quarta-feira, 24 de março de 2010

Alice e o escritor, Cristovão Tezza


– Escritores não são pessoas boas. O que me intriga é que os milhares de leitores que ainda restam no mundo, como vocês, essas almas bem-intencionadas aí na platéia me ouvindo, não se apercebam dessa verdade simples e universal. Não satisfeitos em apenas ler os livros que escrevemos, querem também nos ouvir falar, fazem filas atrás de autógrafos e alguns nos escutam com a adoração que se tem aos santos e aos sábios. Felizes, sorridentes, suportam palestras e mesas-redondas onde os escritores costumam desfiar aquele rosário de besteiras e mentiras, sempre as mesmas, teorias estapafúrdias que inventaram de ressaca quinze minutos antes de sentar à mesa ou então que arrastam pela vida afora como uma tábua de mandamentos que não tem nenhum relação com o que escrevem (ou, muito pior ainda, teorias que desgraçadamente têm relação com o que escrevem) piadas sem graça (escritores são quase sempre -é um paradoxo- seres desprovidos de humor), patéticos ataques de narcisos ou simplesmente babaquices sobre o “método de escrever”, o valor da “inspiração”, a importância da leitura no mundo moderno -daqui a pouco ainda sai alguma coisa do tipo “como fazer amigos escrevendo livros”. O poeta iniciante e o vetusto prêmio Nobel, todos se expõem patetas ao ridículo de falar em público e suas bobagens se equivalem. Deve haver exceções, é claro – mas eu não as conheço. O leitor é crédulo – acredita no que está escrito e acredita nos que escrevem. Os que escrevem têm “o dom”. É aí que fazemos a festa. Ninguém percebe que a matéria-prima da literatura é o desprezo. O que me irrita, ao olhar para mim mesmo, é essa dependência gosmenta das outras pessoas, não para sobreviver, o que até seria justo, mas para me alimentar delas, porque sem a estupidez em torno eu restaria sem assunto e morreria por completamente inútil. Se os escritores ainda ficassem sozinhos, em paz – mas não, a maior parte vive em grupos e bandos aguerridos, disputam a tapa cada centímetro da imprensa, puxam o saco do cronista social, lutam desesperados por uma entrevista de cinco minutos no rádio e matam a mãe por dois segundos na televisão, refugiam-se em panelas, igrejas e dissidências, protegem-se em uma gama infinita de lobbies, o lobby gay, o heterossexual, o feminista, o judeu, o árabe, o comunista, a bancada lésbica, o liberal-comunista, os regionais, os neo-machos, o hippie-naturalista, o poeta de bar, o gênio, o assinador de abaixo-assinados que se justifica pela defesa da “causa”, qualquer uma, e mais o – maldito seja! – enviador de e-mails contra o qual não há anti-vírus que funcione, e todos odeiam-se com uma intensidade que não tem paralelo em nenhum outro exemplo da espécie humana, porque a palavra, o tal dom que eles têm, multiplica tudo até a paranóia, dando uma impressão assustadora de realidade. Ao mesmo tempo, para tornar tudo pior, são seres irrelevantes, produzem encalhes invencíveis, praticamente nada do que escrevem tem importância e cada vez menos há pessoas interessadas neles, em geral apenas os também candidatos a escritor, seres intrinsecamente chatos, o que faz desta minúscula arena letrada um sufocamento infernal de pesadelos, frustrações e vinganças. Esse é o miolo em comum – na aparência, são seres bem diferentes, é claro, enganam bem, são até convidados para eventos como esse, e um Lineu teria dificuldade para classificá-los exaustivamente, tamanha a riqueza da fauna. Eles têm uma incrível capacidade de disfarce. Um pai entregaria a filha a um escritor, feliz da vida, sem saber o que a espera. Há os escritores gentis, os grotescos, as grandes promessas, os mal-educados, os sindicalistas, os ganhadores de concurso, os presidentes de associações, os pornógrafos, os perdedores de concurso, os francamente ruins, os autistas, os imitadores, os que mandam carta para a redação, os não-escritores (que são diferentes dos maus escritores) e por aí vai. É uma coisa óbvia: se escritores fossem boas pessoas exerceriam alguma atividade decente da sociedade humana, algo que de fato fosse solicitado pela vizinhança da espécie; seriam seres normais, capazes da convivência e de todos esses valores humanistas que eles às vezes cantam de dedo em riste, incapazes de aplicar na própria vida. Escrever é sempre a expressão de um fracasso, com o qual não se aprende nada – ao contrário da vida real, em que o erro nos melhora. Na literatura acontece o contrário: a presunção doentia que nos leva a escrever e que eventualmente encontra aquela mínima ressonância – o prato de resto de comida do cão faminto, ao qual nos lançamos com a língua de fora – acaba por nos corromper a alma por inteiro de maneira que em poucos anos não servimos para mais nada senão medir a própria incompetência, linha a linha.
