sexta-feira, 12 de março de 2010

Sinais de fumaça, Mario Benedetti


Quando te encontras no fio do escuro
e lhe prestas honras dos teus ossos
quando a alma puríssima do ócio
pede socorro ao universal inútil
quando sobes e desces da dor
mostrando cicatrizes de outros tempos
quando na tua vidraça está o outono
inda não te despeças
tudo é nada
são sinais de fumaça
apenas isso

teu olhar de viagem ou de desertos
se torna um manancial indecifrável
e o silêncio
teu medo mais valente
se vai com os golfinhos dessa noite
ou com os passarinhos da aurora
de tudo ficam sinais
pistas rastros marcas indícios signos aparecências
mas não te preocupes
tudo é nada
são sinais de fumaça
apenas isso

no entanto nessas chaves se condensa
uma velha doçura atormentada
o vôo de umas folhas que passaram
a nuvem que é de âmbar ou algodão
o amor que carece de palavras
os barros da lembrança
a luxúria
ou seja que os signos pelo ar
são sinais de fumaça
mas a fumaça
leva consigo um coração de fogo.

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