terça-feira, 27 de abril de 2010

Os vivos e os mortos, Cláudio Moreno



O maior músico de toda a mitologia foi Orfeu, filho da musa Calíope. Era amado e querido por todos, e dizem que até mesmo as feras, as árvores e as próprias pedras ficavam emocionadas com a doçura de sua voz e os claros sons de usa lira. Contudo, o destino geralmente não reserva uma vida feliz para os poetas, e sua mulher, a bela Eurídice, jovem ninfa da floresta, ao correr com pés ligeiros pela relva úmida do rio, foi mordida por uma serpente e não resistiu ao veneno mortal. Orfeu, com o coração em pedaços, resolver descer ao Mundo dos Mortos para tentar convencer Hades a reviver Eurídice por mais alguns anos. Entrando por uma caverna secreta em Tesprótis, Orfeu foi descendo para o mundo subterrâneo, abrindo caminho com sua música incomparável. Com ela, convenceu Caronte, o barqueiro do rio da morte, a passá-lo para o outro lado; com ela, o feroz Cérbero, o cão de três cabeças que guardava a entrada do reino subterrâneo, veio mansamente lamber os seus pés. Tudo parou, e uma multidão de almas silenciosas acorreu para ouvi-lo. Diante de Hades e de sua rainha, Perséfone, Orfeu implorou que tivessem piedade e deixassem Eurídice viver um pouco mais; afinal, eles não perderiam nada, porque ela terminaria voltando para aquele reino escuro, destino de todos nós. Perséfone, comovida, lançou ao marido um olhar suplicante, e Hades então permitiu que Orfeu levasse Eurídice de volta, com a condição de ele não se virasse para trás: se o fizesse, ele a perderia para sempre. E assim Orfeu começou a avançar pela trilha escarpada que levava à superfície, seguido, em silêncio, pela sombra de Eurídice, que caminhava com dificuldade por causa do ferimento no pé. Quando avistou a saída, na caverna já iluminada pela luz do dia, Orfeu então se voltou – mas ainda era cedo demais, e ele só teve tempo de ver o rosto entristecido de sua amada, que, com as mãos estendidas para ele, desapareceu para sempre na profunda escuridão.
Uma pergunta vem torturar todos aqueles, antigos ou modernos, que ouvem essa trágica história: se Hades tinha sido tão claro, por que Orfeu se virou? Por impaciência, por amor de mais, por medo de que lhe estivessem pregando uma peça? Se esperasse mais um pouco, o final seria outro? Pois eu aposto que não; os deuses gostavam dele e quiseram ajudá-lo a libertar-se desse amor que o puxou para o Mundo dos Mortos. Não havia ninguém com Orfeu, em seu caminho de volta; Eurídice já não existia, a não ser na mente dele, mas sua sombra silenciosa o seguiria para sempre, se Hades, que conhecia os mortais, não tivesse incentivado, com sua proibição, que ele se virasse para trás e percebesse, finalmente, que Eurídice passara a ser apenas uma triste lembrança.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Uma vida a dois, Cláudio Moreno



Um dia, Zeus resolveu verificar pessoalmente se os mortais estavam seguindo as leis da hospitalidade. Ele e Hermes, o mensageiro dos deuses, disfarçaram-se de simples caminhantes e lá se foram, a percorrer as terras da Frigia, batendo de porta em porta. Pediam comida e abrigo, mas só encontravam recusa, e Zeus decidiu castigar aquela gente mesquinha com um gigantesco dilúvio. Antes de ir embora, porém, chegaram à pobre choupana onde moravam Fílemon e sua querida Báucis, um casal de velhos camponeses; ali para seu espanto, foram acolhidos com todo o calor da bondade humana. Os velhos acomodaram os visitantes nos únicos bancos da casa e foram tratar da comida, juntando tudo o que tinham. Fílemon avivou o fogo e pôs uma panela a ferver, onde Báucis deitou alguns legumes da horta e o último naco de toucinho. Em seguida, levou para a mesa um rude prato de barro com azeitonas e queijo, e Fílemon encheu um jarro com o pouco vinho que sobrava, diluindo-o com água para que rendesse um pouco mais – e faziam tudo isso com alegria, aproveitando cada passo para se entreolhar com todo o carinho, deixando Zeus encantado com a felicidade dos dois.
Quando o cozido fumegante foi trazido para a mesa e os caminhantes começaram a comer e a beber com apetite, os dois velhos perceberam que o jarrinho de vinho voltava a encher até a borda, por mais que dele tomassem; recuaram, então, respeitosos, porque isso só podia indicar que algum deus tinha entrado em sua casa. Zeus os tranqüilizou: ia mandar um dilúvio para punir todos os seus maus vizinhos, mas queria que eles se refugiassem no alto da montanha. Além disso, por serem pessoas assim tão especiais, dava-lhes o direito de pedir o que quisessem. Os dois confabularam, em sussurros, e pediram que sempre pudessem viver um com o outro, como tinham feito até aquele dia. Zeus concordou; inundou toda a região, e só os dois sobreviveram. E um dia, quando os dois conversavam, sentados ao solzinho de um fim de tarde, sentiram que estavam criando raízes, e viram um ao outro cobertos de verde folhagem: sua hora tinha chegado, e Zeus, fiel à promessa, transformou-os numa tília e num carvalho com os troncos entrelaçados – duas árvores diferentes, mas unidas para sempre, a coisa mais linda de ver. Contam que, por séculos a fio, vieram pessoas de longe admirar esse monumento que Zeus deixou para os homens, para lembrar que o segredo de uma vida a dois é crescerem ambos juntos, mas cada um em seu tronco – ela tília; ele carvalho. Esses, sempre felizes, nunca vão deixar de abrir quando a vida bater à porta.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Estruturas da escrita, Donaldo Schüler



A escrita tomada como leitura de escritas anteriores nos remete a um debate iniciado há muitos séculos pelos gregos: a escrita é mimética ou não; se é mimética, ela o é em que medida? As respostas a esta questão são muitas, desde as posições sustentadas por Platão e Aristóteles (p. 39).