Fiz um silêncio retórico e dei um gole de água daquele copo horroroso de plástico com uma certa pose episcopal, para sentir a temperatura da platéia de Curitiba, que eu desgraçadamente desconhecia; a cidade parece que tem uma inexplicável fama de culta. Ao lado, meu parceiro de mesa (o nome me escapa), um simpático romancista municipal e professor universitário que tentava segurar o riso, talvez por imaginar (ele não me conhece), vítima daquele tipo de respeito semiformal ao outro que é a marca da província, talvez por imaginar que eu falasse a sério, e que uma gargalhada poderia ser ofensiva ao visitante. E então, súbito, eu senti o silêncio gélido da platéia – num segundo percebi que a minha catilinária cínica, absurda, porém bastante inspirada (eu estava falando com a leveza de quem escreve, cada vírgula no seu lugar, o ritmo ponderado, os gestos discretos mas eficientes), estava sendo recebida, ou lida, como uma sucessão de pedras na cabeça deles, e eles estavam tentando ainda descobrir em que freqüência deviam sintonizar o meu alto-falante, se pela ironia, pela agressão, pelo humor, pela estupidez, e eu podia descobrir nos olhos intrigados da primeira fila aquele desespero de encontrar o modo exato de enfim compreender o que eu dizia. Ponderavam cada palavra minha – no silêncio mortal que se seguiu ao meu gole de água – como quem sopesa uma bola de chumbo que lhes cai à mão. Ninguém sorria. Dei outro gole, lento, para ganhar tempo – eu havia claramente errado o tom. Nas outras duas vezes em que fiz praticamente o mesmo discurso inicial – numa bienal na Bahia e na feira de Porto Alegre – fui recebido com gargalhadas, risos, um movimentar nas cadeiras, um olhando para o outro e cochichando algo, isso está engraçado, ou esse cara é bom mesmo, aqui e ali um rosto ativamente sério, já engatilhando uma contestação, adiante o esboço de um protesto tímido com o punho levantado, enfim, um sucesso instantâneo que logo ensejou perguntas – digamos, “instigantes” –, algumas francamente provocadoras sobre literatura, cinismo, política e ética que nos deixaram a todos à vontade e eu praticamente não precisei mais pensar até o fim do evento, devolvendo apenas as respostas automáticas de efeito comprovado, para depois pegar meu cheque e cuidar da vida.
Mas ali o silêncio caiu com estrondo – perdão pela imagem – na minha mesa. Alguém já havia me advertido de que Curitiba não era fácil, eu ia encontrar uma polacada dura de roer, refratária a tudo. Mas não foi isso. A platéia era ótima: absorveu exatamente o que eu dizia, e principalmente como eu dizia. Na verdade, eu errei o tom porque estava, de fato, acreditando em cada palavra que dizia, eu cometi o pecado mortal de não me distanciar de mim mesmo, e se há algo indisfarçável na vida é o fel que sentimos, esse sentimento corrosivo e demolidor, esse mal-estar sem direção nem objeto definido que, naquele dia, naquele momento, me tomou por inteiro. O romancista da mesa sentiu vontade de rir porque, como é um escritor do tipo autista, não me ouviu, apenas me leu, e na abstração da leitura tudo é um jogo de duplo sentido, acabamos todos felizes e saltitantes no jardim dos caminhos que se bifurcam. A platéia não – ela me ouviu e me absorveu inteiro, agarrou a minha alma – ela estava entregue ao evento da vida, ao abismo do instante presente, uma coisa que escritor nenhum alcança. Daí o silêncio. Daí aquelas três pessoas lá no fundo, vultos na sombra, levantando-se e saindo, suficientemente discretos para que o desprezo que sentiam por mim não se transformasse em “mensagem”. Mas antes que se pense que eu estava iluminado por algum sentimento filosófico superior e intransponível, uma crise heideggeriana, um cul-de-sac existencialista, uma consciência transcendente do fracasso do meu ofício, é preciso dizer por que eu estava tão inexplicavelmente imbuído das minhas próprias palavras, e a razão é como que a demonstração cabal do meu próprio discurso, isto é, o fato de que escritores são mesmo criaturas horrorosas. Saindo dali – teria antes de me livrar do romancista – eu iria jantar com um velho desafeto, conterrâneo meu, colega de infância e também, por desgraça, escritor. Começou mais tarde a escrever, quando eu já era um nome sólido, e, como quem não quer nada, foi publicando, ocupando espaços, ganhando prêmios e