terça-feira, 30 de março de 2010

Arte e Melancolia, Charles Feitosa


O termo melancolia vem do grego, mas hoje é o estado afetivo mais associado a escritores, pintores, filósofos e intelectuais.

Charles Feitosa para François Zourabichvili,
in memoriam

Cheguei há pouco tempo a Berlim e o que mais me impressionou na minha primeira noite, além do frio ainda rigoroso para o mês de abril, foi o silêncio sepulcral a rondar o prédio onde estou hospedado. Não havia nenhuma televisão ligada, nenhum rádio sintonizado, nenhuma cantoria no bar da esquina, nenhum grito de criança. Senti um pouco de falta da agitação da cidade do Rio de Janeiro e acabei ficando com um pouco de dor de cabeça de tanto silêncio. Fico me perguntando se toda a população da cidade foi abduzida ou foi uma bomba de nêutrons que caiu, mas já na manhã seguinte percebo que os vizinhos estão bem vivos, pois a moradora do andar de baixo veio reclamar bem cedo do barulho que fiz durante a noite.
O respeito ao silêncio é uma das principais características da cultura alemã. Essa tranqüilidade pode ser tanto um convite para a reflexão como para a melancolia, tudo depende da atitude. Por coincidência, descobri uma grande exposição sobre a melancolia na arte na Nova Galeria Nacional de Berlim. Nada mais adequado para essa atmosfera de frio e silêncio. O mês de abril é uma época intermediária em que o inverno ainda não foi totalmente embora e a primavera ainda não se instalou definitivamente. Em abril chove, neva e faz sol no intervalo de uma hora. Aproveito a instabilidade do tempo para ir à exposição que começou em fevereiro e está nas suas últimas semanas. Após enfrentar uma fila que dava a volta no prédio, passei as três horas seguintes em uma grande viagem histórica e estética. A exposição começa com uma questão atribuída a Aristóteles: "Por que razão todos aqueles que se destacam na filosofia, na política, na poesia ou nas artes são melancólicos?" (Problemata XXX). O diagnóstico aristotélico da relação necessária entre criatividade e tristeza não é discutido, infelizmente, durante a exposição, mas fica evidente a quantidade de imagens inspiradas no tema em toda a história ocidental da arte.

