terça-feira, 30 de março de 2010

Arte e Melancolia, Charles Feitosa


O termo melancolia vem do grego, mas hoje é o estado afetivo mais associado a escritores, pintores, filósofos e intelectuais.

Charles Feitosa para François Zourabichvili,
in memoriam

Cheguei há pouco tempo a Berlim e o que mais me impressionou na minha primeira noite, além do frio ainda rigoroso para o mês de abril, foi o silêncio sepulcral a rondar o prédio onde estou hospedado. Não havia nenhuma televisão ligada, nenhum rádio sintonizado, nenhuma cantoria no bar da esquina, nenhum grito de criança. Senti um pouco de falta da agitação da cidade do Rio de Janeiro e acabei ficando com um pouco de dor de cabeça de tanto silêncio. Fico me perguntando se toda a população da cidade foi abduzida ou foi uma bomba de nêutrons que caiu, mas já na manhã seguinte percebo que os vizinhos estão bem vivos, pois a moradora do andar de baixo veio reclamar bem cedo do barulho que fiz durante a noite.
O respeito ao silêncio é uma das principais características da cultura alemã. Essa tranqüilidade pode ser tanto um convite para a reflexão como para a melancolia, tudo depende da atitude. Por coincidência, descobri uma grande exposição sobre a melancolia na arte na Nova Galeria Nacional de Berlim. Nada mais adequado para essa atmosfera de frio e silêncio. O mês de abril é uma época intermediária em que o inverno ainda não foi totalmente embora e a primavera ainda não se instalou definitivamente. Em abril chove, neva e faz sol no intervalo de uma hora. Aproveito a instabilidade do tempo para ir à exposição que começou em fevereiro e está nas suas últimas semanas. Após enfrentar uma fila que dava a volta no prédio, passei as três horas seguintes em uma grande viagem histórica e estética. A exposição começa com uma questão atribuída a Aristóteles: "Por que razão todos aqueles que se destacam na filosofia, na política, na poesia ou nas artes são melancólicos?" (Problemata XXX). O diagnóstico aristotélico da relação necessária entre criatividade e tristeza não é discutido, infelizmente, durante a exposição, mas fica evidente a quantidade de imagens inspiradas no tema em toda a história ocidental da arte.

O guerreiro grego que se sente humilhado por não ter seus feitos heróicos reconhecidos e que comete suicídio.
O termo melancolia vem do grego melankholia. É formado pela associação das palavras kholê [bílis] e mêlas [escuro]. Melancolia significa literalmente a bílis negra, uma das muitas substâncias constituintes do corpo humano segundo a medicina antiga, mas que em excesso provocaria uma desordem cujo principal sintoma seria o afundamento nos próprios pensamentos e a perda de interesse pelo mundo exterior. Supõe-se que a existência da bílis negra tenha sido deduzida da observação de vômitos de cor escura, mas os textos antigos não dão indícios de uma observação empírica. A bílis escura parece ter um caráter imaterial e uma grande força simbólica. Ainda segundo Aristóteles, uma das principais características dos melancólicos seria a propensão a se deixar levar pela imaginação. A melancolia teria, portanto, um caráter ambíguo na cultura grega: era tanto uma doença perigosa, que podia levar ao suicídio, quanto um estado de fermentação da alma, um instante de calmaria antes da explosão de novas idéias e formas.
Com o passar do tempo, melancolia passou a designar muito mais os sintomas da crise e não suas causas fisiológicas, mas desde Aristóteles até Walter Benjamin (1892-1940) continua sendo o estado afetivo mais freqüentemente associado a escritores, pintores, filósofos e intelectuais. Foi interessante notar, na exposição em Berlim, como a posição corporal que expressa a melancolia parece não ter se modificado durante mais de dois mil anos de história ocidental. Da antiguidade ao século 21, vê-se repetidamente a cabeça pendendo sobre a mão, o olhar perdido, o corpo curvado sob o peso da existência.
A cultura cristã também deu uma importante contribuição para a história da melancolia na arte ocidental. A exposição em Berlim mostra diversas imagens associadas à acédia, também chamado de "mal dos monges e dos eremitas", ou seja, daqueles que buscavam o isolamento, geralmente no deserto, como uma forma de protesto contra a decadência moral das sociedades em que viviam. A palavra acédia vem do grego clássico akaedia, que significa literalmente ausência de cuidado, tristeza, indiferença, negligência. A literatura cristã a partir do século 3 d. C. confere à acédia, entretanto, um caráter predominantemente negativo, como uma patologia que leva à destruição, geralmente provocada por demônios e superada somente por meio do exercício de uma vida santificada. A acédia, assim como a melancolia, desencadeia os poderes da imaginação, mas suas imagens serão interpretadas na Idade Média primariamente como representações do mal, do pecado e do vício.
Somente a partir do Renascimento é retomada a tradição aristotélica segundo a qual o melancólico é também um homem criativo e genial. Essa mudança de perspectiva está representada pela famosa gravura de Dürer intitulada Melancolia I, obra central da exposição em Berlim. O temperamento melancólico parece personificado na figura de uma mulher alada, cercada de instrumentos de arte e de ciência, em um momento de solidão noturna, olhando concentrada para um horizonte onde se vê um arco-íris e um cometa. A cena parece indicar que a melancolia pode ser uma experiência de interiorização profunda e fértil, um estado afetivo propício a todo ser que tenha como projeto compreender e modificar o mundo. A obra de Dürer enfatiza as visões superiores, às quais a melancolia pode nos conduzir, mas não oculta o peso e a imobilidade que inflige simultaneamente ao corpo.
A modernidade vai oscilar entre um certo culto à melancolia e às tentativas isoladas de dissociá-la da criatividade. Artistas românticos e expressionistas vão privilegiar o indivíduo sensível à margem da sociedade, através de uma exaltação da solidão, do desespero, da loucura. Influenciados por Immanuel Kant (1724-1804), que via no temperamento melancólico uma marca da sensibilidade do gênio, diversos escritores e pintores, entre eles Goya (1746-1828) e Baudelaire (1821-1867), vão criar suas obras sob o signo de Saturno, o deus/planeta que rege o tempo, a destruição e causa inquietude na alma. Cada vez mais fica fortalecida a crença de que o ser humano é fundamentalmente melancólico, dominado por uma sensação de vazio interior.

O silêncio, de Johann Heinrich Füssli, 1799-1802
Embora possa ser vista na exposição um retrato de Nietzsche (1844-1900) com fisionomia melancólica (de Karl Bauer,1902) é justamente dele uma iniciativa de resistência à moda da melancolia. Nietzsche vai desenvolver uma teoria da criatividade associada à alegria e à vontade de viver. O culto ao peso e à melancolia parece-lhe antes um dos sintomas do niilismo europeu. Seu projeto de uma "Gaia Ciência" escolhe não o eremita nem o monge como modelo, mas a criança que brinca, o homem que dança, a mulher que canta. A exposição, infelizmente, ignora essas discussões filosóficas e termina com obras contemporâneas que revelam imagens atuais da melancolia, associadas dessa vez ao tédio do cidadão das grandes metrópoles.
Os jornais alemães aproveitam o pretexto e promovem um debate insólito: a melancolia é um sentimento tipicamente alemão? Olho pela janela e vejo os primeiros sinais da primavera nas árvores e nos jardins. Penso que a melancolia não é um sentimento ligado à nação, mas ao clima, vinculado muito mais às sombras do inverno do que às supostas características de um povo. A exposição acabou na primeira semana de maio, justamente na primeira semana de temperaturas mais quentes e agradáveis. O verão e o sol se aproximam, as pessoas parecem mais bem-humoradas na rua, então chega de melancolia, agora é hora de alegria!
Charles Feitosa é professor de Filosofia na UNIRIO e realiza atualmente pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Potsdam/Alemanha, com bolsa DAAD-CAPES.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Freud em português, Renato Mezan


Se alguém nos pedir uma lista das pessoas que mais marcaram o século XX, é quase certo que dela constará o nome de Sigmund Freud. E com bons motivos: além de ter inventado a psicoterapia, possibilitando a inúmeras pessoas alívio para sofrimentos psíquicos até então intratáveis, suas descobertas contribuíram para moldar a imagem que o homem ocidental tem de si mesmo. Ao incorporar muitas delas na construção de personagens e enredos, a literatura, o teatro e o cinema as popularizaram, criando modelos que influenciam nossos comportamentos e atitudes na vida amorosa, na educação das crianças e em muitos outros setores da existência.

Como as idéias freudianas alcançaram tamanha divulgação? Além da originalidade e do poder libertador que encerram, Freud era excelente escritor, capaz de expor seu pensamento com clareza e servindo-se de uma vasta gama de procedimentos literários. Outra razão foi ter se dedicado com afinco ao que chamava “o movimento psicanalítico”, isto é, à formação de discípulos que formaram outros e organizaram instituições destinadas a preservar, aprofundar e difundir a Psicanálise. Nessas associações, o estudo dos escritos do mestre é parte fundamental do treinamento de todo novo analista, pois constituem a base da prática clínica.

Durante as primeiras décadas do século XX, o fato de estarem em alemão não criava dificuldades especiais, tanto porque a maioria dos analistas era da Europa Central, quanto porque o idioma de Goethe era uma das principais línguas científicas do mundo. O interesse pela nova disciplina suscitou traduções para o inglês, o francês e o espanhol, algumas supervisionadas pelo próprio Freud, que era fluente nessas três línguas.

Embora nem sempre precisas no sentido conceitual, e com importantes variações de terminologia, essas versões atingiram seu objetivo: oferecer uma visão geral da Psicanálise. Na verdade, foram um dos meios pelos quais ela se difundiu na Europa e nas Américas.