amizades, assinando colunas, e hoje milagrosamente vende dez vezes mais do que eu, aparece em toda parte e é convidado para tudo, enquanto eu, que praticamente o levei pela mão até uma grande editora e escrevo cinqüenta vezes melhor do que ele – mas vou mudar de assunto; lembrar me incomoda, a respiração fica mais curta, sinto uma compulsão de beber. Dei um terceiro gole de água, tentando criar algum fato novo naquele silêncio terrível – exatamente nesse momento lembrei dele, do encontro próximo, do tom superior (superior não; paternalista, um tom protetor) com que ele se dirige a mim – Venha me encontrar! Vamos sim! Rapaz, separei da minha mulher, comecei vida nova! Que bom que você veio para a Semana Literária! Insisti com o teu nome lá na Fundação! Aquele povo é idiota, não conhece literatura, você sabe como funciona isso, é a desgraça de sempre! Nem sabiam quem era você. Eu tive de explicar. Seguinte: vou escolher um restaurante bom e encontro você no hotel. Que tal? – Senti a platéia escurecer diante de mim e percebi que eu estava travado pelo silêncio e esmagado pela memória; eu tinha de prosseguir, dizer alguma coisa, contar uma piada qualquer, recuar, covardemente, com um é claro que isso é apenas uma metáfora mas mas eu não consegui: via o rosto do meu amigo na frente, desgraçadamente separado da mulher, aquela mulher que era praticamente o meu único trunfo; ele ser casado com ela – e eu fui padrinho de casamento – era a minha alegria, uma mulher muito feia e desagradável, burríssima, capaz de dizer os maiores disparates e as maiores confissões na intimidade lotada de um elevador com a sua voz aguda perpassada da histeria das mal-amadas – ele ser casado com ela era um seguro de compensações para mim, tudo bem, ele que faça o que quiser, já paga o suficiente os seus crimes por dormir com ela todas as noites. E agora ele me traz para Curitiba e a primeira coisa que me diz é que está separado da mulher e que começou vida nova, aos 40 anos, e cada frase que ele me diz transborda felicidade, esse sentimento inacessível a quem escreve; eu sei como ele está se sentindo, é uma coisa realmente muito boa, eu que já fui casado quatro vezes sei como é o momento seguinte da liberdade, parece que o mundo recomeça depois daquela prolongada experiência traumática a que nos submetemos por prazos longos obedecendo a algum atavismo incontrolável, pois ele estava vivendo exatamente este momento, e talvez só tenha me trazido para cá (e eu aceitei o cachê ridículo) para me contar, para tripudiar na minha cabeça, sempre com a desculpa de que está pensando no melhor de mim porque você está precisando, o filho da puta ainda é capaz de me dizer. Dei um último gole de água e senti o golpe da azia na alma – eu estava demorando demais a continuar minha palestra, os holofotes do auditório me feriam os olhos, eu praticamente não via ninguém além das figuras já indóceis da primeira fila e o romancista municipal ao meu lado também começou a se agitar, percebi – eu quase que podia ouvir as engrenagens do cérebro dele – que ele pensava desesperadamente em desatar o nó que eu havia criado com aquela minha interrupção esquisita, porque minha cara também não devia estar boa. Parece que enquanto eu não resolvesse o problema do Cássio – o nome do meu amigo de infância –, enquanto eu não me livrasse dele de fato, matando-o talvez (e em três segundos compus uma narrativa inteira de um escritor que mata outro e é desmascarado pelo descontrole da própria alegria), eu não conseguiria dar um passo adiante, dizer alguma palavra, qualquer uma, que abrisse a porteira e me fizesse dar andamento à tragédia – eu estava engasgado. Naquela escuridão (senti saudades da mulher de Cássio, a importuná-lo física e mentalmente com a simples presença ao seu lado numa mesa de bar, mas agora ela não estaria mais lá para cumprir seu papel), o romancista, com um sorriso profissional – tinha experiência de mesas-redondas, notei – pegou o microfone que, é claro, não funcionava, depois pediu o meu emprestado, deu duas batidinhas que explodiram nos alto-falantes, fez um gesto supostamente engraçado e enfim quebrou aquela paralisia:
– Bem, depois dessa insólita introdução do Antonio Donetti, uma bela provocação temática para a noite de hoje, talvez seja o momento de abrir espaço para as perguntas da platéia e...
