sexta-feira, 19 de março de 2010

O poder do professor, Moacyr Scliar


(...)
O ensino e o poder têm uma coisa em comum:
Ambos lidam com a informação, com o conhecimento. O político sabe coisas, está informado. O professor, também. Mas a atitude de ambos é diferente. O político detém a informação. E é pelo fato de estar detida, de não circular, de ficar em segredo, que a informação confere poder.
O professor não detém a informação, o conhecimento. O professor transmite a informação, o conhecimento. Este é o objetivo de sua profissão. É um objetivo generoso. Mas não proporciona poder.
Agora: será que os professores querem poder? No passado talvez isso fosse verdade. Não podemos esquecer que a escola já foi um lugar repressor, terrivelmente repressor, às vezes, usando até o castigo físico.
A palmatória, a coisa de ficar de joelhos sobre grãos de milho. Na lnglaterra, a chibata fazia, e em alguns lugares ainda faz, parte do equipamento escolar. No Kênia e em várias escolas americanas, também. O castigo apóia-se (infelizmente) num provérbio bíblico: “Poupa a vara e estragarás a criança” (mas é bom lembrar que este é um dito de alguns milênios atrás). Em janeiro deste ano, uma comissão pedagógica inglesa pediu a abolição completa do castigo corporal nas escolas. Por incrível que pareça, o pedido foi rejeitado pelo governo Tony Blair — o próprio primeiro- ministro admitiu que batia em seus filhos (estava mesmo na hora de ele sair).

O poder do professor não nasce da repressão. Também não nasce dos conchavos e das manobras. O poder do professor nasce da mais pura expressão da democracia que podemos conceber, aquela democracia que busca iguais oportunidades para todos através da educação. Que não é só transmitir informação ou conhecimento. E muito mais. E o estabelecimento de uma relação emocional que persistirá pela vida. É por isso que todos nós lembramos nossos professores.
Que este mérito não é por todos reconhecido, basta ver pelos salários que são pagos aos docentes. Mas de repente aparece um testemunho inusitado e insuspeito. Como aquele que foi dado por George Guerra nas Estrelas Lucas, um cara que fatura milhões com seus filmes. Nós, cineastas, também somos professores, diz Lucas, professores com uma vasta audiência. E em seguida observa: mas nunca teremos o poder de um professor que, na sua humilde sala de aula, ensina aos alunos coisas que vão ajudá-los pela vida afora.
Guerra nas estrelas? Não, a guerra é aqui mesmo, a guerra contra o desconhecimento, contra a insensibilidade. E é uma guerra que só pode ser ganha com os professores na linha de frente.

Um comentário:

  1. Bom estímulo para refletir inclusive sobre a qualidade dos inúmeros mestres ou futuros mestres que estão frequentando as academias e em breve estarão com o compromisso de transmitir conhecimento, ensinar, educar, mas que em algumas situações vêem esta atividade apenas como um emprego que lhes ajuda ganhar a vida.

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