segunda-feira, 29 de março de 2010

Freud em português, Renato Mezan


Se alguém nos pedir uma lista das pessoas que mais marcaram o século XX, é quase certo que dela constará o nome de Sigmund Freud. E com bons motivos: além de ter inventado a psicoterapia, possibilitando a inúmeras pessoas alívio para sofrimentos psíquicos até então intratáveis, suas descobertas contribuíram para moldar a imagem que o homem ocidental tem de si mesmo. Ao incorporar muitas delas na construção de personagens e enredos, a literatura, o teatro e o cinema as popularizaram, criando modelos que influenciam nossos comportamentos e atitudes na vida amorosa, na educação das crianças e em muitos outros setores da existência.

Como as idéias freudianas alcançaram tamanha divulgação? Além da originalidade e do poder libertador que encerram, Freud era excelente escritor, capaz de expor seu pensamento com clareza e servindo-se de uma vasta gama de procedimentos literários. Outra razão foi ter se dedicado com afinco ao que chamava “o movimento psicanalítico”, isto é, à formação de discípulos que formaram outros e organizaram instituições destinadas a preservar, aprofundar e difundir a Psicanálise. Nessas associações, o estudo dos escritos do mestre é parte fundamental do treinamento de todo novo analista, pois constituem a base da prática clínica.

Durante as primeiras décadas do século XX, o fato de estarem em alemão não criava dificuldades especiais, tanto porque a maioria dos analistas era da Europa Central, quanto porque o idioma de Goethe era uma das principais línguas científicas do mundo. O interesse pela nova disciplina suscitou traduções para o inglês, o francês e o espanhol, algumas supervisionadas pelo próprio Freud, que era fluente nessas três línguas.

Embora nem sempre precisas no sentido conceitual, e com importantes variações de terminologia, essas versões atingiram seu objetivo: oferecer uma visão geral da Psicanálise. Na verdade, foram um dos meios pelos quais ela se difundiu na Europa e nas Américas.

O nazismo, que obrigou muitos analistas judeus a deixar a Europa Central, soou o dobre de finados da Psicanálise nos países onde nascera e se desenvolvera. A morte de Freud coincidiu com o início da Segunda Guerra Mundial; ao término desta, o centro de gravidade do mundo analítico se deslocou para a Inglaterra e para os Estados Unidos, e em menor medida para a França e para a Argentina. Tornou-se então importante estabelecer uma versão dos escritos freudianos que servisse de referência para a comunidade analítica: esta foi a tarefa do inglês James Strachey, e resultou nos vinte e quatro volumes da Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, um monumento científico e literário cujo papel na preservação e na difusão do pensamento do mestre dificilmente pode ser exagerado.

E aqui chegamos às origens do “Freud em português”: o prestígio da Psicanálise inglesa entre nós, e a própria qualidade da Standard, levaram à decisão de a traduzir para a nossa língua, em vez de o fazer do original alemão. Hoje isso soa quase absurdo, mas na época pareceu uma opção aceitável, e de fato muitos brasileiros aprenderam Psicanálise nas páginas da Edição Standard Brasileira.

Ocorre que ela foi realizada com critérios pouco científicos, sem preocupação com o vocabulário técnico, e apresenta inúmeros erros de compreensão do próprio inglês. Os analistas que se encarregaram do trabalho tinham boa vontade, mas não talento literário, e produziram um texto pesado, deselegante, nos antípodas do estilo de Freud.

Na década de oitenta, esses problemas começaram a ser percebidos. A Editora Imago buscou remediá-los emendando as passagens mais problemáticas; o esforço, porém, não valeu a pena, e logo se tornou patente que o melhor era substituir o texto por uma tradução correta a partir do original alemão. Depois de muitas idas e vindas, a casa carioca contratou o analista e professor de alemão Luiz Alberto Hanns para coordenar o empreendimento; desde 2006, sua equipe já publicou três volumes, e no momento prepara um quarto.

Nos anos noventa, o germanista Paulo César Souza, que com a analista paulistana Marilene Carone fora dos primeiros a chamar a atenção para os equívocos da Standard Brasileira, traduziu alguns textos que circularam intamuros, em publicações da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Isso porque só em 2009 a obra de Freud cairia em domínio público: até lá, os direitos autorais pertenciam à Imago.

Ora, a partir de janeiro de 2010 este obstáculo deixou de existir, e é por essa razão que estão sendo lançados os primeiros volumes de duas outras traduções: a da Companhia das Letras, a cargo de Paulo César Souza, e a da LPM, por Renato Zwick. O leitor brasileiro passa assim a dispor não de uma, mas de três versões da obra de Freud.