O nazismo, que obrigou muitos analistas judeus a deixar a Europa Central, soou o dobre de finados da Psicanálise nos países onde nascera e se desenvolvera. A morte de Freud coincidiu com o início da Segunda Guerra Mundial; ao término desta, o centro de gravidade do mundo analítico se deslocou para a Inglaterra e para os Estados Unidos, e em menor medida para a França e para a Argentina. Tornou-se então importante estabelecer uma versão dos escritos freudianos que servisse de referência para a comunidade analítica: esta foi a tarefa do inglês James Strachey, e resultou nos vinte e quatro volumes da Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, um monumento científico e literário cujo papel na preservação e na difusão do pensamento do mestre dificilmente pode ser exagerado.

E aqui chegamos às origens do “Freud em português”: o prestígio da Psicanálise inglesa entre nós, e a própria qualidade da Standard, levaram à decisão de a traduzir para a nossa língua, em vez de o fazer do original alemão. Hoje isso soa quase absurdo, mas na época pareceu uma opção aceitável, e de fato muitos brasileiros aprenderam Psicanálise nas páginas da Edição Standard Brasileira.

Ocorre que ela foi realizada com critérios pouco científicos, sem preocupação com o vocabulário técnico, e apresenta inúmeros erros de compreensão do próprio inglês. Os analistas que se encarregaram do trabalho tinham boa vontade, mas não talento literário, e produziram um texto pesado, deselegante, nos antípodas do estilo de Freud.

Na década de oitenta, esses problemas começaram a ser percebidos. A Editora Imago buscou remediá-los emendando as passagens mais problemáticas; o esforço, porém, não valeu a pena, e logo se tornou patente que o melhor era substituir o texto por uma tradução correta a partir do original alemão. Depois de muitas idas e vindas, a casa carioca contratou o analista e professor de alemão Luiz Alberto Hanns para coordenar o empreendimento; desde 2006, sua equipe já publicou três volumes, e no momento prepara um quarto.

Nos anos noventa, o germanista Paulo César Souza, que com a analista paulistana Marilene Carone fora dos primeiros a chamar a atenção para os equívocos da Standard Brasileira, traduziu alguns textos que circularam intamuros, em publicações da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Isso porque só em 2009 a obra de Freud cairia em domínio público: até lá, os direitos autorais pertenciam à Imago.

Ora, a partir de janeiro de 2010 este obstáculo deixou de existir, e é por essa razão que estão sendo lançados os primeiros volumes de duas outras traduções: a da Companhia das Letras, a cargo de Paulo César Souza, e a da LPM, por Renato Zwick. O leitor brasileiro passa assim a dispor não de uma, mas de três versões da obra de Freud.

São projetos diferentes, que a meu ver se complementam. O da LPM visa a apresentar o autor a um público mais amplo, inclusive pelo formato de bolso. É bem cuidada, trazendo prefácios específicos para cada livro de Freud – os dois que acabam de vir à luz, O Futuro de uma Ilusão e O Mal-Estar na Cultura, são apresentados respectivamente por Renata Udler Cromberg e Márcio Seligman-Silva – e um útil “ensaio bibliográfico” assinado pelos psicanalistas Paulo Endo e Edson Souza. Creio que se destina a estudantes de graduação, e a leitores que, sem se preocupar com as sutilezas do texto freudiano, desejam apenas saber o que o mestre diz sobre tal ou qual assunto.

As outras duas têm escopo diverso. Embora com certeza venham a interessar a muitos não-psicanalistas, o público-alvo é primariamente a comunidade profissional, o que exige um tipo de cuidado com o texto original diferente do da edição LPM. Por isso mesmo, é interessante compará-las, até porque os primeiros volumes de cada uma trazem vários artigos em comum.

Tanto Luiz Hanns quanto Paulo César Souza dedicaram muito tempo e reflexão às questões envolvidas no trabalho de traduzir, e especificamente no de traduzir Freud. Com efeito, não se trata de introduzir no Brasil um autor desconhecido; há décadas, estudam-se em nosso país os textos freudianos. Um vocabulário técnico foi se decantando, que varia segundo as escolas psicanalíticas, e cujo emprego denota opções teóricas e clínicas dentro da Psicanálise contemporânea. Há também que levar em conta uma já longa tradição internacional de debate sobre os problemas de tradução desta obra, tradição que se iniciou com as críticas a certas opções da Standard e continuou durante o preparo das versões italiana, argentina e francesa, todas de publicação relativamente recente.

Ambos os tradutores têm consciência destes fatos, e não pretendem substituir o recurso ao original, indispensável a partir de um certo patamar de estudo de qualquer texto, clássico ou não. Suas escolhas são explicitadas em textos programáticos – as de Hanns na Introdução ao volume 1 da nova edição Imago, que cobre escritos dos anos 1911-1915, e as de Souza na sua tese de doutorado, As Palavras de Freud, que a Companhia das Letras publica simultaneamente aos três tomos que abrem sua coleção (o 10, o 12 e o 14, contendo textos que vão de 1911 a 1920).

As decisões opostas quanto à melhor versão de alguns conceitos importantes, como Trieb e Verdrängung – “pulsão” e “recalque” (Hanns), “instinto” e “repressão” (Souza) – certamente suscitarão discussões entre os psicanalistas, e não é difícil prever que nos próximos tempos elas terão lugar de destaque nos colóquios e publicações da tribo freudiana. Os tradutores estão cientes disso, e tampouco pretendem impor suas opções como as únicas adequadas, até porque isso seria impossível num assunto tão controvertido. O que me parece de grande importância é que ambos as justificam com razões de peso, levando em conta os sentidos dos termos na língua alemã, o uso que Freud faz deles (nem sempre uniforme, diga-se de passagem), as diferenças semânticas entre os vocábulos germânicos e portugueses, a fluência das frases em que comparecem, e outros aspectos fundamentais para uma tradução tanto quanto possível exata e elegante.

A principal diferença entre as versões Hanns e Souza provém de que este trabalha sozinho, tendo como foco “a fidelidade ao original, sem interpretações ou interferências de comentaristas ou teóricos posteriores da Psicanálise”, enquanto o primeiro dá grande importância ao fato de Freud ter sido e continuar sendo estudado por toda uma comunidade de psicanalistas.

Isso o leva a ponderar as implicações de substituir termos de uso corrente, mas não corretos segundo os exigentes critérios adotados pela sua equipe; no final, resolveu manter alguns com os quais não está inteiramente de acordo, e a só insistir na mudança nos poucos casos que acredita envolverem erros capazes de deturpar o pensamento de Freud (por exemplo, traduz Vesagung por “impedimento”, já que para um falante de português “frustração” sugere fortemente a idéia de decepção, que tem pouca ou nenhuma relevância na concepção freudiana deste fato psíquico).

Outra decorrência dessas posturas diferentes aparece nas notas explicativas: as de Souza são pouco numerosas, até porque na tese ele examinou com vagar os problemas em pauta e explicou por que prefere determinadas soluções para eles. (Daqui por diante, aliás, seu livro se tornará indispensável para quem quiser estudar Freud a fundo). Já a edição Hanns traz um imponente aparelho crítico: os comentários de Strachey (sobre os quais a Imago detém os direitos), abundantes notas do editor, e uma novidade da qual gostei muito - pequenos parágrafos de analistas brasileiros sobre alguns termos ou passagens, mostrando como foram compreendidos pelas diversas orientações pós-freudianas.

Para além dessas diferenças, porém, o importante é que tanto as versões aqui mais longamente comentadas quanto a da LPM oferecem ao público brasileiro algo precioso, do qual estava privado pelas incorreções da edição anterior: o deleite de ler em nossa língua o que Freud realmente escreveu.




sexta-feira, 26 de março de 2010

Queremos tanto a Leila, Diana Corso


Apesar de ser acusada de leviana e superficial, houve poucos que levaram nossos desejos tão a sério como ela. Acreditamos que a vida é curta para ser desperdiçada numa rotina medíocre, que emoções fortes garantiriam uma existência que valesse a pena. Ela tomou sonhos por desígnios e, por ser mulher, coube-lhe a aventura da paixão, a experiência venturosa do sexo. Como a realidade que lhe tocou negou-lhe as oportunidades de cortesã, foi nos livros que ela encontrou um cenário para seus sonhos. Como suas heroínas, em fantasia circulava pelos salões, vivia romances tórridos num ambiente opulento.

Na vida real, entre um jovem escrivão e um nobre decadente, arejou sua existência provinciana com algum sexo e muitos devaneios. Comprou vestidos caros, foi uma Cinderela devassa enquanto pôde. Mas seus príncipes a deixaram em farrapos, descartaram-na assim que descobriram fazer parte do delírio amoroso de Emma Bovary. Endividada, solitária e frágil, ela despertou para uma realidade que jamais havia vivido, afinal, ela era habitante dos sonhos, os seus e os nossos.

Emma era personagem dos romances que lia e não sabia ser outra coisa. Tomou veneno, morreu dolorosamente, perdendo também o direito a seu último desejo, que era simplesmente adormecer. Ela não está sozinha nessa empreitada de confundir a vida de celulose com a parca realidade. Quer seja em celulose, celuloide ou sinais digitais, aprisionamos alguns seres humanos numa existência romanceada, a serviço de nossa alienação. Não é à toa que Emma deu origem ao termo “bovarismo”, que designa todos aqueles que resistem a desembarcar de suas fantasias. Como Madame Bovary, as pessoas que se engajaram na tarefa de encarnar personagens não têm como sobreviver à vida tridimensional.

Julio Cortázar, num conto chamado Queremos tanto a Glenda, apresenta-nos um grupo de admiradores do trabalho de uma atriz, cuja carreira perfeita os unia. Quando ela resolve voltar às telas, depois de uma retirada de cena que eles julgavam ter sido perfeita, maculando sua imagem de ídolo, eles decidem colocar o ponto final com as próprias mãos: “Na altura inatingível onde a havíamos exaltado, a preservaríamos da queda, seus fiéis poderiam seguir adorando-a sem míngua; não se desce vivo de uma cruz”.

