segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A peste, Albert Camus


Mesmo depois de o Dr. Rieux ter reconhecido, diante do amigo, que um punhado de doentes dispersos acabavam de morrer da peste, sem aviso, o perigo continuava irreal para ele. Simplesmente, quando se é médico, faz-se uma idéia da dor e tem-se um pouco mais de imaginação. Ao olhar pela janela sua cidade que não mudara, era com dificuldade que Rieux sentia nascer dentro de si esse ligeiro temor diante do futuro, que se chama inquietação. Ele procurava reunir no seu espírito o que sabia sobre a doença. Flutuavam números na sua memória, e dizia a si próprio que umas três dezenas de pestes que a história conheceu tinham feito perto de cem milhões de mortos. Mas que são cem milhões de mortos? Quando se fez a guerra, já é muito saber o que é um morto. E já que um homem morto só tem significado se o vemos morrer, cem milhões de cadáveres semeados através da história esfumaçam-se na imaginação. O médico lembrava-se da peste de Constantinopla, que, segundo Procópio, tinha feito dez mil vítimas em um só dia. Dez mil mortos são cinco vezes o público de um grande cinema. Aí está o que se deveria fazer. Juntam-se as pessoas à saída de cinco cinemas para conduzi-las a uma praça da cidade e fazê-las morrer aos montes para se compreender alguma coisa. Ao menos, poder-se-iam colocar alguns rostos conhecidos nesse amontoado anônimo. Mas, naturalmente, isso é impossível de realizar, e depois, quem conhece dez mil rostos? Além disso, sabe-se que as pessoas como Procópio não sabiam contar. Em Cantão, há setenta anos, quarenta mil ratos tinham morrido da peste, antes que o flagelo se interessasse pelos habitantes. Mas, em 1871, não havia um meio de contar os ratos. Fazia-se o cálculo aproximado, por alto, com evidentes probabilidades de erros. Contudo, se um rato tem trinta centímetros de comprimento, quarenta mil ratos em fila dariam... (p. 31 e 32).

E uma tranqüilidade tão pacífica e tão indiferente negava quase sem esforço as velhas imagens do flagelo: Atenas empestada e abandonada pelos pássaros; as cidades chinesas cheias de moribundos silenciosos; os condenados de Marselha empilhando em covas os corpos que se liqüefaziam; a construção, na Provença, de uma muralha para deter o vento furioso da peste; Jafa e os seus mendigos horrendos, os catres úmidos e podres colados à terra batida do hospital de Constantinopla; os doentes suspensos por ganchos, o carnaval dos médicos mascarados durante a Peste Negra; os acasalamentos dos vivos nos cemitérios de Milão; as carretas de mortos na aterrada Londres; as noites e os dias em toda parte e sempre cheios de gritos intermináveis dos homens. Não, tudo isso não era bastante forte para matar a paz desse dia. Do outro lado da vidraça, a campainha de um bonde invisível tilintava de repente e refutava num segundo a crueldade e a dor. Só o mar, ao fundo do tabuleiro baço das casas, comprovava o que há de inquietação e de eterna falta de tranqüilidade neste mundo. E o Dr. Rieux, que olhava para o golfo, pensava nas fogueiras citadas por Lucrécio e que os atenienses atacados pela doença acendiam à beira do mar. Levavam os mortos para lá durante a noite, mas o lugar era pequeno e os vivos batiam-se a golpes de archote para colocarem os que lhes tinham sido queridos, sustentando lutas sangrentas para não abandonarem os cadáveres. Podia-se imaginar as fogueiras rubras diante da água tranqüila e escura, os combates de archotes na noite crepitante de fagulhas e densos vapores envenenados subindo para o céu atento. Podia-se recear... (p. 32 e 33).

Aliás, e sempre segundo o que ele dizia a Rieux, deu-se conta, com o hábito, de que, de qualquer maneira, sua vida material estava assegurada, já que lhe bastava afinal adaptar suas necessidades aos seus recursos (p. 36).

Grand chegara a assistir a uma cena curiosa com a vendedora de tabaco. No meio de uma conversa animada, ela falara de uma prisão recente que alvoroçava Argel. Tratava-se de um jovem que matara um árabe numa praia (p. 42).

– Não é o meu caso, note bem. Mas estava lendo este romance. Aí está um desgraçado que é preso de repente, numa certa manhã. Ocupavam-se dele e ele nada sabia. Falavam dele nas repartições, escreviam-lhe o nome em fichas. Acha que é justo? Acha que se tem direito de fazer isso a um homem? (p. 44).

