quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O Caso Morel, Rubem Fonseca


Who is not engaged in trying to impress, to leave a mark, to engrave his image on the others and the world? We wish to die leaving our imprints burned into the hearts of others. What would life be if there were no one to remember us when we are absent, to keep us alive when we are dead? And when we are dead, suddenly or gradually, our presence, scattered in ten or ten thousand hearts, will fade and disappear. How many candles in how many hearts? Of such stuff is our hope and despair (p. 86).

Se a realidade pudesse entrar em contato direto com o nosso consciente, se pudéssemos comunicar imediatamente com as coisas e com nós mesmos, provavelmente a arte seria inútil, ou melhor, seríamos todos artistas (p. 100).

Um homem tinha medo de encontrar um assassino. Outro tinha medo de encontrar uma vítima. Um era mais sábio do que o outro (p. 102).

“Eu invejo você”, diz Vilela, “nesse aspecto, de poder parar de pensar, para pensar” (p. 103).

Nada temos a temer.
Exceto as palavras. (114).

“Interessante a construção da frase. Lava, que é uma massa ígnea de vulcão e também tempo de verbo significando limpeza; a purificação pelo fogo, como faziam com as feiticeiras. As feiticeiras eram feiticeiras porque queriam ser queimadas, você não acha?” (p. 119).

Nós humanos carregamos dentro de nós as sementes, continuamente alimentadas, de nossa própria destruição. Precisamos amar, assim como odiar. Destruir, e também criar e proteger (p. 121).

Quando Morel me convidou para a família eu concordei. Acreditava que era possível existirem laços de família que não fossem de arame farpado. O casamento institucionaliza a ideologia burguesa da segurança, corrompe a vida emocional das pessoas. Não conheço um casal feliz, um sequer. Conheço os hipócritas, construtores de fachadas-do-que-fica-bem, infelizes que à noite se deitam juntos como velhos companheiros de uma miserável hospedaria, ignorando, ou indiferentes, aos tormentos que afligem o parceiro. Esses casais têm apenas um objetivo: comprar coisas, ser respeitáveis, eficientes, influentes, todas as formas secretas ou ostensivas de corrupção. Toda esposa é uma mulher frustrada. Sou ainda muito jovem, mas observei muitas mulheres casadas, em casa, no cabeleireiro, na rua, na escola, no supermercado, em todo lugar, e são todas infelizes, umas mais conformadas ou silenciosas do que as outras, mas todas estragando própria vida, envelhecendo desgraçadas, sem poder sair do buraco em que se meteram. E os homens são também uns infelizes e sofrem tanto no seu papel autocrático e cretino quanto a mulher no dela (p. 159).

“Banho turco é uma coisa do passado, a arte víscera, sangue, corpo, é nessa que eu estou”. O ideal dela, então, era Schwarzkogler, o artista que amputou todo o corpo, começando pelo pênis, até morrer (p. 167).

“Trinta e oito carga dupla, o tamanho de um Smith especial, mas apenas a metade do peso, uma liga de antimônio e outro metal, mas o que sai daqui, do cano, mata com a mesma rapidez, tem o mesmo veneno, por isso o seu nome é Cobra... Criatividade dos homens de marketing... Se encostar na carne de alguém, na barriga, na minha, assim, ou na sua, assim, abre um rombo chamado buraco de mina... A metáfora dos que lidam com a morte é sempre muito seca... As bordas do ferimento ficam chamuscadas, negras... A mina inspiradora deve ter sido de carvão... Você me pergunta por que o senhor me ameaça com essa arma... Eu respondo, porque você mentiu para mim... Por que você mentiu para mim?” (p. 176).

FONSECA, Rubem. O Caso Morel. Rio de Janeiro: O Globo. São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.

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