Só para dizer que o fim da bela morena Leila Lopes, uma Leila nada Diniz, para sua desgraça, foi um sacrifício da personagem. Não fomos nós que a matamos, como os fãs de Glenda, mas talvez o bovarismo da nossa época não a tenha ajudado.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Nélida Piñon: "A mulher continua sendo a parte invisível da humanidade", María Luisa Blanco


Referência absoluta da literatura brasileira atual, escritora carismática e comprometida com a voz da Ibero-América, Nélida Piñon (nascida no Rio de Janeiro em 1937) esteve em Madri convidada a ministrar um curso na Fundação Mapfre, para explicar a seus atentos alunos os segredos da escrita.

El País - Quais são os segredos da escrita?
Nélida Piñon - Não sei, são tantos! Gosto de pensar que faço parte de uma arte que tem um componente de mistério e não pode explicar toda a sua trajetória. O escritor pertence à casa do mito, e convivemos o tempo todo com o mito da criação. Por mais que alguém explique o que está fazendo, sempre há uma zona de sombras, o que contribui para a grande ambigüidade da arte.

EP - Literatura é contar histórias?
Piñon - É muito mais que isso. Pode-se explorar esse lado exibicionista da literatura. Gostamos de escutar histórias ou supor que fazemos parte delas porque não podemos estar fora do circuito da vida. A pessoa nasce, estuda, faz filhos e morre, e isso é muito pouco para a aventura humana.
Fazer parte de histórias nos dá outra dimensão.

EP - Seu último livro, "Vozes do Deserto", a recriação das "Mil e Uma Noites", é uma compilação de histórias. A senhora conseguiu se libertar do fascínio do deserto e suas vozes?
Piñon - Já estou fora. Não é que seja inconseqüente ou frívola, é que para poder entrar em outro romance tenho de esvaziar o armário e me transformar numa espécie de franciscana para voltar a buscar novas roupas. É começar outra vez, com a vantagem de já ter um ofício e saber como fazê-lo.
Agora estou em outro território.

EP - Qual é esse território?
Piñon - Isso não posso dizer, mas terminei um novo livro de ensaios que se chama "Aprendiz de Homero". Sou apaixonada por Homero, tenho a sensação de que somos seus filhos, mas que ele só existe se nós o legitimarmos. Eu disse isso no discurso do Prêmio Príncipe de Astúrias: "Eles nos devem sua imortalidade".

EP - Em um de seus artigos a senhora fala dos "ruídos do coração do Brasil", referindo-se a sua literatura. Pode lembrar algum dos grandes:
Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector?
Piñon - São os grandes mortos e estão sempre presentes. Na Academia de Letras temos o busto de Machado de Assis e sempre o cumprimento, como "senhor", porque não tenho nenhuma intimidade com ele. Parece-me extraordinário que esse homem, que era um fatalista, um pessimista e um determinista, não tenha percebido que sua própria história pessoal o contradizia. Ele era mulato, pobre, autodidata e gago como Moisés. Quando Machado de Assis morreu, sendo já o maior escritor brasileiro, tudo foi ao contrário de suas previsões. Quando penso nele me digo que o país não tem justificativa para o fracasso. Foi um grande escritor e de uma grande modernidade. Sou muito agradecida a meus precursores. Guimarães Rosa tem seu romance extraordinário, mas me interesso sobretudo por seus contos. Ele fez um trabalho excepcional com a linguagem, foi um escritor de grande envergadura.

EP - Com Clarice Lispector a senhora teve alguma cumplicidade?
Piñon - Do ponto de vista da ficção não, mas a admiro muitíssimo.
Tivemos uma grande amizade; quando ela morreu eu estava segurando sua mão esquerda e a acariciava. Tinha um caráter difícil, mas nos queríamos muito.
Eu era muito mais jovem que ela, mas ela demonstrava um grande carinho por mim e dizia a todos: "Nélida é um símbolo de lealdade". É bonito, não? Eu era firme com ela, lhe dizia: "Não concordo, Claricinha", e ela aceitava muito bem minhas opiniões. Nos queríamos muito. Quando nos conhecemos, foi ela quem tomou a iniciativa da amizade, porque era uma mulher com uma intuição excepcional. Eu tinha a sensação de que Deus havia pousado a mão em seu ombro e lhe havia dito: "Escreva, e não precisa fazer muito mais". Eu ainda não tinha publicado nenhum livro, e ela quis ser minha amiga em igualdade de condições.

EP - Acredita que haja um universo feminino na literatura?
Piñon - Creio que há um universo individual e que nele há um espaço que foi ocupado pela mulher. Estou convencida de que o repertório verbal da mulher era imenso, mas não o podia utilizar na medida em que precisava se circunscrever a um universo restrito, a sociedade a condenou a ser afásica.
Sua linguagem tornou-se cotidiana, simbólica, e ela foi acusada de astúcia, o mesmo que os povos e coletivos que sofrem perseguição ou dominação têm de desenvolver.

EP - E no plano pessoal, qual é sua opinião sobre a situação da mulher hoje? Continuamos em um universo um pouco machista?
Piñon - Muitíssimo! A mulher continua sendo a parte invisível da humanidade, por mais que faça. As decisões do mundo emanam dos homens. Eles são os responsáveis pelos acertos e as catástrofes da humanidade. A mulher ainda não conseguiu penetrar no mundo das decisões, até Deus é um conceito masculino. Ainda há muito a fazer, melhorou muito e creio que o feminismo é a verdadeira revolução do século 20, mas ainda falta muito. Uma revolução que foi feita sem sangue; a mulher foi de uma elegância moral extraordinária.

EP - Como a senhora vê o Brasil hoje? Podemos pensar que caminha para um mundo melhor?
Piñon - Creio que tudo é muito lento, não temos uma visão panorâmica e seqüencial da história. Não gosto muito de falar de meu país quando estou longe, mas creio que tem dois meios de saída excepcionais: a manutenção de sua língua e o patrimônio de sua geografia. Também me parece extraordinária sua mestiçagem, a fusão dos sangues, tão alheia à limpeza do sangue. Temos uma cultura popular muito rica, e meu medo é que se uniformize por culpa da televisão e da cultura de massas. É um país de grande vitalidade, que deu grandes escritores e artistas e tem componentes de convivência muito estimulantes.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