Em outras circunstâncias, aliás, nossos concidadãos teriam encontrado uma solução numa vida mais exterior ou mais ativa. Mas, ao mesmo tempo, a peste deixava-os ociosos, reduzidos a vagar sem destino pela cidade triste e entregues, dia após dia, aos jogos enganosos da recordação, pois, nos seus passeios sem rumo, eram levados a passar sempre pelos mesmos caminhos e a maior parte das vezes, numa cidade tão pequena, os caminhos era precisamente os que, em outra época, haviam percorrido com o ausente (p. 52).
Assim, a primeira coisa que a peste trouxe a nossos concidadãos foi o exílio. E o narrador está convencido de que pode escrever aqui, em nome de todos, o que ele próprio sentiu então, já que o sentiu ao mesmo tempo que muitos dos nossos concidadãos. Sim, era realmente o sentimento do exílio esse vazio que trazíamos constantemente em nós, essa emoção precisa, o desejo irracional de voltar atrás ou, pelo contrário, de acelerar a marcha do tempo, essas flechas ardentes da memória. Se algumas vezes dávamos asas à imaginação e nos comprazíamos em esperar pelo toque de campainha que anuncia o regresso, ou pelos passos familiares na escada; se, nesses momentos, consentíamos em esquecer que os trens estavam imobilizados, se nos organizávamos para ficar em casa à hora em que normalmente um viajante podia ser trazido pelo expresso da tarde até nosso bairro, esse jogos obviamente podiam durar. Chegava sempre um momento em que nos dávamos conta claramente de que os trens não chegavam. Sabíamos, então, que nossa separação estava destinada a durar e que devíamos tentar entender-nos com o tempo. A partir de então, nos reintegrávamos, afinal, à nossa condição de prisioneiros, estávamos reduzidos ao nosso passado e, ainda que alguém fosse tentado a viver no futuro, logo renunciava, ao experimentar as feridas que a imaginação finalmente inflige aos que nela confiam (p. 52).

Nesse momento, o desmoronar da coragem, da vontade e da paciência era tão brusco, que lhes parecia que não poderiam jamais sair desse precipício. Então, restringiam-se a não pensar mais na libertação, a não se voltar para o futuro e a manter sempre, por assim dizer, os olhos baixos. Mas, naturalmente, essa prudência, essa maneira de enganar a dor, baixar a guarda para recusar o combate, eram mal recompensadas. Ao mesmo tempo em que evitavam esse desmoronamento que não queriam por preço algum, privavam-se, na verdade, dos momentos bastante freqüentes em que podiam esquecer a peste nas imagens de seu futuro reencontro. E assim encalhados a meia distância entre esses abismos e esses cumes, mais flutuavam que viviam, abandonados a dias sem rumo e recordações estéreis, sombras errantes, incapazes de se fortalecer a não ser aceitando enraizar-se na terra de sua própria dor. (p. 53).
Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados, ou seja, viver com uma memória que não serve para nada. Esse próprio passado, sobre o qual refletiam sem cessar, tinha apenas o gosto do arrependimento. Na verdade, gostariam de poder acrescentar-lhe tudo quanto lamentavam não ter feito, quando ainda podiam fazê-lo, junto a esse ou aquela que esperavam – assim como misturavam o ausente a todas as circunstâncias de sua vida de prisioneiros, mesmo as relativamente felizes, e o resultado não podia satisfazê-los. Impacientes com o presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim efetivamente com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a essas férias insuportáveis era, através da imaginação, recolocar em movimento os trens e encher as horas com os repetidos sons de uma campainha que, no entanto, se obstinava no silêncio (p. 53).

Fechavam os olhos sobre esse mundo exterior que pode sempre salvar de tudo, obstinados em acariciar suas quimeras demasiado reais e em perseguir com todas as forças as imagens de uma terra em que uma certa luz, duas ou três colinas, a árvore favorita e rosto de mulheres compunham um ambiente para eles insubstituível (p. 54).

Encontravam-se eles ainda atormentados por outras angústias, entre as quais é preciso assinalar o remorso. Essa situação, na verdade, permitia-lhes analisar o seu sentimento com uma espécie de objetividade febril. E era raro que nessas ocasiões suas próprias fraquezas não lhes aparecessem mais claramente. A primeira ocasião que encontravam para isso estava na dificuldade que tinham em imaginar com precisão os atos e os gestos do ausente. Lamentavam o desconhecimentos de como empregava o seu tempo, acusavam-se de seu descuido em informar-se disso e de como haviam fingido acreditar que, para um ser que ama, o emprego do tempo do ser amado não é a fonte de todas as alegrias. Era-lhes fácil, a partir desse momento, recordar o seu amor e examinar-lhe as imperfeições. Em épocas normais, sabíamos todos, conscientemente ou não, que não há amor que não se possa superar e aceitávamos, no entanto, com maior ou menor tranqüilidade, que o nosso permanecesse medíocre. Mas a recordação é mais exigente. E, muito logicamente, essa desgraça que nos vinha do exterior e que atingia toda uma cidade não nos trazia apenas um sofrimento injusto, com que teríamos podido indignar-nos: leva-nos a incitar sofrimentos em nós mesmos, fazendo-nos, assim, consentir na dor. Essa era uma das maneiras que a doença tinha de desviar a atenção e de baralhar as cartas (p. 54 e 55).
Assim, cada um teve de aceitar viver o dia-a-dia, só, diante do céu. Esse abandono geral que podia, com o tempo, fortalecer o caráter, começava no entanto por torná-lo fútil. Para alguns de nossos concidadãos, eles eram então submetidos a uma outra servidão que os punha a serviço do sol e da chuva. Ao vê-los, parecia que recebiam pela primeira vez, diretamente, a impressão do tempo que fazia. Suas fisionomias alegravam-se à simples visita de uma luz dourada, enquanto os dias de chuva lhes punham um véu espesso sobre o rosto e os pensamentos. Haviam escapado há algumas semanas dessa fraqueza e dessa escravidão absurdas porque não estavam sós diante do mundo e porque, numa certa medida, o ser que vivia com eles se colocava diante do seu universo. A partir desse instante, pelo contrário, ficaram aparentemente entregues aos caprichos do céu, o que significa que sofreram e esperaram sem razão (p. 55).
Enfim, nesses extremos da solidão ninguém podia contar com o auxílio do vizinho, e cada um ficava só com sua preocupação. Se alguém, por acaso, tentava fazer confidências ou dizer alguma coisa do seu sentimento, a resposta que recebia, qualquer que fosse, magoava na maior parte das vezes. Compreendia então que ele e o interlocutor não falavam da mesma coisa. Com efeito, ele se exprimia do fundo de longos dias de ruminação e de sofrimentos, e a imagem que queria transmitir ardera muito tempo no fogo da espera e da paixão. O outro, pelo contrário, imaginava uma melancolia em série. Amável ou hostil, a resposta caía sempre no vazio, era preciso renunciar a ela. Ou, pelo menos, para aqueles a quem o silêncio era insuportável, já que os outros não conseguiam encontrar a verdadeira linguagem do coração, resignavam-se a adotar a língua dos mercados e a falar, também eles, de maneira convencional, a do simples relato e do noticiário, da crônica cotidiana, de certo modo. Ainda nesse caso, as dores mais verdadeiras adquiriram o hábito de se traduzir em fórmulas banais de conversação. Só por esse preço podiam os prisioneiros da peste obter a compaixão dos porteiros ou o interesse dos ouvintes (p. 55).

