quinta-feira, 25 de março de 2010

Nélida Piñon: "A mulher continua sendo a parte invisível da humanidade", María Luisa Blanco


Referência absoluta da literatura brasileira atual, escritora carismática e comprometida com a voz da Ibero-América, Nélida Piñon (nascida no Rio de Janeiro em 1937) esteve em Madri convidada a ministrar um curso na Fundação Mapfre, para explicar a seus atentos alunos os segredos da escrita.

El País - Quais são os segredos da escrita?
Nélida Piñon - Não sei, são tantos! Gosto de pensar que faço parte de uma arte que tem um componente de mistério e não pode explicar toda a sua trajetória. O escritor pertence à casa do mito, e convivemos o tempo todo com o mito da criação. Por mais que alguém explique o que está fazendo, sempre há uma zona de sombras, o que contribui para a grande ambigüidade da arte.

EP - Literatura é contar histórias?
Piñon - É muito mais que isso. Pode-se explorar esse lado exibicionista da literatura. Gostamos de escutar histórias ou supor que fazemos parte delas porque não podemos estar fora do circuito da vida. A pessoa nasce, estuda, faz filhos e morre, e isso é muito pouco para a aventura humana.
Fazer parte de histórias nos dá outra dimensão.

EP - Seu último livro, "Vozes do Deserto", a recriação das "Mil e Uma Noites", é uma compilação de histórias. A senhora conseguiu se libertar do fascínio do deserto e suas vozes?
Piñon - Já estou fora. Não é que seja inconseqüente ou frívola, é que para poder entrar em outro romance tenho de esvaziar o armário e me transformar numa espécie de franciscana para voltar a buscar novas roupas. É começar outra vez, com a vantagem de já ter um ofício e saber como fazê-lo.
Agora estou em outro território.

EP - Qual é esse território?
Piñon - Isso não posso dizer, mas terminei um novo livro de ensaios que se chama "Aprendiz de Homero". Sou apaixonada por Homero, tenho a sensação de que somos seus filhos, mas que ele só existe se nós o legitimarmos. Eu disse isso no discurso do Prêmio Príncipe de Astúrias: "Eles nos devem sua imortalidade".

EP - Em um de seus artigos a senhora fala dos "ruídos do coração do Brasil", referindo-se a sua literatura. Pode lembrar algum dos grandes:
Machado de Assis, Guimarães Rosa, Clarice Lispector?
Piñon - São os grandes mortos e estão sempre presentes. Na Academia de Letras temos o busto de Machado de Assis e sempre o cumprimento, como "senhor", porque não tenho nenhuma intimidade com ele. Parece-me extraordinário que esse homem, que era um fatalista, um pessimista e um determinista, não tenha percebido que sua própria história pessoal o contradizia. Ele era mulato, pobre, autodidata e gago como Moisés. Quando Machado de Assis morreu, sendo já o maior escritor brasileiro, tudo foi ao contrário de suas previsões. Quando penso nele me digo que o país não tem justificativa para o fracasso. Foi um grande escritor e de uma grande modernidade. Sou muito agradecida a meus precursores. Guimarães Rosa tem seu romance extraordinário, mas me interesso sobretudo por seus contos. Ele fez um trabalho excepcional com a linguagem, foi um escritor de grande envergadura.

EP - Com Clarice Lispector a senhora teve alguma cumplicidade?
Piñon - Do ponto de vista da ficção não, mas a admiro muitíssimo.
Tivemos uma grande amizade; quando ela morreu eu estava segurando sua mão esquerda e a acariciava. Tinha um caráter difícil, mas nos queríamos muito.
Eu era muito mais jovem que ela, mas ela demonstrava um grande carinho por mim e dizia a todos: "Nélida é um símbolo de lealdade". É bonito, não? Eu era firme com ela, lhe dizia: "Não concordo, Claricinha", e ela aceitava muito bem minhas opiniões. Nos queríamos muito. Quando nos conhecemos, foi ela quem tomou a iniciativa da amizade, porque era uma mulher com uma intuição excepcional. Eu tinha a sensação de que Deus havia pousado a mão em seu ombro e lhe havia dito: "Escreva, e não precisa fazer muito mais". Eu ainda não tinha publicado nenhum livro, e ela quis ser minha amiga em igualdade de condições.

EP - Acredita que haja um universo feminino na literatura?
Piñon - Creio que há um universo individual e que nele há um espaço que foi ocupado pela mulher. Estou convencida de que o repertório verbal da mulher era imenso, mas não o podia utilizar na medida em que precisava se circunscrever a um universo restrito, a sociedade a condenou a ser afásica.
Sua linguagem tornou-se cotidiana, simbólica, e ela foi acusada de astúcia, o mesmo que os povos e coletivos que sofrem perseguição ou dominação têm de desenvolver.

EP - E no plano pessoal, qual é sua opinião sobre a situação da mulher hoje? Continuamos em um universo um pouco machista?
Piñon - Muitíssimo! A mulher continua sendo a parte invisível da humanidade, por mais que faça. As decisões do mundo emanam dos homens. Eles são os responsáveis pelos acertos e as catástrofes da humanidade. A mulher ainda não conseguiu penetrar no mundo das decisões, até Deus é um conceito masculino. Ainda há muito a fazer, melhorou muito e creio que o feminismo é a verdadeira revolução do século 20, mas ainda falta muito. Uma revolução que foi feita sem sangue; a mulher foi de uma elegância moral extraordinária.

EP - Como a senhora vê o Brasil hoje? Podemos pensar que caminha para um mundo melhor?
Piñon - Creio que tudo é muito lento, não temos uma visão panorâmica e seqüencial da história. Não gosto muito de falar de meu país quando estou longe, mas creio que tem dois meios de saída excepcionais: a manutenção de sua língua e o patrimônio de sua geografia. Também me parece extraordinária sua mestiçagem, a fusão dos sangues, tão alheia à limpeza do sangue. Temos uma cultura popular muito rica, e meu medo é que se uniformize por culpa da televisão e da cultura de massas. É um país de grande vitalidade, que deu grandes escritores e artistas e tem componentes de convivência muito estimulantes.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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