quarta-feira, 24 de março de 2010

Alice e o escritor, Cristovão Tezza


– Escritores não são pessoas boas. O que me intriga é que os milhares de leitores que ainda restam no mundo, como vocês, essas almas bem-intencionadas aí na platéia me ouvindo, não se apercebam dessa verdade simples e universal. Não satisfeitos em apenas ler os livros que escrevemos, querem também nos ouvir falar, fazem filas atrás de autógrafos e alguns nos escutam com a adoração que se tem aos santos e aos sábios. Felizes, sorridentes, suportam palestras e mesas-redondas onde os escritores costumam desfiar aquele rosário de besteiras e mentiras, sempre as mesmas, teorias estapafúrdias que inventaram de ressaca quinze minutos antes de sentar à mesa ou então que arrastam pela vida afora como uma tábua de mandamentos que não tem nenhum relação com o que escrevem (ou, muito pior ainda, teorias que desgraçadamente têm relação com o que escrevem) piadas sem graça (escritores são quase sempre -é um paradoxo- seres desprovidos de humor), patéticos ataques de narcisos ou simplesmente babaquices sobre o “método de escrever”, o valor da “inspiração”, a importância da leitura no mundo moderno -daqui a pouco ainda sai alguma coisa do tipo “como fazer amigos escrevendo livros”. O poeta iniciante e o vetusto prêmio Nobel, todos se expõem patetas ao ridículo de falar em público e suas bobagens se equivalem. Deve haver exceções, é claro – mas eu não as conheço. O leitor é crédulo – acredita no que está escrito e acredita nos que escrevem. Os que escrevem têm “o dom”. É aí que fazemos a festa. Ninguém percebe que a matéria-prima da literatura é o desprezo. O que me irrita, ao olhar para mim mesmo, é essa dependência gosmenta das outras pessoas, não para sobreviver, o que até seria justo, mas para me alimentar delas, porque sem a estupidez em torno eu restaria sem assunto e morreria por completamente inútil. Se os escritores ainda ficassem sozinhos, em paz – mas não, a maior parte vive em grupos e bandos aguerridos, disputam a tapa cada centímetro da imprensa, puxam o saco do cronista social, lutam desesperados por uma entrevista de cinco minutos no rádio e matam a mãe por dois segundos na televisão, refugiam-se em panelas, igrejas e dissidências, protegem-se em uma gama infinita de lobbies, o lobby gay, o heterossexual, o feminista, o judeu, o árabe, o comunista, a bancada lésbica, o liberal-comunista, os regionais, os neo-machos, o hippie-naturalista, o poeta de bar, o gênio, o assinador de abaixo-assinados que se justifica pela defesa da “causa”, qualquer uma, e mais o – maldito seja! – enviador de e-mails contra o qual não há anti-vírus que funcione, e todos odeiam-se com uma intensidade que não tem paralelo em nenhum outro exemplo da espécie humana, porque a palavra, o tal dom que eles têm, multiplica tudo até a paranóia, dando uma impressão assustadora de realidade. Ao mesmo tempo, para tornar tudo pior, são seres irrelevantes, produzem encalhes invencíveis, praticamente nada do que escrevem tem importância e cada vez menos há pessoas interessadas neles, em geral apenas os também candidatos a escritor, seres intrinsecamente chatos, o que faz desta minúscula arena letrada um sufocamento infernal de pesadelos, frustrações e vinganças. Esse é o miolo em comum – na aparência, são seres bem diferentes, é claro, enganam bem, são até convidados para eventos como esse, e um Lineu teria dificuldade para classificá-los exaustivamente, tamanha a riqueza da fauna. Eles têm uma incrível capacidade de disfarce. Um pai entregaria a filha a um escritor, feliz da vida, sem saber o que a espera. Há os escritores gentis, os grotescos, as grandes promessas, os mal-educados, os sindicalistas, os ganhadores de concurso, os presidentes de associações, os pornógrafos, os perdedores de concurso, os francamente ruins, os autistas, os imitadores, os que mandam carta para a redação, os não-escritores (que são diferentes dos maus escritores) e por aí vai. É uma coisa óbvia: se escritores fossem boas pessoas exerceriam alguma atividade decente da sociedade humana, algo que de fato fosse solicitado pela vizinhança da espécie; seriam seres normais, capazes da convivência e de todos esses valores humanistas que eles às vezes cantam de dedo em riste, incapazes de aplicar na própria vida. Escrever é sempre a expressão de um fracasso, com o qual não se aprende nada – ao contrário da vida real, em que o erro nos melhora. Na literatura acontece o contrário: a presunção doentia que nos leva a escrever e que eventualmente encontra aquela mínima ressonância – o prato de resto de comida do cão faminto, ao qual nos lançamos com a língua de fora – acaba por nos corromper a alma por inteiro de maneira que em poucos anos não servimos para mais nada senão medir a própria incompetência, linha a linha.
Fiz um silêncio retórico e dei um gole de água daquele copo horroroso de plástico com uma certa pose episcopal, para sentir a temperatura da platéia de Curitiba, que eu desgraçadamente desconhecia; a cidade parece que tem uma inexplicável fama de culta. Ao lado, meu parceiro de mesa (o nome me escapa), um simpático romancista municipal e professor universitário que tentava segurar o riso, talvez por imaginar (ele não me conhece), vítima daquele tipo de respeito semiformal ao outro que é a marca da província, talvez por imaginar que eu falasse a sério, e que uma gargalhada poderia ser ofensiva ao visitante. E então, súbito, eu senti o silêncio gélido da platéia – num segundo percebi que a minha catilinária cínica, absurda, porém bastante inspirada (eu estava falando com a leveza de quem escreve, cada vírgula no seu lugar, o ritmo ponderado, os gestos discretos mas eficientes), estava sendo recebida, ou lida, como uma sucessão de pedras na cabeça deles, e eles estavam tentando ainda descobrir em que freqüência deviam sintonizar o meu alto-falante, se pela ironia, pela agressão, pelo humor, pela estupidez, e eu podia descobrir nos olhos intrigados da primeira fila aquele desespero de encontrar o modo exato de enfim compreender o que eu dizia. Ponderavam cada palavra minha – no silêncio mortal que se seguiu ao meu gole de água – como quem sopesa uma bola de chumbo que lhes cai à mão. Ninguém sorria. Dei outro gole, lento, para ganhar tempo – eu havia claramente errado o tom. Nas outras duas vezes em que fiz praticamente o mesmo discurso inicial – numa bienal na Bahia e na feira de Porto Alegre – fui recebido com gargalhadas, risos, um movimentar nas cadeiras, um olhando para o outro e cochichando algo, isso está engraçado, ou esse cara é bom mesmo, aqui e ali um rosto ativamente sério, já engatilhando uma contestação, adiante o esboço de um protesto tímido com o punho levantado, enfim, um sucesso instantâneo que logo ensejou perguntas – digamos, “instigantes” –, algumas francamente provocadoras sobre literatura, cinismo, política e ética que nos deixaram a todos à vontade e eu praticamente não precisei mais pensar até o fim do evento, devolvendo apenas as respostas automáticas de efeito comprovado, para depois pegar meu cheque e cuidar da vida.
Mas ali o silêncio caiu com estrondo – perdão pela imagem – na minha mesa. Alguém já havia me advertido de que Curitiba não era fácil, eu ia encontrar uma polacada dura de roer, refratária a tudo. Mas não foi isso. A platéia era ótima: absorveu exatamente o que eu dizia, e principalmente como eu dizia. Na verdade, eu errei o tom porque estava, de fato, acreditando em cada palavra que dizia, eu cometi o pecado mortal de não me distanciar de mim mesmo, e se há algo indisfarçável na vida é o fel que sentimos, esse sentimento corrosivo e demolidor, esse mal-estar sem direção nem objeto definido que, naquele dia, naquele momento, me tomou por inteiro. O romancista da mesa sentiu vontade de rir porque, como é um escritor do tipo autista, não me ouviu, apenas me leu, e na abstração da leitura tudo é um jogo de duplo sentido, acabamos todos felizes e saltitantes no jardim dos caminhos que se bifurcam. A platéia não – ela me ouviu e me absorveu inteiro, agarrou a minha alma – ela estava entregue ao evento da vida, ao abismo do instante presente, uma coisa que escritor nenhum alcança. Daí o silêncio. Daí aquelas três pessoas lá no fundo, vultos na sombra, levantando-se e saindo, suficientemente discretos para que o desprezo que sentiam por mim não se transformasse em “mensagem”. Mas antes que se pense que eu estava iluminado por algum sentimento filosófico superior e intransponível, uma crise heideggeriana, um cul-de-sac existencialista, uma consciência transcendente do fracasso do meu ofício, é preciso dizer por que eu estava tão inexplicavelmente imbuído das minhas próprias palavras, e a razão é como que a demonstração cabal do meu próprio discurso, isto é, o fato de que escritores são mesmo criaturas horrorosas. Saindo dali – teria antes de me livrar do romancista – eu iria jantar com um velho desafeto, conterrâneo meu, colega de infância e também, por desgraça, escritor. Começou mais tarde a escrever, quando eu já era um nome sólido, e, como quem não quer nada, foi publicando, ocupando espaços, ganhando prêmios e amizades, assinando colunas, e hoje milagrosamente vende dez vezes mais do que eu, aparece em toda parte e é convidado para tudo, enquanto eu, que praticamente o levei pela mão até uma grande editora e escrevo cinqüenta vezes melhor do que ele – mas vou mudar de assunto; lembrar me incomoda, a respiração fica mais curta, sinto uma compulsão de beber. Dei um terceiro gole de água, tentando criar algum fato novo naquele silêncio terrível – exatamente nesse momento lembrei dele, do encontro próximo, do tom superior (superior não; paternalista, um tom protetor) com que ele se dirige a mim – Venha me encontrar! Vamos sim! Rapaz, separei da minha mulher, comecei vida nova! Que bom que você veio para a Semana Literária! Insisti com o teu nome lá na Fundação! Aquele povo é idiota, não conhece literatura, você sabe como funciona isso, é a desgraça de sempre! Nem sabiam quem era você. Eu tive de explicar. Seguinte: vou escolher um restaurante bom e encontro você no hotel. Que tal? – Senti a platéia escurecer diante de mim e percebi que eu estava travado pelo silêncio e esmagado pela memória; eu tinha de prosseguir, dizer alguma coisa, contar uma piada qualquer, recuar, covardemente, com um é claro que isso é apenas uma metáfora mas mas eu não consegui: via o rosto do meu amigo na frente, desgraçadamente separado da mulher, aquela mulher que era praticamente o meu único trunfo; ele ser casado com ela – e eu fui padrinho de casamento – era a minha alegria, uma mulher muito feia e desagradável, burríssima, capaz de dizer os maiores disparates e as maiores confissões na intimidade lotada de um elevador com a sua voz aguda perpassada da histeria das mal-amadas – ele ser casado com ela era um seguro de compensações para mim, tudo bem, ele que faça o que quiser, já paga o suficiente os seus crimes por dormir com ela todas as noites. E agora ele me traz para Curitiba e a primeira coisa que me diz é que está separado da mulher e que começou vida nova, aos 40 anos, e cada frase que ele me diz transborda felicidade, esse sentimento inacessível a quem escreve; eu sei como ele está se sentindo, é uma coisa realmente muito boa, eu que já fui casado quatro vezes sei como é o momento seguinte da liberdade, parece que o mundo recomeça depois daquela prolongada experiência traumática a que nos submetemos por prazos longos obedecendo a algum atavismo incontrolável, pois ele estava vivendo exatamente este momento, e talvez só tenha me trazido para cá (e eu aceitei o cachê ridículo) para me contar, para tripudiar na minha cabeça, sempre com a desculpa de que está pensando no melhor de mim porque você está precisando, o filho da puta ainda é capaz de me dizer. Dei um último gole de água e senti o golpe da azia na alma – eu estava demorando demais a continuar minha palestra, os holofotes do auditório me feriam os olhos, eu praticamente não via ninguém além das figuras já indóceis da primeira fila e o romancista municipal ao meu lado também começou a se agitar, percebi – eu quase que podia ouvir as engrenagens do cérebro dele – que ele pensava desesperadamente em desatar o nó que eu havia criado com aquela minha interrupção esquisita, porque minha cara também não devia estar boa. Parece que enquanto eu não resolvesse o problema do Cássio – o nome do meu amigo de infância –, enquanto eu não me livrasse dele de fato, matando-o talvez (e em três segundos compus uma narrativa inteira de um escritor que mata outro e é desmascarado pelo descontrole da própria alegria), eu não conseguiria dar um passo adiante, dizer alguma palavra, qualquer uma, que abrisse a porteira e me fizesse dar andamento à tragédia – eu estava engasgado. Naquela escuridão (senti saudades da mulher de Cássio, a importuná-lo física e mentalmente com a simples presença ao seu lado numa mesa de bar, mas agora ela não estaria mais lá para cumprir seu papel), o romancista, com um sorriso profissional – tinha experiência de mesas-redondas, notei – pegou o microfone que, é claro, não funcionava, depois pediu o meu emprestado, deu duas batidinhas que explodiram nos alto-falantes, fez um gesto supostamente engraçado e enfim quebrou aquela paralisia:
– Bem, depois dessa insólita introdução do Antonio Donetti, uma bela provocação temática para a noite de hoje, talvez seja o momento de abrir espaço para as perguntas da platéia e...
Eu não via mais nada, nem mesmo o sorriso feliz de Cássio, solteiro aos 40 anos, que certamente me receberia de braços abertos em algum restaurante da moda e me daria um abraço apertado – inclinei-me para o romancista e cochichei com a pior voz que pude simular: Eu não estou me sentindo bem. Talvez... e seguiu-se um transtorno de gentilezas, enquanto parte da platéia saía resmungando, dez minutos para ouvir essa merda e voltar para casa, parte permanecia atônita observando aquele cochichar na mesa, logo rodeada de curiosos, perguntou-se até mesmo por um médico, mas felizmente não havia nenhum para diagnosticar minha fraude, e assim, simulando tontura e ao mesmo tempo gesticulando um não se preocupe, não é nada, fugi por uma portinha dos fundos que súbita me deixou no tal Largo da Ordem, o romancista atrás de mim, realmente preocupado – Nós tínhamos pensado num jantar, será que você... – mas fui me livrando dele, eu procuro um táxi, andar vai me fazer bem, acho que é o estômago, eu, e disse mais algumas mentiras, largando-o enfim para trás, quase correndo dali, disparado em busca de respiração até me ver deitado no escuro do meu apartamento no hotel, à espera do telefonema; agora eu queria desesperadamente vê-lo para medir in loco a pressão que estava acabando comigo e no momento seguinte – engraçado, naquele desespero o tempo voava, e não o contrário, como nos chavões narrativos – o telefone tocou com violência. Eu já sei o que você aprontou, e seguiu-se uma risada francamente alegre que falava por si só e que me deixou mudo: ele está feliz. Não, eu disse, não precisa me pegar, eu vou até o restaurante, é melhor, porque me passou pela cabeça que ele prometesse a carona e me deixasse à frente do hotel esperando duas horas, e não aparecesse enfim, como uma espécie de troco. Assim fui eu mesmo em busca dele, e se ele não estivesse lá eu me sentaria e comeria um belo jantar e nunca mais falaríamos até o fim dos tempos, o que seria uma libertação. Mas ele estava lá, é claro, foi por isso que ele me trouxe para aquela palestra ridícula que eu arremessara para o alto com força e que agora começava a cair na minha alma com todo o peso da gravidade, para me esmagar também até o fim dos tempos, falar é entregar-se, escrever é ocultar-se, pensei ainda ao vê-lo lentamente se erguer sorrindo atrás daquela mesa protegida numa penumbra, ao lado de um vulto de mulher, e eu gelei. Em vez da esposa horrorosa que certamente estaria agora cuidando dos dois filhos pequenos deles, sobrevivendo só com uma pensão ridícula porque ela não sabe fazer nada, contemplei um belo rosto de mulher, uma mulher jovem, cabelos curtos, lisos e claros que eram a moldura oval de uma face tranqüila e equilibrada, de cujo sorriso saíam dentes brancos e também felizes assim que me aproximei, enquanto ela se erguia da mesa com a leveza de uma ninfa – Por favor, fique sentada, e eu toquei a mão dela com as minhas duas mãos – Cássio, que bom ver você de novo, e apertei vigoroso sua mão calosa, para me livrar da memória instantânea que me ficou da pele de Alice, essa é a Alice, minha amiga, e o sorriso dele era um daqueles momentos altíssimos da vida que jamais teremos de volta, eu senti que era nesse clichê que ele habitava agora; e no momento seguinte, o garçom já me oferecendo o cardápio e perguntando alguma coisa que eu me recusava a ouvir para ver melhor os olhos de Alice, Ela tem uma agência de textos, é também tradutora do inglês, francês e italiano, ao que ela sorriu, simulando uma inibição que talvez fosse mesmo verdadeira, o gesto dizendo algo como o que é isso, não exagere, Cássio, eu apenas e ele continuou a falar – Eu acompanho no vinho, disse eu ao garçom para que ele saísse dali – sobre as qualidades de Alice, que ele pretendia apresentar para uma editora nova de São Paulo, essa menina é uma jóia, e eu concordei imediatamente, espantado de quão idiota era o Cássio para estragá-la assim tão impiedoso e grosseiro; mas súbito, logo após o brinde que fizemos eu senti que aquela fonte terrível de infelicidade – vê-lo tão feliz ao lado de uma mulher apaixonante – era também o seu antídoto, o meu elixir da juventude, tirá-la dele, o que me dava um projeto inteiro de vida arquitetado nos poucos segundos concomitantes ao brinde em que percebi a intensidade do olhar de Alice, que eu ainda não havia traduzido, até vê-la, saborosamente desajeitada, abrir a bolsa – enquanto Cássio empalidecia, gaguejando uma mudança súbita de assunto Mas o que foi mesmo que você me aprontou lá na mesa-redonda, eles me telefonaram, você – e me estender um velho exemplar de meu primeiro livro, A foto no espelho, surda a qualquer outro assunto:
– Estava comentando com o Cássio, eu não sabia que ele conhecia você pessoalmente, eu amo esse seu livro, já li três vezes. Você autografa para mim? – A timidez reconhecendo o gesto importuno: – É que depois eu me esqueço.

