos, ao retornar notei que alguns homens se aglomeravam do lado de fora. Entre eles, o Chefe do Trem. Desci. O funcionário gesticulava com os passageiros.
- Voltem aos seus lugares. Todos para o trem, vamos subir.
- Que aconteceu? – perguntei.
- Um acidente. Agora voltem todos, por favor.
- Que tipo de acidente?
- Ora, senhor, retorne ao seu lugar, não insista.
- Que tipo de acidente? – repeti, aos gritos, segurando-o pelos ombros.
Ele se desvencilhou resolutamente das minhas mãos.
- O senhor está muito nervoso, amigo. Se esta informação o tranqüiliza, é sua: nossa trem matou um animal.
- Obrigado – eu disse, num fio de voz.
Voltei-me, subitamente exausto e com vontade de chorar. Jane estava na porta no vagão, com um pé no estribo. Ao ver-me tentou pular para o chão e perdeu o equilíbrio, eu a segurei e apertei contra mim.
- Meu Deus – disse ela – , eu cheguei a pensar, eu pensei...
- Eu também – eu disse.
Subimos.
- Escuta- tornou ela, ofegante-. Como é teu nome? Incrível, ainda não sei o teu nome.
Lá fora o funcionário ainda insistia com os curiosos: vamos para dentro, vamos para o trem. E o trem parado no meio do campo, o dia clareando, um frio cortante e nós avançávamos lentamente pelos corredores apinhados, em busca do carro-leito. Jane me tomara da mão e me puxava. Vendo-a assim, desenvolta, eu sentia que algo vicejava forte em mim, uma nova energia, uma vontade de viver, de conviver, compartilhar, e tinha certeza, uma certeza doce, cálida e total, de que agora ela pensava como eu, que valia a pena tentar ainda uma vez, que valia a pena dançar um tango em Porto Alegre. Que importava se era ou não era amor? Sempre, mas sempre mesmo, seria uma vitória (p. 132 a 150).

Conto extraído do livro: FARACO. Sergio. Dançar tango em Porto Alegre. Porto Alegre: L&PM, 1999.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Para ser escritor, Charles Kiefer

O QUE É PRECISO PARA SER ESCRITOR?

No dia 16 de dezembro (quinta-feira), às 19h, o escritor e futuro secretário estadual da Cultura, Luiz Antonio de Assis Brasil, a diretora da Faculdade de Letras da PUCRS, professora Maria Eunice Moreira e o escritor e professor Charles Kiefer discutem, na Palavraria Livraria&Café (Rua Vasco da Gama, 165 – Bom Fim), a obra “Para ser Escritor”, recente lançamento de Kiefer pela editora Leya. O encontro, que tem entrada franca, terá como tema o processo de escrita e seus desdobramentos, conforme abordado no livro de Kiefer. Os três professores vão debater os mecanismos de funcionamento do sistema literário e os problemas éticos e sociais do processo autoral, além de refletir sobre novas formas de expressão,como por exemplo, os blogs, além de questões práticas e comuns ao universo do escritor, amador ou profissional.

Jornalista Responsável: Marta Tejera (51) 3311-4825/8116-7928 ou
oficinack@cpovo.net

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Salman Rushdie on Teaching the Novel and Reading for Pleasure

Salman Rushdie on His Creative Process



Famed author and Writer-in-Residence at Emory has a conversation with University Secretary Rosemary Magee on the subject of creativity.

For more information visit: http://www.emory.edu/EMORY_MAGAZINE/2...

terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Sonho de Borges e a memória impessoal no site: www.vidraguas.com.br


Quero agradecer as colegas Berenice Sica Lamas e Carmen Silvia Presotto pela generosa atitude de divulgação dos excertos do artigo O Sonho de Borges e a memória impessoal no site: www.vidraguas.com.br

O artigo pode ser lido na íntegra no seguinte endereço eletrônico:


http://www.polemica.uerj.br/ojs/index.php/polemica/issue/view/5/showToc


Fica o convite para conferir o livro Postigos.

Entrevista a Jorge Bucay en Nerja



Realizada en el CCVN aprovechando una conferencia del escritor argentino con el título de "¿Cuestión de suerte?". Jorge Bucay contestó amablemente a nuestras preguntas sobre el arte de escribir.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

The Soul of Brutes: A Sixteenth Century Debate, Carlo Ginzburg


From ancient Greece to early modern Europe the debate on the souls of the brutes had cognitive, ethical and political implications; we are still confronted with most of them. Join UCLA Professor Carlo Ginzburg as he tries to put the debate in a historical perspective. A Foerster Lecture on the Immortality of the Soul presented by the UC Berkeley Graduate Council. Series: "UC Berkeley Graduate Council Lectures".

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A Person in the World of People: Self and Other, Part II



about several important factors influencing how we form impressions of others, including our ability to form rapid impressions about people. This discussion focuses heavily upon stereotypes, including a discussion of their utility, reliability, and the negative effects that even implicit stereotypes can incur.

The second half of the lecture introduces students to two prominent mysteries in the field of psychology. First, students will learn what is known and unknown about sleep, including why we sleep, the different types of sleep, disorders, and of course, dreams, what they are about and why we have them. Second, this half reviews how laughter remains a mysterious and interesting psychological phenomenon. Students will hear theories that attempt to explain what causes us to laugh and why, with a particular emphasis on current evolutionary theory.

Complete course materials are available at the Open Yale Courses website: http://open.yale.edu/courses

This course was recorded in Spring 2007.

A Person in the World of People: Self and Other, Part I



This is the first of two lectures on social psychology, the study of how we think about ourselves, other people, and social groups. Students will hear about the famous "six degrees of separation" phenomenon and how it illuminates important individual differences in social connectedness. This lecture also reviews a number of important biases that greatly influence how we think of ourselves as well as other people.

Complete course materials are available at the Open Yale Courses website: http://open.yale.edu/courses

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley



Discurso de Aldous Huxley em 1962, pouco antes de sua morte, sobre a ditadura científica do futuro retratada em seu livro "Admirável Mundo Novo", escrito em 1932.
Vídeo extraído do documentário EndGame.

Entrelinhas, Utopias e Distopias



O Entrelinhas é um programa da TV Cultura. Mais informações em http://www.tvcultura.com.br/entrelinhas

Entrelinhas, Tradutores



O Entrelinhas conversou com escritores e tradutores para discutir os desafios da arte recriar em nosso idioma a prosa e a poesia escritas em outras línguas. Além das entrevistas, a matéria mostra uma videoconferência do escritor peruano Mario Vargas Llosa que aconteceu durante o 1º Encontro Internacional de Língua e Tradução, em São Paulo.

O Entrelinhas é um programa da Tv Cultura. Mais informações em: http://www2.tvcultura.com.br/entrelinhas

Sleep Disorders Overview



Common sleep disorders: signs and treatments.
Watch this and more health videos at: http://www.answerstv.com/health

What do Sleep Disorders do?



The physiology of sleep disorders.
Watch this and more health videos at: http://www.answerstv.com/health

The Biology of Depression



The physiological causes of depression.

What is Depression?



Symptoms, causes, and treatment of depression.
Watch this and more health videos at: http://www.answerstv.com/health

Anxiety Overview



The 5 anxiety disorders and why they develop.
Watch this and more health videos at: http://www.answerstv.com/health

Bipolar Overview



Causes, signs, and treatment of bipolar disorder.
Watch this and more health videos at: http://www.answerstv.com/health

What does schizophrenia do?

Fronteiras do Pensamento, Contardo Calligaris



Contardo Calligaris - Fronteiras do Pensamento edição 2008.

Entrevista Contardo Caligaris, 2° parte

Entrevista Contardo Caligaris, 1° parte


Conversa sobre relacionamentos, pais e filhos, adolescentes com o psicanalista Contardo Caligaris.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Prophet, Gibran Khalil Gibran


1. Gibran on Friendship...
And a youth said, "Speak to us of Friendship."
Your friend is your needs answered.
He is your field which you sow with love and reap with thanksgiving.
And he is your board and your fireside.
For you come to him with your hunger, and you seek him for peace.
When your friend speaks his mind you fear not the "nay" in your own mind, nor do you withhold the "ay."
And when he is silent your heart ceases not to listen to his heart;
For without words, in friendship, all thoughts, all desires, all expectations are born and shared, with joy that is unacclaimed.
When you part from your friend, you grieve not;
For that which you love most in him may be clearer in his absence, as the mountain to the climber is clearer from the plain.
And let there be no purpose in friendship save the deepening of the spirit.
For love that seeks aught but the disclosure of its own mystery is not love but a net cast forth: and only the unprofitable is caught.
And let your best be for your friend.
If he must know the ebb of your tide, let him know its flood also.
For what is your friend that you should seek him with hours to kill?
Seek him always with hours to live.
For it is his to fill your need, but not your emptiness.
And in the sweetness of friendship let there be laughter, and sharing of pleasures.
For in the dew of little things the heart finds its morning and is refreshed.

