quarta-feira, 17 de março de 2010

A língua do Brasil, Deonísio da Silva


Todos se queixam de que português é difícil. O brasileiro é chorão?
Não me parece que possa ser definida como chorona uma nacionalidade marcada pelo carnaval, pelo humor e pelo riso purificador com os quais suporta males seculares. A queixa pode ser assim resumida: a língua falada é uma, mas a língua escrita é outra.
Gastamos verbas que não temos para fazer com que nossas crianças grafem de mil maneiras o mesmo fonema. Assim, sapato, extra, exceção, sessão, feliz e ascensão demandam que o som de “s” seja escrito com s, x, c, ç, ss, z. E ainda temos “s” com som “z’, como em trânsito.
O inglês Thomas Young (1773-1829) tinha apenas catorze anos e já sabia latim, hebreu, samaritano, caldeu, árabe, sírio, francês, italiano, persa, turco e etíope, além de inglês, naturalmente.
O francês Jean-François Champollion (1790-1832) não lhe ficava atrás e aos dezesseis anos proferiu sua primeira conferência sobre egiptologia. A escrita hieroglífica foi levada da Mesopotâmia para o Egito por volta do ano 3.300 a .C. por guerreiros ou comerciantes.
Sacerdotes dela se apossaram numa época em que dominavam a política e a economia. Os escribas tinham prestígio numa sociedade em que a taxa de analfabetismo avant la lettre chegava a 99%. Eles escreviam para faraós e sacerdotes, que os remuneravam regiamente.
Young e Chamberlain não sabiam português. Mas se aprendessem a língua do Brasil descobririam que muitos gramáticos substituíram os sacerdotes e os escribas, seguindo o ditado: por que o simples se o complicado também serve?
A habilidade verbal do brasileiro é uma coisa admirável. Nos bares, nas ruas, em prosas à beira de copos ou pratos, no rádio e na televisão, a língua do Brasil floresce em todo o seu esplendor.
Mas, quando ele precisa escrever, começa a tropeçar logo nas primeiras linhas. O remédio principal é aumentar a relação bunda-cadeira-hora. O brasileiro lê pouco e escreve menos ainda. Precisa fazer mais as duas coisas, na escola e fora dela.
Uma providência adicional é exigir dos candidatos a cargos públicos que saibam ouvir, falar, ler e escreverem português. Afinal, eles precisam respeitar a língua nossa de cada dia.

Escritor e doutor em Letras pela USP, Deonísio da Silva é coordenador do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá. Seu livro mais recente é De onde vêm as palavras (Editora A Girafa, 16ª Edição).

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