De algumas casas, contudo, saíam gemidos. Antes, quando isso acontecia, viam-se muitas vezes curiosos que paravam na rua, à escuta. Mas depois desses longos alarmes, parecia que o coração de todos tinha endurecido e que caminhavam ou viviam ao lado dos queixumes como se eles fossem a linguagem natural dos homens (p. 79).

Via-se claramente que a primavera se extenuara, que se tinha prodigalizado em milhares de flores que desabrochavam por toda parte e que ia agora adormecer, esmagar-se lentamente sob o duplo peso da peste e do calor. Para todos os nossos concidadãos, o céu de verão, essas ruas que empalidecem sob os tons da poeira e do tédio, tinham o mesmo sentido ameaçador que as centenas de mortos que a cada dia pesavam sobre a cidade. O sol inclemente, estas horas com gosto de sono e de férias, já não convidavam como antes às festas da água e da carne. Pelo contrário, soavam lúgubres na cidade fechada e silenciosa. Tinham perdido o brilho metálico das estações felizes. O sol da peste apagava todas as cores e escorraçava qualquer alegria (p. 80).

E o corpo já não tinha direito às suas alegrias (p. 81).

Nos dias seguintes, repetiu-se a mesma cena, mas podiam ler-se no rosto do velho uma tristeza e uma perturbação cada vez mais manifestas (p. 81).

“... Mas essa porcaria de doença? Até os que não a apanharam, parecem trazê-la no coração” (p. 82).

Um olhar onde se lia tanta bondade (p. 83).

Todos os dias, por volta de onze horas, nas artérias principais, há um desfile de homens e de mulheres jovens, em que se pode sentir essa paixão de viver que cresce no seio das grandes desgraças (p. 85).

Todos se precipitam, pelo contrário, para qualquer coisa que mal conhecem ou que lhes parece mais urgente que Deus. A princípio, quando achavam que era uma doença como as outras, a religião tinha prestígio. Mas quando viram que o caso era sério, lembraram-se do prazer. Toda a angústia que se pinta durante o dia nos rostos se dissolve então, no crepúsculo ardente e poeirento, numa espécie de excitação desvairada, numa liberdade desajeitada que inflama todo um povo (p. 86).
E também eu sou como eles. Puro engano! A morte nada é para os homens como eu. É um acontecimento que lhes dá razão (p. 86).

Rieux voltou-se para a janela. Adivinhava ao longe o mar por uma condensação mais escura do horizonte. Sentia apenas seu cansaço e lutava ao mesmo tempo contra um desejo súbito e irracional de se abrir um pouco mais com esse homem um pouco singular, mas que sentia fraternal (p. 90).

O semblante de Rieux pareceu anuviar-se (p. 91).

No patamar, o médico tentou em vão acender a luz. As escadas continuaram mergulhadas na noite. O médico perguntava a si mesmo se seria o efeito de uma nova medida de economia. Mas não se podia saber. Já há algum tempo que tudo nas casas e na cidade se estragava (p. 91).

Mas o narrador está antes tentado a acreditar que, ao dar demasiada importância às belas ações, se presta finalmente uma homenagem indireta e poderosa ao mal. Pois, nesse caso, se estaria supondo que essas belas ações só valem tanto por serem raras e que a maldade e a indiferença são forças motrizes bem mais freqüentes nas ações dos homens. Essa é uma idéia de que o narrador não compartilha. O mal que existe no mundo provém quase sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode causar tantos danos quanto a maldade. Os homens são mais bons que maus e, na verdade, a questão não é essa. Mas ignoram mais ou menos, e é isso que se chama virtude ou vício, sendo o vício mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza, então, a matar. A alma do assassino é cega, e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível (p. 93).
“que o senhor faz serviço voluntário nas equipes sanitárias, fora do seu trabalho. nada tenho com isso. o que me diz respeito é o seu trabalho aqui. E a primeira maneira de se tornar útil nesses terríveis circunstâncias é fazer bem seu trabalho. ou senão o resto não serve para nada” (p. 96).