2. Gibran on Love...
Then said Almitra, "Speak to us of Love."
And he raised his head and looked upon the people, and there fell a stillness upon them. And with a great voice he said:
When love beckons to you follow him,
Though his ways are hard and steep.
And when his wings enfold you yield to him,
Though the sword hidden among his pinions may wound you.
And when he speaks to you believe in him,
Though his voice may shatter your dreams as the north wind lays waste the garden.
For even as love crowns you so shall he crucify you. Even as he is for your growth so is he for your pruning.
Even as he ascends to your height and caresses your tenderest branches that quiver in the sun,
So shall he descend to your roots and shake them in their clinging to the earth.
Like sheaves of corn he gathers you unto himself.
He threshes you to make you naked.
He sifts you to free you from your husks.
He grinds you to whiteness.
He kneads you until you are pliant;
And then he assigns you to his sacred fire, that you may become sacred bread for God's sacred feast.
All these things shall love do unto you that you may know the secrets of your heart, and in that knowledge become a fragment of Life's heart.
But if in your fear you would seek only love's peace and love's pleasure,
Then it is better for you that you cover your nakedness and pass out of love's threshing-floor,
Into the seasonless world where you shall laugh, but not all of your laughter, and weep, but not all of your tears.
Love gives naught but itself and takes naught but from itself.
Love possesses not nor would it be possessed;
For love is sufficient unto love.
When you love you should not say, "God is in my heart," but rather, I am in the heart of God."
And think not you can direct the course of love, if it finds you worthy, directs your course.
Love has no other desire but to fulfil itself.
But if you love and must needs have desires, let these be your desires:
To melt and be like a running brook that sings its melody to the night.
To know the pain of too much tenderness.
To be wounded by your own understanding of love;
And to bleed willingly and joyfully.
To wake at dawn with a winged heart and give thanks for another day of loving;
To rest at the noon hour and meditate love's ecstasy;
To return home at eventide with gratitude;
And then to sleep with a prayer for the beloved in your heart and a song of praise upon your lips.

3. Gibran on Marriage...
Then Almitra spoke again and said, "And what of Marriage, master?"
And he answered saying:
You were born together, and together you shall be forevermore.
You shall be together when white wings of death scatter your days.
Aye, you shall be together even in the silent memory of God.
But let there be spaces in your togetherness,
And let the winds of the heavens dance between you.
Love one another but make not a bond of love:
Let it rather be a moving sea between the shores of your souls.
Fill each other's cup but drink not from one cup.
Give one another of your bread but eat not from the same loaf.
Sing and dance together and be joyous, but let each one of you be alone,
Even as the strings of a lute are alone though they quiver with the same music.
Give your hearts, but not into each other's keeping.
For only the hand of Life can contain your hearts.
And stand together, yet not too near together:
For the pillars of the temple stand apart,
And the oak tree and the cypress grow not in each other's shadow.

4. Gibran on Children...
And a woman who held a babe against her bosom said, "Speak to us of Children."
And he said:
Your children are not your children.
They are the sons and daughters of Life's longing for itself.
They come through you but not from you,
And though they are with you, yet they belong not to you.
You may give them your love but not your thoughts.
For they have their own thoughts.
You may house their bodies but not their souls,
For their souls dwell in the house of tomorrow, which you cannot visit, not even in your dreams.
You may strive to be like them, but seek not to make them like you.
For life goes not backward nor tarries with yesterday.
You are the bows from which your children as living arrows are sent forth.
The archer sees the mark upon the path of the infinite, and He bends you with His might that His arrows may go swift and far.
Let your bending in the archer's hand be for gladness;
For even as he loves the arrow that flies, so He loves also the bow that is stable.

As Ninfas do Vale, Gibran Khalil Gibran


Marta, de Bem

“Atrás deste Eu encarcerado, Tenho outro Eu, alado e livre. Comparados com seus sonhos, meus sonhos são como uma corrida nas trevas. E meus desejos, comparados com os seus, são como uma agitação de esqueletos”.

“... E ela crescia como crescem as plantas e os sentimentos se formavam nela sem que o percebesse, como se forma o perfume nas flores. E, pouco a pouco, a menina tornou-se uma moça, similar a uma terra boa e virgem na qual o conhecimento não havia jogado suas sementes nem a experiência deixado suas marcas” (p.12).

“... Nós muito semeamos e pouco ceifamos. Eles ceifam o que semeiam. Somos escravos da ambição, enquanto que o contentamento os mantém sempre livres. Bebemos a vida numa taça turbada pela amargura. Eles bebem a vida em toda a sua limpidez” (p. 13).

“Naquelas ruas imundas, onde o vento se mistura com o sopro da morte...” (p. 17).

“... não és impura, embora a vida te tivesse entregue às mãos dos impuros. As manchas do corpo não atingem a alma imaculada e a neve amontoada não mata as sementes vivas. Esta vida é uma eira de provações onde os feixes das almas são debulhados antes que dêem sua colheita; e infelizes das espigas abandonadas fora da eira, pois as formigas da terra as carregarão e as aves do céu as apanharão e elas não entrarão no campo do Senhor... És vítima de uma injustiça. Mas é melhor ser vítima do que autor da injustiça. És uma flor pisada pelo animal que sobrevive no homem... Consola-te. É melhor ser a flor pisada do que o pé que pisa a flor” (p. 20).

Cinza dos Séculos e o Fogo Eterno

“Ó alma, quando o ignorante diz: ‘A alma desaparece como o corpo e o que se vai não volta mais’. Dize-lhe que as flores também passam, mas as sementes permanecem. Assim é como a essência da vida”.

“... Mas os gênios nos invejaram e insuflaram, no seu corpo delicado, os germes de uma doença estranha e enviaram o mensageiro da morte para arrebatá-la. E ele está, agora mesmo, ao lado da sua cama, rugindo como um tigre faminto, estendendo sobre ela suas asas negras, ameaçando-a com suas garras” (p.27 e 28).

“... Vou-me quando as taças do amor e da juventude estão ainda cheias de nossas mãos e os caminhos da vida se estendem diante de nós...” (p. 30).

“Passaram-se séculos. As pegadas de cada geração destruíam as pegadas das gerações anteriores. Os deuses antigos abandonaram o país. Outros deuses lhes sucederam. Os majestosos templos da Cidade do Sol foram demolidos. Os belos palácios converteram-se em pó. Os jardins verdejantes secaram. Os campos férteis se transformaram em deserto. Subsistiram apenas as ruínas gigantescas, como sombras do glorioso passado... Mas os séculos que aniquilam as realizações do homem nada podem contra seus sonhos e seus sentimentos. Estes sobrevivem como o espírito poderoso e eterno, embora desapareçam aparentemente, como o sol desaparece de noite e a lua, de dia” (p. 32).

Gibran Khalil Gibran. As Ninfas do Vale.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Temporais, Gibran Khalil Gibran

Satanás

“O demônio respondeu com certa impaciência: “Não sabes o que dizes e não calculas o crime que cometes contra ti mesmo. Eu fui e continuo a ser a causa de teu bem estar e felicidade. Menosprezas meus benefícios e negas meu mérito, enquanto vives à minha sombra?” (p. 5, 1o parágrafo).

“Não sabes, em tua ciência, que quando a causa desaparece, as conseqüências desaparecem também?” (p. 5, 3o parágrafo).

“Ouve-me, ó impertinente ingênuo e te mostrarei a verdade que liga meu destino ao teu. Na primeira hora da existência, o homem pôs-se de pé diante do Sol, estendeu os braços e clamou: "Atrás das estrelas, há um Deus poderoso, que ama o bem”. Depois virou de costas ao Sol e viu uma sombra alongada no chão e gritou: “E nas profundezas da terra, há um demônio maldito que gosta do mal...E durante séculos o homem sentiu-se vagamente dominado por duas forças: uma boa que ele abençoava; outra má, que ele amaldiçoava” (p. 5. 4o e 5o parágrafos).