A leitura constitui a escrita como sujeito e como objeto. Como sujeito, a escrita lê outras escritas;como objeto, a escrita é lida. As dimensões sujeito-objeto são universalmente reversíveis e agrupam as escritas em constelações que se renovam acionadas por novos pontos de vista (p. 39).

O leitor coloca-se diante da escrita como o espectador diante do espetáculo. A obra não é um meio pelo qual o autor se apresenta ao leitor. A obra, como escrita,traz em si mesma o seu próprio significado. Múltiplas relações internas a tornam um todo. Como acontece com toda escrita, uma obra dada é sempre leitura de outras escritas, uma das quais pode ser o autor. Mas o obra não é a única leitura da escrita-escritor, nem é a mais precisa (p. 39).

O leitor é necessariamente crítico e o crítico é necessariamente juiz. O julgamento começa no momento em que o leitor escolhe o livro. A escolha é orientada por um critério. O critério pode ser totalmente insensato (formato, cor da capa, título, facilidade de aquisição), mas não deixa de ser critério. Baseado nele, o leitor separa aquilo que lhe merece atenção daquilo que não merece. A leitura do leitor é judicativa desde a primeira página. Conscientemente ou não, distingue o que importa daquilo que não importa.Finda a leitura, situa o livro em algum ponto entre a consagração e o desprezo (p. 40).

O discurso nos envolve definitivamente. É a esfera em que respiramos. O mundo humano é o mundo da palavra,do diálogo, da busca na palavra (p. 41).

A leitura é o esforço de manter presente o que se esquiva (p. 42).

Na escrita, os elementos estão relacionados por semelhança, oposição ou outros já identificados ou ainda por identificar (p. 43).

Na leitura, lêem-se as relações. A leitura é estrutural por sua própria natureza. Mas o universo da escrita em geral é um conjunto de elementos e de relações indeterminadas. Negá-lo seria negar a história e a vida. A história e a vida são concebíveis apenas em estruturas em processo de estruturação. No processo histórico, fazem-se e desfazem-se realções num andamento contínuo (p. 43).

Não é a leitura que atribui à escrita quaisquer significados, mas a leitura, contextualmente situada,orienta a interrogação e delimita a região no território indeterminado dos significados. A escrita necessita destes contornos e deste fundo para ser. O ser só se revela por oposição ao que não é, já não é, ou ainda não é (p. 45).

Jamais consigo colocar-me em lugar de ninguém. Para colocar-me em lugar de outrem, eu teria que abandonar o meu lugar, o Dasein que sou eu. Mas, ao abandonar o lugar que sou eu, eu me destruiria e então o conhecimento já não seria possível, porque teria desaparecido o lugar em que outrem se manifesta como tal. Só consigo conhecer à medida que mantenho o lugar que eu sou e deste lugar observo à distância de mim realidades que eu não sou (p. 47 e 48).

Do livro: SCHÜLER, Donaldo. Crítica literária em nossos dias e literatura marginal. Coordenação de João Francisco Ferreira. Porto Alegre: Editora da Universidade, UFRGS, 1981.

sábado, 17 de abril de 2010

Como no céu e Livro de visitas, Fabrício Carpinejar


Como no céu

O que aconteceu entre nós
foi imaginado?
Espero que tenha sido por ti.

Leio tuas sobrancelhas
como quem estuda caligrafia
de um idioma árabe. (p. 22).


Nos separamos para tirar férias.
Em cada reconciliação,
entrava em teu corpo
como se tudo fosse novo
e impossível de brincar
em uma tarde. (p. 56).


Duas infelicidades
não conseguem dialogar.
Uma pretende eliminar a outra.

Roubo teu passado para abastecer
minha memória escassa e estreita.
Sou obrigado a me inventar
para competir com o que viveste. (p. 57).


Enfrentamos infâncias terríveis,
com as maldades correndo
nos dois lados.

Meu rosto é estranho, metade
Elefante, metade cavalo,
como se não tivesse sido acabado.
Colegas contavam minha história
dizendo que ficou a placenta
e esqueceram o feto.

Foste estrábica
pelo teu desejo de estar
em dois lugares
ao mesmo tempo.

Mudamos o caminho da escola,
não arredávamos o pé da sala no recreio,
agüentamos o corredor polonês,
os arremessos da merenda.

Não me venha dizer que a infância é pura e bela,
Ela assassina a ternura tanto quanto a velhice.

Como uma irmã menor que cabe guiar,
pego forte a mão de teus olhos
para atravessar a rua. (p. 64 e 65).

Há partes dentro da gente
que nunca serão educadas.
A morte é uma delas.

Não sou o que aprendi.
Sou o que falta aprender. (p. 72).


Uma verdade que insiste
em ser repetida não é verdade.
Torci pela tua traição,
teu abandono de casa,
que me tomasses por um estranho.
Por que não me deste
motivos para te odiar?
Era o papel que eu sabia de cor. (p. 76).


Corrias entre lápides e ciprestes
derrubando bules e flores.
O cemitério foi teu terreno baldio,
tua casinha na árvore.
Investigava os dizeres
dos velhos túmulos,
interessada nas inscrições
como anúncios de emprego.