Estava fatigado por essa busca que o absorvia por completo (p. 97).

À meia-noite, por vezes, no grande silêncio da cidade então deserta, no momento de voltar à cama para um sono demasiado curto, o médico girava o botão de seu aparelho. E dos confins do mundo, através de milhares de quilômetros, vozes desconhecidas e fraternas tentavam desajeitadamente dizer sua solidariedade e diziam, de fato, mas demonstravam ao mesmo tempo a terrível impotência em que se encontra todo homem de compartilhar verdadeiramente uma dor que não pode ver (p. 98).

Era essa sua maneira de recusar a servidão que os ameaçava, e embora essa recusa, aparentemente, não fosse tão eficaz quanto a outra, a opinião do narrador é que ela tinha efetivamente um sentido e comprovava também nas suas próprias vaidades e contradições o que havia então de altivez em cada um de nós (p. 98).

Fuzilaram-se dois ladrões, mas não é certo que isso impressionasse os outros, pois no meio de tantos mortos, as duas execuções passaram despercebidas: eram uma gota de água no oceano (p. 120).

Sob os céus enluarados, ela alinhava os muros esbranquiçados e suas ruas retilíneas, jamais perturbadas pelos passos de um transeunte ou pelo latido de um cão. A grande cidade silenciosa não passava então de um aglomerado de cubos maciços e inertes, entre os quais as efígies taciturnas de benfeitores esquecidos ou de grandes homens antigos, sufocados para sempre no bronze, tentavam sozinhos, com seus falsos rostos de pedra ou de bronze, evocar uma imagem degradada do que fora o homem. Esses ídolos medíocres reinavam sob um céu espesso nas encruzilhadas sem vida, brutos insensíveis que bem representavam o reino imóvel em que havíamos entrado ou pelo menos, a sua ordem última, a de uma necrópole em que a peste, a pedra e a noite teriam feito calar, enfim, todas as vozes (p. 120).
Mas a noite também estava em todos os corações, e as verdades, como as lendas que se contavam sobre os enterros, não eram feitas para tranqüilizar nossos concidadãos. Porque é efetivamente necessário falar dos enterros, e o narrador pede desculpas (p. 120).

Pois bem, o que caracterizava no início nossas cerimônias era a rapidez! Todas as formalidades haviam sido simplificadas e, de uma maneira geral, a pompa fúnebre fora suprimida. Os doentes morriam longe da família e tinham sido proibidos os velórios rituais, de modo que os que morriam à tardinha passavam a noite sós e os que morriam de dia eram enterrados sem demora. Naturalmente, a família era avisada, mas, na maior parte dos casos, não podia deslocar-se por estar de quarentena, se tinha vivido perto do doente. No caso de a família não morar com o defunto, apresentava-se à hora indicada da partida para o cemitério, depois de o corpo ter sido lavado e colocado no caixão. (p. 121).

A esse respeito, o narrador sabe perfeitamente quanto é lamentável não poder relatar aqui algo de verdadeiramente espetacular como, por exemplo, algum herói altruísta ou alguma ação brilhante, semelhantes aos que se encontram nas velhas histórias. É que nada é menos espetacular que um flagelo e, pela sua própria duração, as grandes desgraças são monótonas. Na lembrança dos sobreviventes, os dias terríveis da peste não surgem como grandes chamas intermináveis e cruéis e sim como um interminável tropel que tudo esmaga à passagem (p. 126).