São projetos diferentes, que a meu ver se complementam. O da LPM visa a apresentar o autor a um público mais amplo, inclusive pelo formato de bolso. É bem cuidada, trazendo prefácios específicos para cada livro de Freud – os dois que acabam de vir à luz, O Futuro de uma Ilusão e O Mal-Estar na Cultura, são apresentados respectivamente por Renata Udler Cromberg e Márcio Seligman-Silva – e um útil “ensaio bibliográfico” assinado pelos psicanalistas Paulo Endo e Edson Souza. Creio que se destina a estudantes de graduação, e a leitores que, sem se preocupar com as sutilezas do texto freudiano, desejam apenas saber o que o mestre diz sobre tal ou qual assunto.

As outras duas têm escopo diverso. Embora com certeza venham a interessar a muitos não-psicanalistas, o público-alvo é primariamente a comunidade profissional, o que exige um tipo de cuidado com o texto original diferente do da edição LPM. Por isso mesmo, é interessante compará-las, até porque os primeiros volumes de cada uma trazem vários artigos em comum.

Tanto Luiz Hanns quanto Paulo César Souza dedicaram muito tempo e reflexão às questões envolvidas no trabalho de traduzir, e especificamente no de traduzir Freud. Com efeito, não se trata de introduzir no Brasil um autor desconhecido; há décadas, estudam-se em nosso país os textos freudianos. Um vocabulário técnico foi se decantando, que varia segundo as escolas psicanalíticas, e cujo emprego denota opções teóricas e clínicas dentro da Psicanálise contemporânea. Há também que levar em conta uma já longa tradição internacional de debate sobre os problemas de tradução desta obra, tradição que se iniciou com as críticas a certas opções da Standard e continuou durante o preparo das versões italiana, argentina e francesa, todas de publicação relativamente recente.

Ambos os tradutores têm consciência destes fatos, e não pretendem substituir o recurso ao original, indispensável a partir de um certo patamar de estudo de qualquer texto, clássico ou não. Suas escolhas são explicitadas em textos programáticos – as de Hanns na Introdução ao volume 1 da nova edição Imago, que cobre escritos dos anos 1911-1915, e as de Souza na sua tese de doutorado, As Palavras de Freud, que a Companhia das Letras publica simultaneamente aos três tomos que abrem sua coleção (o 10, o 12 e o 14, contendo textos que vão de 1911 a 1920).

As decisões opostas quanto à melhor versão de alguns conceitos importantes, como Trieb e Verdrängung – “pulsão” e “recalque” (Hanns), “instinto” e “repressão” (Souza) – certamente suscitarão discussões entre os psicanalistas, e não é difícil prever que nos próximos tempos elas terão lugar de destaque nos colóquios e publicações da tribo freudiana. Os tradutores estão cientes disso, e tampouco pretendem impor suas opções como as únicas adequadas, até porque isso seria impossível num assunto tão controvertido. O que me parece de grande importância é que ambos as justificam com razões de peso, levando em conta os sentidos dos termos na língua alemã, o uso que Freud faz deles (nem sempre uniforme, diga-se de passagem), as diferenças semânticas entre os vocábulos germânicos e portugueses, a fluência das frases em que comparecem, e outros aspectos fundamentais para uma tradução tanto quanto possível exata e elegante.

A principal diferença entre as versões Hanns e Souza provém de que este trabalha sozinho, tendo como foco “a fidelidade ao original, sem interpretações ou interferências de comentaristas ou teóricos posteriores da Psicanálise”, enquanto o primeiro dá grande importância ao fato de Freud ter sido e continuar sendo estudado por toda uma comunidade de psicanalistas.

Isso o leva a ponderar as implicações de substituir termos de uso corrente, mas não corretos segundo os exigentes critérios adotados pela sua equipe; no final, resolveu manter alguns com os quais não está inteiramente de acordo, e a só insistir na mudança nos poucos casos que acredita envolverem erros capazes de deturpar o pensamento de Freud (por exemplo, traduz Vesagung por “impedimento”, já que para um falante de português “frustração” sugere fortemente a idéia de decepção, que tem pouca ou nenhuma relevância na concepção freudiana deste fato psíquico).

Outra decorrência dessas posturas diferentes aparece nas notas explicativas: as de Souza são pouco numerosas, até porque na tese ele examinou com vagar os problemas em pauta e explicou por que prefere determinadas soluções para eles. (Daqui por diante, aliás, seu livro se tornará indispensável para quem quiser estudar Freud a fundo). Já a edição Hanns traz um imponente aparelho crítico: os comentários de Strachey (sobre os quais a Imago detém os direitos), abundantes notas do editor, e uma novidade da qual gostei muito - pequenos parágrafos de analistas brasileiros sobre alguns termos ou passagens, mostrando como foram compreendidos pelas diversas orientações pós-freudianas.

Para além dessas diferenças, porém, o importante é que tanto as versões aqui mais longamente comentadas quanto a da LPM oferecem ao público brasileiro algo precioso, do qual estava privado pelas incorreções da edição anterior: o deleite de ler em nossa língua o que Freud realmente escreveu.




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