Deitava as bonecas nas camas de pedra.
Preparava chá e bolachas de folhas.
Dessa lembrança
decorre tua indecisão
de escolher o epíteto
e os nomes das filhas. (p. 77).


Penso ter vivido o que escrevi
e deixo de viver porque está escrito.
Minha letra não torna meu
aquilo que anotei. (p. 81).


Eu te contei que me apavoram
as mulheres que lavam as calçadas.
A força como arremessam os baldes
diz algo do grito delas à noite.

Eu te contei que me apavoram ratos.
Rápidos e sorrateiros em seus ralos.

Lá fora é muito dentro para ir.
As avenidas nos perseguem
e não reconhecem a nossa residência. (p. 85).


Fui menos que um homem,
não tive os gestos necessários
de uma mulher no parto,
a elegância de permitir a vida
sem exigir nada em troca.

Eu me levei muito a sério
e não me conduzi de volta.

Desde criança, desejei
legar uma marca e mordia
os colegas na creche.
Nenhum castigo amenizava
a gula. Os pais não repararam
que a ânsia de mastigar
era a ambição adulta.

Chamei atenção
para a pessoa errada,
demorei os olhos onde não cresciam olhos.
*Careci de uma amizade fiel,
uma amizade de infância,
minha solidão de nascença
não se abriu com a convivência.

Sair mim me alegraria,
tomar ar, encher-me da esperança
de que minha vida não é comigo,
que ela não me ofendeu e entendi errado,
como um sedado que não
completa seus pensamentos,
soma insuficiências e segue adiante.

Sair de mim adiantaria,
Colher amoras de árvores emprestadas
E assobiar sem mexer a boca.

Desprezei os conselhos da avó.
Não lavei as dores
e infeccionaram.

Deixo-me quieto na lista telefônica,
um vizinho que não incomoda.

Meu interesse é pelo sol das coisas ilegíveis,
um sol incompreensível,
que banha a matéria e não se insulta
em distribuir, de modo igual,
o facho às escadarias e aos pássaros
pequenos.
Será que ao mastigar uma folha de junco
não estarei mascando o azul do céu
daquela hora?

O tempo me devora enquanto respiro
e não há vantagem no livre-arbítrio
se estou terrivelmente preso
à pronúncia de um país.

Há quem esbarre em Deus,
desprevenido, no mais suave vento.
Há quem procure Deus,
obcecado, nas terríveis tempestades.
Não é o meu caso, pois amor
não é indigência. (p. 98, 99 e 100).



Livro de visitas

Não conto meus pesadelos ao acordar.
Não termino mais uma frase inteira.

O começo de uma conversa é difícil
Depois mais difícil se torna
quando ela aconteceu
sem começar. (p. 11).


A fé exige algo miúdo,
troco na cesta,
um pedaço de pão no vinho.
Posso chegar ao céu
trocando lâmpadas e livros da estante.
Mas quem não perde a si mesmo
não é capaz de se doar. (p. 12).


O riacho é um cavalo líquido,
a pedra é um cavalo preso.
As borboletas são flores com abelhas dentro.
Liberdade é apenas mudar a forma,
o que não diminui a solidão
do nascimento. (p. 19).


Eu me consumi
antes de ter nascido.
Não ter mistérios
é o maior deles. (p. 20).


Não tínhamos bola para o futebol.
Roubava o carpim da gaveta do pai.
Amarrávamos papéis, panos e trapos.
Sempre brinquei com a lembrança
da coisa mais do que a coisa em si. (p. 29).


Em toda minha vida,
emprestei memória à imaginação.
Pensava que as moedas
valiam bem mais
do que as notas em papel.
Elas faziam barulho com as chaves. (p. 30).


Na minha casa,
os mortos não repousavam
nas mesas e gavetas,
mas dentro dos livros.
Antes de morrer,
todos escolhiam
uma obra predileta
para deixar sua imagem
entre páginas.

Não lia para aprender.
Queria encontrar meus familiares,
os parentes na palavra,
formar uma fileira de sons.
Não questionei os motivos do costume.
Um corpo é corpo
quando há outro
enterrado nele.


Meninas trocavam santinhos
na primeira comunhão.
Eu me abastecia dos antepassados.
Todo livro era um álbum de retratos. (p. 64).


Já me viste rindo nas fotografias?
Não adiante rever.
Sou mais fotogênico na tristeza. (p. 65).


Minha avó confortava o pavio com os dedos.
Dizia que a chama soluçava de frio.
Era preciso cobrir seus pés. (p. 66).

Trechos do livro: Fabrício Carpinejar. Como no céu; e, Livro de visitas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Cinco Marias: poemas, Fabrício Carpinejar


Como uma surdez súbita,
o silêncio barulhava.
Quando ficamos surdos,
escutamos tudo, menos o silêncio. (p 16).

Uma doente que sai do coma
deseja perguntar o que aconteceu
e desiste pela fraqueza.
Olhou e não se reconheceu
nos farelos de sua face. Os nervos saltaram:
– Seja impura, a pureza é violenta.
Os homens nunca vão entender. (p. 17).

O cansaço agravou sua indigência (p. 18).

As respostas desobedecem às perguntas.
Como cortar os pulsos de uma guitarra
e esperar que a madeira sangre.
As mãos nas cordas são roldanas
puxando vento. Um vento líquido.
Uma guitarra não pode sangrar de outro jeito. (p. 22).