terça-feira, 23 de março de 2010

Caído na calçada, David Coimbra


Ontem saí de casa mais cedo do que o normal e a temperatura era amena de primavera e o dia estava amarelo e azul e do som do meu carro se evolava o rock suave da Itapema e eu me sentia realmente bem. Estacionei numa rua quase bucólica do Menino Deus e vi que ali perto um catador de papel puxava sua carrocinha sem pressa.
Era magro e alto, devia andar nas franjas dos 50 anos e tinha a pele luzidia de tão negra. Ao seu lado saltitava um menino de, calculei, uns quatro anos de idade, talvez menos. Devia ser o filho dele, porque o observava com um olhar quente de admiração, como se aquele homem fosse o seu herói. Bem. Ao menos foi o que julguei, certeza não podia ter.
Já ia me afastar quando, por entre as grades da cerca de uma creche próxima, voou um brinquedo de plástico. Um desses robôs cheios de luzes e vozes, que se transformam em nave espacial e prédio de apartamentos, adorado pelas crianças de hoje em dia. Algum garoto devia ter atirado o brinquedo para cima por engano, ou fora uma gracinha sem graça de um amigo.
O menino que era dono do brinquedo colou o rosto na grade como se fosse um presidiário, angustiado. O filho do catador de papel correu até a calçada, colheu o robô do chão e não vacilou um segundo: retornou faceiro para junto do pai, o brinquedo na mão, feito um troféu. Olhei para o menino atrás da cerca. Estranhamente, ele não falou nada, não gritou, nem reclamou. Ficou apenas olhando seu brinquedo se afastar na mão do outro, os olhos muito arregalados, a boca aberta de aflição.
Muito orgulhoso, o filhinho do catador de papéis mostrou o brinquedo ao pai. O pai olhou. E fez parar a carrocinha. Largou-a encostada ao meio-fio. Levou a mão calosa à cabeça do filho. E se agachou até que os olhos de ambos ficassem no mesmo nível.
A essa altura, eu, estacado no canteiro da rua, não conseguia me mover. Queria ver o desfecho da cena. O pai começou a falar com o menino. Falava devagar, com o olhar grave, mas não parecia nervoso. Explicava algo com paciência e seriedade. O menino abaixou a cabeça, envergonhado, e o pai ergueu-lhe o queixo com os nós do dedo indicador. Falou mais uma ou duas frases, até que o filho balançou a cabeça em concordância.
A seguir, o menino saiu correndo em direção à creche. Parou na grade, em frente ao outro garoto. Esticou o braço. E, em silêncio, devolveu-lhe o brinquedo. Voltou correndo para o pai, que lhe enviou um sorriso e levantou a carrocinha outra vez. Seguiram em frente, o pai forcejando, o filho ao lado, agora não saltitante, mas pensativo, concentrado.
Então, tive certeza: aquele olhar com que o menino observara o pai era mesmo de admiração, ele era de fato o seu herói.

Texto publicado em Zero Hora, 26 de setembro de 2008.

segunda-feira, 22 de março de 2010

“a literatura é a coisa mais interessante do mundo, talvez mais interessante que o mundo”, Elizabeth Muylaert Duque Estrada


O que poderia Derrida querer dizer com esta afirmação? Qual a relação entre mundo e literatura? Como se poderia entender o caráter desta “interessância” a que ele se refere? Só se pode responder a estas questões através de um talvez, um talvez que não se refere a uma dúvida, uma reticência ou mesmo uma especulação; como o talvez que diz que as coisas, inclusive nós, podem ser assim como elas aparecem no mundo, o mundo que está aí, ou talvez, ao contrário, elas possam ser de outro modo, resistindo ou contestando a lógica deste mundo; ao contrário, o talvez a que me refiro diz que não há nada de concreto que justifique o mundo, porque não se pode afirmar uma essência, um fundamento, uma causa primeira que explique ou justifique o mundo tal como ele se põe diante de nós, tal como ele nos envolve. Um talvez, portanto, que diz respeito menos a uma cautelosa aproximação do real e mais a uma abertura de outros mundos possíveis, menos ao aparecer de algo pretensamente concreto, efetivo, e mais à promessa de que tudo sempre poderia ser de outro modo.

