sexta-feira, 16 de abril de 2010

Cinco Marias: poemas, Fabrício Carpinejar


Como uma surdez súbita,
o silêncio barulhava.
Quando ficamos surdos,
escutamos tudo, menos o silêncio. (p 16).

Uma doente que sai do coma
deseja perguntar o que aconteceu
e desiste pela fraqueza.
Olhou e não se reconheceu
nos farelos de sua face. Os nervos saltaram:
– Seja impura, a pureza é violenta.
Os homens nunca vão entender. (p. 17).

O cansaço agravou sua indigência (p. 18).

As respostas desobedecem às perguntas.
Como cortar os pulsos de uma guitarra
e esperar que a madeira sangre.
As mãos nas cordas são roldanas
puxando vento. Um vento líquido.
Uma guitarra não pode sangrar de outro jeito. (p. 22).

Ela conspirava contra sua beleza.
Usava roupas gastas,
Os vestidos antigos.
Culpada pela sensualidade
que acentuava as curvas.
Adiou conjuntos novos
com a desculpa de que lhe fariam mal.
Transferiu sua vaidade às filhas.
Substituiu o orgulho pelas novenas.
Não resistiu à velhice,
facilitando-lhe o ingresso.
Ajeitava as mechas por descuido.
As parreiras cicatrizavam,
seus cabelos. (p. 25).

Não entendo o silêncio
e o subestimo como trégua da fala.
Ele não começa ao cessar as palavras,
não termina ao pronunciá-las. (p. 32).


Há homens que comem e limpam
o suor ao mesmo tempo.
Há homens que têm paz ao mastigar.
Há homens que transam, tombam no canto
e resmungam sonhando.
Há homens inflamáveis,
movidos a querosene e ódio.
Há pensamentos que a gente não esquece
e não recorda.
A fidelidade pode ser cansaço. (p. 41).

As confidências ofendem.
O casal esgota cedo a estranheza.
Busca se destruir perfeitamente.
A traição é uma intimidade
mais estável que o casamento. (p. 47).


Capaz de adulterar os fatos.
para me poupar da crueldade.
sua proteção me deixou vulnerável. (p. 56).


Deus não tem fim.
o homem deseja seu fim.
buscando o começo de Deus. (p. 68).

Experimento tantas roupas
antes de sair porque
meu corpo não me serve. (p. 98).

Fazer as coisas pela metade
é minha maneira de terminá-las. (p. 109).

Eu fui o que não sou
depois que inventaram o inconsciente,
a verdade fica sempre para depois. (p. 115).

Educado, o sangue
apaga a luz ao sair. (p. 117).

Não superamos os limites,
mudamos as fronteiras de lugar. (p. 64).

Trechos do livro: Fabrício Carpinejar. Cinco Marias: poemas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

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