segunda-feira, 1 de março de 2010

Para ler poesia, Leandro Konder


Por que, atualmente, quase não se lê poesia?
As pessoas dão respostas variadas a essa pergunta. Algumas leram poemas no passado, depois se desinteressaram, acharam outras leituras mais atraentes. Outras dizem: “poesia não faz o meu gênero, nunca fez”. Há ainda quem se diz “traumatizado” por versos chatos de leitura obrigatória nos tempos da escola. E há leitores que alegam ter feito tentativas fracassadas, que estranharam o “artificialismo” da linguagem, o “constrangimento” das rimas etc.
Haveria muito a dizer a respeito dessas alegações. Mesmo respeitando o gosto dos recalcitrantes, seria possível lhes apresentar réplicas que merecem alguma atenção. Antes de mais nada, lembremos que a necessidade humana de se expressar poeticamente é muito antiga. A linguagem poética é anterior à linguagem em prosa, que veio mais tarde, com todas as suas complicações, conexões, conjunções etc. O fato de que ela venha durando há tanto tempo —
milênios! — não sugere que a poesia corresponde a uma demanda profundamente enraizada na alma dos seres humanos?
A poesia pode, como as artes em geral, desempenhar papéis variados, funções diversas (de entretenimento, terapia, “propaganda” etc.). Atualmente, há um consenso em torno da idéia de que ela é uma forma de conhecimento. Merquior escreveu certa vez:

Se há um ponto em que decididamente concordam as mais opostas teorias estéticas
de hoje (por exemplo, a estética de Heidegger com a de Lukács), é na aceitação
comum da arte como forma de conhecimento.[1]

As controvérsias proliferam quando se trata de determinar quais são as peculiaridades desse conhecimento artístico e poético. A poesia tem trazido para os homens elementos sensíveis preciosos para eles se conhecerem melhor, para um incessante descobrimento — e uma constante invenção — de si mesmos. Os homens existem criando, inovando, surpreendendo. Há algo de espantoso na criação como tal. As pessoas se perguntam, naturalmente: como algo que não existia antes passou a existir? E há algo de espantoso no fato de que essa criação seja a criação de nós mesmos, da nossa realidade.
Na compreensão dessa realidade, que é infinita, algo sempre nos escapa. Jamais conseguiremos enquadrar o real nos nossos esquemas explicativos. A poesia tem a vantagem de nunca ser um esquema explicativo.
Já ouvi pessoas tentarem justificar o fato de não lerem poesia como uma conseqüência da má sorte, que as levou à leitura de maus poemas. É uma alegação frágil. Não conheço nenhum apreciador de cinema que tenha visto uma série de filmes ruins e tenha desistido de se deleitar com a sétima arte. Também já escutei quem se queixava de, no passado, ter esperado muito da poesia e ter se decepcionado com o que recebeu. É possível, contudo, que a culpa pela decepção esteja naquele que exorbitou na sua “cobrança”.
O poeta Carlos Drummond de Andrade já se defendia das cobranças exageradas, assegurando ao leitor que seu verso era bom, o ouvido do leitor é que havia entortado.
Não tem sentido pedirmos demais à poesia ou alimentarmos expectativas exageradas em relação à sua eficácia. A poesia não nos traz soluções mágicas para os nossos problemas. Merquior, no auge da sua aproximação com Lukács e com o marxismo (por volta de 1963), chegou a escrever que a poesia transforma os temas em problemas, lançando luz sobre situações humanas que desafiam a nossa compreensão. Vale a pena citá-lo: “No processo histórico de formação de uma nova práxis, os temas se transformam em problemas”[2]. E: “O problema é a forma literária de conhecer o mundo pela práxis. Pois não é a práxis o que de fato enfrenta o mundo para superar a alienação?”[3]
A palavra poesia é usada no cotidiano com um sentido amplo e vago, que se presta a alguma confusão. Poesia aparece como qualquer manifestação de uma beleza difusa: manifestação que pode ser tanto uma qualidade como um defeito (dependendo do juízo de quem avalia o que é tido como “poético”, se o considera “pouco prático” ou “delicado”, “encantador”). Mesmo quando é a expressão de uma avaliação positiva, o adjetivo “poético” pode se prestar a um obscurecimento do significado da poesia como arte, como gênero literário, como procedimento mimético.