“... É o demônio, o maior inimigo do homem, a força que desvia a marcha do furacão para as nossas casas, que manda a seca para nossas plantações e as moléstias aos nossos rebanhos, que se alegra com nossa infelicidade e se entristece com nossos júbilos. Precisamos estudar seus humores e táticas para prevenirmos seus malefícios e frustrarmos seus ardis” (p. 7, 3o parágrafo).

“Minha existência foi a causa de sua aparição” (p. 7, 6o parágrafo).

“Curioso é que me esfalfei a mostrar-te uma verdade que conheces melhor do que eu e que serve a teus interesses ainda mais que aos meus” (p. 8, 2o parágrafo).

“Deves viver, porque sem ti os homens deixarão de temer o inferno e mergulharão nos vícios. Tua vida é, portanto, necessária à salvação da humanidade; e eu sacrificarei meu ódio por ti no altar de meu amor pela humanidade” (p. 8, 4o parágrafo).

“... Com tua perspicácia, criaste uma justificativa para a minha existência, que eu próprio ignorava” (p. 8, 5o parágrafo).

A Escravidão

“Os homens são escravos da vida e a escravidão marca seus dias de vileza e suas noites de sangue e lágrimas” (p. 11, 1o parágrafo).

“... nunca vi senão pescoços curvados sob os jugos e braços acorrentados e joelhos dobrados perante ídolos” (p. 11, 2o parágrafo).

“... ouvi os vales e as florestas repetirem o eco das lamentações das gerações e dos séculos” (p. 11, 3o parágrafo).

“Visitei palácios, institutos, templos e aproximei-me de tronos, altares, tribunais e não vi senão escravos: vi o operário escravo do comerciante e o comerciante escravo do militar e o militar escravo do governante que por sua vez era escravo do rei. E o rei escravo do sacerdote e o sacerdote escravo do ídolo – e o ídolo: um punhado de barro, modelado pelos demônios e erguido sobre um montículo de crânios” (p. 11,12, 1o parágrafo).

“Acompanhei as gerações das margens do Ganges ao desembarcar do Nilo, ao Monte Sinai, as praças públicas da Grécia, as igrejas de Roma, as ruas de Constantinopla, aos edifícios de Londres e vi a escravidão caminhar em toda a parte: ora oferecem-lhe sacrifícios e chamam-lhe Deus; ora vertem vinho e perfumes aos seus pés e chamam-lhe rei. Ou queimam incenso ante suas estátuas e chamam-lhe profeta; ou prosternam-se perante ela e chamam-lhe lei; ou lutam e se dilaceram por ela e chamam-lhe patriotismo. Ou submetem-se passivamente à ela e chama-lhe Religião; ou incendeiam e demolem suas próprias moradas por sua causa e chamam-lhe dinheiro e comércio...Pois ela tem muitos nomes, mas uma só essência...” (p. 12, 2o parágrafo).

“Uma de suas variedades mais estranhas é a escravidão cega, que solda o presente dos homens ao passado de seus pais e submete suas almas às tradições de seu avós, fazendo deles corpos novos para espíritos velhos e túmulos pintados para esqueletos decompostos” (p. 12, 3o parágrafo).

Veneno no Mel

“Nada é tão cruel quanto o destino de uma mulher posta entre o homem que ela ama e o homem que deve amar” (p. 17, 2o parágrafo).

Dentes Cariados

“E a Nação que enfraquece e morre não ressuscita para revelar suas doenças ao mundo e a ineficácia dos remédios sociais que a levaram ao túmulo” (p. 19, 5o parágrafo).

“Quantos ignorantes neste mundo! E como sua ignorância é incômoda” (p. 20, 4o parágrafo).

A Presença Invisível

“O mundo celebra meu nome e as tradições que os séculos teceram em volta de meu nome. Mas eu permaneço um estrangeiro, percorrendo o universo e atravessando os séculos sem encontrar, entre os povos, quem compreenda minha verdade. As raposas têm covis e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (p. 27, 1o parágrafo)*.


Os Gigantes

“Quem escreve com tinta não é como quem escreve com o sangue do coração” (p. 42, 1o parágrafo).

“Refugiei-me no silêncio porque os ouvidos da humanidade se fecharam ao sussurro dos fracos e só ouvem o tumulto do abismo. E é mais prudente para o fraco calar-se diante das forças tempestuosas da vida – essas forças que têm os canhões por voz e as bombas por palavras” (p. 42, 3o parágrafo).

“Os valores e os problemas que monopolizam os pensamentos e os corações estão na penumbra. Os sonhos antigos desvaneceram-se como a bruma e foram substituídos por gigantes que caminham com as tempestades, se movem com as marés e respiram com os vulcões” (p. 42, 4o parágrafo).

“Todas as vezes que me isolo com minha alma, faço-lhe perguntas. Mas a lama é como o destino: vê e não fala; caminha e não se vira. Tem os olhos penetrantes e os passos rápidos, mas a língua pesada” (p. 43, parágrafo).

“... o que as gerações edificaram pela ciência e a arte, o homem moderno demoliu pelo egoísmo e ganância. Vivemos novamente como os trogloditas. E só nos diferenciamos deles por motivo das máquinas e estratagemas que inventamos para destruir” (p. 4, parágrafo).

“... estão agora lutando para resolver um problema da Terra que somente a guerra pode resolver” (p. 44, 5o parágrafo).

“O sangue vertido se transformará em elixir e as lágrimas choradas brotarão como flores. As almas assassinadas se reunirão e sairão detrás do horizonte como uma nova aurora. Então, os homens verificarão que foi mesmo a justiça que eles compraram no mercado das iniqüidades e que, quem investe na justiça sai perdendo... E a primavera voltará. Mas quem espera atingir a primavera sem passar pelo inverno nunca a atingirá” (p. 45, 2o parágrafo).

As Nações

“Uma Nação é uma comunidade de indivíduos que divergem no seu caráter, tendências, opiniões, mas são unidos por um laço moral mais forte que suas divergências” (p. 46, 1o parágrafo).
A tempestade

“... Procurou consolo na solidão” (p. 50, 2o parágrafo).

“... Sei que os segredos das almas ficam além das nossas suposições e deduções” (p. 50, 3o parágrafo).

“O homem vive à sombra de leis e tradições por ele inventadas” (p. 52, 15o parágrafo).

“Acreditar é uma coisa; viver conforme o que se acredita é outra coisa. Muitos falam como o mar, mas vivem como os pântanos. Muitos levantam a cabeça acima dos montes, mas suas almas jazem nas trevas das cavernas” (p. 52, 17o parágrafo).

“... deixei a civilização porque a achei uma árvore idosa e carcomida cujas flores são a cobiça e o engano e cujas frutas são a infelicidade e o desassossego. Alguns reformadores tentaram transformá-la, mas nada conseguiram e acabaram perseguidos e derrotados” (p. 53, 24o parágrafo).

“... Procurei a solidão porque cansei de lidar com os endinheirados que pensam que o Sol e a Lua e as estrelas se levantam de seus cofres e se deitam nos seus bolsos. Cansei-me dos políticos que enchem os olhos dos povos com poeira dourada e seus ouvidos com falsas promessas. Cansei-me dos sacerdotes que aconselham os outros, mas não se aconselham e exigem dos outros o que não exigem de si mesmos...” (p. 54, 25o parágrafo).

“... não vês que ao diagnosticar as doenças da sociedade como um médico competente, demonstraste que não te deves afastar dela antes de curá-la, como um médico não pode afastar-se do doente, mas tratá-lo até que sare ou morra?...Desde o começo, os médicos têm procurado salvar este doente...mas todos morreram desesperados, sem nada conseguir. Este doente malvado mata seus médicos e depois fecha-lhes os olhos e diz: “Eram realmente grandes médicos”. Não meu amigo, nenhum homem mudará os homens. O agricultor mais hábil não obterá colheita no inverno” (p. 54, 55, 27o parágrafo).

“Quanto à escravidão do homem ao seu passado, às suas tradições e superstições, esta escravidão não mudará mesmo que mudem todas as suas aparências. A escravidão não deixa de ser escravidão, chamando-se de liberdade” (p. 56, 32o parágrafo).