Ela conspirava contra sua beleza.
Usava roupas gastas,
Os vestidos antigos.
Culpada pela sensualidade
que acentuava as curvas.
Adiou conjuntos novos
com a desculpa de que lhe fariam mal.
Transferiu sua vaidade às filhas.
Substituiu o orgulho pelas novenas.
Não resistiu à velhice,
facilitando-lhe o ingresso.
Ajeitava as mechas por descuido.
As parreiras cicatrizavam,
seus cabelos. (p. 25).

Não entendo o silêncio
e o subestimo como trégua da fala.
Ele não começa ao cessar as palavras,
não termina ao pronunciá-las. (p. 32).


Há homens que comem e limpam
o suor ao mesmo tempo.
Há homens que têm paz ao mastigar.
Há homens que transam, tombam no canto
e resmungam sonhando.
Há homens inflamáveis,
movidos a querosene e ódio.
Há pensamentos que a gente não esquece
e não recorda.
A fidelidade pode ser cansaço. (p. 41).

As confidências ofendem.
O casal esgota cedo a estranheza.
Busca se destruir perfeitamente.
A traição é uma intimidade
mais estável que o casamento. (p. 47).


Capaz de adulterar os fatos.
para me poupar da crueldade.
sua proteção me deixou vulnerável. (p. 56).


Deus não tem fim.
o homem deseja seu fim.
buscando o começo de Deus. (p. 68).

Experimento tantas roupas
antes de sair porque
meu corpo não me serve. (p. 98).

Fazer as coisas pela metade
é minha maneira de terminá-las. (p. 109).

Eu fui o que não sou
depois que inventaram o inconsciente,
a verdade fica sempre para depois. (p. 115).

Educado, o sangue
apaga a luz ao sair. (p. 117).

Não superamos os limites,
mudamos as fronteiras de lugar. (p. 64).

Trechos do livro: Fabrício Carpinejar. Cinco Marias: poemas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Graciliano Ramos, em entrevista concedida em 1948

Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Decálogo do perfeito contista, Horacio Quiroga



I - Crê em um mestre - Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov - como em Deus.

II - Crê que tua arte é um cume inacessível. Não sonhes alcançá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem ao menos perceber.

III - Resiste o quando puderes à imitação, mas imite se a demanda for demasiado forte. Mais que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer muita paciência.

IV - Tem fé cega não em tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração.

V - Não comeces a escrever sem saber desde a primeira linha aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.

VI - Se quiseres expressar com exatidão esta circunstância: "Desde o rio soprava o vento frio", não há na língua humana mais palavras que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de tuas palavras, não te preocupes em observar se apresentam consonância ou dissonância entre si.

VII - Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão quantos apêndices coloridos aderires a um substantivo fraco. Se encontrares o perfeito, somente ele terá uma cor incomparável. Mas é preciso encontrá-lo.

VIII - Pega teus personagens pela mão e conduza-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja.

IX - Não escrevas sob domínio da emoção. Deixe-a morrer e evoque-a em seguida. Se fores então capaz de revivê-la tal qual a sentiu, terás alcançado na arte a metade do caminho.

X - Não penses em teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará tua história. Escreva como se teu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de teus personagens, dos quais poderias ter sido um. Não há outro modo de dar vida ao conto.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os dez mandamentos do conto segundo Quiroga, Sílvio Melatti



Escritores discutem a arte das histórias curtas e dialogam com o mestre que ousou criar as regras para escrevê-las

