quinta-feira, 4 de março de 2010

Apetite sem esperança, Elisa Lucinda


Mãe eu tô morrendo de fome
eu dizia eu gritava eu mugia
minha vó zangada respondia
você não está morrendo e nem tem fome
Você tem é apetite
Você sabe que vai comer, onde comer, o que vai comer.
Fome não! A fome, minha neta,
a fome, meu irmão,
a fome, minha criança,
é um apetite sem esperança.
Minha vó já dizia pra mim um futuro de Brasil.
Minha vó nem viu nascer edifício no lugar do pão
no lugar do trigo
nem viu criança com infância de semáforo
vendendo mariola barata, criança que mata
porque seu quintal tá sempre no vermelho
criança cujo ralado de joelho
dói menos do que o não morar, não existir, não contar.
Com a fome tenaz
não há tenaz na escola
há só a cola de se cheirar a dor doída
de um monstro estômago a roncar
um animal doido dentro do corpo a uivar
todo dia, sem boa vista, sem quinta zoológica onde morar
Com a fome das crianças brasileiras
forra-se a mesa, arma-se o banquete
dos que sempre tiveram apenas apetite.
A faminta criança foi apenas o álibi, o cardápio, o convite.
Desmamada ela cresce procurando o peito da pátria amada
uma banana, uma manga, uma feijoada
e a mãe pátria diz nada.
Tem ela apenas o horror, o descalor, a calçada
um ódio a todos os tênis de todos os meninos nutridos
um ódio a mochilas, a saudáveis barrigas
um contínuo furor de assaltar os relógios
um deter o tempo que é o seu verdadeiro balão
um cai-cai balão que só cai à mão armada.
A fome gera a cilada de uma pátria de não irmãos.
A gente podia ter gripe, asma, catapora, bronquite
A gente podia ter apetite, mas fome não.
Minha vó bem que dizia sem errança:
fome é um apetite sem esperança.

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