Teriam nossos concidadãos, pelo menos os que mais haviam sofrido com essa separação, se habituado à situação? Não seria inteiramente justa essa afirmação. Seria mais exato afirmar que, tanto moral quanto fisicamente, sofriam com a desencarnação. No começo da peste, lembravam-se nitidamente do rosto amado, de seu riso, de determinado dia que agora reconheciam ter sido feliz, tinham memória, mas uma imaginação insuficiente. Na segunda fase da peste, perderam também a memória. Não que tivessem esquecido esse rosto, mas, o que vem a dar no mesmo, ele perdera a carne, já não o sentiam no interior de si próprios. E, enquanto tendiam a queixar-se, nas primeiras semanas, de só lhes restarem sombras das coisas amadas, compreenderam, com a continuação, que essas sombras podiam tornar-se ainda mais descarnadas ao perderem até as cores ínfimas que a recordação conservava. Ao fim desse longo tempo de separação já não imaginavam essa intimidade que fora sua, nem como havia podido viver perto deles um ser em que podiam a todo momento pousar a mão (p. 126 e 127).
Desse ponto de vista, tinham entrado na própria ordem da peste, tanto mais eficaz quanto mais medíocre era. Ninguém mais, entre nós, tinha grandes sentimentos. Mas todos experimentavam sentimentos monótonos. “É tempo de acabar com isso”, diziam nossos concidadãos, porque em período de flagelo é normal desejar o fim dos sofrimentos coletivos, e na verdade desejavam que aquilo acabasse. Mas tudo isso se dizia sem o calor e sem o sentimento amargo do princípio e apenas com as poucas razões que nos restavam ainda claras e que eram bem pobres. Ao grande impulso feroz das primeiras semanas, sucedera um abatimento que seria erro considerar como resignação, mas que nem por isso deixava de ser uma espécie de aquiescência provisória (p. 127).
Nossos concidadãos tinham-se adaptado, como se costuma dizer, porque não havia outro modo de proceder. Tinham ainda, naturalmente, a atitude da desgraça e do sofrimento, mas já não os sentiam. De resto, o Dr, Rieux, por exemplo, achava que essa era justamente a desgraça e que o hábito do desespero é pior que o próprio desespero. Antes, os separados não eram realmente infelizes, pois havia no seu sofrimento uma luz que acabava de se extinguir. Agora, eram vistos pelas esquinas, nos cafés ou em casa dos amigos, plácidos e distraídos, e com um ar tão entediado que, graças a eles, toda a cidade parecia uma sala de espera. Os que tinham uma profissão executavam-na ao ritmo da própria peste, meticulosamente e sem brilho. Todos eram modestos. Pela primeira vez, os separados não tinham repugnância em falar dos ausentes, em usar a linguagem de todos, em examinar sua separação sob o mesmo enfoque que as estatísticas da epidemia. Enquanto, até então, tinham subtraído ferozmente seu sofrimento à desgraça coletiva, aceitavam agora a confusão. Sem memórias e sem esperança, instalavam-se no presente. Na verdade, tudo se tornava presente para eles. A Peste, é preciso que se diga, tirara a todos o poder do amor e até mesmo da amizade. Porque o amor exige um pouco de futuro e para nós só havia instantes (p. 127).

Era preciso que eles sentissem, inopinadamente e por efeito de alguma graça, a mordida de um ciúme sem objeto. Outros encontravam também renascimentos súbitos, saíam do seu torpor em certos dias da semana, no domingo, naturalmente, e aos sábados à tarde, porque esses dias eram consagrados a certos ritos, do tempo do ausente. Ou, então, uma certa melancolia que os invadia ao fim da tarde dava-lhes o aviso, aliás, nem sempre confirmado, de que a memória ia voltar. Essa hora da tarde, que para os crentes é a do exame de consciência, é dura para o prisioneiro ou o exilado que só pode examinar o vácuo. Ela os mantinha suspensos por um momento; depois, voltavam à atonia, encerravam-se na peste (p. 128).
Já se compreendeu que isso consistia em renunciarem ao que tinham de mais pessoal. Ao passo que nos primeiros tempos da peste eles se surpreendiam com a quantidade de pequenas coisas que contavam muito para eles, sem terem qualquer evidência para os outros, e faziam assim a experiência da vida pessoal; agora pelo contrário, só se interessavam por aquilo que interessa aos outros, já não tinham senão idéias gerias e seu próprio amor assumira para eles a forma mais abstrata. Estavam a tal ponto abandonados à peste que lhes acontecia às vezes só desejarem o sono e surpreenderem-se a pensar: “Que venham logo os tumores e se acabe com isso!” Mas, na realidade, já estavam dormindo, e todo esse tempo não foi mais que um longo sono. A cidade estava povoada por sonolentos acordados que só escapavam realmente ao seu destino nos raros momentos em que, de noite, sua ferida aparentemente fechada se reabria bruscamente. E , despertados, em sobressalto, apalpavam então, distraídos, os bordos irritados dessa ferida, redescobrindo num lampejo seu sofrimento, subitamente rejuvenescido e com ele, a imagem perturbada do seu amor. De manhã, voltavam ao flagelo, quer dizer, à rotina (p. 128).
Mas, perguntar-se-á, que aspecto tinham esses separados? Pois bem, muito simples: não tinham aspecto nenhum. Ou, se se prefere, tinham o aspecto de todos, um aspecto *inteiramente geral. Compartilhavam a placidez e as agitações pueris da cidade. Perdiam as aparências do senso crítico ao mesmo tempo em que ganhavam sangue-frio. Podia-se ver, por exemplo, os mais inteligentes fingirem procurar, como todos, nos jornais ou nas emissões radiofônicas, razões para acreditar num fim rápido da peste e conceberem, aparentemente, esperanças quiméricas ou sentirem receios sem fundamento ao ler considerações que um jornalista havia escrito um pouco ao acaso, bocejando de tédio. Os demais bebiam sua cerveja ou tratavam de seus doentes, preguiçavam ou se esgotavam, arquivavam fichas ou faziam girar discos sem se distinguirem muito uns dos outros. Em outras palavras: já não escolhiam nada. A peste suprimira os juízos de valor. E isso se via pela maneira como ninguém mais se ocupava da qualidade do vestuário ou dos alimentos que se compravam. Aceitava-se tudo em bloco (p. 129).
Para encerrar, pode-se dizer que os separados já não tinham esse curioso privilégio que no princípio os preservava. Tinham perdido o egoísmo do amor e as vantagens que dele tiravam. Pelo menos agora, a situação era clara: o flagelo era problema de todos. Todos nós, no meio das detonações que irrompiam às portas da cidade, dos carimbos que marcavam o compasso de nossa vida ou de nossa morte, em meio aos incêndios e às fichas, ao terror e às formalidades, prometidos a uma morte ignominiosa, mas registrada, entre fumaças terríveis e as sirenes tranqüilas das ambulâncias, todos nós nos nutríamos do mesmo pão do exílio, esperando sem o saber a mesma reunião e a mesma paz perturbadoras. Nosso amor, sem dúvida, estava presente ainda, mas simplesmente era inutilizável, pesado, inerte, estéril, como o crime ou a condenação. Não era mais que uma paciência sem futuro e uma espera obstinada. E, desse ponto de vista, a atitude de alguns de nossos concidadãos fazia pensar nas longas filas, nos quatro cantos da cidade, diante das lojas de alimentos. Era a mesma resignação e a mesma persistência, ao mesmo tempo ilimitada a uma escala mil vezes maior no que diz respeito à separação, porque se tratava então de uma outra fome, capaz de tudo devorar (p. 129).