Há um poeminha gracioso do poeta espanhol Gustavo Adolfo Becquer: “Que es poesia? Dices, mientras clavas/ em mi pupila tu pupila azul. /Que es poesia? Y tu me lo preguntas?/ Poesia — eres tu”. O poeta, fascinado pela beleza dos olhos azuis que a moça está cravando nele, ao perguntar-lhe o que é poesia, declara-lhe, galante, que poesia é ela. De fato, sem contestar a legitimidade do galanteio, devemos reconhecer, num nível mais sóbrio, e conceitualmente mais exigente, que poesia não é a moça, mas o que o poeta escreveu sobre ela.
A busca de uma conceituação precisa não é uma exigência pernóstica, mas uma preocupação — derivada do compromisso que a consciência crítica é leva da a ter — com o resgate de possibilidades que a poesia nos proporciona de termos acesso a um conhecimento peculiar da condição humana.
O que a poesia nos possibilita — e só ela pode nos possibilitar — é, na linguagem, uma melhor compreensão dos nossos sentimentos por meio da comparação com os sentimentos dos outros; e uma melhor compreensão dos sentimentos dos outros por meio da comparação com os nossos sentimentos.
Ninguém pode pretender ser “objetivo”, “científico”, nessa comparação, já que entre os sentimentos que serão comparados estarão sempre os sentimentos do próprio comparador.
A poesia me proporciona a descoberta de alguns dos meus sentimentos possíveis. Ela pode ampliar para mim o campo da minha capacidade de sentir coisas novas.
Todas as áreas das ciências humanas e das ciências sociais, em geral, têm muito a extrair da poesia. Com muitos anos de trabalho no campo da educação, surpreendo-me com o escasso aproveitamento da poesia na contribuição que os educadores poderiam dar à formação da autoconsciência dos educandos.
A experiência tem mostrado que, se não ampliamos o campo daquilo que sentimos (ou que podemos sentir), nossa capacidade intelectual fica prejudicada, nossa racionalidade se deforma. Ou o sensível e o racional se apóiam mutuamente ou ambos sofrem prejuízos.
A poesia desempenha um papel fundamental nessa ajuda mútua da razão e da sensibilidade: como linguagem que é, contribui para o exercício da autodisciplina da razão; como intuição, inspiração, “iluminação”, ela promove o aguçamento da sensibilidade.
Para enfrentar o desafio com que se defronta, o poeta precisa de uma linguagem que escape às comunicações utilitárias do cotidiano. Não necessariamente pelo uso de rimas (que não é obrigatório, e não deve ser visto como uma característica essencial da linguagem poética, em geral). O que caracteriza a linguagem poética é o fato de que — ainda recorrendo a uma expressão de Merquior —, para ela, “a carne da palavra é tão importante quanto o seu sentido”[4].
A linguagem do poeta não é a das comunicações e informações: é a da expressão — às vezes desconcertante — da extrema diversidade da condição humana. Existe nela algo de misterioso. Compreende-se que o poeta espanhol García Lorca tenha dito: “Todas as coisas têm um mistério e a poesia é o mistério que todas as coisas têm”. Compreende-se que o poeta alemão Friedrich Novalis tenha escrito: “a poesia é a religião original da humanidade”.
Não é casual que os grandes livros religiosos tenham uma linguagem poética. A Bíblia ensina: “No princípio, era o Verbo”.
Alguns leitores aceitam a linguagem bíblica, mas estranham a linguagem poética, acham-na esquisita. Comparam-na com a “objetividade” da prosa e indagam para que ela serve, qual a necessidade de alguém se expressar assim.
Quando os ouço argumentar, tenho vontade de fazer algumas perguntas: Não lhes parece que o discurso tradicional das autoridades é bem mais esquisito que a linguagem dos poetas? Não lhes parece que a retórica do comando, tão clara, tão sem ambigüidades, é bem mais perturbadora do que a poesia? O que é mais grave: o artificialismo (?) da linguagem poética ou a banalização da linguagem, em seu uso desatento, displicente, tal como o vemos, oferecido em espetáculo na TV?
Nas condições em que vivemos, num tipo de sociedade que gira em torno do mercado, tudo tende a virar mercadoria, tudo tende a ter um preço, os valores intrinsecamente qualitativos são diariamente bombardeados por um sistema pragmático, utilitário. Como escreveu o poeta espanhol Antonio Machado, “todo necio/ confunde valor y precio”.
A poesia é um movimento de resistência dos valores qualitativos. Pelo simples fato de continuar a existir, ela trava uma “guerra de guerrilhas” contra o princípio (que nos está sendo imposto, na prática) da “vendabilidade universal”. Com sua natural atenção às diferenças, com sua abertura para as singularidades, a poesia complica o que tem de ser complicado, relativiza o que tem de ser relativizado. E faz isso para salvar o que tem de ser salvo.