Uma pista para compreender a afirmação de Derrida – “a literatura é a coisa mais interessante do mundo, talvez mais interessante que o mundo”: se na primeira parte da afirmação, a interessância da literatura é algo que se encontra inserido no mundo, na segunda parte, o talvez parece arrastar esta interessância para um momento anterior ao próprio mundo. Mais especificamente, o que isto tem a ver com a literatura, esta estranha instituição na qual, diz Derrida, pode-se dizer tudo sobre qualquer coisa? Nela, a força do talvez seja, talvez, reencontrada em toda a sua potência: o direito garantido ao autor de dizer tudo sobre qualquer coisa sem nenhuma causa ou fundamento que legitimem tal liberdade, tal direito significa, antes de qualquer insinuação de inconseqüência ou irresponsabilidade, a energia de uma instituição que funda a si mesma a partir e através de uma força, a um só tempo, estabilizadora e desestabilizadora; aliás, tal como as coisas do mundo, cuja estabilidade supõe, sempre, a força desestabilizadora de um talvez. Um talvez em que toda experiência de familiaridade se vê ameaçada, afinal, tudo é assim como é, mas poderia sempre ser diferente. Para Derrida, a literatura é uma instituição que encarna exatamente este aspecto duplo e paradoxal: se ela tem como princípio inalienável o direito, e portanto a liberdade, de dizer tudo sobre tudo, este princípio diz respeito não somente a uma exigência de criação, mas igualmente à intolerância incondicional de qualquer tipo de auto-confirmação e auto-preservação. É assim que a própria autonomia e autoridade da questão da tradição metafísica – a pergunta “o que é?” – sempre à procura de uma essência, de um fundamento, é abalada pela literatura. Pois na questão “o que é a literatura?”, toda a atenção se desvia do objeto, dela, da literatura, que, a princípio, deveria justificar-se diante de uma exigência epistemológica, estética ou ético-política, para colocar em questão a legitimidade da própria questão “o que é?” É que a sua força desestabilizadora – que é a sua liberdade, por princípio, irrestrita e inalienável – provoca um deslocamento do que se pergunta na pergunta “o que é?” – não se trata mais de uma resposta para a pergunta “o que é?”, mas de uma indagação sobre a estrutura de um talvez que se antecipa e possibilita esta pergunta, colocando em jogo uma série de elementos, tais como as suas condições e estratégias discursivas, o lugar e quem faz tal pergunta, etc. Se, deste modo, ela, a literatura faz com que a pergunta “o que é?” desrecalque os seus pressupostos, cabe perguntar que lugar senão o não-lugar seria o seu lugar. A sua suposta irresponsabilidade, com a sua liberdade de dizer qualquer coisa sobre tudo, vem incidir diretamente sobre o processo de formação de todo discurso que encobre a força do talvez que lhe antecede e reivindica para si uma autoridade sobre aquilo a que se refere. Não que ela, a literatura, venha abolir a referência num desejo alucinante, autista e desmedido de produzir relatos, mas sim a pretensa autoridade e verdade inabaláveis de toda estrutura referencial.

Sem o poder e a vontade de dizer a verdade, ela é o talvez do talvez de tudo o que há no mundo, e por isto talvez seja, como quer Derrida, a coisa mais interessante do mundo. E isto porque talvez ela preserve, mais do que qualquer outra instituição, a estrutura da promessa, do novo, do outro, enfim, do porvir. Talvez seu não-lugar re-situe a própria experiência política, o fazer e o pensar político; a sua “interessância” se dá na sua relação dissimétrica com tudo aquilo que, na ordem do discurso, poderia ser reunido, por exemplo, sob o título de “verdade”, “identidade”, “intencionalidade” ou “legitimidade institucional”. Sem a pretensão de se constituir como uma crítica, que sempre pressupõe um programa, uma projeção, enfim, uma refundação ou elevação de uma ordem injusta, o fazer literário, assim compreendido, vem problematizar tudo aquilo que quer se passar como auto-legítimo ou natural e, deste modo, promover sempre aberturas ao devir.

Se fosse possível formalizar a estrutura do literário em geral, tal como Derrida a entende, pode-se dizer que tal estrutura é regulada pela “lógica do não aparecimento”: toda narrativa, todo relato, ficcional ou não, é uma relação com aquilo que ela narra. Nesta relação, tanto o relato, a narrativa, quanto o relatado, o que é narrado, não aparecem em sua presença efetiva. Mas é exatamente este não aparecer que não somente estrutura a narrativa, mas também impulsiona o desejo sempre renovado de lê-la, interpretá-la, enfim, dela se apropriar. Mas o que importa aqui é que, para Derrida, este não aparecimento é estrutural a toda narrativa e não apenas à narrativa literária. Assim, por exemplo, em toda narrativa ou discurso que se refere a questões relacionadas à identidade, seja ela ‘nacional’, ‘racial’ ou ‘linguística’ etc, a tensão entre o aparecimento e o não aparecimento encontra-se sempre já operante: onde localizar a presença efetiva de algo como a ‘identidade brasileira’ ou a ‘identidade linguística’? – nunca ninguém as viu, as tocou, as teve em suas mãos – e é por isto mesmo, por nunca terem estado presentes, por não existirem em si mesmas, e, portanto, por não se encontrarem disponíveis à apreensão teórica ou à manipulação prática, que elas – tais identidades – podem ser objetos de discursos sobre a ‘identidade brasileira’ ou ‘identidade linguística’; para Derrida, de alguma forma, só se fala sobre o que não aparece, sobre o que nunca está disponível, existente em si mesmo. Deste modo, o termo mais apropriado para dar conta do que aqui se encontra em jogo não é exatamente a ‘identidade’, mas o que ele chama de identificação, ou seja, um processo de contínua relação com uma situação ou condição – a brasilidade, a língua portuguesa – com a qual desde sempre nos reconhecemos; uma situação ou condição, contudo, que nunca foi, é ou será apreendida, apropriada, tomada em nossas mãos; e isto não porque ela seja algo que nos escapa, mas porque ela nunca existiu, existe ou existirá “enquanto tal”, como algo em si mesma. Assim, não apenas a experiência de todo o discurso sobre uma qualquer ‘identidade’, mas igualmente tudo o que envolve a construção, a legitimação e a autoridade e mesmo a verdade deste discurso pode e deve ser problematizado.

Esta estrutura ‘conceitual’ do pensamento de Derrida aponta um outro caminho para o pensar/fazer político; um caminho que quer evitar tanto o valor de uma objetividade externa ao discurso, ou seja, o ideal de falar das coisas naquilo que elas são independentemente do discurso que se faz sobre elas, quanto o valor de um criacionismo do discurso que não reconheceria nada além dele mesmo (a deformação do famoso “não há fora texto”). O que há, sim, é uma problematização, uma complexificação da referência: por um lado, ela potencializa as questões em torno da ‘identidade’ pelo prisma da identificação, sem, por outro lado, cair na idolatria identitária. A idéia de identificação vem, portanto, deslocar o conceito de identidade também naquilo que poderia parecer o seu aspecto mais plástico: ou seja, a idéia de uma multiplicidade de identidades em constante mobilidade. O problema aqui está no fato de pensar tais identidades como aquilo que Derrida chama de ‘pequenas células narcísicas’, ou seja, estruturas mínimas de referência a si, garantidoras de uma auto-certeza e, conseqüentemente, de uma inabalável reprodução do mesmo. Aqui o modelo crítico tradicional – aquele que se orienta por um fundamento garantidor de justiça e emancipação para todos – dá lugar a um outro tipo de pensamento, no qual o que é decisivo é a problematização de tudo o que, na ordem do discurso, pretende ocultar o seu caráter de construção e ser percebido como ‘natural’. Em outras palavras, o que está em jogo aqui é o resguardar incondicional do caráter radicalmente político de tudo o que se tece, destece e retece pelos fios da linguagem. A radicalidade do político que se aqui percebe encontra-se no fato de que agora não poderá mais deixar de ser problematizado aquilo mesmo que deve ser problematizado: o ‘quem’ e o ‘quê’ de todo discurso, seus pressupostos de toda ordem, epistemológicos, econômicos, jurídicos, políticos, éticos, suas instâncias representativas, legitimadoras, suas estratégias discursivas, etc.

Tomada em sua radicalidade, na força afirmadora do talvez que lhe é inerente, a literatura – esta estranha instituição que consiste na liberdade de dizer tudo sobre tudo – evidencia sempre o logro de toda idolatria identitária, ao mesmo tempo que possibilita um potencial político transformador de todo processo de identificação. Percebendo-se nesta perspectiva, todo discurso identitário só pode se assumir como uma estratégia provisória, o que, de modo algum, significa uma limitação ou um rebaixamento, mas, antes, é somente assim que ele se afirma em sua real dimensão política, tornando-se, como diz Derrida, digno do nome “política”.


ELIZABETH MUYLAERT DUQUE ESTRADA é jornalista e professora do curso de Especialização em Literatura Brasileira da PUC-Rio. É Doutora em Estudos de Literatura pela PUC-Rio, onde defendeu a tese Devires autobiográficos: a atualidade da escrita de si.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O poder do professor, Moacyr Scliar


(...)
O ensino e o poder têm uma coisa em comum:
Ambos lidam com a informação, com o conhecimento. O político sabe coisas, está informado. O professor, também. Mas a atitude de ambos é diferente. O político detém a informação. E é pelo fato de estar detida, de não circular, de ficar em segredo, que a informação confere poder.
O professor não detém a informação, o conhecimento. O professor transmite a informação, o conhecimento. Este é o objetivo de sua profissão. É um objetivo generoso. Mas não proporciona poder.
Agora: será que os professores querem poder? No passado talvez isso fosse verdade. Não podemos esquecer que a escola já foi um lugar repressor, terrivelmente repressor, às vezes, usando até o castigo físico.
A palmatória, a coisa de ficar de joelhos sobre grãos de milho. Na lnglaterra, a chibata fazia, e em alguns lugares ainda faz, parte do equipamento escolar. No Kênia e em várias escolas americanas, também. O castigo apóia-se (infelizmente) num provérbio bíblico: “Poupa a vara e estragarás a criança” (mas é bom lembrar que este é um dito de alguns milênios atrás). Em janeiro deste ano, uma comissão pedagógica inglesa pediu a abolição completa do castigo corporal nas escolas. Por incrível que pareça, o pedido foi rejeitado pelo governo Tony Blair — o próprio primeiro- ministro admitiu que batia em seus filhos (estava mesmo na hora de ele sair).