“... As invenções e descobertas nada são senão brinquedos que a mente se diverte no seu tédio... Quanto a esses quebra-cabeças, chamados ci6encias e artes, nada são senão cadeias douradas com as quais o homem se acorrenta, deslumbrado com seu tilintar... São os fios da tela que o homem tece desde o início do tempo sem saber que, quando terminar sua obra, terá construído a prisão dentro da qual ficará preso” (p. 56, 33o parágrafo).

“Quem o sente, não o pode expressar em palavras. E quem não sente, não poderá nunca conhecê-lo através de palavras” (p. 57, 37o parágrafo).

A Fada Feiticeira

“Até quando te seguirei neste caminho escarpado, coberto de espinhos que serpenteiam entre as pedras e levam nossos pés aos cumes e nossas almas ao abismo?” (p. 59, 1o parágrafo).
“Olha um momento para mim: talvez descubram em teus olhos os segredos de teu coração e nos teus traços os enigmas de tua alma” (p. 59, 3o parágrafo).

“... Tendo absorvido o veneno nos teus beijos, tornei-me um embriagado que pede mais do vinho que lhe roubou a vontade e beija a mão que o esbofeteou” (p. 60, 8o parágrafo).

Ó Filhos de Minha Mãe

“O ódio é uma torrente que só arrasta os troncos dessecados e só derruba as casas abaladas” (p. 69, 8o parágrafo).

“... O medo transformou vossos cabelos em cinzas e a insônia transformou vossos olhos em cavidades escuras e a covardia tocou vossos semblantes e os transformou em farrapos enrugados. E a morte beijou vossos lábios e eles se tornaram amarelos como as folhas do outono” (p. 70, 12o parágrafo).

“Vossas espadas estão enferrujadas, vossas lanças cegas e vossos escudos cobertos de lama. Por que permaneceis no campo de batalha?” (p. 70, 15o parágrafo).

A Violeta Ambiciosa

“O objetivo da vida é atingir o que há além da vida” (p. 73, 15o parágrafo).

O Coveiro

“a infelicidade dos filhos está no que recebem dos pais. Quem não renuncia ao legado de seus pais e avós, será escravo dos mortos até que se torne um morto por sua vez” (p. 76, 16o parágrafo).

“Não vi nenhum cadáver abandonado por aí... Tu olhas como os olhos da ilusão. Ao ver os homens se agitarem na tempestade, pensas que vivem, quando na realidade estão mortos desde que nasceram. Mas não houve quem os enterrasse e ficaram sobre a terra a exalar podridão” (p. 77, 22o parágrafo).

“... essas são fórmulas que as gerações passadas têm repisado e que a imitação depositou nos teus lábios. Na realidade, tu só crês em ti mesmo e só honras a ti mesmo e só esperas por tua própria imortalidade. Desde o começo, o homem adora seu próprio ego, mas lhe empresta diversos nomes, conforme suas inclinações e aspirações, chamando-lhe ora Baal e ora Júpiter e ora Deus” (p. 78, 38o parágrafo).

Meus Parentes Morreram

“O sentimento que nos leva a dar algo de nossa vida para salvar os que correm o risco de perder toda a sua vida é o único gesto que nos manterá dignos da luz do dia e da quietude da noite... E o auxílio que colocamos na mão vazia que se estende para nós é o elo de ouro que ligará o que há de humano em nós aos valores supra-humanos da vida” (pg. 84, último parágrafo).

Anestésicos e Escalpelos

“Cala-te, pois o lho que desafia a flecha é vazado” (p. 89, 1o parágrafo).

“Os indolentes inventam desculpas piores do que a própria culpa” (p. 89, 3o parágrafo).

“Quem não usa o olho da fé nada vê neste mundo senão brumas e fumaça” (p. 89, 5o parágrafo).

Nós e Vós

“vós depositais vossos corações nas mãos do vácuo porque as mãos do vácuo são macias e vós confortais na companhia da ignorância porque a casa da ignorância não tem um espelho que reflita vossos rostos” (p. 92, 1o parágrafo).

“... E vós sorrides e dos cantos de vossas bocas sorridentes corre a ironia como o veneno da cobra corre da sua mordedura” (p. 92, 3o parágrafo).

“Nós choramos porque ouvimos o gemido dos pobres e os gritos do oprimido. E vós rides porque só ouvis o tocar das taças” (p. 92, 4o parágrafo).

“Vós procurais o divertimento e os divertimentos já dilaceraram um miríades de mártires nas arenas de Roma e Antioquia” (p. 93, 9o parágrafo).

“Nós nos aproximamos de vós como amigos e vós nos agredis como inimigos. E entre a amizade e a inimizade se estende um abismo cheio de lágrimas e de sangue” (p. 94, 12o parágrafo).

“Nós edificamos palácios para vós e vós cavais túmulos para nós. E entre o esplendor dos palácios e as trevas dos túmulos, a humanidade caminha com pés de ferro” (p. 94, 13o parágrafo).

“Nós cobrimos vossos caminhos com rosas e vós cobris nossos leitos com espinhos. E entre as pétalas das rosas e os seus espinhos, a verdade dorme num sono profundo” (p. 94, 14o parágrafo).

“... combateis nossas forças amenas com vossa fraqueza rude” (p. 94, 15o parágrafo).

“... Vós sois lembrados pela humanidade como cadáveres que não encontram quem os enterre na noite do esquecimento e do vácuo” (p. 94, 16o parágrafo).

Jesus Crucificado

“... deitar-se à sombra do esquecimento, embalados pela ignorância e a indolência” (p. 95, 2o parágrafo).

“... Perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (p. 96, 1o parágrafo).

“a humanidade é uma mulher que se deleita em se lamentar sobre os heróis dos séculos. Se fosse homem, regozijar-se-ia pela sua grandeza e suas glórias” (p. 96, 5o parágrafo).

“Tu és, na tua melancolia, mais alegre que a primavera com suas flores. Tu és, nas tuas dores, mais sereno que os anjos em seu paraíso. Tu és, na mão dos carrascos, mais livre que a luz do Sol” (p. 98, 2o parágrafo).

“Perdoa, pois, a esses fracos que se lamentam sobre ti, em vez de se lamentarem sobre si mesmos. Perdoa-lhes porque não sabem que venceste a morte pela morte e deste a vida aos que estão nos túmulos” (p. 98, 3o parágrafo).

O Poeta

“... Sou assim levado a pensar sempre numa pátria encantada que não conheço e a sonhar com os sortilégios de uma terra longínqua que nunca visitei” (p. 108, 1o parágrafo).

“Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz” (p. 108, 3o parágrafo).

“Acordo pela manhã e acho-me prisioneiro num antro escuro, freqüentado por cobras e insetos. Se sair à luz, a sombra de meu corpo me segue as sombras e minha alma me precedem, levando-me aonde não sei, oferecendo-me coisas de que não preciso, procurando algo que não entendo...” (p. 109, 4o parágrafo).
“... Não há no mundo quem conheça uma palavra da minha alma” (p. 110, 1o parágrafo).

“Sou um poeta que põe o que a vida põe em versos e em versos o que a vida põe em prosa...” (p. 110, 4o parágrafo).

Antes do Suicídio

“... Ontem é um sonho que não voltará mais” (p. 116 3o parágrafo).

Palavras e Palavreadores

“Acordo pela manhã e vejo as palavras sentadas ao meu lado sobre as faces das cartas, dos jornais e das revistas. E elas me lançam olhares cheios de astúcia e fingimento” (pg. 119, 3o parágrafo).

“Penetro nos tribunais e escolas e o que encontro? Palavras, todas servindo de invólucro para mentiras e astúcias” (pg. 120, 3o parágrafo).

“e agora que mostrei meu menosprezo pelas palavras e os palavreadores, acho-me um médico doente ou como um criminoso pregando para outros criminosos. Censurei as palavras com palavras. E, querendo fugir dos palavreadores, revelei-me um deles...” (p. 122, 3o parágrafo).

Nas Trevas da Noite

“... E todos estamos esfomeados, atormentados pela fome. Mas a Morte não tem fome nem sede. Engole nossas almas e nossos corpos. Bebe nosso sangue e nossas lágrimas, mas não se satisfaz nem se sacia” (p. 124, 1o parágrafo).



Filhos de Deuses e Netos de Macacos

“Não somos mais hoje o que éramos ontem” (p. 128, 3o parágrafo).

À Porta do Templo

“E o dia se foi enquanto os homens passavam diante do templo, cada um pintando-se a si mesmo, pensando que estava pintando o amor e expressando suas aspirações, pensando que estava revelando o segredo da vida” (p. 132, 4o parágrafo).