Uma boa idéia editorial: tomando por base os dez "mandamentos do conto" escritos pelo uruguaio-argentino Horácio Quiroga no famoso "Decálogo do Perfeito Contista", o editor gaúcho Sérgio Faraco convidou dez escritores brasileiros para comentar cada uma dessas leis. O resultado é um livro dinâmico, breve, interessante, bom de ler e reler a qualquer instante. Ao mesmo tempo que retoma a obra de Quiroga, escrita no início do século e atual como só os clássicos são, coloca-a em discussão com autores contemporâneos influenciados por ela mas dispostos a superá-la. Como discípulos ambiciosos, ora rebeldes, ora reverentes, todos dialogam com o mestre em pé de igualdade.
O livro ainda tem outro valor. Como se lê pouco, e geralmente um autor de cada vez, incorre-se num vício: lê-se autores diferentes a intervalos cada vez maiores, perdendo-se a possibilidade da confrontação imediata de estilos. A comparação fica por conta da memória inconfiável ¬ e assim se beneficiam os "consagrados". Por isso são importantes essas coletâneas de autores reunidos. Breves e enriquecedoras, elas proporcionam ao leitor uma infalível sessão de degustação literária, depois das quais o cardápio nunca será o mesmo.
Moacyr Scliar, por exemplo, tem uma obra volumosa e saudada pela crítica, escreve para grandes jornais e revistas, é um xodó da mídia. Individualmente, talvez "venda" mais do que todos os outros autores deste volume, reunidos. Perto deles, porém, Moacyr Scliar fica pequeno. Suas respostas são fracas, desprovidas do humor sutil e da elegância que Quiroga põe em discussão ¬ anunciadas já no título, "Decálogo do Perfeito Contista".
No quarto "mandamento", quando Quiroga diz "ama tua arte como amas tua amada", Scliar anota, buscando a ironia: "Ai, Quiroga." E escreve a frase mais infeliz de sua carreira, buscando o impacto: "Não dá para trepar com um livro de contos, dá?". Ai, Moacyr. O mau gosto, para dizer o mínimo, não pára por aí: mais adiante, argumentando contra a divagação no conto, conclui: "E o saco do leitor tem capacidade limitada."
Para piorar, Moacyr não se furta de tocar no assunto recorrente: o judaísmo. Nem aqui, onde o tema é exatamente a concisão e a economia de palavras. Ele encontra um jeito de comparar o decálogo com o monte Sinai, a arte com o monte Sinai, a elevação espiritual com o monte Sinai (três vezes, tantas quantas Cristo foi negado). Os judeus se auto-referem o tempo todo na literatura. É conhecida a piada do escritor judeu que, ao encontrar o argumento para seu livro, sempre se pergunta: "O que isso tem a ver com a questão judaica, ou como pode ser encarado sob a ponto de vista judeu?".
É provável que Scliar tenha feito seus comentários às pressas, porque ele não sabe dizer não a um convite para escrever. De qualquer maneira, estão publicados, e não são dignos de sua obra.
Da mesma forma, outros autores afamados reagem de forma burocrática, tomando ao pé da letra os preceitos de Quiroga, sem captar-lhe o tom ora irônico, ora poético. É o caso de outro gaúcho, Luiz Antônio de Assis Brasil, autor de belos romances como "Bacia das Almas", mas que assume um estilo professoral, recomendando objetividade e racionalidade e condenando algo que, em arte, é a alma: a subjetividade do autor.
O baiano Hélio Pólvora parece querer demonstrar conhecimentos na língua inglesa, tantas e tão gratuitas são as expressões empregadas. Soa como mera exibição erudita, também, o número de citações que faz em dez pequenos comentários. Além disso, diz bobagens do tipo "Brota bem de dentro do autor, tanto quanto o poema". Ora, em se tratando de criação literária, o que não brota de dentro do autor? Já não se disse que no conto tais frases dispensáveis ficam de fora?
Charles Kiefer, com suas respostas curtas e incisivas, é uma boa surpresa. É porto-alegrense como Paulo Hecker Filho, que fala de si, apenas. Miguel Jorge, de Goiânia, é didático. Outra baiana, Sônia Coutinho, revela mau humor e até certa arrogância, apesar da prosa perfeita. Roberto Gomes, catarinense de Blumenau radicado em Curitiba, prova que entende do ofício com esta pérola: "Marcamos todas as horas de nossas vidas a partir da hipótese de que o Sol gira em torno da Terra ocupando 24 posições no céu. Isso nos serve admiravelmente bem e, no entanto, o Sol não gira nem nunca girou em torno da Terra."
As melhores prosas do livro: Aldyr Garcia Schlee, gaúcho de Pelotas, e Silveira de Souza, catarinense de Florianópolis. Ambos são elegantes, concisos, corretos. Têm humor sutilíssimo, compreendem o alcance das metáforas do autor e vão além dele, ancorados pela bagagem do que se produziu depois da sua morte. Silveira, mestre da síntese, é preciso como arqueiro oriental. Diante do mandamento sétimo, que diz "Não adjetiva sem necessidade, pois serão inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizes o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo", ele prefere o recuo, o silêncio respeitoso de um "Nada a reparar".
Na lei anterior Quiroga já discutia de forma brilhante essa questão. Ele escreveu: "Se queres expressar com exatidão essa circunstância ¬ 'Desde o rio soprava um vento frio' ¬, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor das tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes." Sônia Coutinho chamou-o de "preceito obscuro". Charles Kiefer disse que Henry James e Flaubert abominariam tal conselho. Assis Brasil discorda, afirmando que a frase "Desde o rio soprava um vento frio" é um "primor de concisão e, ao mesmo tempo, de beleza". E completa: "Grande é o autor que a escreveu". Silveira, claro, aplaude e diz que o sexto mandamento é a definição mais acabada de estilo literário.

O pequeno livro, enfim, guarda lições essenciais para quem lida com palavras, escrevendo ou somente lendo. É leitura de uma sentada. Publicado pela Editora Unisinos (da Universidade do Vale do Rio dos Sinos).

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Da crueldade humana, Nilto Maciel


