segunda-feira, 1 de março de 2010

Artimanhas de Isabel Bishop, Bruno Tolentino


A arte de perder vem com facilidade:
em tantas coisas há uma tal propensidade,
um tal amor à perda, que dá mesmo vontade

de perdê-las. De início, perde um item por dia:
molho de chaves, papelada, a hora vadia
esperdiçada — perde e aprende a mais-valia

da arte desastrada de perder... Mais à frente
perde com mais audácia, sê bem mais diligente:
perde nomes, lugares, a viagem iminente

que ficou por fazer, entre um talvez e um quando.
Perdi o relógio de mamãe e um dia, olhando
minha última casa ir se juntar ao bando

das que se haviam ido, fiquei bem deprimida,
sofri, mas não morri. Afinal, é a vida.
A arte de perder, desastrosa e fingida,

despede-se mas volta: perdi duas cidades
(belíssimas!), um rio e, trêmula de saudades,
perdi um continente inteiro! Mas quem há de

esquivar-se a um mistério, se a arte de perder,
desastre ou não desastre, é algo inerente ao ser?
Perder-te, por exemplo, pouco a pouco esquecer,

ou já nem ver direito um gesto teu, um modo
todo teu de dizer... Aceito-o; não de todo,
é claro, algo se insurge, escapa, cai no lodo

de enxurrada da vida, mas que se há de fazer?
Eu recomendo dar de ombros, pois perder
dói sim, mas (toma nota!) ensina-te a escrever...

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