Porque, estranhamente, o que chegava então dos terraços ainda ensolarados, na ausência dos ruídos de veículos e de máquinas que normalmente constituem toda a linguagem das cidades, era apenas um rumor de passos e de vozes surdas, o doloroso deslizar de milhares de solas, ritmado pelo silvo do flagelo no céu pesado, um interminável e sufocante arrastar de pés que enchia pouco a pouco toda a cidade e que, tarde após tarde, dava sua voz mais fiel e mais melancólica à obstinação cega que, em nossos corações, substituía então o amor (p. 130).

Era por tais fraquezas que Rieux podia julgar seu cansaço. A sensibilidade lhe fugia. Amarrada a maior parte do tempo, endurecida e seca, irrompia de vez em quando e abandonava-o a emoções que já não conseguia dominar. Sua única defesa era refugiar-se neste endurecimento e apertar o nó que nele se formara. Sabia efetivamente que essa era a melhor maneira de continuar. Quanto ao resto, não tinha muitas ilusões e seu cansaço tirava-lhe as que ainda conservava. Porque sabia que, durante um período cujo término não conseguia vislumbrar, seu papel já não era o de curar. Seu papel era diagnosticar. Descobrir, ver, descrever, registrar, depois condenar, essa era sua tarefa (p. 133).
Não, não eram socorros que ele distribuía durante todo o dia e sim informações. Aquilo, é claro, não se podia chamar uma profissão de homem. Mas, afinal, a quem, então, aquela multidão aterrorizada e dizimada tinha deixado tempo para exercer a profissão de homem? Ainda bem que havia a fadiga. Se Rieux estivesse mais vigoroso, aquele cheiro de morte espalhado por toda a parte poderia tê-lo tornado sentimental. Mas quando só se dorme quatro horas não se é sentimental. Vêem-se as coisas como elas são, isto é, vêem-se segundo a justiça, a horrenda e irrisória justiça (p. 133).

As mãos que agora pareciam garras raspavam suavemente os flancos do leito. Depois subiram, coçaram o cobertor perto dos joelhos e, de repente, o pequeno dobrou as pernas, aproximou as coxas do ventre e imobilizou-se. Abriu então os olhos pela primeira vez e olhou para Rieux, que se encontrava diante dele. No rosto cavado, agora como que fixado numa argila cinzenta, a boca abriu-se e, quase imediatamente, emitiu um único grito contínuo que a respiração mal modulava e que encheu de súbito a sala de um protesto monótono, desafinado e tão pouco humano que parecia vir de todos os homens ao mesmo tempo (p. 150).

Mas a criança continuava a gritar e, à sua volta, os doentes agitaram-se. Aquele cujas exclamações não haviam cessado no outro extremo da sala, precipitou o ritmo de seu lamento até fazer dele também um verdadeiro grito, enquanto os outros gemiam cada vez com mais força. Uma maré de soluços irrompeu na sala, cobrindo a oração de Paneloux, e Rieux, agarrado à barra do leito, fechou os olhos, bêbado de cansaço e de desgosto. (p. 150).

Ter-lhe-ia sido fácil dizer que a eternidade das delícias que esperavam a criança podia compen*sar seu sofrimento, mas, na verdade, ele nada sabia. Quem podia afirmar que a eternidade de uma alegria podia compensar um instante da dor humana? Não seria um cristão, certamente, cujo Mestre conheceu a dor nos membros e na alma. Não, o padre continuaria encostado à muralha, fiel a esse esquartejamento de que a cruz era o símbolo, diante do sofrimento de uma criança (p. 156).

Digamos que meu pai me mandou procurar, que fui vê-lo e que, sem lhe explicar nada, disse-lhe que me mataria se ele me forçasse a voltar. Acabou aceitando, pois era cordato por temperamento, fez-me um discurso sobre a estupidez que havia em eu querer viver minha vida – era assim que ele explicava o meu gesto, e eu não o dissuadi –, deu-me mil conselhos e reprimiu as lágrimas sinceras que lhe vinham aos olhos (p. 173).