Está nos dicionários: Cruel. Adj. 2 g. Que se compraz em fazer mal, em atormentar ou prejudicar. Duro, insensível, desumano. (Do latim crudelis ou crudele.) Crueldade. S. f. (Do lat. crudelitas –atis ou crudelitate.). Subentende-se que a crueldade seja uma qualidade humana e não de todos os seres vivos. Assim não entendo. Os animais também são cruéis, pois também são duros, insensíveis, severos, rigorosos, sobretudo no ato de matar a presa. Mas isto não importa aqui. Quero falar do livro Contos cruéis – As narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea, organizado por Rinaldo de Fernandes e editado pela Geração Editorial, São Paulo, 2006. São 47 contos “dos anos 70 (ou mesmo um pouco antes) aos dias atuais”. O organizador adotou dois critérios básicos para fazer a seleção: “convidar nomes importantes da ficção atual (de várias regiões do país)” e “incluir alguns contos já consagrados da literatura brasileira contemporânea”.
O primeiro da lista (em ordem alfabética) é o cearense Adriano Espínola, poeta de grandes méritos e ensaísta. Sua narrativa “O Pintor da Tribo” não poderia vir no meio do livro. A história se passa há muitos anos, “muito além daquele tempo e não muito longe do mar bravio”. Veja-se a intertextualidade com a obra máxima de José de Alencar: “Verdes mares bravios de minha terra natal” (início); “Além, muito além daquela serra” (cap. II). Na sua brevidade, toca em dois pontos nevrálgicos da nossa crueldade ancestral (próxima da crueldade dos outros animais): a antropofagia e a eliminação do artista em momentos de crise na sociedade. A crueldade nascida da necessidade de sobrevivência, instintiva, e a crueldade sobre o mais fraco e inútil. O artista, para os chefes tribais (presidentes, banqueiros, latifundiários, etc), é pessoa inútil. (...) “ao invés de ir à caça com os demais, costuma passar o dia inteiro, no fundo da caverna, pintando pássaros e animais feridos, estrelas e flechas, falando sozinho e proferindo palavras incompreensíveis”. São os poetas, os pintores, os cantores, etc. Somos nós, enfim.
A crueldade humana está pintada em variadas modalidades nos contos da coletânea. No misterioso “Pela franja verde”, de Bernardo Ajzenberg, a violência sexual se volta para duas crianças. Moça de 19 anos testemunha cena em que dois homens “se esfregavam” numa menina, filha do casal que, no mesmo ambiente, pratica outra variedade de ato sexual com o filho. O conto de Carlos Ribeiro, “O segredo”, também tem como vítimas crianças, porém de outro tipo de violência. A praticada por fanáticos de seitas ditas satânicas que sacrificam crianças. A história (ou as histórias, porque são diversos os núcleos narrativos) se passa nos “espaços vazios das periferias, dos subúrbios, dos arrabaldes” de Salvador. Fernando Bonassi, com “Terrorismo” (talvez se possa chamar de “ficção política” e não de conto) apresenta espécie de manifesto de grupo fanático, em que a violência é apenas anunciada: “Aos maus será dado todo o poder para que destruam-se (sic) mutuamente”. O texto é uma seqüência de frase curtas, espécie de embrião de constituição política para ser posta em prática após a tomada do poder. O final do documento deixa o leitor em dúvida: tratam-se de macacos (animais) ou “macacos” é apenas um codinome? A peça ficcional de Marçal Aquino – “Trincheira” – é também muito original, na sua feitura. O ambiente é rural, diferentemente da maioria. A cena é curta. A crueldade é velada. Não acontece nenhum crime, nenhuma violência. A não ser nas mensagens (falas) de dois personagens: “Diga que eu mandei falar que ele é um filho da puta nojento”; “Essa velha quer é me envenenar”.
As contistas do livro – das mais veteranas às mais jovens – mostram como se deve escrever um bom conto. Tércia Montenegro nasceu em 1976, mas já tem cabedal, experiência, ganhou prêmios importantes, publicou dois livros de conto. Maria Alzira Brum Lemos (nascida em 1959) apresenta “Santinha Maria Goreti”. O ambiente é a periferia de grande cidade. A protagonista é uma menina de 12 anos. A crueldade da história pode ser vista por dois ângulos: a da pobreza, da fome, da exposição da criança aos desejos masculinos (“Seu Alessandro passa as mãos nos peitinhos de Maria Goreti por cima da camiseta”), e a do desfecho (“Maria Goreti alcança o facão de cortar salame. Seja boazinha. A lâmina afiada corta fundo o estômago do Seu Alessandro”. É a vingança final da menina.
Acho que basta, porque, se tivesse espaço para falar de cada conto do livro, escreveria outro livro, que certamente seria muito chato. Cruel até.
A seleção dos contistas é boa, embora faltem outros nomes fundamentais da literatura brasileira contemporânea, como direi adiante. Os mais veteranos são quase todos muito conhecidos. Exceção talvez seja o cearense Moreira Campos, para mim um dos melhores contistas brasileiros de todos os tempos. Seu nome é raramente lembrado fora do Ceará, o que é lamentável. Rinaldo de Fernandes, presta, portanto, homenagem ao criador de Vidas Marginais. E o tira do esquecimento. Além disso, o autor de O Perfume de Roberta montou um tapete multicolorido, ao juntar lado a lado escritores de todas as idades e nascidos nas diversas regiões do Brasil.
Aproveito para louvar outros organizadores de antologias, como Nelson de Oliveira, Luiz Ruffato, Italo Moriconi, por sua visão nacional (e não local ou regional) da literatura brasileira. Porque sabem que poetas, contistas e romancistas da melhor cepa não estão apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Alguns moram em pequenas cidades, como é o caso de Dimas Carvalho, em Acaraú, Ceará. Leiam Fábulas Perversas e digam se estou dizendo tolices. Como ele, muitos outros escrevem (e publicam por pequenas editoras) contos, poemas e romances maravilhosos.
Para um segundo tomo, que Rinaldo de Fernandes poderá organizar, sugiro outros nomes fundamentais da literatura brasileira do século XX: os cearenses (puxo brasas para a minha sardinha, mas sem crueldade com os demais) Gustavo Barroso (o leitor precisa ler O Livro dos Enforcados, Praias e Várzeas, Alma Sertaneja, etc), Fran Martins (basta citar os contos “Ventania” e “Cão vadio”), Juarez Barroso (autor de contos saborosamente cruéis como “Estória de D. Nazinha e de seu Cavalo Encantado” e “Cururu”), Eduardo Campos (criador de obras-primas como “O Abutre”), o genial e louco José Alcides Pinto, Caio Porfírio Carneiro (um dos mais fecundos narradores do Brasil), Airton Monte (leiam “Manoel Lombinho” e “Cotidiano”), Carlos Emílio Corrêa Lima (um dos nossos escritores mais imaginativos), Natércia Campos (filha de Moreira Campos e também já falecida), os mineiros Manoel Lobato e Elias José, o alagoano Breno Acioli, o carioca João Antônio, o piauiense Francisco Miguel de Moura, o cearense-paranaense Holdemar Menezes e seu belo A Coleira de Peggy, os gaúchos Sérgio Faraco e Charles Kiefer, os maranhenses José Louzeiro e Nagib Jorge Neto, os catarinenses Emanuel Medeiros Vieira e Herculano Farias, o pernambucano Hermilo Borba Filho, o polonês-brasileiro Samuel Rawet, os baianos Hélio Pólvora, Jorge Medauar e Valdomiro Santana, os goianos José J. Veiga e Miguel Jorge, e tantos outros.
Para um segundo volume não podem ser esquecidos outros novos, como Dimas Carvalho, Claudio Eugenio Luz, Jorge Pieiro, Ana Carolina da Costa e Fonseca, Astolfo Lima Sandy, Ronaldo Cagiano, etc. Não citarei mais nomes porque a maioria deles está no livro.
São tantos contistas (todos escrevem contos cruéis, porque a crueldade é matéria-prima indispensável para feitura de narrativa), a literatura brasileira é tão rica, que um só volume com 47 contos é pouco. Mesmo assim, estão de parabéns Rinaldo, por sua dedicação, seu trabalho, sua pesquisa, e seu talento de escritor, o editor-escritor Luiz Fernando Emediato e os escritores que participam da coletânea. Que os leitores sintam muito prazer (apesar da crueldade dos relatos) em ler estas maravilhas do conto brasileiro contemporâneo.