O Rei Encarcerado

“Paciência, ó rei encarcerado; não estás na tua prisão em piores condições do que eu no meu corpo” (p. 133, 1o parágrafo).

“... Sou entre os escravos da vida como tu entre as grades da tua jaula” (p. 133, 3o parágrafo).

“... ó prisioneiro venerável, olha para aquelas ruas largas e aqueles becos estreitos: são vales perigosos onde se escondem os assaltantes. São campos de batalhas entre as ambições, onde as almas lutam, mas não com as espadas e se dilaceram mutuamente, mas não com garras. Mais exatamente, são a selva dos horrores, onde moram animais de aparência domesticada, com rabos perfumados e chifres polidos, que obedecem à lei da sobrevivência não do melhor, mas do mais astucioso e mais fingido e respeitam as tradições que exaltam não o mais forte e o mais dotado, mas o mais hipócrita e o mais falso. E seus reis não são leões como tu, mas criaturinhas estranhas que têm o bico da águia e as garras do lobo, o ferrão do escorpião e o coaxo das rãs” (p. 134, 135, 5o parágrafo).

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Ar e os Sonhos: Ensaio sobre a imaginação do movimento, Gaston Bachelard


Para quem conhece o devaneio escrito, para quem sabe viver, plenamente viver, ao correr da pena, o real está tão longe! O que se tinha a dizer é tão depressa suplantado pelo que nos surpreendemos a escrever, que sentimos bem que a linguagem escrita cria o seu próprio universo. Um universo das frases se ordena sobre a página branca, numa coerência de imagens que não raro tem leis bastante variadas, mas que conserva sempre as grandes leis do imaginário. As revoluções que modificam os universos escritos se fazem em proveito de universos mais vivos, menos empolados, mas sem nunca suprimir as funções dos universos imaginários. Aliás, mesmo em imagens literárias isoladas, sentimos em ação essas funções cósmicas da literatura. Uma
imagem literária basta às vezes para nos transportar de um universo a outro. É nisso que a imagem literária aparece como a função mais inovadora da linguagem. A linguagem evolui muito mais por suas imagens que por seu esforço semântico (Bachelard, 1990, p.258).

Verbo que se escreve tem sobre o verbo falado a imensa vantagem de evocar ecos abstratos em que os pensamentos e os sonhos se repercutem. A palavra enunciada nos toma muita força, exige demasiada
presença, não nos faculta o total domínio de nossa lentidão. Há imagens literárias que nos engajam em reflexões indefinidas, silenciosas. Percebemos então que na própria imagem se incorpora um silêncio em profundidade. Se quisermos estudar essa integração do silêncio ao poema, não é preciso fazer dela a simples dialética linear das pausas e dos sons ao longo de uma recitação. Importa compreender que o princípio do silêncio em poesia é um pensamento oculto, um pensamento secreto. No momento em que um pensamento hábil em ocultar-se sob suas imagens espreita na sombra um leitor, os ruídos se abafam e a leitura começa, a lenta leitura sonhadora. Na busca de um pensamento oculto sob os sedimentos expressivos desenvolve-se a geologia do silêncio (Bachelard, 1990, p. 259).

Tomada em sua vontade de trabalhar a expressão, a imagem literária é uma realidade física que tem um relevo especial; mais exatamente, é o relevo psíquico, o psiquismo em vários planos. Ela grava ou eleva. Reencontra uma profundidade ou sugere uma elevação. Sobe ou desce entre céu e terra. É polifônica por ser polissemântica. Se os sentidos se dividem em demasia, ela pode cair no "jogo de palavras". Se ela se encerra num sentido único, pode cair no didatismo. O verdadeiro poeta evita os dois perigos. Ele joga e ensina. Nele, o verbo reflete e reflui. Nele, o tempo se põe a esperar. O verdadeiro poema desperta um invencível desejo de ser relido. Tem-se imediatamente a impressão de que a segunda leitura nos dirá mais que a primeira. E a segunda leitura - é mais lenta que a primeira. É uma leitura recolhida. Nunca terminamos de sonhar o poema, nunca terminamos de pensá-lo. E às vezes vem um grande verso, um verso carregado de tamanha dor ou de tamanho pensamento que o leitor – o leitor solitário - murmura: e nesse dia a leitura não seguirá adiante (p. 260).

As imagens têm um estilo. As imagens cósmicas são estilos literários. A literatura é um mundo válido. Suas imagens são primeiras. São as imagens do sonho falante, do sonho que vive no ardor da imobilidade noturna, entre o silêncio e o murmúrio. Uma vida imaginária – “a verdadeira vida" - se anima em torno de uma imagem literária pura (p. 261).

Em quaisquer circunstâncias, a vida toma muito para ter o bastante. É preciso que a imaginação tome muito para que o pensamento tenha o bastante. É preciso que a vontade imagine muito para realizar o bastante (p. 262).

BACHELARD, Gaston. O Ar e os Sonhos: Ensaio sobre a imaginação do movimento. São
Paulo: Martins Fontes.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Gilfrancisco Santos, Roland Barthes, afinando a arte & refinando o discurso


p/ Myriam Fraga

“Eis um estado muito sutil, quase insustentável, do discurso: a narratividade é desconstruída e a história permanece no entanto legível: nunca as duas margens da fenda foram mais nítidas e mais tênues, nunca o prazer foi melhor oferecido ao leitor – pelo menos se ele gosta das rupturas vigiadas, dos conformismos falsificados e das destruições indiretas. Ademais o êxito pode ser aqui reportado a um autor, junta-se-lhe o prazer do desempenho: a proeza é manter a mimesis da linguagem (a linguagem imitando-se a si própria), fonte de grandes prazeres, de uma maneira tão radicalmente ambígua (ambígua até a raiz) que o texto não tombe jamais sob a boa consciência (e a má fé) da paródia (do riso castrador, do “cômico que faz rir”).” Roland Barthes (O Prazer do Texto)



