quinta-feira, 18 de março de 2010

O paradoxo de Pixis, Charles Kiefer


Pixis foi um músico medíocre, mas teve o seu dia de glória no ano de 1837. Num concerto em Paris, Franz List tocou uma peça desse, hoje, desconhecido compositor, junto com outra, do admirável, maravilhoso e extraordinário Beethoven (os adjetivos podem ser verdadeiros, mas – como se verá – são relativos). A platéia, formada por um público refinado, culto, e um pouco bovino, como são, sempre, os homens em ajuntamentos, esperava com impaciência.
Listz tocou Beethoven e foi calorosamente aplaudido. Depois, quando chegou a vez do obscuro e inferior Pixis, manifestou-se o desprezo. Alguns, de ouvidos mais sensíveis, retiraram-se do teatro, incapazes de suportar aquela música de má qualidade.
Listz, no entanto, registraria, conforme Stanley Edgar Hyman, em The armed vision, citado por Antônio Cândido, que um erro tipográfico invertera no programa do concerto os nomes de Pixis e Beethoven!
A música de Pixis, ouvida como sendo de Beethoven, foi recebida com entusiasmo e paixão, e a de Beethoven, ouvida como sendo de Pixis, foi enxovalhada!
Este paradoxo deveria nos tornar mais atentos ao que julgamos ser arte. Desconsiderar, no fenômeno estético, os mecanismos de recepção é correr o risco de se aplaudir Pixis como se fosse Beethoven.

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