Fortaleza, abril de 2006.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Decálogo do autor, Miguel Sanches Neto


Depois de leitor, você pode se tornar, então, escritor – embora, pasme, muitos hoje pulem a leitura, por julgá-la dispensável, e já desejem publicar

I - Não fique mandando seus originais para todo mundo.Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro. E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa. O que fazer então para não virar um chato? No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante. Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática. Publicar na internet. Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.

II - Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles. Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores. Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.

III - Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar. Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica. Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro. Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento. Só o livro impresso dá status autoral. O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários? Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido? Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência. Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia. Para isso,
você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.

IV - Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar. O livro está pronto. Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante. Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos. Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal. Quer o livro impresso. E isso é hoje muito fácil. Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes. O livro está pronto. E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.

V - Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro. Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres. O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder. Somos enfim Autores. E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal. Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante. Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras? E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações. Na maioria das vezes isso não funciona. E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.

VI - Nunca peça a ninguém para indicar o seu livro a uma editora. Se por acaso um amigo conhece e gosta de seu trabalho, ele vai fazer isso naturalmente, com alguma chance de sucesso. Tente fazer tudo sozinho, como se não tivesse ninguém mais para ajudar você do que o seu próprio livro. Sim, este livro em que você colocou todas as suas fichas. E como você só pode contar com ele...

VII - Mande seu livro a todos os concursos possíveis e a editoras bem escolhidas, pois cada uma tem seu perfil editorial. É melhor gastar seu dinheiro com selos e fotocópias do que com a impressão de uma obra que não será distribuída e que terá de ser enviada a quem não a solicitou. Enquanto isso, dedique-se a atividades afins para controlar a ansiedade, porque essas coisas de literatura demoram, demoram muito mesmo. Você pode traduzir textos literários para consumo próprio ou para jornais e revistas, pode fazer resenhas de obras marcantes, ler os clássicos ou simplesmente manter um diário íntimo. O importante é se ocupar. Com sorte e tendo o livro alguma qualidade além de ter custado tanto esforço, ele acaba publicado. Até o meu terminou publicado, e foi quando me tornei um iniciante adulto. Tinha um livro de ficção no catálogo de uma grande editora. E aí tive de aprender outras coisas. Há centenas de livros de iniciantes chegando aos jornais e revistas para resenhas e uma quantidade muito maior de títulos consagrados. E a maioria vai ficar sem espaço nos jornais. E é natural que os exemplares distribuídos para a imprensa acabem nos sebos, pois não há resenhistas para tantas obras.

VIII - Não force os amigos e conhecidos a escrever sobre seu livro. Não quer dizer que eles não possam escrever, podem sim, mas mande o livro e, se eles não acusarem recebimento ou não comentarem mais o assunto, esqueça e não lhes queira mal, eles são nossos amigos mesmo não gostando do que escrevemos. Se um ou outro amigo escrever sobre o livro, festeje mesmo se ele não entender nada ou valorizar coisas que não julgamos relevantes em nosso trabalho. E mande umas palavras de agradecimento, pois você teve enfim uma apreciação. E se um amigo escrever mal de nosso livro, justamente dessa obra que nos custou tanto? Se for um desconhecido, ainda vá lá, mas um amigo, aquele amigo para quem você fez isso e aquilo.

IX - Nunca passe recibo às críticas negativas. Ao publicar você se torna uma pessoa pública. E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios equivocados. Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas. O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta. Você é então um iniciante com um currículo mínimo. Daí vocêrecebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro
trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas. Como isso é possível? Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia. Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento, vendi 100, o gerente da livraria até elogiou – enfim uma vantagem de ter família grande.

X - Evite reclamar de sua editora. Uma editora não existe para reverenciar nosso talento a toda hora. É uma empresa que busca o lucro, que tem dezenas de autores iguais a nós e que quer ter lucro com nosso livro, sendo a primeira prejudicada quando ele não vende. Não precisamos dizer que é a melhor editora do mundo só porque nos editou, mas é bom pensar que ocorreu uma aposta conjunta e que não se alcançou o resultado esperado. Mas que há oportunidades para outras apostas e, um dia, quem sabe...Foi tentando seguir estas regras que consegui ser o autor iniciante que hoje eu sou.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Decálogo do leitor, Alberto Mussa


I - Nunca leia por hábito: um livro não é uma escova de dentes. Leia por vício, leia por dependência química. A literatura é a possibilidade de viver vidas múltiplas, em algumas horas. E tem até finalidades práticas: amplia a compreensão do mundo, permite a aquisição de conhecimentos objetivos, aprimora a capacidade de expressão, reduz os batimentos cardíacos, diminui a ansiedade, aumenta a libido. Mas é essencialmente lúdica, é essencialmente inútil, como devem ser as coisas que nos dão prazer.