Grande intelectual progressista e mestre da linguagem, incomparável estimulador da mentalidade literária pelo modo como as pessoas tornam seu mundo intangível, é o autor de trabalhos marcadamente originais. Roland Barthes (1915-1980) é um desmistificador de imaginários, e sua ironia confirma esse poder quer seja como escritor, teórico ou professor, mas anda um pouco esquecido por seus admiradores. Apesar de sua obra ter sido traduzida para o português, Barthes ainda continua desconhecido entre nós, até mesmo por alguns professores universitários do Curso de Letras. A crítica nova defende a arte moderna como uma forma nova de ver o mundo, como a descoberta de que ao artista não interessa mais “imitar a natureza aristotelicamente”, propondo o entendimento do literário como ruptura e re-organização do texto. Ou seja a crítica nova, nada mais é do que a abertura da reflexão literária às grandes correntes do pensamento moderno (freudismo, marxismo, estruturalismo e existencialismo), tanto em sua fecundidade como em suas contradições. A explosão da crítica literária e a natureza da arte moderna são relativas, a ela exige uma crítica nova relativa, que faça explodir a antiga.
Em Roland Barthes, encontramos a elaboração de um modelo científico novo, uma abertura para uma outra estrutura, para um sistema diferente de criação que engloba o precedente, abrindo à crítica uma linguagem que será comum com os criadores, uma construção do modelo, dos modelos. O que mudou efetivamente com Barthes, é a confissão da inversão da criação, é a crítica nova começando pela leitura nova, como um novo meio, uma nova perspectiva de interpretação da literatura, que resultou numa revisão de diversos conceitos literários, como o divórcio entre crítica histórica e literária. Barthes sabia que toda literatura é simbólica e sem esforço de construção metodológica foi infatigável. Por isso recusava-se “ao conceito vulgar de realismo; restaurando o sentido originário da mimesis aristotélica, que confia à arte não a tarefa de reproduzir a natureza, de copiar fotograficamente, porém aquela outra mais digna, artística, de fazer a natureza aflorar em toda a sua plenitude de conferir ao real à sua do qual à sua dimensão catártica.”. Para ele, o objeto da crítica era muito diferente; não era o “mundo”, era um discurso, o discurso de um outro: a crítica é discurso sobre um discurso, é uma linguagem segunda, ou metalinguagem (como diriam os lógicos) que se exerce sobre uma linguagem primeira (ou linguagem-objeto). Daí resulta que a atividade crítica deve contar com dois tipos de relações: a relação da linguagem crítica com a linguagem do autor observado e a relação desta linguagem-objeto com o mundo.
Para Barthes, o trabalho do crítico não é de descobrir o significado secreto de uma obra – uma verdade do passado, mas constituir o inteligível do nosso tempo, o que equivale a desenvolver estruturas conceituais para lidar com fenômenos do passado e do presente. No que toca ao significado do engajamento político e histórico da linguagem literária, para ele não é simplesmente uma questão de conceito político ou de compromisso político da obra no ordenamento literário do mundo próprio de uma cultura. Por isso a crítica interpretativa deixa claras suas posições filosóficas ou ideológicas, enquanto que a crítica acadêmica afirma ser objetiva, alegando não ter ideologia. Pois seus argumentos teóricos, ela julga conhecer a natureza essencial da literatura aceitando ou rejeitando tudo que lhe foi oferecido para crítica ideologicamente comprometida. Finalizando, visto que a função do crítico não é descobrir e explicar o sentido de uma obra literária, mas descrever o funcionamento do sistema produtor de significação, não o que a obra significa, mas como a obra chega a significar. Tudo isso porque a produtividade do texto literário é a sua capacidade de produzir sentidos múltiplos e renováveis, que mudam de leitura a leitura. Tanto suas posições críticas quanto de seu estilo, cheio de imagens inesperadas, de termos técnicos e científicos criados por ele, misturavam dois gêneros que sempre tinham sido distintos: a crítica literária e a criação literária.
Tendo surgido como um crítico marxista, mas recusando-se o determinismo histórico e social, desde cedo atraiu as suspeitas da direita e da esquerda. A abertura de Barthes a contemporaneidade, caracteriza por reunir em sua crítica as bases já mencionadas, assumindo todas essas posições alternadamente ou ao mesmo tempo, permitindo-lhe uma constante reformulação de texto crítico, na busca de sua própria linguagem. Por tudo isso em nome de um purismo ideológico e indesejável o acusou de charlatanice, de inconstância, de infidelidade ou ainda de seguir a moda. O nome de Roland Barthes, continua no centro do debate contemporâneo das idéias, foi durante toda sua vida uma figura polêmica, desde a publicação do seu primeiro artigo em 1947, até seu último livro. Até 1965 Barthes era uma figura ativa embora marginal do cenário intelectual francês, somente no final dessa década é que ele estava firmando com uma eminência, ao lado de Claude Levi-Strauss, Michel Foucault e Jacques Lacan. Tornou-se fenômeno por razões contraditórias, graças a análises incisivas e irreverentes que fazia sobre a cultura francesa. Barthes trabalhou para criar um clima intelectual sintonizado com a transgressão, uma aventura com a linguagem, fornecendo inteligibilidade de forma crescente através dos textos, criando possibilidades de prazer, de entendimento e de renovação. Como criador Barthes reintroduz o tradicional com transgressão vanguardista, seus livros são traduzidos e amplamente lidos, escreveu inúmeros prefácios e introduções de textos modernos, de caráter experimental e clássico.
Apesar de ser considerado como o verdadeiro mestre da nova crítica francesa, Roland Barthes não foi de todo assimilado, continuou sendo alvo de ataques vindos dos mais variados pontos: os marxistas acusam de ser um aristocrata, um individualista, um alienado, enquanto que os estruturalistas e semiólogos cobram dele a ausência de rigor científico. Apóstolo da crítica aberta, convergente e múltipla, capaz de esclarecer as suas relações vivas, sua obra é um instrumento imprescindível de trabalho, tanto para os que se dedicam à Teoria da Literatura, quanto para os que estudam as comunicações e as ciências humanas em geral. A obra barthesiana não é uma obra radical da modernidade como muitos pensam, é uma obra sedutora de vertigens e nisso ela é vanguarda, que não pára nunca ao mesmo lugar. Sempre em movimento, aberta, numa evolução lógica, deslocando-se como tática extremamente coerente com suas convicções fundamentais.
Nascido no dia 12 de novembro de 1915 em Chemburgo, perto do Canal da Mancha, era um grego com os olhos abertos para descobrir as mitologias, lia Michelet e Racine, um francês que lia Platão, Plotino e Heráclito. Filho do tenente da Marinha Louis Barthes que morreu numa batalha naval durante a Primeira Guerra, quando Roland tinha apenas onze meses. Pertencente a uma família burguesa empobrecida e protestante, teve uma infância tranqüila em Boiana, no Sul da França, mas a partir de 1924 a família muda-se para Paris onde Barthes faz seus estudos secundários no Liceu Montaigne e no Liceu Louis-le-Grand, permanecendo até 1934 quando sofre lesão no pulmão esquerdo, sendo obrigado a descansar para tratamento em Bedous, nos Pirineus.
Licenciado em Letras Clássicas pela Sorbonne entre 1935/39, passa a ensinar no Liceu de Biarritz, Voltaire e Carnot, em Paris, além de participar como ator de um grupo de teatro antigo. Entre 1942/46 Barthes tem várias recaídas da tuberculose, internado em diversos Sanatórios, época em que se nutriu longamente de leituras e discussões marxistas, que deixaram nele uma marca definitiva. Finalmente restabelecido em 1948, partiu para Bucareste (Romênia) e Alexandria (Egito) como professor universitário, de 1952 a 1959 ele foi pesquisador do CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas), em lexicologia e sociologia, período em que publica três livros e vários artigos, especialmente sobre teatro e a partir de 1962, torna-se orientador de pesquisas na Escola Prática de Altos Estudos da Sorbonne. Publica mais alguns livros de crítica literária, entre os quais um livrinho sobre Racine em 1968, que provocam uma inesperada e intensa irritação em Raymond Picand, mestre poderoso e tradicionalista da velha universidade, provocando polêmica e sucessivos debates em torno da nova crítica, que tornaram Roland Barthes conhecido por um largo público.
Nos três ensaios desse livro Racine (O homem raciniano, Dizer Racine e História ou Literatura), Barthes compõe um exercício de crítica literária em si. Seja de maneira direta, quando o autor reivindica que a crítica universitária assume a psicologia em que se fundamenta, seja indiretamente, quando distingue Racine como uma das linguagens possíveis de nosso tempo. Mas é óbvio que do exercício de várias linguagens sobre a obra raciniana não se retira a “verdade” que supostamente ela deveria conter. Para Barthes, nenhuma delas é inocente, ao contrário, são sistemas de leituras, cujas regras devem ser enunciadas. O exercício de crítica literária, nesse sentido, coteja-se aos outros já feitos, confrontas regras e técnicas, estabelece as suas próprias e, finalmente – enquanto atividade de um indivíduo histórico, uma subjetividade de seu tempo, instaura uma subjetividade possível. Participa, portanto, da própria história da literatura. (1)
A partir desse incidente, suas aulas começam a atrair ouvintes cada vez mais numerosos, e constantemente sendo solicitado para realizar conferências, inclusive no exterior: Estados Unidos, Marrocos, Japão e China. Em 1977 Barthes toma posse da nova cadeira de Semiologia Literária no Collège de France, onde os mais ilustres professores franceses de todas as especialidades oferecem cursos livres e abertos ao grande público. Morto prematuramente em 26 de março de 1980, por atropelamento no momento em que saia do Collège, aos sessenta e cinco anos de idade, no auge da fama, Barthes soube como poucos interpretar as mitologias no nosso tempo, numa linguagem de alta voltagem poética e de múltiplos significados. Um mestre que criou discípulos, renovando, apontando novos cominhos, recuando, avançando, sempre criando, sempre usando sua inteligência crítica, um grande ensaísta que nunca se esqueceu que o ensaio é também literatura, um sedutor de todos os assuntos.
Roland Barthes é uma das figuras decisivas da literatura e da ensaística francesa do século, o principal expoente da nova crítica, seguindo na esteira do new criticism anglo americano e do formalismo russo e valendo-se do moderno instrumental da lingüística e da semiologia. Reabriu o processo de certos autores-chave que a velha crítica passara em julgado, ao mesmo tempo em que institui um enfoque adequado ao entendimento em profundidade das propostas inovadoras da literatura contemporânea. Sua volumosa e intrigante obra encontra-se traduzida para o português e alguns dos seus títulos mais importantes são: O Grau Zero da Escritura – 1953 (Reedição com Novos Ensaios Críticos em 1972). Rejeitado pela Gallimard, foi aceito pela Sevil graças a recomendações do crítico suíço Albert Béguim. Este livro é segundo Barthes “uma reflexão livre sobre a condição histórica da linguagem literária”.
A nova crítica só fora parida ao preço de um desastre radical do autor, colocara-se na vanguarda desse radicalismo, ao afirmar que o texto é, sobretudo signo. São duas importantes obras reunidas num só volume, onde Barthes desenvolve o conceito de escritura, complementar do de estilo e de língua, caracterizando-o como a “moral da linguagem” por via de que o escritor manifesta seu engajamento na sociedade em que vive. Em Novos Ensaios ele nos dá toda a sua medida de crítico ao reexaminar vários ensaios repletos de sugestões instigantes sobre as obras de Júlio Verne, Flauber, Proust e Chateaubriand. (2) Elemento de Semiologia – 1953 é o resultado de cursos ministrados por ele, de maneira sistemática e bem dosada com que apresenta a matéria, sua natureza didática. Dividido em quatro grandes partes, correspondentes a rubricas oriundas da Lingüística Estrutura, Barthes dá ao leitor uma instigante visão geral do campo de estudo da Semiologia e dos instrumentos teóricos, por via dos quais se podem realizar a pesquisa semiológica. (3)