Do ponto de vista do emissor, a poesia, em sentido lato, pode tender a se manifestar predominantemente na fala de um “ele”, na terceira pessoa, na epopéia; na fala de um “tu”, na segunda pessoa, na poesia dramática (que pede a encenação), ou na fala de um “eu”, na primeira pessoa, na poesia lírica. Convém advertir, no entanto, que esse eu, que tem na poesia lírica seu lugar garantido, possui características especiais. De que eu se trata? O poeta só consegue “se dizer” quando leva aos outros algo que é pessoal, mas que também interessa a eles, quer dizer, tem universalidade. Não é, portanto, o eu do egocentrismo. Não é o pequeno eu do consumidor voraz, inflado pela exaltação que lhe fazem as empresas de publicidade.
O ensaísta e poeta mexicano Octavio Paz escreveu que a poesia não alimenta a vaidade do eu, porque o põe sob a disciplina da linguagem: “el ejercicio de la poesía exige el abandono, la renuncia al yo”[5] Para expressar sua experiência vivida de modo a sensibilizar seus leitores, o poeta não pode se limitar a falar do seu eu empírico: precisa falar do seu eu “condensado”.
Vale a pena lembrar, aliás, que Ezra Pound observou que em alemão poesia é Dichtung, substantivo que corresponde ao verbo dichten, que significa “condensar”. A linguagem poética, então, seria uma condensação da experiência, envolvendo simultaneamente elementos intelectuais e emocionais.
Os elementos emocionais e sentimentais são fundamentais, mas não é com eles que a poesia se elabora. Por mais sinceros que sejam, eles se derramarão na inocuidade estética do sentimentalismo se não forem articulados por um pensamento criador. É pelo caminho do artifício que o poeta consegue ser convincente na criação do efeito do natural. Entre a espontaneidade absoluta e a eficiência do fingimento, Fernando Pessoa não vacilou: observou que o poeta “é um fingidor/ Finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente”.[6]
Um texto poético tem distintos níveis de leitura. Quem se contenta com uma primeira impressão, passiva, sem verificar se não lhe caberia certo esforço de decifração, pode estar perdendo a oportunidade de ser premiado com uma pequena sorte grande. Pode estar saindo do restaurante após comer o acompanhamento, sem tocar no prato principal.
Podemos, por analogia, retomar na leitura dos poetas a distinção estabelecida por Freud entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente dos sonhos. Adaptando-a à poesia, podemos falar no conteúdo manifesto e no conteúdo latente de alguns poemas. O primeiro é aquele que nos vem em versos transparentes; o segundo é o que passa pelas entrelinhas.
Essa diferença no tipo de conteúdo não significa necessariamente que um deles deva ser sempre superior ao outro. Nosso objetivo, ao mencioná-la, é advertir que devemos ficar atentos para as diferenças entre os poemas: poemas distintos pedem leituras distintas.
Assim, o leitor tem de ficar atento à diversidade dos temas, dos estilos, das épocas, dos idiomas, das inclinações políticas, da condição social e das perspectivas filosóficas dos autores. Há diferenças, contudo, de outro tipo, existentes entre os melhores momentos e os menos bem resolvidos nas obras dos poetas: as diferenças entre a poesia que acolhe a pessoa do poeta e recebe esclarecimentos provenientes da sua biografia; e a poesia que não precisa de informações biográficas para ser apreciada.
A pessoa do autor interessa na exata medida em que contribui para elucidar alguma coisa importante relativa à obra. A poesia é que confere interesse ao poeta. Mesmo que o mundo do poeta seja, afinal, o nosso mundo, reconhecido como tal, ele aparece nos poemas mimeticamente recriado, transfigurado; e seu interesse passa a ser maior que o das vicissitudes pessoais que eventualmente partilhamos com os poetas.
A poesia não é um movimento escapista, de fuga para outro mundo. O conhecimento que nela se realiza permanece sempre imanente. Cada poema traz em si, de algum modo, a marca das condições históricas em que foi elaborado.
Goethe chegou a afirmar que todo poema era “de circunstância”. Se a frase fosse interpretada como negação do poder de perdurar da poesia, se ela afirmasse que toda criação poética tem uma existência fugaz, estaria certamente equivocada. O que Goethe nos diz, entretanto, é que a universalidade alcançada na viagem do autor ao leitor, no caso da poesia, preserva algo da singularidade, do hic et nunc do momento da criação do poema.