II - Comece a ler desde cedo, se puder. Ou pelo menos comece. E pelos clássicos, pelos consensuais. Serão cinqüenta, serão cem. Não devem faltar As mil e uma noites, Dostoiévski, Thomas Mann, Balzac, Adonias, Conrad, Jorge de Lima, Poe, García Márquez, Cervantes, Alencar, Camões, Dumas, Dante, Shakespeare, Wassermann, Melville, Flaubert, Graciliano, Borges, Tchekhov, Sófocles, Machado , Schnitzler, Carpentier, Calvino, Rosa, Eça, Perec, Roa Bastos, Onetti, Boccaccio, Jorge Amado, Benedetti, Pessoa, Kafka, Bioy Casares, Asturias, Callado,Rulfo, Nelson Rodrigues, Lorca, Homero, Lima Barreto, Cortázar, Goethe, Voltaire, Emily Brontë, Sade, Arregui, Verissimo, Bowles, Faulkner, Maupassant, Tolstói, Proust, Autran Dourado, Hugo, Zweig, Saer, Kadaré, Márai, Henry James, Castro Alves.

III - Nunca leia sem dicionário. Se estiver lendo deitado, ou num ônibus, ou na praia, ou em qualquer outra situação imprópria, anote as palavras que você não conhece, para consultar depois. Elas nunca são escritas por acaso.

IV - Perca menos tempo diante do computador, da televisão, dos jornais e crie um sistema de leitura, estabeleça metas. Se puder ler um livro por mês, dos 16 aos 75 anos, terá lido 720 livros. Se, no mês das férias, em vez de um, puder ler quatro, chegará nos 900. Com dois por mês, serão 1.440. À razão de um por semana, alcançará 3.120. Com a média ideal de três por semana, serão 9.360. Serão apenas 9.360. É importante escolher bem o que você vai ler.

V - Faça do livro um objeto pessoal, um objeto íntimo. Escreva nele; assinale as frases marcantes, as passagens que o emocionam. Também é importante criticar o autor, apontar falhas e inverossimilhanças. Anote telefones e endereços de pessoas proibidas, faça cálculos nas inúteis páginas finais. O livro é o mais interativo dos objetos. Você pode avançar e recuar, folheando, com mais comodidade e rapidez que mexendo em teclados ou cursores de tela. O livro vai com você ao banheiro e à cama. Vai com você de metrô, de ônibus, e de táxi. Vai com você para outros países. Há apenas duas regras básicas: use lápis; e não empreste.

VI - Não se deixe dominar pelo complexo de vira-lata. Leia muito, leia sempre a literatura brasileira. Ela está entre as grandes. Temos o maior escritor do século XIX, que foi Machado de Assis; e um dos cinco maiores do século XX, que foram Borges, Perec, Kafka, Bioy Casares e Guimarães Rosa. Temos um dos quatro maiores épicos ocidentais, que foram Homero, Dante, Camões e Jorge de Lima. E temos um dos três maiores dramaturgos de todos os tempos, que foram Sófocles, Shakespeare e Nelson Rodrigues.

VII - Na natureza, são as espécies muito adaptadas ao próprio hábitat que tendem mais rapidamente à extinção. Prefira a literatura brasileira, mas faça viagens regulares. Das letras européias e da América do Norte vem a maioria dos nossos grandes mestres. A literatura hispano-americana é simplesmente indispensável. Particularmente os argentinos. Mas busque também o diferente: há grandezas literárias na África e na Ásia. Impossível desconhecer Angola, Moçambique e Cabo Verde. Volte também ao passado: à Idade Média, ao mundo árabe, aos clássicos gregos e latinos. E não esqueça o Oriente; não esqueça que literatura nenhuma se compara às da Índia e às da China. E chegue, finalmente, às mitologias dos povos ágrafos, mergulhe na poesia selvagem. São eles que estão na origem disso tudo; é por causa deles que estamos aqui.

VIII - Tente evitar a repetição dos mesmos gêneros, dos mesmos temas, dos mesmos estilos, dos mesmos autores. A grande literatura está espalhada por romances, contos, crônicas, poemas e peças de teatro. Nenhum gênero é, em tese, superior a outro. Não se preocupe, aliás, com o conceito de gênero: história, filosofia, etnologia, memórias, viagens, reportagem, divulgação científica, auto-ajuda – tudo isso pode ser literatura. Um bom livro tem de ser inteligente, bem escrito e capaz de provocar alguma espécie de emoção.

IX - A vida tem outras coisas muito boas. Por isso, não tenha pena de abandonar pelo meio os livros desinteressantes. O leitor experiente desenvolve a capacidade de perceber logo, em no máximo 30 páginas, se um livro será bom ou mau. Só não diga que um livro é ruim antes de ler pelo menos algumas linhas: nada pode ser tão estúpido quanto o preconceito.

X - Forme seu próprio cânone. Se não gostar de um clássico, não se sinta menos inteligente. Não se intimide quando um especialista diz que determinado autor é um gênio, e que o livro do gênio é historicamente fundamental. O fato de uma obra ser ou não importante é problema que tange a críticos; talvez a escritores. Não leve nenhum deles a sério; não leve a literatura a sério; não leve a vida a sério. E faça o seu próprio decálogo: neste momento, você será um leitor.

Publicado na revista Entrelivros, edição de outubro de 2007.