“Nunca viu um homem ser fuzilado? Não, com certeza, isso se faz, em geral, a convite, e o público é escolhido antecipadamente. O resultado é o que o senhor conhece apenas pelas gravuras e pelos livros. Uma venda, um barrote e, longe, alguns soldados, pois bem, não é nada disso. Sabe que o pelotão se coloca a um metro e meio do condenado? Sabe que, se o condenado desse dois passos à frente, bateria com o peito nas espingardas? Sabe que, a essa curta distância, os executores concentram todos os tiros na região do coração e que, entre todos, com suas grandes balas, fazem um buraco onde se poderia meter o punho? Não, não sabe, pois são pormenores de que não se fala. O sono dos homens é mais sagrado que a vida dos empestados. Não se deve impedir as pessoas decentes de dormir. Seria mau gosto, e o gosto consiste em não insistir, todos sabem disso. Mas eu, por mim, não dormi bem desde aquela época. O gosto ruim me ficou na boca e desde então não deixei de insistir, quer dizer, de pensar” (p. 174).

Na cidade lúgubre e gelada, algumas crianças corriam, ignorantes ainda do que as ameaçava. Mas ninguém ousava anunciar-lhes o Deus de outrora, carregado de oferendas, velho como o sofrimento humano, mas novo como a jovem esperança. Só havia lugar no coração de todos para uma esperança muito velha e muito taciturna, a mesma que impede os homens de se entregarem à morte e que não é mais que simples obstinação em viver (p. 181).

Rieux sabia o que pensava nesse minuto aquele velho que chorava e achava, como ele, que este mundo sem amor era como um mundo morto e que chega sempre uma hora em que nos cansamos das prisões, do trabalho e da coragem, para reclamar o rosto de um ser e o coração maravilhoso da ternura (p. 181).

Rieux balançava a cabeça para mostrar aprovação, incapaz de pronunciar uma palavra. Essa tristeza era também sua, e o aperto que sentia no coração nesse momento era a imensa cólera que surge no homem diante da dor que todos os homens compartilham (p. 181).

Ao meio-dia, a febre chegava ao máximo. Uma espécie de tosse visceral sacudia o corpo do doente, que começou a escarrar sangue. Os gânglios tinham parado de inchar. Continuavam lá, duros como porcas atarraxadas no vão das articulações, e Rieux julgou impossível abri-los. Nos intervalos da febre e da tosse, Tarrou uma vez ou outra olhava ainda para os amigos. Mas logo os olhos começaram a abrir-se cada vez menos, e a luz que vinha agora iluminar-lhe o rosto tornava-se cada vez mais pálida. A tempestade que sacudia seu corpo de sobressaltos convulsivos iluminava-o de relâmpagos cada vez mais raros, e Tarrou estava à deriva, lentamente, no fundo dessa tormenta. Rieux já não tinha diante de si senão uma máscara agora inerte, de onde o sorriso tinha desaparecido. Essa forma humana que lhe fora tão próxima, crivada agora de golpes de lança, queimada por um mal sobre-humano, retorcida pelos ventos rancorosos do céu, mergulhava diante de seus olhos nas águas da peste, e ele nada podia contra esse naufrágio. Tinha de ficar na margem, com as mãos vazias e o coração oprimido, *sem armas e sem recursos, uma vez mais, contra esse desastre. E, no fim, foram efetivamente as lágrimas da impotência que impediram Rieux de ver Tarrou encostar-se bruscamente na parede e expirar, num lamento surdo, como se em qualquer parte dentro dele uma corda essencial se tivesse rompido. (p. 200).

Ele sabia o que a mãe pensava e que nesse momento ela o amava. Mas sabia também que não é grande coisa amar um ser, ou que, pelo menos, um amor não é nunca bastante forte para encontrar sua própria expressão. Assim, sua mãe e ele sempre se amariam em silêncio. E ela morreria por sua vez – ou ele – sem que, durante toda a vida, tivessem conseguido ir mais longe na confissão de sua ternura. Da mesma forma, ele tinha vivido ao lado de Tarrou e essa noite ele morrera, se que sua amizade tivesse tido tempo de ser verdadeiramente vivida. Tarrou perdera a partida, como ele dizia. Mas ele, Rieux, o que tinha ganho? Lucrara apenas por ter conhecido a peste e lembrar-se dela, ter conhecido a amizade e lembrar-se dela, conhecer a ternura e haver um dia de lembrar-se dela. Tudo o que o homem podia ganhar no jogo da peste e da vida era o conhecimento e a memória. Talvez fosse a isso que Tarrou chamava ganhar a partida (p. 201).

Sim, iria descansar lá. Por que não? Seria também um pretexto para recordar. Mas se era isso ganhar a partida, como devia ser duro viver apenas com o que se sabe e aquilo de que se tem lembrança, privado do que se espera. Era assim, sem dúvida, que Tarrou tinha vivido, e ele tinha consciência do que há de estéril numa vida sem ilusões. Não há paz sem esperança, e Tarrou, que recusava aos homens o direito de condenar quem quer que fosse, que sabia, contudo, que ninguém pode impedir de condenar e que até as vítimas se encontravam, às vezes, no papel de carrascos, Tarrou tinha vivido no sofrimento e na contradição, jamais conhecera a esperança. Seria por isso que ele tinha querido a santidade e buscara a paz a serviço dos homens? Na verdade, Rieux nada sabia, e isso pouco lhe importava. As únicas imagens de Tarrou que conservaria seriam as de um homem que pegava no volante do seu automóvel com mãos *firmes, para dirigi-lo, ou as deste corpo espesso estendido agora, sem movimento. Um calor de vida e uma imagem de morte, era isso o conhecimento (p. 201 e 202).