Eu não via mais nada, nem mesmo o sorriso feliz de Cássio, solteiro aos 40 anos, que certamente me receberia de braços abertos em algum restaurante da moda e me daria um abraço apertado – inclinei-me para o romancista e cochichei com a pior voz que pude simular: Eu não estou me sentindo bem. Talvez... e seguiu-se um transtorno de gentilezas, enquanto parte da platéia saía resmungando, dez minutos para ouvir essa merda e voltar para casa, parte permanecia atônita observando aquele cochichar na mesa, logo rodeada de curiosos, perguntou-se até mesmo por um médico, mas felizmente não havia nenhum para diagnosticar minha fraude, e assim, simulando tontura e ao mesmo tempo gesticulando um não se preocupe, não é nada, fugi por uma portinha dos fundos que súbita me deixou no tal Largo da Ordem, o romancista atrás de mim, realmente preocupado – Nós tínhamos pensado num jantar, será que você... – mas fui me livrando dele, eu procuro um táxi, andar vai me fazer bem, acho que é o estômago, eu, e disse mais algumas mentiras, largando-o enfim para trás, quase correndo dali, disparado em busca de respiração até me ver deitado no escuro do meu apartamento no hotel, à espera do telefonema; agora eu queria desesperadamente vê-lo para medir in loco a pressão que estava acabando comigo e no momento seguinte – engraçado, naquele desespero o tempo voava, e não o contrário, como nos chavões narrativos – o telefone tocou com violência. Eu já sei o que você aprontou, e seguiu-se uma risada francamente alegre que falava por si só e que me deixou mudo: ele está feliz. Não, eu disse, não precisa me pegar, eu vou até o restaurante, é melhor, porque me passou pela cabeça que ele prometesse a carona e me deixasse à frente do hotel esperando duas horas, e não aparecesse enfim, como uma espécie de troco. Assim fui eu mesmo em busca dele, e se ele não estivesse lá eu me sentaria e comeria um belo jantar e nunca mais falaríamos até o fim dos tempos, o que seria uma libertação. Mas ele estava lá, é claro, foi por isso que ele me trouxe para aquela palestra ridícula que eu arremessara para o alto com força e que agora começava a cair na minha alma com todo o peso da gravidade, para me esmagar também até o fim dos tempos, falar é entregar-se, escrever é ocultar-se, pensei ainda ao vê-lo lentamente se erguer sorrindo atrás daquela mesa protegida numa penumbra, ao lado de um vulto de mulher, e eu gelei. Em vez da esposa horrorosa que certamente estaria agora cuidando dos dois filhos pequenos deles, sobrevivendo só com uma pensão ridícula porque ela não sabe fazer nada, contemplei um belo rosto de mulher, uma mulher jovem, cabelos curtos, lisos e claros que eram a moldura oval de uma face tranqüila e equilibrada, de cujo sorriso saíam dentes brancos e também felizes assim que me aproximei, enquanto ela se erguia da mesa com a leveza de uma ninfa – Por favor, fique sentada, e eu toquei a mão dela com as minhas duas mãos – Cássio, que bom ver você de novo, e apertei vigoroso sua mão calosa, para me livrar da memória instantânea que me ficou da pele de Alice, essa é a Alice, minha amiga, e o sorriso dele era um daqueles momentos altíssimos da vida que jamais teremos de volta, eu senti que era nesse clichê que ele habitava agora; e no momento seguinte, o garçom já me oferecendo o cardápio e perguntando alguma coisa que eu me recusava a ouvir para ver melhor os olhos de Alice, Ela tem uma agência de textos, é também tradutora do inglês, francês e italiano, ao que ela sorriu, simulando uma inibição que talvez fosse mesmo verdadeira, o gesto dizendo algo como o que é isso, não exagere, Cássio, eu apenas e ele continuou a falar – Eu acompanho no vinho, disse eu ao garçom para que ele saísse dali – sobre as qualidades de Alice, que ele pretendia apresentar para uma editora nova de São Paulo, essa menina é uma jóia, e eu concordei imediatamente, espantado de quão idiota era o Cássio para estragá-la assim tão impiedoso e grosseiro; mas súbito, logo após o brinde que fizemos eu senti que aquela fonte terrível de infelicidade – vê-lo tão feliz ao lado de uma mulher apaixonante – era também o seu antídoto, o meu elixir da juventude, tirá-la dele, o que me dava um projeto inteiro de vida arquitetado nos poucos segundos concomitantes ao brinde em que percebi a intensidade do olhar de Alice, que eu ainda não havia traduzido, até vê-la, saborosamente desajeitada, abrir a bolsa – enquanto Cássio empalidecia, gaguejando uma mudança súbita de assunto Mas o que foi mesmo que você me aprontou lá na mesa-redonda, eles me telefonaram, você – e me estender um velho exemplar de meu primeiro livro, A foto no espelho, surda a qualquer outro assunto:
– Estava comentando com o Cássio, eu não sabia que ele conhecia você pessoalmente, eu amo esse seu livro, já li três vezes. Você autografa para mim? – A timidez reconhecendo o gesto importuno: – É que depois eu me esqueço.

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