Michelet – 1954 é um estudo sobre o ensaísta e historiador francês Jules Michelet (1798-1874), autor de alguns dos maiores clássicos da historiografia; figura tão sagrada quanto à de Vitor Hugo, onde Barthes traduz e desenvolve num universo de conotações, os principais temas, as obsessões, os mitos que compõe a volumosa (60 títulos) obra de Michelet. O livro trás ilustrações, comentários e uma seleção de textos do próprio Michelet no final de cada capítulo. Barthes analisa os temas adquirindo uma configuração particular, idiossincrática, patológica mesmo, na obra de Michelet, a procura do “único” do “pessoal” do seu objetivo que não é a “vida”, mas a existência de Michelet que o preocupa. E é isso o que Barthes, neste livro, mostra saber como ninguém. Para ele há um “lesbianismo” em Michelet, “Este seria obcecado pelo espetáculo da menstruação; invejaria a camareira, a mulher que compartilha os segredos da ama, que conhece seus fluxos, avalia-lhes a regularidade e a abundância”. Ele destaca ainda as antipatias, os nojos e as atrações físicas que Michelet deixa entrevar ao longo de seu gigantesco panorama histórico. As relações de Michelet com a corporalidade das coisas, com a fluência da água, com o calor da terra, com a fecundidade do sangue, são o tema de Barthes. Seja como for, o resultado é um milagre de percepção crítica, de originalidade e de estilo. (4)
Mitologias – 1957 reúne pouco mais de cinqüenta breves artigos inicialmente publicados (com apenas duas exceções) na revista mensal Letters Nouvelles a partir de 1952, é um livro contra os mitos; onde ele desmistifica a cultura social, deixando de ser crítico literário para ser um sociólogo crítico espontâneo. E demonstra claramente ao destruir os fetiches da burguesia francesa dos anos cinqüenta. Desmontando o mito da crítica irônica dos fatos, Barthes passa a analisá-lo como sistema semiológico, penetrando a partir daí, no campo reservado propriamente à ciência em que engajou e justifica autoridade, como comprova esta sua obra. Com base numa série de textos escritos sobre assuntos cotidianos e com o dito princípio de “realizar, por um lado, uma crítica ideológica da linguagem da cultura dita de massa, por outro uma primeira desmontagem semiológica dessa linguagem”. Roland Barthes consegue desmistificar os mitos em que vêm constituídos inúmeros aspectos de uma realidade constantemente mascarada pela imprensa, pelo cinema, pela arte e pelos demais veículos de comunicação, sempre a serviço de interesses ideológicos. (5) Crítica e Verdade – 1966 é uma coletânea dos ensaios críticos, alguns como Escritores e Escreventes, Literatura e Metalinguagem, O que é crítica, Literatura e Significação, etc. São trabalhos imprescindíveis para quem se preocupa com os problemas da literatura e se propõe encará-los com um enfoque realmente atual. Segundo o próprio autor, a crítica não é uma tradução: “sua tarefa não é obter um significado mais claro de outro mais obscuro, pois nada, acrescenta, poderia ser mais claro que as próprias obras”. Este livro já foi traduzido para numerosas línguas, o que comprova sua importância. (6)
Sade, Fourier, Loyola – 1971, três autores tratados como momentos singulares no universo da ficção sobressaem com a reverência devida aos logotetas, termo forjado para designar os fundadores de línguas. O reencontro dos autores: De Donatien-Alphonso Sade (1740-1813), Barthes gostava de lembrar os punhos de renda branca, teve como perseguidos implacável um tenente de polícia que colecionava perucas. De Charles Fourier (1772-1837), os vasos de flores entre os quais caiu morto, e tinha uma relação voluptuosa com quantificações: as 44 formas de se fazer patês, as 810 paixões próprias a cada um dos sexos ou as 278 opiniões díspares, na Roma Antiga. De Inácio de Loyola (1491-1556), os belos olhos espanhóis, úmidos voltados para o céu, em comoção mística. Neste livro, vamos encontrar um Barthes mais solto, menos permeado pela obsessão demonstrativa ainda presente no seu livro anterior S/Z (1970), onde faz uma análise semiológica da novela Sarrasine, do escritor francês Honoré de Balzac (1819-1850), cujo tema é a trágica paixão do escultor Sarrasine por Zambinella, artista lírico; e já ausente em O Prazer do Texto (1973). Inexistente a partir dessa etapa que tenha ocorrido uma capitulação diante de contendores passados. Barthes não mais precisa exorcizar modelos que a semiologia precisou descartar antes de poder emergir. Como sabemos Barthes em sua jornada intelectual percorreu diversas estações gaulesas obrigatórias: passou do existencialismo e do marxismo para a “psicanálise das substâncias” e as teorias lingüísticas da Saussure, e associou por último a “nova” antropologia de Claude Lévi – Strauss.(7)
O Prazer do Texto – 1973 é um livro onde o autor estabelece sua teoria do texto através de uma leitura dos desejos, funções e possibilidades que este oferece. Faz, assim, a distinção entre o texto de prazer e o texto de fruição, privilegiando o primeiro, por sua conotação eufórica, em detrimento do segundo, marcado pelo signo da perda, que coloca em crise a relação leitor – linguagem. Com este livro Barthes abandona a semiologia e assume o individual contra o universal do modelo estruturalista. É sem dúvida a primeira obra pós – estruturalista importante de Roland Barthes, que confirmam plenamente uma mudança na direção oposta e estética da dificuldade, ainda tão influente na sua opção de modelos literários, quando publicado. O Prazer do Texto nega tanto à cultura quanto à sua destruição o privilégio de albergar o erótico. (8) Roland Barthes por Roland Barthes – 1975 título antológico que não deve induzir o leitor à errônea suposição de que se trate de uma autobiografia – civil, sentimental ou intelectual, nem tampouco de um exercício de auto-análise ou diário confessional. Essa informalidade do texto faculta ao leitor ter de Barthes, uma visão privilegiada, capaz de lançar novas luzes sobre o projeto intelectual desse que é, um dos mais criativos teóricos da literatura e da semiologia que a modernidade conhece. (9)
Fragmentos de um discurso amoroso – 1977 sustentam que hoje “não é mais o sexual que é indecente, e sim o sentimental – censurado em nome do que é finalmente apenas outra moralidade”. Este volume continua sendo um best–seller, dissertação sobre a linguagem própria ao amor – paixão sob o pretexto de uma leitura do amor infeliz de Werther de Goethe (1749-1832), mobiliza modelos críticos que ele próprio ajudou a forjar. O livro contém um ataque contra a depreciação ou rejeição do amor com tal em três fortes sistemas de crença: o cristianismo, a psicanálise e o marxismo. Ele também ataca as éticas amorosas socráticas e românticas, porque ambas apreciam a sublimação, ao passo que ele o maior mérito do amor é o “desaparecimento de toda finalidade”. (10) Aula – 1978 é o texto da aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária lido por Barthes no Collége de France em 7 de janeiro de 1977. Trata–se de um dos textos mais intensos e mais radicais do autor, para ele só a literatura pode fazer “ouvir a língua fora do poder”, por ser o lugar de eleição “das forças de liberdade”, quando mais não fosse pelo exercício daquela “função utópica” que ela sempre escolheu exercer. (11) Incidentes, é um diário íntimo em que ele se revela inteiramente, sem pudores ou rancor. Neste livro Barthes enfrenta elegantemente o duelo com o próprio eu, interrogando – se às vezes aflitivamente outras com lucidez incomum, sobre seu corpo, o erotismo, suas preferências sexuais e frustrações. (12)
O Óbvio e o Obtuso – 1982, obra póstuma que reuni vinte dois textos anteriormente publicados em revistas e catálogos e mais dois ainda inéditos, constitui na prática um novo volume de “ensaios críticos”, essencialmente centrados naquilo a que se poderá chamar estética do visível: a fotografia, o cinema, o teatro e a pintura, mas também a música tem aqui lugar de relevo, ocupando uma parte substancial do livro. Quanto ao título, foi escolhido com base no ensaio sobre Eisenstein (1898-1958).
Esta publicação é a reunião dos seus ensaios críticos dispersos, que apresentam reflexões sobre os sentidos dos signos, os estudos sobre a escritura do visível. Barthes parte de um questionamento sobre o conteúdo da mensagem fotográfica discorre com originalidade sobre o que ela apresenta em termos de conotação e denotação e chega aos conceitos de óbvio e obtuso, a partir da análise de fotogramas de filmes de Serguei Eisenstein. Em seguida, no ensaio O Espírito da Lente, tece elogios ao livro de Massim, que para ele é uma bela enciclopédia de informações e imagens, e partindo das observações sobre a letra ocidental, tomada em seu contexto publicitário ou pictório e em sua vocação de metamorfose figurativa, chega ao Erté ou Ao Pé da Letra. Ainda nesse livro, são de especial interesse, também seus comentários sobre o universo simbólico presente nos trabalhos de Arcimbaldo, que segundo o autor, transforma a pintura numa verdadeira língua: nela tudo significa, tudo é metáfora, ou seja “Arcimbaldo passa, assim, do jogo à grande retórica à magia, da magia à sabedoria”. Na Segunda parte, O Corpo da Música, Barthes comenta a diferença entre “ouvir” e “escutar”, para concluir, a partir das análises de Boucourechliev sobre a música de Beethoven, que está, para ser captada abstrata e sensualmente, assim como a leitura do texto moderno precisa ser operada, atraída para uma práxis desconhecida. (13)
Rumor da Língua – nos permite entrar em contato com vários de seus artigos escritos de 1964 (ano da publicação dos primeiros ensaios), até 1980, ano de sua morte. Nesse livro, o pensamento de Barthes se manifesta em discussões sobre Proust e Brecht, a linguagem do amor e da crítica literária, a definição do termo texto e os prazeres que ele evoca. Uma importante reunião de seus últimos estudos a respeito de suas maiores preocupações: a linguagem, a escrita e os signos por ela utilizados. Dividido em sete temas, ilustra a reflexão plural efetuada por ele, a qual abrange não apenas os sabores do saber de sua época – semiologia, estética, literatura, mas também os homens que os praticam: escritor, intelectual, o jovem pesquisador e o professor. Ou seja, o autor se coloca na posição de quem faz alguma coisa e não de quem fala sobre alguma coisa. (14)
Prefaciando sua exposição dos códigos e significações da novela de Balzac, ele afirma: “Interpretar um texto não é conferir a ele um sentido (mais ou menos plausível, mais ou menos livre), mas, pelo contrário, apreciar a pluralidade que o constitui”. Neste sentido Barthes consegue personificar o texto: é o texto que seduz, que deseja. Enquanto outros críticos empenham – se em sondar os segredos simbólicos ou ideológicos de uma obra, Barthes demonstra uma preocupação íntima com a manipulação verbal do suspense e com detalhes tão prosaicos quanto a cronologia da ficção. Portanto em S/Z o texto analisado, no esforço de manter seu suspense contorce como um criminoso, pois Barthes insiste através de seu método de avançar aos solavancos por entre o que é, afinal, uma narrativa melodramática e romântica. Por tudo isso S/Z é um livro sobre a leitura praticamente ilegível, um lento rastreamento em busca do prazer, enquanto texto é apenas um flerte, mas ele nos ensina a ver múltiplas camadas de interações leitor – autor pairando sobre cada página. (15)
Roland Barthes é polemista, um dos pioneiros no estudo da Semiologia, diferenciou–se dos demais semiólogos estruturalistas seguidores de Saussure, por uma particularidade: à noção acadêmica de signo, ele acrescenta a noção de sujeito. Saboroso por suas mudanças inesperadas em seu fraseado, figura contraditória, um crítico adversário, com uma intrigada gama de teorias e posições que devemos elucidar, foi ele um experimentador público. Sua influência estar vinculada aos vários projetos que esboçou e explorou, influindo de modo decisivo na mudança da forma como pensamos, a respeito de vários fenômenos culturais: da literatura, da moda e da luta livre à propaganda, passando pelas noções do eu, de história e de natureza. Roland Barthes escreveu sobre tudo, a ele nada escapa (avesso à sexualidade e a uniformidade cultural), queria ser seduzido por um tema, pois toda sua obra imensamente complexa é uma tentativa de descrever a si próprio. O produto final do engenhoso discurso crítico de Barthes nos leva a mudança de perspectiva que inclui outra: do enfoque de todo um corpus textual completo, na busca de sua matriz gerativa, por isso passou à leitura mais detalhada de textos particulares.
Barthes é indiscutivelmente o intelectual mais carismático e imponente do nosso século. Assim como Walter Benjamin, que revelou um exemplo extraordinário de crítico cultural literário durante a primeira metade do século. Para ambos a literatura era uma fonte de “inteligibilidade para nossa época”; ambos foram inimigos declarados da burguesia, ambos grandes escritores, embora seja difícil encontrar equivalentes em Benjamin, pois não seguiu a tendência formalista da estética modernista, manteve uma consciência aguda do contexto social dos textos, nunca separando a literatura do seu revestimento histórico. Barthes foi, de fato, um bibliófilo requintado, um garimpeiro de delicadezas, um intelectual brilhante, que publicou em vida vinte livros, dois outros de edição póstuma e uma centena de artigos. Sua morte coincide com a crise dos modismos franceses cujos círculos integraram.