Por que o poema bem-sucedido tem esse poder? Essa é uma das questões cruciais da estética. Poderíamos dar uma resposta sucinta: porque ele ganha na linguagem uma densidade significativa especial. Com o tempo, os poemas se articulam num movimento de vocação dialógica, que nos incita a rever e a ampliar nossa apreensão da realidade humana como um todo (ainda que inesgotável).
De fato, quem mergulha mais fundo no universo da poesia percebe que ele existe sendo constituído por um imenso diálogo entre os poetas. O discurso feito por determinados poetas em determinados poemas pode ser monológico (como diria Bakhtin), mas esse “monologismo” precisa ser avaliado com muita precaução.
A linguagem poética pode assumir características impositivas, pode dar a impressão de que o poeta ignora a possibilidade de que seu ouvinte (ou leitor) tenha razões próprias para pensar (ou sentir) diferentemente dele. Mas — atenção! — o tom impositivo pode ser a expressão de um sentimento forte que se sabe, no entanto, comprometido com circunstâncias momentâneas.
Na prosa, a linguagem é predominantemente denotativa; na poesia, cresce a importância das conotações. Na prosa, aquele que fala (ou escreve) se empenha em ser fiel a um código objetivamente adequado à comunicação com os outros. A linguagem poética é alusiva, injeta imaginação no código, submetendo-o a situações surpreendentes, sempre um tanto diferentes daquelas para as quais ele foi criado.
Quando um sujeito diz “estou morrendo”, ele pode estar simplesmente passando para seu médico ou para seus familiares uma informação dramática. Se a frase for dita por um poeta apaixonado que procura comover sua amada, entretanto, “estou morrendo” significa outra coisa; significa que ele está dramatizando o que sente, tentando comover a pessoa que ama.
A exatidão e a objetividade da prosa permitem que o sujeito se imponha na sua linguagem. A poesia, independentemente do que dizem muitas vezes os poetas em tom categórico, relativiza o monologismo (condicionando sua expressão, que anseia por se eternizar, a um instante subjetivo, fugaz).
A poesia compõe um quadro polissêmico, infinitamente diversificado, no qual todos os poetas falam, e — mesmo quando se ignoram — mandam recados uns aos outros, interpelam uns aos outros. Expressam-se, enfim, dialogicamente.[7]
Por mais que, instalados cada um em sua singularidade, os poetas se sintam solitários, dispostos a preservar sua identidade altamente peculiar, e possam sublinhar sua originalidade, observando as diferenças que os separam uns dos outros; por mais que sejam efetivamente sujeitos pulverizados, cada um expressando seu eu, os poetas, na incomensurável diversidade de suas falas, constituem não um coro — com suas harmonias tão disciplinadas! —, mas um quadro de intercâmbio e colisão de discursos, uma justaposição quase caótica de falas, resultando, entretanto, num diálogo surpreendente, revelador de uma discussão indireta que ninguém sabia estar sendo travada.
Os poemas, no seu conjunto, mostram a realidade da proliferação dos eus, porém apontam também para o sonho de um “nós”, quer dizer, de uma comunidade que não dissolve os indivíduos, destruindo-lhes a autonomia, mas, ao contrário, por meio da solidariedade, pode fortalecê-los na independência de cada um.
Só quem mergulha no mundo da poesia, só quem lê os poetas, pode extrair dessa aventura a efetiva compreensão da riqueza desse diálogo. Mesmo porque o diálogo entre os poetas depende da colaboração e da complementação dos leitores; depende da sensibilidade do leitor para promovê-lo, para encená-lo.
A poesia é, de fato, um gênero árduo, que exige muito do poeta, mas também exige muito do leitor: exige que o leitor se esforce para “receber” o poeta (o Outro) de maneira a poder assimilar o que ele lhe traz, “traduzindo-o” ou “recriando-o” na sua linguagem pessoal. Quer dizer: a poesia exige do leitor que ele libere ou crie e desenvolva a parte de poeta que precisa existir nele.

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[1] José Guilherme Merquior. Razão do poema. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 197. Cf. também Astúcia da mimese, Rio de Janeiro: José Olympio, 1972.
[2] José Guilherme Merquior, Razão do poema, cit., p. 192.
[3] Ibidem, p. 193.
[4] José Guilherme Merquior, A astúcia da mimese, cit., p. 3.
[5] Octavio Paz, Los signos em rotación y otros ensayos, Madrid: Alianza, 1971, p. 165.
[6] Fernando Pessoa, Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001.
[7] Para uma interessante interpretação, diferente da minha, recomendo a leitura de Entre a prosa e a poesia:
Bakhtin e o formalismo russo, de Cristóvão Tezza, Rio de Janeiro, Rocco, 2003.

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