O poder do professor não nasce da repressão. Também não nasce dos conchavos e das manobras. O poder do professor nasce da mais pura expressão da democracia que podemos conceber, aquela democracia que busca iguais oportunidades para todos através da educação. Que não é só transmitir informação ou conhecimento. E muito mais. E o estabelecimento de uma relação emocional que persistirá pela vida. É por isso que todos nós lembramos nossos professores.
Que este mérito não é por todos reconhecido, basta ver pelos salários que são pagos aos docentes. Mas de repente aparece um testemunho inusitado e insuspeito. Como aquele que foi dado por George Guerra nas Estrelas Lucas, um cara que fatura milhões com seus filmes. Nós, cineastas, também somos professores, diz Lucas, professores com uma vasta audiência. E em seguida observa: mas nunca teremos o poder de um professor que, na sua humilde sala de aula, ensina aos alunos coisas que vão ajudá-los pela vida afora.
Guerra nas estrelas? Não, a guerra é aqui mesmo, a guerra contra o desconhecimento, contra a insensibilidade. E é uma guerra que só pode ser ganha com os professores na linha de frente.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O paradoxo de Pixis, Charles Kiefer


Pixis foi um músico medíocre, mas teve o seu dia de glória no ano de 1837. Num concerto em Paris, Franz List tocou uma peça desse, hoje, desconhecido compositor, junto com outra, do admirável, maravilhoso e extraordinário Beethoven (os adjetivos podem ser verdadeiros, mas – como se verá – são relativos). A platéia, formada por um público refinado, culto, e um pouco bovino, como são, sempre, os homens em ajuntamentos, esperava com impaciência.
Listz tocou Beethoven e foi calorosamente aplaudido. Depois, quando chegou a vez do obscuro e inferior Pixis, manifestou-se o desprezo. Alguns, de ouvidos mais sensíveis, retiraram-se do teatro, incapazes de suportar aquela música de má qualidade.
Listz, no entanto, registraria, conforme Stanley Edgar Hyman, em The armed vision, citado por Antônio Cândido, que um erro tipográfico invertera no programa do concerto os nomes de Pixis e Beethoven!
A música de Pixis, ouvida como sendo de Beethoven, foi recebida com entusiasmo e paixão, e a de Beethoven, ouvida como sendo de Pixis, foi enxovalhada!
Este paradoxo deveria nos tornar mais atentos ao que julgamos ser arte. Desconsiderar, no fenômeno estético, os mecanismos de recepção é correr o risco de se aplaudir Pixis como se fosse Beethoven.

quarta-feira, 17 de março de 2010

A língua do Brasil, Deonísio da Silva


Todos se queixam de que português é difícil. O brasileiro é chorão?
Não me parece que possa ser definida como chorona uma nacionalidade marcada pelo carnaval, pelo humor e pelo riso purificador com os quais suporta males seculares. A queixa pode ser assim resumida: a língua falada é uma, mas a língua escrita é outra.
Gastamos verbas que não temos para fazer com que nossas crianças grafem de mil maneiras o mesmo fonema. Assim, sapato, extra, exceção, sessão, feliz e ascensão demandam que o som de “s” seja escrito com s, x, c, ç, ss, z. E ainda temos “s” com som “z’, como em trânsito.
O inglês Thomas Young (1773-1829) tinha apenas catorze anos e já sabia latim, hebreu, samaritano, caldeu, árabe, sírio, francês, italiano, persa, turco e etíope, além de inglês, naturalmente.
O francês Jean-François Champollion (1790-1832) não lhe ficava atrás e aos dezesseis anos proferiu sua primeira conferência sobre egiptologia. A escrita hieroglífica foi levada da Mesopotâmia para o Egito por volta do ano 3.300 a .C. por guerreiros ou comerciantes.
Sacerdotes dela se apossaram numa época em que dominavam a política e a economia. Os escribas tinham prestígio numa sociedade em que a taxa de analfabetismo avant la lettre chegava a 99%. Eles escreviam para faraós e sacerdotes, que os remuneravam regiamente.
Young e Chamberlain não sabiam português. Mas se aprendessem a língua do Brasil descobririam que muitos gramáticos substituíram os sacerdotes e os escribas, seguindo o ditado: por que o simples se o complicado também serve?
A habilidade verbal do brasileiro é uma coisa admirável. Nos bares, nas ruas, em prosas à beira de copos ou pratos, no rádio e na televisão, a língua do Brasil floresce em todo o seu esplendor.
Mas, quando ele precisa escrever, começa a tropeçar logo nas primeiras linhas. O remédio principal é aumentar a relação bunda-cadeira-hora. O brasileiro lê pouco e escreve menos ainda. Precisa fazer mais as duas coisas, na escola e fora dela.
Uma providência adicional é exigir dos candidatos a cargos públicos que saibam ouvir, falar, ler e escreverem português. Afinal, eles precisam respeitar a língua nossa de cada dia.

Escritor e doutor em Letras pela USP, Deonísio da Silva é coordenador do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá. Seu livro mais recente é De onde vêm as palavras (Editora A Girafa, 16ª Edição).

terça-feira, 16 de março de 2010

Canção Outonal, Federico Garcia Lorca


Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas,
mas minha senda se perde
na alma de névoa.
A luz me quebra as asas
e a dor de minha tristeza
vai molhando as recordações
na fonte da idéia.

Todas as rosas são brancas,
tão brancas como minha pena,
e não são as rosas brancas
porque nevou sobre elas.
Antes tiveram o íris.
Também sobre a alma neva.
A neve da alma tem
copos de beijos e cenas
que se fundiram na sombra
ou na luz de quem as pensa.

A neve cai das rosas,
mas a da alma fica,
e a garra dos anos
faz um sudário com elas.

Desfazer-se-á a neve
quando a morte nos levar?
Ou depois haverá outra neve
e outras rosas mais perfeitas?
Haverá paz entre nós
como Cristo nos ensina?
Ou nunca será possível
a solução do problema?

E se o amor nos engana?
Quem a vida nos alenta
se o crepúsculo nos funde
na verdadeira ciência
do Bem que quiçá não exista,
e do mal que palpita perto?

Se a esperança se apaga
e a Babel começa,
que tocha iluminará
os caminhos da Terra?

Se o azul é um sonho,
que será da inocência?
Que será do coração
se o Amor não tem flechas?

Se a morte é a morte,
que será dos poetas
e das coisas adormecidas
que já ninguém delas se recorda?

Oh! sol das esperanças!
Água clara! Lua nova!
Coração dos meninos!
Almas rudes das pedras!

Hoje sinto no coração
um vago tremor de estrelas
e todas as coisas são
tão brancas como minha pena.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Porque cantamos, Mario Benedetti


Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Sinais de fumaça, Mario Benedetti


Quando te encontras no fio do escuro
e lhe prestas honras dos teus ossos
quando a alma puríssima do ócio
pede socorro ao universal inútil
quando sobes e desces da dor
mostrando cicatrizes de outros tempos
quando na tua vidraça está o outono
inda não te despeças
tudo é nada
são sinais de fumaça
apenas isso

teu olhar de viagem ou de desertos
se torna um manancial indecifrável
e o silêncio
teu medo mais valente
se vai com os golfinhos dessa noite
ou com os passarinhos da aurora
de tudo ficam sinais
pistas rastros marcas indícios signos aparecências
mas não te preocupes
tudo é nada
são sinais de fumaça
apenas isso

no entanto nessas chaves se condensa
uma velha doçura atormentada
o vôo de umas folhas que passaram
a nuvem que é de âmbar ou algodão
o amor que carece de palavras
os barros da lembrança
a luxúria
ou seja que os signos pelo ar
são sinais de fumaça
mas a fumaça
leva consigo um coração de fogo.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Silvia Saint, Alexei Bueno


Teu santo nome veste
A quintessência bruta
Da arquetípica puta,
Vênus baixa e celeste.

Áurea cachorra, vaca,
Por que é que os lábios tremem
Vendo em teu rosto o sêmen
Como uma vítrea laca?

Sêmen geral, das turbas
Em teu suor diluído,
No sorriso vendido
Com que os mortos perturbas.

Exatidão vivente,
A luz pisa em teus passos,
Nos teus cílios devassos,
No olhar que arde e consente.

Cadela de ouro, glória
Pueril, sórdida e santa,
Asco que envulta e encanta,
Deusa auto-entregue À escória.

Deusa, deusa mil vezes,
Deusa de uma e mil faces,
Das rameiras rapaces, das cortesãs soezes.

Da assíria e de Corinto,
De Suburra e Pompéia,
Em ti toda a alcatéia
Uiva o olvidar do instinto.

Deusa mordível, puta
Vinda a sorri do Letes,
Talvez um dia aquietes
Tua carne alva e corrupta?

Jamais, deusa, não traias
Teus pobres fiéis que babam,
Que em êxtase se acabam
Por ti, pelas tuas aias.

Louro véu do universo,
Sacra estátua e cadela,
Pisa esta alma que vela
Teu sonho áureo e perverso.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Alma ausente, Garcia Lorca


Não te conhece o touro ou a figueira,
nem cavalos nem formigas de tua casa.
Não te conhece o menino ou a tarde,
porque tu morreste para sempre.

Não te conhece o lombo da pedra,
nem o cetim negro onde tu te destroças.
Não te conhece tua lembrança muda
porque tu morreste para sempre.

O Outono chegará com búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quererá olhar teus olhos
porque tu morreste para sempre.

Porque tu morreste para sempre,
como todos os mortos que há na Terra,
como todos os mortos que se esquecem,
num monte enorme de cães apagados.

Não te conhece ninguém. Não. Porém, eu canto-te.
Canto para depois teu perfil e tua graça.
A madurez insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve tua valente alegria.

Tardará muito tempo a nascer, se nascer,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
Canto sua elegância com palavras que gemem
e lembro uma brisa triste entre as oliveiras.

terça-feira, 9 de março de 2010

Posso escrever os versos... Pablo Neruda


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: «A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe.»