NOTAS

1. Roland Barthes – Racine. Porto Alegre, L & PM Editores, trad. Antonio Carlos Viana, 1987. (Série Especial).
2. ____________ - O Grau Zero da Escritura, São Paulo, Editora Cultrix, trad. Heloysa de Lima Dantas/Anne Arnichand e Álvaro Lorencini, 3 ª. Edição, 1974.
3. ______________ - Elemento de Semiologia, São Paulo, Editora Cultrix, trad. Izidoro Blikstein, 1979.
4. ______________ - Michelet ( par lui – même ), São Paulo, Companhia das Letras, trad. Paulo Neves, 1991.
5. ______________ - Mitologias, São Paulo, Editora Difel, trad. Rita Buongermino e Pedro de Souza, 6 ª. Edição, 1982.
6. ______________ - Críticas e Verdades, São Paulo, Editora Perspectiva, trad. Leyla Perrone – Moisés, 1970 ( Col. Debates n º 24 ).
7. ______________ - Sade, Fourier, Loyola, São Paulo, Editora Brasiliense/Secretaria de Estado da Cultura, trad. Mario Laranjeira, 1990.
8. ______________ - O Prazer do Texto, São Paulo, Editora Perspectiva, trad. Jacó Guinsburg, 1973 ( Col. Signos n º 02).
9. ______________ - Roland Barthes por Roland Barthes, São Paulo, Editora Cultrix, trad. Leyla Perrone – Moisés, 1977.
10. ______________ - Fragmentos de um discurso amoroso, Rio de Janeiro, Editora Francisco Alves, trad. Hortênsia dos Santos, 9 ª edição, 1989.
11. ______________ - Aula, São Paulo, Editora Cultrix, trad. Leyla Perrone – Moisés, 1980.
12. ______________ - Incidentes, Rio de Janeiro, Editora Guanabara, trad. Júlio Castañon Guimarães, 1988.
13. ______________ - O Óbvio e o Obtuso, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, trad. Léa Novaes, 1990.
14. ______________ - Rumo da Língua, São Paulo, Editora Brasiliense, trad. Mario Laranjeira, 1988.
15. ______________ - S/Z, Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, trad. Léa Novaes, 1992.

Gilfrancisco Santos é jornalista, professor da Faculdade São Luis de França e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe – IHGS. E-mail: gilfrancisco.santos@gmail.com