Na verdade, os apaixonados estavam entregues a sua idéia fixa. Uma única coisa mudara para eles: esse tempo que, durante os meses do exílio, teriam desejado empurrar para que se apressasse, que se empenhavam em precipitar ainda, agora que já se encontravam diante de nossa cidade, desejaram freá-lo, pelo contrário, e mantê-lo suspenso desde que o trem começava a reduzir a marcha antes da parada. O sentimento, ao mesmo tempo vago e agudo, que havia neles, de todos esses meses de vida perdidos para o amor, fazia-os exigir confusamente uma espécie de compensação, pela qual o tempo da alegria teria ocorrido duas vezes mais devagar que o da espera. E aqueles que os esperavam num quarto ou cais, como Rambert, cuja mulher, avisada há semanas, fizera o necessário para chegar, encontravam-se na mesma impaciência e no mesmo tumulto. Porque esse amor ou essa ternura que os meses da peste tinham reduzido à abstração, Rambert esperava, num tremor, confrontá-los com o ser de carne que tinha sido seu sustentáculo (p. 203).
Teria desejado voltar a ser aquele que, no princípio da epidemia, queria correr, com um único impulso, para fora da cidade e atirar-se ao encontro daquela que amava. Mas sabia que isso não era mais possível. Ele mudara, a peste tinha deixado nele uma distração que, com todas as suas forças, tentava negar, e que, entretanto, continuava nele como uma angústia surda. De certa forma, tinha o sentimento de que a peste terminara com demasiada brutalidade, de que não recuperara sua presença de espírito. A felicidade chegava com todo o ímpeto, o acontecimento ia mais depressa que a expectativa. Rambert compreendia que tudo lhe seria devolvido de uma vez e que a alegria é uma queimadura que não se saboreia (p. 203).

Apertados uns contra os outros, todos voltaram então para casa, alheios ao resto do mundo, aparentemente vencedores da peste, esquecidos de toda a desgraça e daqueles que, vindos no mesmo trem, não tinham encontrado ninguém e se dispunham a receber em casa a confirmação dos temores que um longo silêncio já fizera nascer nos corações. Para estes últimos, que não tinham agora por companhia senão a dor muito recente, para outros que se consagravam, nesse momento, à recordação de um ser desaparecido, tudo se passava de modo muito diferente, e o sentimento da separação tinha atingido o auge. Para esses – mães, esposos, amantes que tinham perdido toda a alegria com o ser agora abandonado numa cova anônima ou fundido num monte de cinza – era ainda a peste (p. 204).

Porque esses casais encantados, estreitamente enlaçados e avarentos de palavras, afirmavam, em meio ao tumulto, com todo o triunfo e toda a injustiça da felicidade, que acabara a peste e o terror chegara ao fim. Negavam tranqüilamente, contra toda a evidência, que tivéssemos jamais conhecido esse mundo insensato em que o assassinato de um homem era tão cotidiano quanto o das moscas, essa selvageria bem definida, esse delírio calculado, essa prisão que trazia consigo uma pavorosa liberdade em relação a tudo o que não era o presente, esse cheiro de morte, que entorpecia todos aqueles a quem não matava – negavam, enfim, que tivesse*mos sido esse povo atordoado de que todos os dias uma parte, empilhada na boca de um forno, se evaporava em fumaça gordurosa, enquanto a outra, carregada com as cadeias da impotência e do medo, esperava sua vez (p. 205 e 206).

A partir do momento em que a peste tinha fechado as portas da cidade, só tinham vivido na separação, tinham sido afastados desse calor humano que faz esquecer tudo. Em graus diversos, em todos os cantos da cidade, esses homens e essas mulheres tinham aspirado a uma reunião que não era igualmente impossível. A maior parte tinha gritado com todas as suas forças por um ausente, o calor de um corpo, a ternura ou o hábito. Alguns, muitas vezes sem o saber, sofriam por estar colocados fora da amizade dos homens, de já não poderem comunicar-se com eles pelos meios normais da amizade, que são as cartas, os trens e os navios. Outros, mais raros, como Tarrou, talvez, tinham desejado a reunião com qualquer coisa que não podiam definir mas que lhes parecia o único bem desejável. E, à falta de outro nome, chamavam-lhe, às vezes, paz (p. 206).

Quando se encontrava tentado a misturar diretamente sua confidência às mil vozes das vítimas da peste, era detido pelo pensamento de que não havia um só de seus sofrimentos que não fosse ao mesmo o dos outros e que, num mundo em que a dor é tantas vezes solitária, isso era uma vantagem. Decididamente, devia falar por todos (p. 208 e 209).

Em meio aos gritos que redobravam de força e de duração, que repercutiam longamente junto do terraço, à medida que as chuvas multicores se elevavam mais numerosas no céu, o Dr. Rieux decidiu, então, redigir esta narrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor dessas vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar (p. 213).

CAMUS, Albert. A peste. São Paulo: Círculo do livro S.A. Record.

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