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a, e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a eu nos meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi já.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas tanto que eu a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive nos meus braços,
a minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

(Tradução de Fernando Assis Pacheco)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Quarta-feira de cinzas, T. S. Eliot


I
Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?
Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma
Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar
E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós
Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.
II
Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro
Ao frescor do dia repousavam, saciados
De meus braços meu coração meu fígado e do que havia
Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:
Viverão tais ossos? Tais ossos
Viverão? E o que pulsara outrora
Nos ossos (secos agora) disse num cicio:
~raças à bondade desta Dama
E à sua beleza, e porque ela
A meditar venera a Virgem,
É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui
dissimulado
Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor
Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.
Isto é o que preserva
Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas
Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se
De branco vestida, orando, de branco vestida.
Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.
A vida os excluiu. Como esquecido fui
E preferi que o fosse, também quero esquecer
Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:
Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente
O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono
Com o estribilho dos grilos, sussurrando:
Senhora dos silêncios
Serena e aflita
Lacerada e indivisa
Rosa da memória
Rosa do oblívio
Exânime e instigante
Atormentada tranqüila
A única Rosa em que
Consiste agora o jardim
Onde todo amor termina
Extinto o tormento
Do amor insatisfeito
Da aflição maior ainda
Do amor já satisfeito
Fim da infinita
jornada sem termo
Conclusão de tudo
O que não finda
Fala sem palavra
E palavra sem fala
Louvemos a Mãe
Pelo Jardim
Onde todo amor termina.
Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,
Alegramo-nos de estar aqui dispersos,
Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,
Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção das areias,
Esquecendo uns aos outros e a nós próprios, reunidos
Na quietude do deserto. Eis a terra
Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão
Não importam. Eis a terra. Nossa herança.
III
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.

Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
mas dizei somente uma palavra.
IV
Quem caminhou entre o violeta e o violeta
Quem caminhou por entre
Os vários renques de verdes diferentes
De azul e branco, as cores de Maria,
Falando sobre coisas triviais
Na ignorância e no saber da dor eterna
Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou
Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras
Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias
De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
Sovegna vos
Eis os anos que permeiam, arrebatando
Flautas e violinos, restituindo
Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta
Nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.
Os novos anos se avizinham, revivendo
Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos,
resgatando
Com um verso novo antigas rimas. Redimem
O tempo, redimem
A indecifrada visão do sonho mais sublime
Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.
A irmã silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma
Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou
Redimem o tempo, redimem o sonho
O indício da palavra inaudita, inexpressa
Até que o vento, sacudindo o teixo,
Acorde um coro de murmúrios
E depois disto nosso exílio
V
Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.
Ó meu povo, que te fiz eu.
Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido
Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam
Ó meu povo, que te fiz eu.
Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.
Ó meu povo.
VI
Conquanto não espere mais voltar
Conquanto não espere
Conquanto não espere voltar
Flutuando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam
No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a
morte
( Abençoai-me pai) conquanto agora
Já não deseje mais tais coisas desejar
Da janela debruçada sobre a margem de granito
Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo
Invioladas asas
E o perdido coração enrija e rejubila-se
No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar
E o quebradiço espírito se anima em rebeldia
Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia
Anima-se a reconquistar
O grito da codorniz e o corrupio da pildra
E o olho cego então concebe
Formas vazias entre as partas de marfim
E a maresia reaviva o odor salgado das areias
Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte
O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam
Entre rochas azuis
Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem
Que outro teixo sacudido seja e possa responder.
Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,
Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego
Mesmo entre estas rochas,
Nossa paz em Sua vontade
E mesmo entre estas rochas
Mãe, irmã
E espírito do rio, espírito do mar,
Não permiti que separado eu seja
E que meu grito chegue a Ti.

A canção de amor de J. Alfred Prufrock(1), T. S. Eliot


S’io credesse che mia ris posta fosse
A persona che mai tornasse ai mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.
(2)


Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão.
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.

No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
A fulva neblina que roça na vidraça suas espáduas,
A fumaça amarela que na vidraça seu focinho esfrega
E cuja língua resvala nas esquinas do crepúsculo,
Pousou sobre as poças aninhadas na sarjeta,
Deixou cair sobre seu dorso a fuligem das chaminés,
Deslizou furtiva no terraço, um repentino salto alçou,
E ao perceber que era uma tenra noite de outubro,
Enrodilhou-se ao redor da casa e adormeceu.
E na verdade tempo haverá
Para que ao longo das ruas flua a parda fumaça,
Roçando suas espáduas na vidraça;
Tempo haverá, tempo haverá
Para moldar um rosto com que enfrentar
Os rostos que encontrares;
Tempo para matar e criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias em que mãos
Sobre teu prato erguem, mas depois deixam cair uma questão;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para uma centena de indecisões,
E uma centena de visões e revisões,
Antes do chá com torradas.
No saguão as mulheres vêm e vão
A falar de Miguel Ângelo.
E na verdade tempo haverá
Para dar rédeas à imaginação. “Ousarei” E. “Ousarei?”
Tempo para voltar e descer os degraus,
Com uma calva entreaberta em meus cabelos
(Dirão eles: “Como andam ralos seus cabelos!”)
- Meu fraque, meu colarinho a empinar-me com firmeza o queixo,
Minha soberba e modesta gravata, mas que um singelo alfinete apruma
(Dirão eles: “Mas como estão finos seus braços e pernas!”)
- Ousarei
Perturbar o universo?
Em um minuto apenas há tempo
Para decisões e revisões que um minuto revoga.
Pois já conheci a todos, a todos conheci
- Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café;
Percebo vozes que fenecem com uma agonia de outono
Sob a música de um quarto longínquo.
Como então me atreveria?
E já conheci os olhos, a todos conheci
Os olhos que te fixam na fórmula de uma frase;
Mas se a fórmulas me confino, gingando sobre um alfinete,
Ou se alfinetado me sinto a colear rente à parede,
Como então começaria eu a cuspir
Todo o bagaço de meus dias e caminhos?
E como iria atrever-me?
E já conheci também os braços, a todos conheci
Alvos e desnudos braços ou de braceletes anelados
(Mas à luz de uma lâmpada, lânguidos se quedam
Com sua leve penugem castanha!)
Será o perfume de um vestido
Que me faz divagar tanto?
Braços que sobre a mesa repousam, ou num xale se enredam.
E ainda assim me atreveria?
E como o iniciaria?
Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela debruçados?
Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.
E a tarde e o crepúsculo tão docemente adormecem!
Por longos dedos acariciados,
Entorpecidos... exangues... ou a fingir-se de enfermos,
Lá no fundo estirados, aqui, ao nosso lado.
Após o chá, os biscoitos, os sorvetes,
Teria eu forças para enervar o instante e induzi-lo à sua crise?
Embora já tenha chorado e jejuado, chorado e rezado,
Embora já tenha visto minha cabeça (a calva mais cavada)
[servida numa travessa,
Não sou profeta - mas isso pouco importa;
Percebi quando titubeou minha grandeza,
E vi o eterno Lacaio a reprimir o riso, tendo nas mãos meu
sobretudo.
Enfim, tive medo.
E valeria a pena, afinal,
Após as chávenas, a geléia, o chá,
Entre porcelanas e algumas palavras que disseste,
Teria valido a pena
Cortar o assunto com um sorriso,
Comprimir todo o universo numa bola
E arremessá-la ao vértice de uma suprema indagação,
Dizer: “Sou Lázaro, venho de entre os mortos,
Retorno para tudo vos contar, tudo vos contarei.”
- Se alguém, ao colocar sob a cabeça um travesseiro,
Dissesse: “Não é absolutamente isso o que quis dizer,
Não é nada disso, em absoluto.”
E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? -
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos...
Teria valido a pena,
Se alguém, ao colocar um travesseiro ou ao tirar seu xale
[às pressas,
E ao voltar em direção à janela, dissesse:
“Não é absolutamente isso,
Não é isso o que quis dizer, em absoluto.”
Não! Não sou o Príncipe Hamlet, nem pretendi sê-lo.
Sou um lorde assistente, o que tudo fará
Por ver surgir algum progresso, iniciar uma ou duas cenas,
Aconselhar o príncipe; enfim, um instrumento de fácil manuseio,
Respeitoso, contente de ser útil,
Político, prudente e meticuloso;
Cheio de máximas e aforismos, mas algo obtuso;
Às vezes, de fato, quase ridículo
Quase o Idiota, às vezes.
Envelheci.., envelheci...
Andarei com os fundilhos das calças amarrotados.
Repartirei ao meio meus cabelos? Ousarei comer um pêssego?
Vestirei brancas calças de flanela, e pelas praias andarei.
Ouvi cantar as sereias, umas para as outras.
Não creio que um dia elas cantem para mim.
Vi-as cavalgando rumo ao largo,
A pentear as brancas crinas das ondas que refluem
Quando o vento um claro-escuro abre nas águas.
Tardamos nas câmaras do mar
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas
Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.

Trad. Ivan Junqueira
1- Escrito em Paris-Munique, 1911. (N. doT).
2-Dante Alighieri. La Divina Commedia , Inferno, XXVII, 61-66. (N. doT.)

sexta-feira, 5 de março de 2010

O amor é uma parábola, Bruno Tolentino


O amor é uma parábola, a instante tradução
do real em metáfora; no entanto, não importa
se a aparição que se desvela quando a porta
se escancara entre os mundos, é uma alucinação

ou uma sombra tangível: o ser é uma porção
incerta do invisível e o olho não suporta,
muito menos retém-no, o impacto da visão;
o olhar humano dói mais fundo quando corta

a escuridão ao meio e penetra-a e não toca
sequer seus pirilampos, nem mesmo uma variante
da noite e seus relâmpagos: um corpo deslumbrante

pode se encher de luz primeva, mas a boca
é a entrada da treva, e o mais puro diamante
não cruza nunca o espelho nem tem valor de troca...

Guardar, Antonio Cícero


Guardar uma coisa
não é escondê-la
ou trancá-la.
Em cofre não se guarda
coisa alguma
Em cofre perde-se
a coisa à vista

Guardar uma coisa é
olhá-la, fitá-la, mirá-la
por
admirá-la, isto é,
iluminá-la ou ser por ela
iluminado
Guardar uma coisa é
vigiá-la, isto é,
fazer vigília
por
ela, isto é, velar por ela,
isto é, estar acordando
por ela,
isto é, estar por ela ou ser
por ela.

Por isso melhor se guarda
o vôo de um pássaro
Do que pássaros sem vôos.
Por isso se escreve, por
isso se diz, por isso
se publica,
por isso se declara
e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele,
por sua vez,
guarde o que guarda:
Guarde o que quer
que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que quer guardar.