O guerreiro grego que se sente humilhado por não ter seus feitos heróicos reconhecidos e que comete suicídio.
O termo melancolia vem do grego melankholia. É formado pela associação das palavras kholê [bílis] e mêlas [escuro]. Melancolia significa literalmente a bílis negra, uma das muitas substâncias constituintes do corpo humano segundo a medicina antiga, mas que em excesso provocaria uma desordem cujo principal sintoma seria o afundamento nos próprios pensamentos e a perda de interesse pelo mundo exterior. Supõe-se que a existência da bílis negra tenha sido deduzida da observação de vômitos de cor escura, mas os textos antigos não dão indícios de uma observação empírica. A bílis escura parece ter um caráter imaterial e uma grande força simbólica. Ainda segundo Aristóteles, uma das principais características dos melancólicos seria a propensão a se deixar levar pela imaginação. A melancolia teria, portanto, um caráter ambíguo na cultura grega: era tanto uma doença perigosa, que podia levar ao suicídio, quanto um estado de fermentação da alma, um instante de calmaria antes da explosão de novas idéias e formas.
Com o passar do tempo, melancolia passou a designar muito mais os sintomas da crise e não suas causas fisiológicas, mas desde Aristóteles até Walter Benjamin (1892-1940) continua sendo o estado afetivo mais freqüentemente associado a escritores, pintores, filósofos e intelectuais. Foi interessante notar, na exposição em Berlim, como a posição corporal que expressa a melancolia parece não ter se modificado durante mais de dois mil anos de história ocidental. Da antiguidade ao século 21, vê-se repetidamente a cabeça pendendo sobre a mão, o olhar perdido, o corpo curvado sob o peso da existência.
A cultura cristã também deu uma importante contribuição para a história da melancolia na arte ocidental. A exposição em Berlim mostra diversas imagens associadas à acédia, também chamado de "mal dos monges e dos eremitas", ou seja, daqueles que buscavam o isolamento, geralmente no deserto, como uma forma de protesto contra a decadência moral das sociedades em que viviam. A palavra acédia vem do grego clássico akaedia, que significa literalmente ausência de cuidado, tristeza, indiferença, negligência. A literatura cristã a partir do século 3 d. C. confere à acédia, entretanto, um caráter predominantemente negativo, como uma patologia que leva à destruição, geralmente provocada por demônios e superada somente por meio do exercício de uma vida santificada. A acédia, assim como a melancolia, desencadeia os poderes da imaginação, mas suas imagens serão interpretadas na Idade Média primariamente como representações do mal, do pecado e do vício.
Somente a partir do Renascimento é retomada a tradição aristotélica segundo a qual o melancólico é também um homem criativo e genial. Essa mudança de perspectiva está representada pela famosa gravura de Dürer intitulada Melancolia I, obra central da exposição em Berlim. O temperamento melancólico parece personificado na figura de uma mulher alada, cercada de instrumentos de arte e de ciência, em um momento de solidão noturna, olhando concentrada para um horizonte onde se vê um arco-íris e um cometa. A cena parece indicar que a melancolia pode ser uma experiência de interiorização profunda e fértil, um estado afetivo propício a todo ser que tenha como projeto compreender e modificar o mundo. A obra de Dürer enfatiza as visões superiores, às quais a melancolia pode nos conduzir, mas não oculta o peso e a imobilidade que inflige simultaneamente ao corpo.
A modernidade vai oscilar entre um certo culto à melancolia e às tentativas isoladas de dissociá-la da criatividade. Artistas românticos e expressionistas vão privilegiar o indivíduo sensível à margem da sociedade, através de uma exaltação da solidão, do desespero, da loucura. Influenciados por Immanuel Kant (1724-1804), que via no temperamento melancólico uma marca da sensibilidade do gênio, diversos escritores e pintores, entre eles Goya (1746-1828) e Baudelaire (1821-1867), vão criar suas obras sob o signo de Saturno, o deus/planeta que rege o tempo, a destruição e causa inquietude na alma. Cada vez mais fica fortalecida a crença de que o ser humano é fundamentalmente melancólico, dominado por uma sensação de vazio interior.

O silêncio, de Johann Heinrich Füssli, 1799-1802
Embora possa ser vista na exposição um retrato de Nietzsche (1844-1900) com fisionomia melancólica (de Karl Bauer,1902) é justamente dele uma iniciativa de resistência à moda da melancolia. Nietzsche vai desenvolver uma teoria da criatividade associada à alegria e à vontade de viver. O culto ao peso e à melancolia parece-lhe antes um dos sintomas do niilismo europeu. Seu projeto de uma "Gaia Ciência" escolhe não o eremita nem o monge como modelo, mas a criança que brinca, o homem que dança, a mulher que canta. A exposição, infelizmente, ignora essas discussões filosóficas e termina com obras contemporâneas que revelam imagens atuais da melancolia, associadas dessa vez ao tédio do cidadão das grandes metrópoles.
Os jornais alemães aproveitam o pretexto e promovem um debate insólito: a melancolia é um sentimento tipicamente alemão? Olho pela janela e vejo os primeiros sinais da primavera nas árvores e nos jardins. Penso que a melancolia não é um sentimento ligado à nação, mas ao clima, vinculado muito mais às sombras do inverno do que às supostas características de um povo. A exposição acabou na primeira semana de maio, justamente na primeira semana de temperaturas mais quentes e agradáveis. O verão e o sol se aproximam, as pessoas parecem mais bem-humoradas na rua, então chega de melancolia, agora é hora de alegria!
Charles Feitosa é professor de Filosofia na UNIRIO e realiza atualmente pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Potsdam/Alemanha, com bolsa DAAD-CAPES.

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